Deixe ir
1 O gelo retorna
Notas iniciais
Existem momentos na vida em que tudo é uma questão de disciplina e força de vontade. Depois de meses como rainha, uma coisa fundamental que aprendi foi respeitar esses dois conceitos constantes para quem governa um reino. Um fardo um pouco rígido demais, mas que tento seguir à risca. Afinal, é o meu dever, minha sina. Mas confesso que, às vezes, em alguma parte da minha mente que recuso a obedecer, meu desejo é sair do palácio e saborear a magia que está dentro de mim. Quero ver a neve cair dos céus a minha vontade e o gelo se formando a partir de minhas mãos. Pensei que, como agora todos já conheciam meu dom, eu pudesse deixá-lo ir… Como eu estava enganada. Meus deveres reais tomam quase todo o meu tempo e no que resta ainda insisto em pensar no reino. Minha irmã sempre diz que sou responsável demais, mas ela não entende. Talvez eu seja um pouco severa comigo mesma, mas tenho a impressão de que, se e eu deixar de ser, vou sucumbir aos meus novos medos e voltar aquele quarto.
“Vou ficar calma. É apenas um sonho ruim."
Acordo. O céu ainda recebe os primeiros raios da manhã quando saio da cama, inquieta. Virou um hábito comum desde as últimas semanas. Em meus sonhos, vejo Anna em algum lugar escuro e fechado. Ela está mais magra que o normal e seu vestido, em farrapos. Ela soluça, seus olhos estão cheios de lágrimas e vagam ao redor até que se deparam comigo. Ela grita por minha ajuda, mas não posso fazer nada. Não consigo me mover e meu desespero apenas cresce enquanto continuo a ouvindo gritar por mim até que seu corpo começa a se despedaçar como porcelana. Tento lhe dizer que tudo vai ficar bem, que vamos para casa, mas minha boca não emite som algum. Seus olhos estão focados em mim quando ela se estilhaça em pedacinhos. Meu corpo cede e caio de joelhos. Lágrimas escorrem por meu rosto e são tão geladas que o queimam. Mas não me importo porque continuo chorando por minha irmã morta até que começo a repetir para mim mesma que tudo não passou de um sonho, preciso me acalmar. Repito e repito até que volto a realidade e acordo.
Suspiro, aliviada. É uma sensação tão boa quando você percebe que tudo era apenas um pesadelo… Sei que devo voltar a dormir. Daqui a algumas horas, meu dia se tornará tão agitado que não terei nenhum descanso. Decido voltar para cama até que escuto passos no corredor. Passos rápidos. Apuro minha audição e vou até a porta. Olho para os dois lados mas não há ninguém. Estranho. Essa parte do castelo é privada. Nem guardas costumam circular por aqui. Não estou com muita vontade de bancar a detetive então me convenço de que algum soldado deve ter dado uma inspeção. Sim, deve ser isso. Volto para a cama. O sono vem quase que instantaneamente. Dessa vez, não tenho sonhos.
–Majestade. Majestade.
Abro os olhos lentamente. Uma garota asiática aparece em meu campo de visão. Me sento na cama, passo as mãos no rosto para passar o sono.
–Perdi a hora? Você devia ter me acordado, Sarah. -digo. Sarah é minha assistente pessoal.Uma das poucas pessoas em que confio.
Sarah morde o lábio inferior. Parece preocupada.
–Ainda é cedo, majestade. Eu… -ela para, incerta- Achei que deveria saber. -diz, por fim.
–Saber o quê? O que está havendo? -suspiro, lembrando do sonho- É algo com minha irmã?
Ela balança a cabeça em negação.
–Ela está bem, penso eu, alteza. Não soube de notícias dizendo o contrário. O que acontece é que… -ela para novamente.
–Fale logo, Sarah.
E ela fala rapidamente as próximas palavras.
–Estão se reunindo no conselho sem a senhora nesse exato momento!
–O quê?! -digo, já saindo da cama e trocando de roupa.
–É verdade, eu juro. -ela correu para me ajudar- Estava passando por ali e ouvi vozes. Achei muito estranho. Principalmente porque reconheci a de Lorde Tenardy. A senhora não gosta muito dele, não é? -ela começa a enlaçar meu espartilho. — Falavam algo sobre montanhas e gelo. Não prestei muita atenção porque queria vim logo alertá-la, majestade.
Um vestido verde escuro entra por minha cabeça. Lavo meu rosto e Sarah dá um jeito em meu cabelo. Calço meus sapatos.
–Você fez bem, obrigada. -me viro para ela, que faz uma pequena reverência.
