Deixe a Neve Cair

9 Gabriela Sampaio apresenta - Contra Todas As Expectativas


Notas iniciais
Notas iniciais: Olá, leitores lindos! Preparados para outra? Bem, vamos lá! Gabi postando por aqui hoje, minha única one por aqui e acho que vão ficar gratos por isso, porque exagerei no tamanho. Sorry. Resumo rápido: história é narrada pela Beth, filha do nossos queridos Puck e Quinn, a ideia surgiu do nada e gostei por ser diferente do que costumo escrever, espero que gostem e amem o Warner tanto quanto eu! Bom, por aqui a Beth nasceu depois deles se formarem no colégio, só isso então. Até lá embaixo!

“Beth, I hear you callin', but I can't come home right now, just a few more hours and I'll be right home to you.

"Beth."

Dou um sorriso mínimo, parando de fitar meus sapatos (o que estive fazendo pela última hora) quando reconheço a voz dele. Warner, meu melhor amigo desde que consigo me lembrar, sentou ao meu lado nos degraus que levavam para a entrada da minha casa.

"Minha mãe me contou o que houve, sinto muito." Evito olhar para o seu rosto, porque sei que vou começar a chorar.

"Mamãe disse que precisava descansar depois que papai avisou que não chegaria a tempo para o Natal, sei que ela só não quer que a veja triste." Comento, fixando o olhar em qualquer lugar que não seja ele.

"Ela é humana também, sente falta do tio Puck tanto quanto você."

"Não gosto de vê-la assim."

Warner está fazendo aquela cara de quando não sabe como resolver um problema e isso o deixa frustrado, então dou um sorriso falso porque não quero deixa-lo triste. Ele sorri de volta e uma lembrança indesejada me deixa envergonhada, fico subitamente séria.

"Ei, não fique triste." Mantenho meu rosto impassível. "Tenho certeza que se estivesse ao alcance dele, seu pai estaria aqui sem nem pensar duas vezes." Assinto e Warner tira um pequeno embrulho do bolso e me entrega. "Era o seu presente de Natal, mas decidi que poderia dá-lo mais cedo."

Pego a caixinha que está muito bem embrulhada em papel azul marinho cheio de estrelas douradas, minha estampa preferida e assim que vejo o que tem dentro, um sorriso verdadeiro estica os cantos da minha boca até o máximo possível:

"Aí está, um sorriso verdadeiro de Beth Puckerman." Era difícil engana-lo, principalmente quando o assunto era eu, só havia uma exceção.

"Eu adorei, com certeza, é o mais lindo de todos que já ganhei." Sacudo o globo.

Todos os pequenos pedaços de plástico que estão dentro dele, simulando neve, vão para um lado e para o outro, cercando o lobo de pelagem marrom, ele está com o focinho apontado para cima como se uivasse para a Lua, apoiado nas patas dianteiras. No suporte que tampa o globo, está escrito “Para Beth, eu amo você, lobinha”, deslizo a ponta dos dedos pelas letras cursivas das palavras e meus olhos ficam cheios de água.

"Obrigada, sabia que era o único que podia me fazer sorrir hoje." Abraço e ficamos assim por um tempo, seco as lágrimas antes de me afastar.

"Vamos entrar e ver uma maratona de X-Factor, eu não suporto o programa, mas assisto por você. " Rio, revirando os olhos.

"Sei que secretamente torce que Andrea ganhe da minha Fleur." O acuso e só consigo rir, quando Warner fica envergonhado. "Daqui a pouco, nós entramos, quero ficar aqui fora só mais um pouquinho."

"Sei o quanto ama o frio, por mim, tudo bem." Diz.

Encosto minha cabeça no seu ombro e chocalho o globo novamente, enquanto estou hipnotizada pela beleza do meu presente, Warner coloca o braço por cima dos meus ombros, me aproximo para deixa-lo mais confortável.

