Notas iniciais
Oi.

Hoje eu vou falar de nostalgia, amor, amizade, compaixão.

Mas não só disso.

Também vou falar de narcisismo, desespero, despedidas...

E tudo isso porque quero falar de memórias.

Começa como uma faísca, sempre uma faísca. Pode acabar em incêndio, pode acabar em fumaça. Mas estou aqui para falar de uma fogueira. Fogueira aliás que pode nos aquecer, que pode nos confortar. Mas também nos queimar.

Se lhe contasse tanto de seu futuro há dois anos atrás, o que faria? Abraçaria o destino? Correria? Buscaria fazer algum diferente? Mudaria de ideais e decisões?

Só posso responder por mim. E tenho certeza absoluta de que não saberia o que fazer.

Onde você estava, a dois anos atrás? Aliás, onde eu estava?

Nem sei mais. Não me acho capaz de me reconhecer. Será que o tempo que se passa da vida nos trás maturidade, ou a maturidade que nos trás a vida?

Hoje me veio uma notificação. Nada além do próprio celular, perguntando se gostaria de checar as fotos tiradas no aparelho nesse mesmo dia, um ano atrás. Gostaria de ter clicado em “não”, pois foi naquele sim que a minha fogueira finalmente se instaurou.

As imagens eternamente congeladas de sorrisos, olhares e pessoas com mentes, problemas e ideais muito diferentes do que se formaria três centenas de dias após. Um mundo mais tranquilo, mais certo, mais previsível. A certeza de que no próximo ano nos encontraríamos novamente. De que teríamos muitos outros longos períodos de risadas, histórias, momentos. A segurança do fato de que ainda tínhamos tempo.

Agora, esse tempo acabou.

Nada mais será como um dia foi. Toda aquela tensão, toda aquela sensação, só esperava uma faísca. E eu finalmente a permiti. O que me aguarda? Ah, eu não sei. E ainda bem que não posso escolher ver o futuro. Quero aventura, e talvez a tenha. Quero envolvimento, e talvez o tenha. Mas a certeza só nos permite nos acomodarmos. E comodismo, definitivamente não quero.

Me preparo para o meu ultimo adeus. Adeus esse que provavelmente não vai se transformar em um até logo.

Não posso negar as felicidades que tive, os momentos bons que vivi. A abertura que me permiti, as aberturas que vi. As pessoas que conheci, e também as desilusões que sofri.

Mas essa nostalgia se transforma cada vez mais em um aperto impossível de inibir.

Será que sempre somos aqueles amigos que aparentamos e pensamos ser, ou será que alguns indivíduos não são parte de nossas vidas como objetos, mobílias de decoração? Eu penso em móveis sob medida. Únicos em suas formas, mas substituíveis.

Talvez pra todos, talvez pra alguns, nem todo mundo é insubstituível. Isso envolve amor, amizade, cumplicidade. Para alguns, só nos resta compaixão e respeito, educação. No fim do dia, ou talvez no fim do ano, não é mais o suficiente.

Aqueles poucos que sobram, aquelas migalhas que ficam na nossa memória pelo resto de nossas vidas, é o que vale e valeu a pena.

Não é um momento qualquer pra mim. É o momento de um mundo novo, de uma vida nova. É o primeiro dia do resto da minha vida. Mas quando não é? A cada momento, não é o novo começo da nossa história? Não é a virada de página, a virada de capítulo? A vida nos mostra que mesmo aqueles momentos de impaciência que parecem intermináveis, terminam. Que o tempo não para nunca. E o futuro nos chega como um tapa na cara a cada momento que tentamos dele nos esconder.

Talvez á exato um ano atrás, eu soubesse onde estaria hoje. E de fato, não errei nas provisões. Mas agora, que nem mesmo tenho provisões?

Onde estarei? O que terei feito? Do que terei me arrependido?

Ainda nem me despedi daqui, e esse aperto no peito me parece esmagar. Sei que é a hora de que crescer, de me afirmar. Sei que esse é o momento que ainda me lembrarei mesmo daqui a 10, 20 anos.

Mas será com tristeza, ou alegria? Nunca tive tanto medo de descobrir.

O que agora deixo para trás, é parte de mim. O que agora me permitir encontrar á frente, também será. Só espero que a minha auto engenharia não despenque, pois a nossa vida tem pressa e as nossas expectativas também. Juro dar o melhor de mim, e nunca esquecer da compaixão para com os outros. Mas será que encontrarei o que me falta? Isso sequer cabe a mim encontrar?

Jamais me esquecerei dos momentos de agora, nem dos momentos de atrás. Mas que isso está se indo, não dá para acreditar. Prometo tentar ser forte, prometo tentar não me quebrar. Deve ser o suficiente, não é mesmo?

Ah, mas ficar ouvindo música nostálgica o dia inteirou não vai me curar. Nem sei o que vai, mas sei que posso encontrar. Confio no que o destino tem para me dar.

Só peço por favor, que eu seja capaz de aguentar.

Quem sabe até mesmo desfrutar?

Notas finais
Tchau.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!