Define-me amor
1 Cap.1 - Más notícias para uns são boas para outros
Notas iniciais
Scorpius sabia que não estava naquela aula há muito tempo. Sabia-o porque só agora o professor Slughorn, com a mão tremer tanto que as letras saiam todas esborratadas contra o velho quadro de lousa negra, acabara de escrever os ingredientes que deveriam utilizar para fazer felix felicis. Sabia-o e, ainda assim, não conseguia compreender porque parecia-lhe que se passara horas.
Talvez fosse porque, ao contrário da crença geral acerca dos Slytherin, Scorpius odiava poções. Não sabia se devia atirar a culpa ao mestre de poções, que já há muito tempo passara da marca dos cem anos, e que levava quase a mesma quantidade de tempo para lhes dizer uma simples frase.
Lembrava-se bem que o pai o tinha em grande consideração, e até lhe pedira para enviar os seus honestos cumprimentos (embora Scorpius não achasse que, de todas as palavras existentes, a melhor para definir o pai fosse, de facto, honesto), mas ainda assim, transmitira-lhe os desejos. Foi descobrir então, que o velho professor tinha uma predileção por famílias mágicas poderosas, o que só o fez ficar na sua mira.
Raios com o pai. Tinha a certeza que só lhe pedira isso para que tivesse algum tipo de favoritismo.
A verdade, no entanto, era que não podia atirar toda a culpa ao Professor. Na verdade, desconfiava que mesmo que o próprio Merlin se apresentasse à sua frente para leccionar poções, ainda detestaria a disciplina. Não era porque ele fosse mau — Scorpius acreditava que era bastante razoável considerando o seu nível de desinteresse.
Suspirou, sofridamente, arrancando um olhar divertido de Felix Zabini, o seu melhor amigo e a pessoa que mais tinha prazer com a sua dor.
— Tenta não parecer tão miserável, Malfoy.
Lançou-lhe um olhar mal-humorado. A culpa até poderia ser dele, por ter escolhido continuar a estudar poções, mas ele não iria arriscar o seu futuro por causa dessa maldita disciplina! Não, não, Scorpius já há muito decidira que seria um excelente MediBruxo e se para isso precisava de sofrer pelo resto do ano, pois que o fosse.
Levantou-se e dirigiu-se para a despensa, acompanhado de alguns colegas. Como a partir do sexto ano as disciplinas para a realização dos NIEM’S era de escolha, havia alunos de todas as casas de Hogwarts naquela aula, sem a necessidade de mais de uma turma.
A despensa ficava no canto mais afastado da sala, guardada por duas grandes portas de mogno que subiam até ao teto. No seu interior, havia dezenas de prateleiras cheias de frascos de vidro e viais de cristal com pequenos pergaminhos distendidos na sua frente a indicar o conteúdo. Também havia pequenos potes com antídotos e outros preparados, e em alguns cantos, amontoavam-se caldeirões velhos e balanças cobertas de teias de aranha.
Scorpius escolheu com cuidado os ingredientes que precisavam: todos já haviam experienciado a dada altura o efeito extremamente desagradável de uma poção mal preparada, principalmente por confusão de ingredientes.
Foi só quando regressava para o seu lugar que a coisa mais incomum aconteceu: Rose Weasley entrou na sala com um pedido de desculpas murmurado, os olhos pequeninos e muito vermelhos. Havia, muito obviamente, várias coisas erradas nesta situação sendo,
1) O facto de Rose Weasley, com o sentido de pontualidade perfeito, estar atrasada para uma aula e
2) O facto de Rose Weasley, de sorrisos doces e comportamento afável e tímido, ter estado a chorar.
Deixou cair os ingredientes sobre a mesa descuidadamente, os vários frascos chiando uns contra os outros como se fossem partir. O professor estava demasiado ocupado a dar um raspanete a Rose, inconsciente do seu estado, e, portanto, não se apercebeu da falta de jeito de Scorpius.
— O que achas que se passou com a Weasley?
Felix deu de ombros, como não pudesse se importar menos.
— E o que te interessa?
— Nada. — Murmurou Scorpius, mas mantinha os olhos muito fixos na ruiva como se assim pudesse compreender o que se passava com ela. Não era o único; várias pessoas olhavam-na com curiosidade evidente enquanto que algumas colegas de casa se aproximaram, esfregando-lhe as costas num gesto de conforto. Que esquisito.
Zabini olhou-o com ar incrédulo, como se estivesse a vê-lo corretamente pela primeira vez.
— Merlin! Não me digas que ainda estás apaixonado pela Weasly?