Fico observando os detalhes do lobo e me recordo da primeira vez que fui chamada assim, eu tinha acabado de cair da bicicleta com seis anos de idade e chorava pelos braços e pernas ralados, ele se aproximou e foi muito doce comigo, tentando me acalmar até que meus pais chegassem. Como em meio ao choro e soluços, não disse meu nome, Warner me chamou de lobinha e anos depois, fui descobrir que os lobos eram seus animais preferidos, nunca entendi o real significado disso.

O silêncio entre nós é agradável, não tenho mais medo de chorar, me sinto estranhamente tranquila agora, estamos próximos o suficiente para nos aquecer e ficamos assim por tanto tempo que fecho os olhos, sonolenta. Estou quase dormindo quando dois sons no meio da quietude me despertam, assustada:

"Beth." A porta se abre no mesmo instante que Warner me chama.

"Estão com fome, queridos? Fiz um lanche." Olhamos para a minha mãe, ela força um sorriso.

"Confesso que estou um pouco." Resolvo ficar calada.

"Então, entrem logo." Nos levantamos e mamãe entra, paro Warner antes de entramos.

"O que você queria me dizer?" Ele se faz de desentendido. "Quando me chamou."

"Nada importante." Não me sinto satisfeita com essa resposta, mas decido deixar para lá. "Vamos?" Sorrio e entro em casa, sendo seguida por ele.

[...]

Horas depois, estou sentada no recanto que havia na minha janela, o meu globo de neve apoiado no colo e me peguei observando Warner correr pela rua até a sua casa no final da rua. Éramos amigos há tanto tempo e não podia negar que nos últimos tempos, era difícil ficar perto dele e não me sentir estranha.

O garoto conseguia deixar qualquer pessoa encantada com seu sorriso de malvado cheio de boas intenções, cabelo castanho escuro que caía na testa e o belo par de olhos chocolate que fazia um belo contraste com sua pele branca herdada da mãe com descendentes europeus. Bom, todas minhas amigas tinham uma queda por ele e viviam dizendo gracinhas e fazendo suposições sobre nossos sentimentos um pelo outro.

Os rumores só pioraram depois daquele episódio na festa de aniversário do Noel, nós entramos numa brincadeira de verdade ou consequência e Warner foi desafiado a me beijar pela Nancy-Cabelo-De-Miojo-Podre. Entramos no armário onde os pais de Noel guardavam as coisas de limpeza, achei que fossemos apenas fingir que estávamos fazendo algo, até que ele se aproximou, entrelaçou os seus dedos da mão direita nos meus e com a mão livre segurou meu rosto.

Lembro de sussurrar “o que você está fazendo?”, mesmo que mal pudesse vê-lo com a luz apagada, sabia diferenciar as linhas do seu rosto quando se aproximou e sussurrou de volta “eu honro minhas promessas”. Então, meu primeiro beijo foi num armário minúsculo e mal iluminado que cheirava a alvejante enquanto doze colegas do colégio estavam do lado de fora, tentando nos ouvir.

Muito encantador e romântico, eu sei, depois de colocarmos a língua dentro da boca um do outro e tentarmos fazer aquilo parecer tão bom quando o resto do mundo diz ser, saímos do armário e da brincadeira também. Passamos o resto da festa dançando e nunca mais tocamos no assunto, foi como se nunca tivesse ocorrido.

Prefiro pensar que só estou revivendo essas coisas, porque não quero pensar no meu pai em Phoenix nesse momento, o mesmo lugar que estará daqui a uma semana quando será véspera de Natal. Papai se alistou no exército assim que saiu do colégio, porém com suas habilidades únicas migrou para o ramo de espionagem, não como James Bond, é claro, atualmente ele comandava operações que desmontavam esquemas ilegais ligados ao tráfico de drogas.