–Ao seu dispor, majestade.
Sorrio, e saio do quarto a passos rápidos.
Lorde Tenardy… Ele foi o regente antes da minha maioridade, mas ainda age como se estivesse no cargo. Não era a primeira vez que convoca o conselho sem minha autorização, mas pretendo que seja a última. Tudo o que preciso é de uma forma de me livrar dele. Veja, ele é um homem influente no conselho e em todo círculo da nobreza. Não posso simplesmente demiti-lo sem uma causa. Ele tem a honra por seus “serviços prestados à coroa” através da regência. É bem complicado. Se engana quem pensa que rainha faz só o que quer.
Estou parada em frente a porta dupla da sala do Alto Conselho. Puxo as maçanetas, mas está trancada.
“E ainda por cima trancam?”
Meus nervos começam a aflorar. Quanta ousadia por parte deles. Gelo se forma a partir de minha mão direita e vai até a tranca. Meu punho se fecha e o gelo se quebra, levando a tranca com ele. Seguro as maçanetas e empurro-as para trás.
–Majestade! -disse um assustado homem loiro. Lorde Mason, da segunda cadeira à direita. Ele não é o único. Todos os integrantes do conselho se levantam da grande mesa retangular e me fazem reverências constrangidas, que eu dispenso com um gesto. Todos, menos um.
O homem está sentado à esquerda da cabeceira. Tem cabelos e barba rala negros e um semblante assustador mesmo com sua baixa estatura. Seus olhos eram castanhos amarelados, intimidadores para muitos, mas não mais para mim. Estou começando a jogar o jogo dele. Quando ele me olha com aquela arrogância, retribuo a altura. Exatamente como faço agora.
–Fui informada dessa reunião tão cedo...-comecei, desviando o olhar e indo até meu lugar a cabeceira da mesa- ...e realmente não me lembro de terem me comunicado antes. -sento, olhando cada um dos seis conselheiros atentamente. O silêncio era total -Devo presumir então que não fui comunicada. -Paro, para que absorvam o peso de minhas palavras e já comecem a inventar desculpas. Coloco as mãos na mesa. -E então? O que significa isso?
Silêncio.
–Ninguém vai falar nada? -Eles evitam meu olhar. Olham para baixo, para os lados, até para a porta, como se esperasse que alguém fosse interromper. Viro a cabeça para a esquerda- Nem você, Tenardy? Sempre tem algo a falar, não é? Tenho a impressão de que foi o idealizador disso.
Joel Tenardy sorri daquele jeito arrogante. Parece estar se divertindo.
–Vossa majestade está certa. Convoquei essa reunião com os integrantes do conselho. -diz com a maior naturalidade do mundo. Como se nada estivesse errado.
Olho para ele, esperando.
–Não a chamei, pois não queria assustá-la. Tenho um assunto sério para tratar e queria discuti-lo logo com meus amigos aqui… -ele levantou a mão ao redor da mesa- ...antes de comunicá-lo com a senhora. Queria ter certeza de que a situação é grave, do contrário não precisaríamos levá-lo adiante.
Levantei as sobrancelhas, desconfiada e olho em volta para os conselheiros. Eles estão claramente desconfortáveis. Tenho vontade de rir. É claro que não é isso. Penso se não estão tramando algo contra mim.
–Que assunto é esse? -pergunto, me voltando para Tenardy.
Ele volta a sorrir, visivelmente entretido.
–Como todos devem se lembrar, dois meses atrás Arendelle presenciou o mais rigoroso inverno da história do reino. Obra da nossa querida rainha, é claro.
Reviro os olhos. É claro que ele tinha que lembrar.
–Mas, felizmente, ela conseguiu diminuir grande parte dos estragos feitos.
–O que você quer dizer com “grande parte”? -pergunto, desconfiada.
–Exatamente o que parece. Há coisas que nunca vão voltar a ser o que eram antes. Como as pessoas que morreram congeladas no seu surto psicótico.
Meu sangue congela. Ele tinha que lembrar. Sempre tem que lembrar. Como se não bastasse o esforço que venho fazendo nos últimos meses para conter as revoltas que surgiram com as mortes, me manter sã e tentar governar sem que a culpa me consumisse. O peso na consciência que guardo desde que soube dos mortos volta a assombrar minha mente. O dia não vai ser fácil.
–Estou achando que você quer me fazer perder tempo, Tenardy. — digo, tentando ignorar suas palavras- Aonde você quer chegar?
Ele inclina a cabeça em minha direção.
–Todos achamos que sua “magia do amor” conseguiu descongelar o reino, o que não é verdade... Há gelo, Elsa. Muito gelo nas partes mais remotas de Arendelle e está vindo para cá.
