Deixados Para Os Mortos - Missão Extra
1 Uma bala por vez.
Uma gripe, eles disseram.
Estamos trabalhando na cura, eles disseram.
Mantenham-se dentro de suas casas, foi uma das últimas mensagens da CEDA.
Mantenha-se em um estado de mente calmo, dizia um dos panfletos da CEDA.
Estado de mente calmo é o caralho.
Aquela era a sexta semana após o primeiro caso. Um homem foi mordido por um morador de rua. Ao chegar ao pronto socorro, mordeu três enfermeiros. Os três enfermeiros juntos morderam dezoito pessoas. Essas dezoito pessoas morderam umas cinquenta.
Wallace fez as contas. Neste exato momento devia haver uns... Setecentos milhões de pessoas infectadas? E o número crescia a cada segundo. Ele não havia só ouvido falar como já havia matado alguns desses infectados, já que sua cidade inteira havia se tornado um ninho de zumbis. Foi doloroso no começo ter que matar amigos e familiares, mas logo se tornou um jogo de sobrevivência. Ou ele, ou eles.
Ele não sabia bem o que era; um imune ou um vetor? Há três semanas ele havia ouvido no rádio que algumas pessoas eram imunes ao vírus, e outras, não se transformavam em monstros, mas espalhavam a doença. Alguns haviam sofrido mutações e se tornado espécies completamente novas de zumbis.
Há uma semana Wallace havia encontrado um rádio do exército. Nenhum soldado havia sobrevivido. Ele achou hilário o fato de que homens treinados para matar estavam todos mortos, e ele, um funcionário de uma loja de videogames, estava vivo e acumulando cada vez mais mortes por onde passava. No total já havia matado mais de trezentos zumbis. Ao ligar o rádio, Wallace conversou com um tal de Ellis. Ele estava indo com um grupo para New Orleans. Azar o dele, Wallace pensou. Sabia que New Orleans estava lotada de zumbis, assim como todo o país, e talvez o planeta inteiro.
Seus pensamentos foram cortados por um ruído. Rapidamente ergueu a pistola calibre 38 em frente ao peito. O som vinha de trás de uma porta fechada, nos fundos de um prédio. Andou lentamente, com passos leves, a pistola sempre pronta para atirar. Apertou a maçaneta, sentiu o metal frio sob os dedos. Girou-a lentamente. A porta estava destrancada. Pela fresta, viu uma silhueta escura caminhar sem rumo dentro de uma sala depredada. Abriu um pouco mais. Havia um balcão com um homem morto sobre ele. Atrás do balcão, mais três vultos se arrastavam. Puxou a porta, sem fechá-la, e respirou fundo. Apertou a pistola entre as mãos.
Um.
Dois.
Três.
Hora do show.
Chutou a porta. O primeiro zumbi foi atingido por ela e caiu. Os outros três voltaram-se para Wallace, e exibiram os dentes podres, grunhindo e expelindo um líquido negro e viscoso pela boca. Um tentou saltar o balcão, mas logo duas balas atravessaram seu peito e ele caiu morto. Os outros dois deram a volta e correram em direção de Wallace. Deu uma coronhada no primeiro, e enfiou o cano da arma na boca do segundo, explodindo sua nuca com um tiro. O primeiro zumbi, que havia sido atordoado pela porta, levantou-se e foi para cima. Wallace puxou a maçaneta e prensou o pescoço do zumbi entre a porta e a parede. Abriu e fechou a porta várias vezes, até o pescoço da criatura ter sido dilacerado. Abriu a porta e o corpo caiu inerte. Chutou a cabeça do zumbi, arrancando-a do corpo. Fechou a porta novamente e ouviu o zumbi batendo insistentemente do outro lado. Checou sua munição – havia poucas balas. Guardou a pistola no coldre que roubara de um policial morto, e puxou o machado de incêndio que havia encontrado no corpo de bombeiros da parte de trás da mochila. Em um golpe só, abriu um buraco na porta. O zumbi colocou a cabeça para fora, e foi imediatamente decapitado. Sangue escuro jorrou do pescoço por alguns segundos, e seu corpo caiu.
Wallace abriu a porta. Não havia mais zumbis, pelo menos naquela sala. Atrás do balcão havia uma Winchester 1877 completamente reformada. Ficou maravilhado ao ver aquela antiguidade ainda funcional. Não sabia se usaria ela, mas com certeza a colocaria sobre a lareira de sua nova casa quando tudo aquilo acabasse. Abriu a mochila e colocou-a dentro, deixando o cano do rifle para fora. Olhou temeroso para o corpo do zumbi alvejado, caído ao seu lado. Puxou a pistola e deu mais um tiro, só para garantir, como havia aprendido em um filme. Podia até parecer besteira, mas Wallace vinha seguindo as regras do bendito filme, e só sobrevivera até o momento por causa delas.
Recolheu tudo que achou importante: Algumas pílulas para dor, um pouco de munição que encontrou em uma gaveta e uma garrafa de uísque. Assim que achasse um isqueiro, faria um molotov.
Abriu a porta e foi em direção da rua. No mesmo instante arrependeu-se de tê-lo feito.