Entendia a importância do trabalho dele e sabia que amava o que fazia, então nunca poderia ser egoísta e pedi-lo para desistir da sua carreira, apenas para que pudesse ficar perto de mim. Mesmo que tenha acabado de conversar com ele via Skype, pego um envelope, selo e papel de carta que mamãe comprou para um trabalho do colégio e começo a escrever algo para o meu pai, sempre fui melhor escrevendo do que falando.

Papai,

Sei como você ama quando te chamo assim, porque sempre julgou “pai” uma palavra sem graça e também porque “P-A-P-A-I” foi a primeira palavra que balbuciei quando tinha apenas onze meses de idade (para o desgosto de mamãe). Pensei sobre esse fato recentemente e tenho uma teoria, chamei por você quando era pequena, porque por mais que ame mamãe, eu e você temos uma ligação diferente e única.

Não é algo que se pode descrever em palavras, nenhum sentimento intenso pode ser descrito, porém sei que é o suficiente apenas menciona-lo, porque sei que irá me entender. Lembro quando te perguntei sobre como era o seu pai e você apenas disse que tinha medo de falhar comigo, como ele falhou com você.

Noah Puckerman, você nunca poderia falhar comigo, você é o melhor pai, você faz a mamãe feliz como poucos conseguem, palavras dela. Então, não tenha medo, no final das contas, sinto pena do meu avô, se ele tivesse te dado uma chance, tenho certeza que seria um ótimo filho.

Mesmo que há poucas horas tenhamos nos falado, senti que precisava escrever, precisava me certificar que não pensasse que estou chateada. Bom, não posso dizer que estou feliz por passamos o Natal separados, mas como posso reclamar quando você sempre me apoia nas minhas decisões?

Sinto sua falta, sinto muito e saiba que eu te amo. Agora tenho que ir, mamãe está me chamando para ajuda-la com alguma coisa.

Com muito amor,

Beth.

Coloco o endereço que sempre enviávamos alguma coisa que papai tinha esquecido por aqui e lacro o envelope, colo um post-it para me lembrar de enviar pelo correio pela manhã bem cedo e desço as escadas, correndo, antes que mamãe me chame pela quinta vez.

[...]

O resto da semana foi sem muitas surpresas, saí com algumas amigas do colégio para vermos um filme, foi divertido e tudo mais, no entanto senti a falta de Warner, não sei o que aquele garoto fez, mas as coisas não são as mesmas sem ele. Acho que a minha mãe notou algo, porque assim que cheguei em casa, sugeriu que o chamássemos para jantar, ele até trouxe meus doces preferidos, morangos com cobertura de chocolate ao leite.

Como a UPenn, faculdade que a mamãe lecionava História Medieval, estava em recesso para os feriados, ela tinha bastante tempo livre e fui seu objeto de distração. Papai não deu muitas notícias, falamos por Skype algumas vezes e ele não mencionou a carta, então deduzi que não tinha chegado ainda.

A véspera de Natal chegou e dei o meu melhor para trazer o máximo de felicidade para nossa casa, optei pelo vestido que mamãe me deu no meu aniversário e ainda não tinha usado. Ele era regata e tinha um tom lindo de verde-água, a cor era realçada por pedras incrustadas no tecido, a saia rodada começava um pouco antes do umbigo e se estendia até um pouco acima do joelho, não me maquiei e deixei que meu cabelo castanho com tons loiros na ponta ficasse o mais natural possível e fechei a produção com sapatilhas pretas.

Ouvi a campainha tocar e me apressei para descer, sorri ao ver Warner pendurar seu casaco no armário que tinha perto da entrada. Prendi a respiração e minha cara deve ter ficado engraçada, porque ele sorriu, seus olhos cheio da familiar malícia bondosa e percorri o restante do espaço que nos separavam:

“Feliz Natal, lobinha.” Sorri também, o abraçando, ele não tinha cheiro de perfume, apenas o sabonete natural que a mãe dele fazia em casa.