“Isso só pode ser uma piada”.
É esse o assunto tão importante? Ou estaria fingindo? Porque se ele quer me desestabilizar ou omitir sobre o que discutia no conselho, deveria encontrar mentiras melhores.
–É mesmo? -ironizo- Não acredito que convocou uma reunião para isso. Você não me amedronta, Joel Tenardy.
O ex-regente levanta as sobrancelhas, desconfiado. Se foi por eu ter dito seu primeiro nome ou pela minha reação ao “problema”, não faço a menor ideia.
–Não acredita em mim? -pergunta ele.
–Não parece óbvio?
–Tenho provas. Surgiram boatos de neve nos campos de Gharnes e resolvi investigar. Dito e feito. Meus informantes me confirmaram os boatos e ainda disseram….
"Não é verdade, não pode ser verdade”.
–Se não quer me dizer o que falava com meus conselheiros, -interrompo- fique certo de que vou descobrir uma hora ou outra. E essa sua história não faz o menor sentido.
–É verdade. -uma voz feminina veio da primeira cadeira a minha direita. Lady Cecily Crawford. Uma mulher negra, de longos cabelos da mesma cor e incríveis olhos violetas. Todos os olhares se voltaram para ela.
–Continue. -falo, receosa do que viria a seguir.
–Perdoe-me pela intromissão, Vossa alteza, mas tudo o que discutíamos era sobre isso. Também ouvi os informantes de Tenardy e enviei meus próprios. Esses são os fatos: Nos campos de Gharnes e nas montanhas remotas de Ronuas, há neve e gelo. Os habitantes próximos a esses lugares disseram que tudo aconteceu de uma hora para outra. Pelo que apontam os indícios, está aumentando, se movendo para o centro.
–Agora, você acredita? -diz Joel, com um sorriso vitorioso no rosto.
Cecily é uma das que mais confio em meu conselho privado e seu depoimento só me deixa mais preocupada. Se é verdade tudo isso, qual a explicação? Por que em um lugar tão distante? Não vejo lógica aparente.
–Não me parece tão grave, -fala Lorde Spencer, da última cadeira a esquerda. Deve ter uns quarenta e poucos anos, ruivo e seus olhos de um verde intenso- Por que Vossa Majestade simplesmente não vai até lá e descongela novamente?
Tenardy dá um risinho debochado, como se a ideia fosse ridícula. Suspiro, angustiada. Tenho a impressão de que a situação não é tão simples. Por que a neve estaria voltando? Talvez todo o gelo que criei nunca esteve sob meu controle. Talvez tivesse sido apenas uma questão de tempo.
Uma batida na porta. Todos os olhos se viram para ela. Dou ordens para entrar e um garoto de não mais de quinze anos e vestes simples, não o reconheço, dá as costumeiras reverências, vai até o antigo regente, lhe entregando um pequeno envelope e se retira.
Joel abre a carta e lê rapidamente. Sua expressão é indecifrável.
–Bom, parece que nossa rainha não precisa chegar a tanto, Lorde Spencer. Acabei de ser informado que um galpão em Dhever, próximo aqui do centro, amanheceu coberto de gelo por dentro. O dono não sabe como isso aconteceu e insiste em dizer que até bem tarde da noite de ontem ele estava em perfeitas condições.
Há murmúrios por toda sala. Baixo a cabeça, querendo pensar. O desespero começa a tomar conta de mim. Minhas mãos tremem. Lembro do desgosto de meus pais, das longas horas presas no quarto, da tristeza de minha irmã por não poder participar da minha vida, do inverno, das mortes, das revoltas...mas aí me recordo de outra coisa: Eu consegui superar tudo pelo que passei. Por que não conseguiria agora, se nem tentar resolver o problema eu tentei? Me apego a esse fiozinho de esperança e levanto a cabeça. Ouço os Lordes Spencer e James, um de frente ao outro, falando algo sobre “Tempo louco”, enquanto Alissa Farley, Tenardy e Cecily discutem sobre a gravidade do problema. Lorde Mason é o único que permanece alheio a tudo, com o cotovelo sobre a mesa, a mão apoia a cabeça enquanto seus olhos vão de um lado a outro, com se achasse tudo desinteressante.
Peço silêncio. A conversa cessa e todos começam a prestar atenção em mim.
–Diante desses acontecimentos, não consigo pensar em outra alternativa a não ser verificar esse galpão e investigar a razão de tudo isso. Alguém tem alguma objeção? –pergunto, descrente que alguém tivesse.