Scorpius olhou-o carrancudamente. Apaixonado era uma palavra muito forte. Ele diria que tinha, no máximo, uma paixoneta por ela. Uma paixoneta que durara dois anos, era certo, mas ainda assim uma paixoneta. Afinal, não passara esse tempo todo a lamentar a sua falta de sorte ou a chorar pelos cantos sempre que a via com o namorado. Ele próprio tivera algumas namoradas nesse espaço de tempo, ainda que nada de sério.
Embora nunca tivesse sido atropelado por centauros, achava que a sensação não deveria ser muito diferente do que sentira na altura.
— Podes falar mais baixo? — resmungou, esmagando a casca de ovo de Cinzal com força redobrada.
Zabini percebeu que o amigo não o negou. Ponderou por alguns segundos antes de soltar, muito baixinho, para que ninguém os pudesse ouvi:
— Vai se a ver e ela finalmente terminou com o namorado.
Scorpius quase deixou cair o almofariz com o espanto, que saltitou algumas vezes contra a mesa antes de finalmente estabilizar, derramando algum do seu conteúdo. O professor estava um pouco surdo, mas ainda assim olhou-os com extremo desagrado.
Tentou desculpar-se com um sorriso amarelo.
— O quê? — arfou assim que Slughorn desviou o olhar, esperando ser incentivou suficiente para que Felix continuasse.
— Ouvi dizer que o Thomas se meteu com uma quintanista qualquer.
Ele quase deixou cair o almofariz novamente. Onde ouvira ele isso? Tinha a certeza que prestava muita mais atenção a ela do que Felix, principalmente porque o outro só se interessava por homens. E desde a última vez que a olhara, que fora há momentos, Rose definitivamente não se incluía nessa categoria.
— Não pareças tão satisfeito, Malfoy. Se não for por isso, não quero ter de apanhar os caquinhos que restarem do teu coração.
Por fim, Slughorn olhou-os parecendo imensamente aborrecido.
—Estão aqui para fazer poções, meus senhores, agradecia que levassem as conversas lá para fora. E ah! — pareceu lembrar-se o professor, uns instantes mais tarde. — Menos cinco pontos para a Slytherin.
Imediatamente ouviu-se um coro uníssono de protesto por parte dos Slytherin e um risinho debochado da equipa rival. Scorpius tentou não prestar atenção nos olhares furiosos dos colegas, demasiado exultante com o que Feliz acabara de lhe dizer. Seria Merlin a dar-lhe uma segunda oportunidade?
De qualquer maneira, a partir daí a aula parecia muito mais maravilhosa. A voz quebrada do professor era como música para os seus ouvidos e os olhos inchados de Rose um hino de esperança — isto é, para ele, claro.
— O que achas que devo fazer, então? — sussurrou vendo o amigo mexer o caldeirão, que levantou as sobrancelhas escuras como se não pudesse acreditar no que estava a ouvir.
— Não ouviste nada do que eu disse até agora?
Bem, sim, ouvira. Só preferia tomar o fim do namoro como um facto em vez de uma possibilidade. Scorpius estava no seu último ano em Hogwarts e provavelmente seria a sua última oportunidade para testar se algo entre eles podia dar certo antes que os seus caminhos se separassem para sempre e ele passasse o resto da vida a remoer o que poderia ter sido. E Scorpius não gostava de ser uma pessoa de "ses".
O restante da aula, entretanto decorreu sem mais revelações ou grandes conversas. O Professor Slughorn pareceu muito satisfeito com a súbita mudança de atitude de Scorpius, que estava muito mais empenhado do que alguma vez antes e até devolveu-lhe os pontos retirados.
Por outro lado, o Malfoy começava a achar que talvez essa coisa de poções fosse começar a dar certo: afinal, mal começara a preparar felix felicis e a sua sorte já começava a se manifestava.
Claro que ele estava enganado. Assim que dera um passo para fora da classe, deu de caras com ninguém menos do que Vicent Thomas, encostando contra umas das paredes de pedra. Ele era um tipo alto, bastante sólido e de pele escura, com o cabelo cortado sempre muito rente. Por mais que tentasse, Scorpius não era capaz de perceber o que o fazia tão especial, mas para ser sincero, também não entendia o que fazia qualquer Gryffindor especial. A maioria deles eram imprudentes e faziam tudo sem pensar nas consequências alegando ser coragem.
Era estupidez, era o que era.
E um poderia pensar: então e Rose não é uma Gryffindor?
