Deh e Dih
1 Lá vem ele!
Notas iniciais
Eu estava em pé no palco vestida e pronta para cantar. Essa semana seria livre, então escolhi a música que estava na minha cabeça Blanco y Negro da Malú. Tomás, o professor de teatro decidiu pôr-me como última e isso me deixou muito feliz. Assim teria tempo suficiente para aquecer. Minhas amigas, as gêmeas, adoram dançar e cantar ao mesmo tempo. Julia e Jully são demais. Eu nunca vou entender o motivo dos pais colocarem em gêmeos nomes parecidos, mas enfim.
O público hoje era o pessoal do teatro e do coral e mais algumas pessoas convidadas. Ouvi dizer que esse ano teria algumas pessoas novas e fico feliz logo. Os boatos provam-se verdadeiros quando Tomás, antes que inicie a cantoria, anuncia os novos participantes. Alguns estão atrasados, outros já estão presentes. Incrível minha cegueira, agora que o notei!
–Fico feliz em ver que esse ano terá mais pessoas que o esperado. Ano passado muita gente se mudou e como podem ver não somos muitos por enquanto.- Tomás dirige seu olhar para mim e Camila, minha melhor amiga, pois estamos cochichando. Entendemos o recado e ficamos em silêncio.-Bem, sintam-se à vontade, nossa aula de aquecimento já começou e logo depois vocês vão se apresentar. Boa sorte.
–O pessoal do segundo ano disse que tem um aluno lindo que vai entrar para o teatro.- Sussurrou Camila enquanto nos encaminhávamos para a fila.
–É mesmo?- Sorrio ao pensar em alguém bonito o suficiente para minha amiga.- Bem, tomara que ele cante bem também. Assim, vocês podem se paquerar literalmente em todos os sentidos.
Ela ri e me dá um tapa no braço. Sorrio. Camila as vezes me assusta com sua fofa vergonha/disfarce.
Quase meia hora depois, Camila entra nervosa e começa a cantar Feeling Good de Muse. Sorrio orgulhosa dela. Camila tem o dom do improviso, e ela acaba de fazer isso. Escolhe a primeira música que lhe vem a mente e começa a soltar sua doce voz. Assim que ela sai, eu entro. Nervosa, abro a boca. Eu não tinha aquecido minha voz pois fiquei conversando com ela. Mas vamos lá.
–Se que faltaron razones, se que sobraron motivos,
contigo porque me matas, y
ahora sin tí ya no vivo.
Avistei algo ao longe. Um par de olhos verdes me observando. Me concentrei na canção.
–Tú dices blanco, yo digo negro, tú dices voy, yo digo vengo, miro la vida en color y tu en blanco y negro.
Comecei a sentir uma leve esquentação. Daquelas que chega dar arrepios, daquelas que são de alguém te observando.
–Te regalo mi amor, te regalo mi vida,a pesar del dolor eres tu quien me inspira, no somos perfectos, solo polos opuestos.
Por fim, acabo o refrão e olho para o meu misterioso telespectador. Ele é alto, e muito bonito.
–Me odias, me quieres, siempre contracorriente, te llevo en mi mente desesperadamente, por mas que te busco, eres tu quien me encuentra.
Ele me olha, e olha. Ele presta muito atenção em cada movimento meu, e isso me desconcerta. Droga Demetria, se concentre! Esqueça da presença dele. Agora.
Termino a canção finalmente, e para a minha surpresa ouço bem alto um bater de palmas. Ah, tinha que ser. Saindo de lá, dos fundos, o rapaz de olhos desce em direção ao palco e continua a bater palmas. Sinto minhas bochechas arderem e saio do palco.
–Senhor Rodriguez,-Tomás começa.- Pessoal conheça Dimitri Rodriguez, meu sobrinho e o adolescente mais talentoso de todo o estado.
Todo o silêncio se transforma em suspiros das meninas e cochichos. Logo todos dão boas vindas para Dimitri. Mas nada disso lhe interessa. Seus olhos estão em mim, esperando uma saudação, como todos fizeram. Mas como minha mãe diz: eu não sou todo mundo.
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