“Feliz Natal, W.” Acho que nunca conseguiria descrever como estava feliz de tê-lo ali.

Nós tínhamos um fraco por abraços, porque ficamos juntos por mais um bom tempo, sozinhos na sala e quando nos separamos, ele me segurou pelos cotovelos, me impedindo de ir muito longe e nossas testas ficaram coladas. Pelo que pareceu um silêncio único na vida, ficamos parados ali com os olhos fechados e desejei tanto que me beijasse, estava prestes a tomar a iniciativa por mim mesma, até que o barulho dos saltos da minha mãe nos trouxe de volta para o mundo real.

“Querida.” Alisei meu vestido, tentando me recompor.

“Sim.”

“Preciso ir ao mercado.” Olhei no relógio da sala, eram oito e meia da noite.

“Por quê?”

“A gemada estragou, preciso fazer outra, sabe que sua vó adora e se faltar, vou ouvir até o Ano Novo.” Concordo, a achando meio histérica.

“Tome conta de tudo que eu já volto.” Assenti e ela me deu um rápido beijo, antes de pegar o casaco e partir.

“Bom, isso foi estranho.” Comentei, olhando para Warner que parecia estar em outro planeta.

“É mesmo.” Ficamos em silêncio e diferente do anterior, foi desconfortável. “Beth.” Ele me chamou e quando me virei na sua direção, a mãe dele apareceu da cozinha com uma câmera na mão.

“Vocês estão tão lindinhos, preciso tirar uma foto.” A cara de sofrimento do meu melhor amigo, me fez rir, mas meu momento de divertimento foi sugado quando seu braço de apossou da minha cintura.

Forcei um sorriso, mas não sei o que estava acontecendo que comecei a tremer um pouco, minhas mãos para ser mais exata, a mãe de Warner pareceu satisfeita com a foto e voltou para a cozinha. Estávamos sozinhos de novo e quando ia perguntar o que ele queria, a campainha tocou:

“Eu atendo.” Ele resmungou, não me dando chance de perguntar nada.

Enquanto W ia atender a porta, comecei a arrumar os presentes embaixo da árvore, o de papai estava ali não tive coragem de mandar pelo correio, queria ver sua expressão quando abrisse e fiquei meio triste por perceber que isso demoraria algum tempo:

“Seu pai fica fora por três meses e você ao menos o abraça quando ele chega!” Levantei o olhar, fitando a parede por alguns segundos, cogitando a ideia de estar ouvindo coisas. “Beth?”

No momento que me virei, já havia lágrimas nos meus olhos e corri para abraça-lo, exatamente como tinha feito com Warner minutos atrás, meus pés foram retirados do chão e o apertei tão forte que parecia que estava tentando fazer uma das manobras de enforcamento que ele me ensinou quando era mais nova.

“Senti tanto a sua falta, anjo.” Não falei nada, até porque não conseguia, estava ocupada demais molhando sua camisa com minhas lágrimas. “Você está tão linda, não acredito que quase perdi isso.” Sorri, sendo colocada no chão.

“Você me enganou esse tempo todo? Queria fazer uma surpresa?” Não sei se o parabenizo por isso ou o repreendo pelo feito, papai sorri.

“Eu não iria vir mesmo para o Natal, mas depois que sua carta foi entregue, sabia que deveria estar aqui com você e com sua mãe, falando nela, onde ela está?” Perguntou, olhando em volta.

Era impossível não sorrir com o desespero dele, mesmo depois de tantos anos, cada reencontro era importante, cada momento que eram obrigados a estarem separados era doloroso. A intensidade que os dois se amavam chegava a ser em alguns momentos difícil de aguentar e olha que eu os amo! Sempre pegava papai observando mamãe enquanto ela andava pela casa, fazendo qualquer coisa e ele a olhava admirado, como se ainda não acreditasse na sorte de ter sido o escolhido dela.

