Deixe-a voar

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Minha primeira One-shot. Espero que gostem!
p.s.: inspiração aleatória.

“E então o coelhinho atravessa o rio, pula a pedra e entra em sua toca”.

Rira às sacudidelas quando a garotinha a perguntara porque a mãe tinha com o nó um apreço tão complicado. Algo tão simples, e um adulto —fonte inesgotável de fórmulas sem eira nem beira para um mais dois— tinha de entrelaçar um nó complicado e inútil.

Mary Anne não era mais uma garota especial. Agora, tingida de vermelho escarlate, em uma mera linha de página policial, era tratada como um simples corpo a menina mais especial que já pisara nesta terra de perdidos. Mary Anne a tomaria pela mão e, complacente e sábia, a conduziria para ver o descomplicado além de todas aquelas sirenes, luzes ofuscantes e sangue. Além das ferragens grossas.

Avançou mais um passo, e a multidão muito abaixo vibrou, tremula e ansiosa. O vento sussurrava ao ouvido de Cloe, embriagando como a cerveja que só agora a mulher lembrava de tomar. Um confidente mau, agora gritando de raiva, jogando seu corpo. Não fizera nada por sua ira, não fizera nada para ninguém.

Seu corpo gingou para frente, mas agarrou-se às barras de ferro atrás de si, rindo a plenos pulmões. Agora que estava sã, Cloe podia ver além. Por que a sabedoria esperara tanto para vê-la, agora que já não lhe servia? A mastigava, escarrava e cuspia de sua boca podre a nicotina, aos pés da plateia não convidada lá embaixo.

Aquelas pessoas nojentas... homens bêbados, levianos, assassinos.

—Assassinos! — gritou, e o grito se dissolveu antes de chegar ao seu destino.

Sua mente estava clara, seu peito aberto de seu coração estava frio. Mais um nome na página policial, mais um corpo, e isto não fazia diferença em nenhum dos mundinhos que agora a olhavam, ansiosos por satisfazer o desejo ancestral, primitivo e incansável. Cloe não recuaria, não por falta de opção, mas por convicção. Seu dom cruel de não turvar nos pensamentos a perseguia. E agora, no topo, açoitada pelo vento, estava completamente sã.

Nada mata mais rápido do que a sanidade.

“Meu passarinho, não tenha medo

A noite bela, não vai machucar

Deite a cabeça, feche os olhinhos,

Deixe que os anjos, te abracem também...”

Agora chorava, e seu sofrimento se multiplicava, e a clareza de seus pensamentos não a perturbava mais. Um passo e tudo estaria em paz, um passo e Mary estaria de pé ao seu lado, como outrora. Derramou o último choro, inconsciente de sua plateia, de pé, em cruéis acenos de paz. Sufocou gritos. Soltou as grades.

—Meu passarinho, sonhe baixinho... — murmurou, com o choro amargando-lhe a boca — Entre as estrelas... Pode...

Cloe sufocou um grito. Não, não havia tristeza em tê-la de volta. Não havia um anjo negro para lhe puxar para o outro lado. Somente o seu anjinho, belo e sábio.

—Voar — sussurrou, pisando para o vazio de onde, de algum jeito, sabia que Mary Anne a sorria.

Notas finais
Amor ou ódio? Bom ou ruim? A palavra é toda sua!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!