–Pelo contrário, Majestade. Como Spencer disse, a senhora, com seus poderes, não pode encontrar dificuldade em resolver a questão, que ao meu ver, me parece simples. –argumenta, Theo James. Ele é o que podemos chamar de cavaleiro dos sonhos. As damas de minha corte são loucas por ele: moreno, alto, cabelos negros e um de meus melhores guerreiros. Não me encanto como elas, mas devo admitir que ele tem seu charme.
–Parece James. Mas temos que levar em conta as razões disso. Esse gelo não pode ter vindo do nada. –diz Cecily.
–Falha no sistema? –pergunta James, entretido.
–Não deboche disso.
–Cecily tem razão. Temos que ver a situação de todos os ângulos. Se não foi a rainha Elsa, o que provocou isso? – diz Lady Alissa Farley. É uns três anos mais velha que eu, mas seu cabelo escuro a faz parecer mais jovem. Tem lindos olhos castanhos e uma determinação incrível.
–O tempo pode ter se desregulado.
–Dentro de um galpão? – perguntou Alissa, incrédula.
Lorde James levanta os braços, num gesto de desistência.
–Só acho que vocês podem estar exagerando na gravidade do problema. Mas não vamos tirar conclusões precipitadas. –encerra ele.
–Você nunca esteve tão certo. –disse Alissa, irônica.
James revira os olhos.
–Como Spencer e James falaram, acredito que posso resolver isso. Mas não acho que vocês estejam erradas – digo, olhando para as duas -Vou investigar. Não acredito em acaso. Prometo resolver isso da maneira mais rápida possível. Até lá, peço que não comentem nada disso com ninguém. Sei que muita gente deve saber dos campos e do galpão, mas... Bem, se perguntarem, digam que estou no controle e vou consertar. Não quero saber de alardes, certo?
Todos concordam com a cabeça.
–Até quando?
Meu olhar vai até a esquerda. Tenardy parece irritado e impaciente.
–Até quando o quê? –pergunto, calmamente.
–Até quando acha que isso vai durar? As pessoas percebem, Majestade. –o tom sarcástico da última palavra é indiscutível, mas prefiro ignorar – Levou anos para que aprendesse a controlar seus poderes. E aí veio aquele inverno...
–Eu consertei aquilo! –digo. Uma insegurança começando a aflorar dentro de mim.
–E olha onde estamos agora! –suas sobrancelhas estão levantadas, num gesto de desafio. Ele quer mesmo me convencer de que tudo aquilo era minha culpa, mas eu não vou deixar ele fazer isso, não vou mesmo.
–Já fiz isso uma vez, posso fazer de novo. Você é que aposto que deseja que eu não consiga, sendo assim teria desculpa para me rotular como uma rainha despreparada.
–Só quero que vejam a verdade. O que eu sempre quis. Você é nova demais, Elsa. Já causou um desastre no dia de sua coroação.... Não consegue controlar suas emoções, algo terrível para um governante.
De repente, começo a entender.
–Foi para isso que chamou o Alto conselho, não foi? Você estava me criticando para eles. Se os meus mais próximos me acharem uma péssima rainha, o que os outros dirão? Você é horrível, Joel Tenardy. Nunca se conformou que tirassem o trono de você.
–E estava melhor comigo. –diz ele, sem se abalar ou discordar da minha dedução -A situação financeira de Arendelle nunca esteve tão boa em meu governo. Agora... só temos gastado para cobrir os prejuízos feitos por você.
–Eu tenho feito tudo ao meu alcance para restabelecer Arendelle. Pare de me criticar, você não tem o direito! –falo, exasperada. A raiva começa a subir minha cabeça.
–Eu dediquei trinta anos à Arendelle, era a mão direita de seu pai. Tenho todo o direito.
–Eu sou sua rainha, não meu pai. Querendo ou não, Tenardy, estamos em um novo reinado, e espero que você não participe dele por muito tempo.
–Um grande reinado. –diz ele, irônico. –Mal posso esperar o seu próximo passo para arruinar esse reino.
–Você fala como se soubesse tudo o que um rei precisa sabe. Nunca teve dúvidas na vida? Nunca sentiu medo? O gelo está voltando e sei que a culpa é minha, mas tenho mais chance de consertar isso do que você.
–É verdade. Não tenho poderes. Mas isso nunca teria acontecido se Vossa Majestade não estivesse no trono.
–Já basta! –Me levanto, meus nervos à flor da pele. Minhas mãos sobre a mesa congelam-na tamanha é minha raiva. Os conselheiros afastam os braços da mesa, assustados. –Saia Tenardy!