Rio com isso e Warner está no observando, se divertindo conosco, meu melhor amigo não tinha contato com o seu pai e achava minha família digna de um prêmio por ser tão amorosa. Acalmo meu pai dizendo que sua linda esposa apenas foi ao supermercado e dois minutos depois, ouvimos o carro dela estacionando do lado de fora.

Era engraçado ver um homem com mais de trinta anos correndo pela neve e mais engraçado ainda ver a surpresa da minha mãe, Warner e eu ficamos os observando da porta:

“Noah?” Como eu, ela também achou que estava delirando, mas quando reagiu não pode ser mais fofo, os ovos que seguravam foram derrubados no chão num baque.

Então, segundos depois estavam abraçados e para meu desespero se beijando como se a filha adolescente deles não tivesse ali. Papai a abraçou, a levantando e girando no ar. Os dois ficaram ali por mais vários minutos, se beijando e dizendo coisas que fiquei feliz por estar longe e não conseguir ouvir.

As próximas horas foram um borrão, a casa ficou cheia com a chegada dos meus parentes, Warner, que não tinha família na Pensilvânia, passou cada momento do meu lado, mas não conseguimos conversar muito. Faltava um pouco menos de uma hora para a meia-noite, quando Warner pegou a minha mão e acenou com a cabeça em direção a porta dos fundos, estávamos sozinhos na cozinha então era possível que saíssemos sem sermos pegos.

O segui para fora, notei que ele tinha escondido dois casacos atrás de alguns vasos de planta que mamãe colocava do lado de fora, os vestimos e saímos andando pelo quintal. Havia um pequeno parquinho que ficava dentro do condomínio de casas onde morávamos, quando ficamos embaixo do galho de uma das árvores que cercava um balanço, ele parou, ficando de frente para mim:

“Chegamos.” Franzi o cenho e meu, até então, melhor amigo gesticulou para cima, quando notei o que tinha sido amarrado no galho, dei um passo para trás, como se tivesse sido acertada por algo.

“O que é isso, Warner?” Pergunto e ele dá um passo na minha direção de novo, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.

“Diz à tradição que quando um casal se encontra debaixo do visco, ele devem se beijar para celebrar com amor a ressurreição de Balder, um deus da mitologia nórdica.” Está um tempo horrível, mas meu corpo queima de um jeito que não consigo pensar direito.

“O que há de errado com você?” Digo como se fosse uma ofensa, cutucando seu peito com o dedo indicador.

“Beth, já tem um tempo que...” Faço sinal para que pare de falar, tomada pela revolta.

“Nós nos beijamos, Warner e você não falou nada por cinco meses! Você simplesmente deixou para lá! Saiu por aí beijando várias outras garotas e pelo amor de Deus, como eu não iria saber?” Estou quase gritando e ele está petrificado. “Foi o meu primeiro beijo e nem conversamos sobre isso! Agora você não tem o direito de vir aqui com essa desculpa barata e pedir um beijo, não depois de tratar o que aconteceu antes como algo insignificante.” Mais uma vez ele se aproximou de mim e me distancio novamente, a culpa dominando sua expressão que antes era iluminada por um sorriso.

“Sinto muito, Beth, eu estava confuso. Passei semanas não conseguindo pensar em nada que não fosse aquele beijo e não falei nada, porque sabia que se seguíssemos por esse caminho, podia perder sua amizade.” Sua mão segura a minha com tanta força que não tenho como fugir. “Você é minha melhor amiga. Procure me entender, não sei o que faria se te perdesse.” Fecho os olhos, consigo sentir as lágrimas se acumulando nos meus olhos.

“Acho que devemos entrar, está muito frio, não quero me resfriar.” Não consigo ver sua expressão, porque viro de costas, não querendo chorar na sua frente.

“Beth.” Sua voz é um pedido desesperado.

“Precisamos ir, Warner.”