Do outro lado da calçada havia um infectado. Estava preso em uma camisa de força. Os cabelos longos estavam sujos e embaraçados. A boca era deformada e enorme, como se parte de seu rosto tivesse se rasgado para a mandíbula se abrir tanto. Os olhos pequenos e leitosos miraram imediatamente em Wallace. Ele sacou a pistola, mas não deu tempo. O zumbi saiu correndo para trás de um carro e emitiu um grito ensurdecedor, fazendo alguns alarmes dispararem.
“Filho da puta,” grunhiu. “Logo, logo vai ter uma penca de zumbis atrás de mim.”
Wallace estava certo. Um dos lados da rua estava bloqueado por um caminhão tombado, mas outro estava completamente livre, e infestado de zumbis. A horda tomou forma e correu na direção de Wallace. Eles saltavam aos montes de janelas, carros e bueiros. Escalou o caminhão e preparou a pistola. Não ia dar, não ia dar, não ia dar. Eram pelo menos sessenta zumbis para as quarenta balas que ele tinha.
Mesmo assim, descarregou a arma no máximo de zumbis que conseguia acertar. Eles arranhavam o metal, tentavam subir e gritavam sem parar. Percebeu que eles não conseguiam subir com a mesma facilidade que ele, o que melhorava a situação.
“Bom, acho que não dá pra piorar,” Wallace disse e logo desejou costurar a própria boca.
Sentiu a vibração do chão mesmo sobre o caminhão. Vinha lá de longe. Urrava. Um carro foi lançado para o alto, e explodiu ao colidir com o asfalto. Um pedaço de concreto voou e atingiu alguns zumbis. O urro se tornou mais alto e gutural. Wallace só conseguia pensar em uma palavra: Merda.
Um Tank. Era assim que os sobreviventes vinham chamando aquela monstruosidade. Mais de dois metros de altura de puro músculo. A hipertrofia havia atingido um nível tão alto que os músculos do peitoral lentamente haviam absorvido a mandíbula, e a língua balançava livre, enquanto o líquido negro escorria sobre seu peito. Apesar das pernas pequenas, ele era tão rápido que era quase irreal. Os Tanks eram quase uma lenda, pois poucos haviam visto um, e menos ainda haviam sobrevivido para contar a história. A mesma coisa valia para as tais de Witch, que segundo boatos, eram moças que permaneciam em cantos escuros, chorando. Ao ser incomodada, a Witch atacava sua vítima até abrir sua caixa torácica usando as garras.
E lá estava Wallace. Vendo um Tank. Ele sabia que não iria sobreviver para contar a história de como um Tank praticamente salvou sua vida ao esmagar, desmembrar e estraçalhar a carne dos zumbis que tentavam subir no caminhão.
Deu três tiros no Tank, que apenas ficou mais furioso. Saltou do caminhão e saiu correndo. O monstro jogou a carreta para o alto, e começou a perseguir Wallace. Ele pôde ouvir o som da carreta caindo, mas preferiu não olhar para trás. Entrou em uma loja e se escondeu entre as araras de roupas. Viu por uma fresta o Tank parado no meio da rua, procurando-o. Sabia que uma hora ele seria encontrado.
Tinha que encarar a fera.
Ou ele, ou eles.
Puxou a Winchester de dentro da bolsa. Colocou as balas e saltou pela vidraça. O Tank virou-se imediatamente e correu na direção de Wallace.
Atirou. Puxou a alavanca e a arma cuspiu a casca da bala. Atirou mais uma vez. Puxou a alavanca. Ficou impressionado com a força do recuo daquele rifle, e percebeu que o Tank também sentira o impacto.
O Tank saltou sobre ele. Wallace rolou para o lado, e o monstro colidiu com a frente da loja, destruindo tudo. Percebeu que o infectado estava desnorteado. Puxou a garrafa de uísque e jogou sobre o Tank. O líquido escorreu sobre os ombros da criatura. Ele só precisava de um disparo bem dado. Talvez aquilo fizesse o álcool pegar fogo.
Não houve tempo. O Tank foi mais rápido. Socou Wallace no estômago, o lançando sobre a vidraça de outra loja, no outro lado da rua. Wallace só teve tempo de agarrar a pistola quando o monstro o pegou pela cintura e o ergueu. Iria esmagá-lo. Wallace olhou nos olhos vazios daquela aberração.
Olhos...
Era como se uma lâmpada houvesse se acendido em sua mente. Suportou a dor do aperto, dos cacos de vidro fincados em suas costas, das costelas provavelmente quebradas, e enfiou o cano da calibre 38 no olho do Tank. A criatura urrou de dor, e Wallace puxou o gatilho. Uma, duas, três vezes, até sentir o aperto se afrouxar.
O Tank caiu sobre os joelhos. Seu corpo estava cada vez mais inerte. Caiu morto de lado.
Wallace começou a tossir. A tossir e rir. Estava cheirando a sangue e uísque barato.
Havia matado um Tank. Sozinho. Mas a que custo? Mal sabia onde seu rifle estava, perdera a bebida com que faria um molotov ou provavelmente se embriagaria, e tinha grandes chances de ter ao menos três costelas fraturadas. Cambaleou por um instante, e deu a volta no corpo do Tank.
Ponderou se talvez fosse mesmo uma boa ideia formar um grupo de sobreviventes. E naquela hora sentiu inveja do tal de Ellis, que estava matando milhares de zumbis em New Orleans, mas fazendo isso com um grupo de amigos para ajudar.
Será que ainda tem ônibus pra New Orleans?, pensou.
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