Calmamente, Tenardy levanta da cadeira e passa a mão sobre o móvel congelado.
–Se controle, Majestade. Pode acabar congelando alguém.
–Já sei até quem seria o primeiro. –falo. Ele não gosta de desafios?
Ele dá um sorriso torto e vai até a porta. Já tinha puxado a maçaneta, quando se vira e fala as três palavras das quais nunca vou esquecer:
–Você amaldiçoou Arendelle. – diz, indo embora logo em seguida.
Sento novamente. Meus conselheiros suspiram, aliviados. Não tinha percebido o quanto fora tensa minha “conversa” com Lorde Tenardy, mas não me importo no momento. Passo minha mão sobre a mesa e o gelo desaparece. Só consigo pensar naquelas palavras: Você amaldiçoou Arendelle.Quando descongelei o reino, achava que era a pessoa mais feliz do mundo. Estava enfim... livre. Mas não percebi o que vejo agora, eu selei o destino de Arendelle. Ela nunca poderá ser uma terra normal com alguém como eu no comando. Mas não posso desistir agora, perder a esperança. Ainda que esteja abalada, é a única coisa que me resta agora. Disciplina e força de vontade.
–Majestade?
Saio de meus pensamentos e meu olhar vai até Lady Cecily.
–Sim? –pergunto, voltando ao meu tom normal.
–Está certa no que falou. Lorde Tenardy nos reuniu para falar dos problemas de seu reino. Quer nos convencer a qualquer custo de que não está pronta. Mas pode estar certa de que íamos comunica-la da reunião. Ao meu ver, ninguém aqui deseja traí-la, Alteza.
Todos concordam.
–Absolutamente. –fala Lorde Spencer.
–Sem sombra de dúvida. –completa Lorde James.
–Sim, sim, é claro. –diz um nervoso Lorde Mason.
Há algo errado com ele. Lembro que permaneceu calado durante toda a reunião. Mas deixo para depois.
–E se me permite dizer, Majestade, Joel nunca esteve tão errado. É uma ótima rainha. –diz Alissa.
Dou um sorriso sincero.
–A senhora precisava ter visto Farley a defendendo antes. Foi incrível. –Diz Spencer.
–Ele mereceu, Ethan. Nunca vi homem tão repugnante. –lembra Alissa. Ela suspira. –Devíamos ter interferido.
–Não, está tudo bem. Obrigada a todos. Acho que são os mais leais conselheiros que alguém poderia ter. E fiquem certos, os dias dele no conselho estão contados... –suspiro- Mas isso não importa agora. Spencer.
–Majestade.
–Monte uma equipe de investigação. Quero saber se há mais gelo pela cidade. Desejo ser informada assim que descobrir algo.
–Como quiser, Alteza.
–Obrigada. James?
–Sim, alteza?
–Mande prepararem minha carruagem e minha guarda. Vou olhar esse galpão. Quero sair em meia hora, é o tempo em que me organizo.
–Claro, Majestade.
Sorrio.
–Alissa, quero que cheque o correio para mim, por favor. Não recebo cartas da Anna há dias.
–Sim, senhora.
–Cecily... tome conta de tudo até minha volta, certo? Dhever não é tão perto assim. Provavelmente ficarei fora a manhã toda.
–É claro, minha rainha.
Dou outro sorriso.
–O resto...– digo e percebo que só tinha sobrado Mason- Certo, Mason. Espere novas ordens.
–Com certeza, Majestade. –diz ele, sonolento.
–Bem, aho que posso encerrar por aqui. –digo, me levantando. Os outros fazem o mesmo e começam a se retirar com reverências. Lady Cecily é a única que permanece. Em pé, ao meu lado, ela segura em minha mão.
–Vai dar tudo certo, meu anjo. –consola ela. Cecily... Uma grande amiga de minha família. Ela e meu pai cresceram juntos. Sempre foi boa para mim na infância, e praticamente me criou. Devia tê-la ouvido e saído daquele quarto. Todo esse tempo...Mas eu não ouvia ninguém. Não naquela época.
–Tenho esperanças. Afinal, não pode ser tão grave assim, não é? Além do Tenardy, quero provar para todos que posso ser uma boa rainha.
–Mas você já é, Elsa.
–Talvez, mas... ainda sou muito insegura.
–E quem não seria? Com vinte e um anos e o peso de um reino nas costas. É normal.
–Não na minha profissão, Cecily. Preciso parar de me abater com tudo.
–Você é mais corajosa do que pensa, querida, Seu reinado está apenas começando... Ainda fará coisas incríveis para Arendelle. Eu vejo isso.
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