Controlo as lágrimas e corro de volta para casa, demora até que ele me siga e entramos sem falar nada, esse silêncio se iniciou ali e tive medo de não saber por mais quanto tempo ele iria perdurar.

[...]

“Eles ainda não voltaram a se falar?” Papai pergunta e mamãe nega.

“Já se passaram dez dias e estou começando a me preocupar. Beth quase não toca na comida, não saí de casa.” Eles estão falando tão baixo que preciso quase sair de trás da parede que estou me escondendo para ouvi-los. “Christine disse que Warner está incontrolável, não para em casa e quando para, tem ataques de raiva. Nós não sabemos mais o que fazer.”

A expressão no rosto de mamãe é de partir o coração, mas não consigo entender o que houve, muito menos conversar sobre isso. Papai a puxa para se sentar no seu colo e deposita um beijo na sua têmpora:

“Infelizmente, só os dois podem se resolver, amor, não quero ver minha garotinha sofrendo tanto quanto você, só que estamos de mão atadas.” Ela assente, apoiando sua cabeça no ombro do meu pai, suspirando.

Eu me arrasto de volta para o meu quarto, decidindo que irei passar o resto do dia lá.

[...]

Abro os olhos, só o suficiente para reconhecer meu pai que está fazendo carinho na minha cabeça, quase sorrio com isso, apenas quase, era bom ele ter tirado férias do trabalho para ficar conosco, eu apenas não conseguia usufruir disso como queria devido minha dor de cabeça (e coração!) chamada Warner:

“Desculpa por te acordar.” Sorrio um pouco, mostrando que não tinha me irritado. “Precisava te agradecer pela carta que me enviou, mesmo que você tenha catorze anos, ainda tenho meus receios se estou fazendo um bom trabalho. E olhe só para você, uma garota inteligente, engraçada, bonita e carinhosa, tudo bem que grande parte desses atributos são por conta da sua mãe.” Rio da sua modéstia. “Você é a minha garotinha e tenho muito orgulho, só que está na hora de você começar a falar, em vez de se esconder atrás de palavras escritas, não acha?” Assinto e me sento na cama.

“É sobre Warner, não é?” Ele hesita um pouco.

“Não sei o que houve entre vocês, então não posso dar palpites. Só que estou vendo como estão reagindo a essa separação e se a ausência de um na vida do outro faz isso, então significa que funcionam muito melhores juntos não importa a circunstância.” Dou um sorriso verdadeiro para meu pai que me abraça, percebo que mamãe está na porta nos observando com um sorriso orgulhoso.

Olho para o globo de neve que escondi no alto da minha estante de livros e sinto o frio na barriga pelo o que irá ocorrer nas próximas horas.

[...]

Lá está ele.

Quando mandei o bilhete, não estava certa se Warner viria, foi nesse parque que brigamos sério pela primeira vez, nesse parque que ele tentou me beijar e eu fui embora, mas me pareceu um lugar apropriado para resolver as coisas. Quando me aproximo e ele levanta a cabeça, prendo a respiração, seu cabelo parece que não vê um pente há dias e seus olhos estão sem vida, sem o brilho de doçura e malícia que tanto amo:

“Feliz Ano Novo.” Começo, me sentando do outro lado da mesa de piquenique e sua reposta é um grunhido! Eu ao menos sabia que ele conseguia fazer isso, respiro fundo, não ia deixar que isso me desanimasse. “Trouxe alguns cupcakes que minha vó fez para você e sua mãe.” Sorrio e estendo o pote que não tinha notado como segurava com força.

Sua máscara de indiferença some por poucos segundos, o canto do seu lábio quase se curva para cima num sorriso torto, bom, apenas quase:

“O que você quer, Beth?” Meu sorriso murcha, curto e direto, isso que ele queria.

“Warner não podemos ficar assim para sempre, já parou para pensar o quão idiota é essa situação? Estamos assim, exatamente, porque não queríamos estragar nossa amizade e olha aonde chegamos!” Sou um pouco ríspida e seu olhar frio termina de quebrar o que restou do meu coração.

“Eu não consigo te entender!” Diz, se levantando e apoiando as duas mãos na mesa. “Foi você que surtou, você que foi embora, você que me deixou sozinho debaixo daquela porcaria de visco!” Me levanto também, não aguentando ser olhada de cima por ele e ser tratada desse jeito.

“Quero consertar as coisas, é difícil de entender?” Os olhos dele se fecham e o observo inspirar e respirar diversas vezes.

“Eu não preciso aguentar isso.” Resmunga e dá as costas para mim, indo embora.

Pisei no meu orgulho, o chamando aqui e ele simplesmente acha que pode ir embora assim? Corro atrás dele e puxo sua camisa, o fazendo parar, tudo está acelerado nesse momento e tudo que mais quero é dizer tudo que guardei nesses últimos dias:

“Eu senti sua falta, era como se uma parte da minha vida tivesse ido embora com você naquela noite e doeu tanto, doeu mais ainda no dia seguinte quando não me ligou e achei que iria precisar conviver com essa dor estúpida pelo resto da vida.” Eu estava chorando e tentava inutilmente secar as lágrimas. “Não ter você por perto é...” As palavras saem com dificuldade dessa vez. “difícil demais.”

Warner me abraçou tão forte que não me dava a chance de fugir, seus lábios estavam pressionados contra minha testa e o abracei de volta, chorando baixinho, percebendo que durante sua ausência, perdi um parte importante de mim mesma:

“Nós vamos dar um jeito, lobinha.” Suspiro, sua voz voltando ao seu tom afável.

Suas mãos sobem até meu rosto, o segurando e me obrigando a fitar seus olhos, pisco, atônita, o tom de castanha me engolindo por inteiro e me deixando sem ar:

“Gostar de você me assusta. Amar...” Fecho os lábios, querendo me matar por ter indo tão longe, mas seu olhar é tão hipnotizante que acabo continuando. “Amar você mais do que deveria, amar você mais do que um amigo, me assusta mais ainda e não saber se está apenas brincando comigo, me aterroriza.” Confesso e sinto minhas pernas perderem a força quando ele me beija.

E esse foi “o beijo”, não aquele ato sem prática no armário de limpeza, agora sabíamos o que estávamos fazendo, era familiar e ao mesmo tempo tão novo, inconstante e delicioso, mal conseguia pensar direito quando seus lábios se afastaram dos meus, mas abro os olhos, mesmo estando desnorteada:

“É claro que amo você, amo mais do que deveria e não conseguiria brincar com seus sentimentos, nunca, nem em um milhão de anos, você é minha melhor amiga, meu primeiro e espero último amor, o que sinto por você é tão único que é impossível que vá sentir por outra pessoa. Somos jovens e imaturos e talvez daqui a alguns anos, acharemos isso tudo uma bobagem, mas aqui e agora, você é tudo para mim.”

O abraço forte, escondendo meu rosto na curva do seu pescoço, não tinha ideia do que ocorreria daqui pra frente e saber que estava apaixonada pelo meu melhor amigo ainda parecia algo perigoso e imprevisível. Mas, ele ainda era o meu melhor amigo e iriamos dar um jeito de tudo dar certo, nós sempre dávamos.

Notas finais
Notas finais: Então? Aprovado? Digam o que acharam nos reviews, adoro sugestões e até alguns toques no que posso melhorar. :) bem, amei ter sido convidada para participar desse projeto tão especial pelo Andre e li todas as ones assim como vocês e fique encantada também. Para finalizar, em nome de todos os maravilhosos autores que postaram seus contos especial sobre essa época linda do ano, quero agradecer a vocês por terem lido e por seus comentários e desejar um Feliz Natal para todos vocês e quem sabe ano que vem não repetimos a dose? Beijos, pessoas lindas! :* :*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!