Era. Mas ela parecia dotada de sensatez, algo muito raro naquela casa, e sempre falava com as pessoas como se verdadeiramente quisesse saber o que elas pensavam, virtude essa que Scorpius era o primeiro a admitir que não era dotado. Além disso, tudo na aparência dela parecia indicar pureza, como os caracóis alaranjados que acabavam um pouco acima do ombro e as sardas que lhe pintalgavam o nariz como uma criança. Ela era, claramente, o extremo oposto dele.
Assim que a Weasley se aproximou, Thomas pousou-lhe uma mão nas costas, num gesto intimista, guiando o caminho para fora das masmorras.
— Pensava que tinhas dito que eles acabaram — resmoneou, enquanto perfurava as costas do casal.
— O que eu disse — emendou Felix, com um dar de ombros despreocupado — foi para não teres esperanças ou ias acabar com o coração partido.
— Podia era partir-te a cara. — Resmungou entre dentes, dando passos mais largos de forma a deixar o amigo para trás.
Não sabia se era da frustração ou da impaciência que lhe era muito pouco incaracterística, mas quando entrou no salão comunal da Slytherin, Scorpius teve a ideia mais estúpida que podia se lembrar.
Ele orgulhava-se de ser um homem extremamente racional, muito obrigada, e muito raramente atuava como um tolo apaixonado. Mas, aparentemente, dignidade era algo muito sobrestimado nos dias decorrentes e sem Felix por perto para controlar os danos (leia-se: gritar-lhe no ouvido como ele estava prestes a fazer algo de extremamente estúpido e irreversível), Scorpius deu por si a olhar para uma cabeleira extremamente ruiva, muito destoante dos verdes profundos que o rodeava.
E o problema era que ela não se limitara a olhar, não. Nem tampouco dera meia volta antes dela se aperceber da sua presença e passar a vergonha de uma vida. Mais valia ter-se deitado no colo dela e pedido que o embalasse.
Viu-a levantar os olhos do livro, parecendo desconfiada com a sua presença. Como não estar? Partilhavam a mesma casa há seis anos e nunca disseram mais do que meia dúzia de palavras. E ali estava a ele, sem nenhuma razão aparente, a admirar-lhe a beleza.
Porque se Lily Potter era alguma coisa, seria bonita — e gostando ou não de outra pessoa, sabia muito bem reconhecer uma mulher bonita. No entanto, era também fria como um cubo de gelo e ele percebeu de imediato a animosidade presente no rosto pálido.
— Olá, Potter.
A expressão dela tornou-se ainda mais carregada e possuía algo como… desprezo? Merlin, essa decididamente era uma expressão a que ele não estava acostumado. Adoração, admiração ou até mesmo raiva seriam emoções muito mais frequentes. Agora desprezo? Para o bem ou para o mal, costumavam a tê-lo em melhor consideração. Que Rose fosse o amor da sua vida, porque ele certamente não merecia passar por tamanha humilhação.
— Então... — Clareou a garganta, como se estivesse algo preso lá — Estava a me perguntar se é verdade que a tua prima Weasly e o Thomas terminaram?
Lily levantou as sobrancelhas, cada vez mais surpreendida com o rumo da conversa.
— E isso interessa-te porque…. — Antes que ele tivesse chance de responder, viu compreensão espalhar-se pelo rosto dela. Espelhou um sorriso malicioso no rosto, que não podia ser bonito, porque claramente debochava dele. — Tens interesse nela? Uau, que dia Malfoy.
Scorpius não sorriu, parecendo aborrecido com o jeito intrometido dela.
— Também não sei porque isso possa ser do teu interesse.
Ela deu de ombros.
— A partir do momento que vieste pedir-me informações, é sim — retrucou Lily, com um dar de ombros.
E aqui estava, por fim. Arrependimento e uma grande dose de autoflagelação por seguir os instintos. Devia ter-se feito milhares de perguntas primeiro, embora devessem bastar: “haverão consequências?” Pois, claro que haverão. “Quero lidar com elas?” Pois certamente que não. “Quero ver o regozijo na cara de Lily Potter por estar tão obviamente a humilhar-me perante ela?” Definitivamente nunca.
Ela deve ter visto algo no rosto dele, porque endireitou-se muito no sofá, fechando o livro que até agora tinha marcado a página com o dedo.
— Eu posso ajudar-te. — Anunciou Lily, quando estava prestes a virar as costas e a fingir que este momento jamais acontecera. Scorpius olhou-a espantado, sem ter a certeza se percebia bem o que ela queria dizer.
— Queres me ajudar? — Repetiu ele, sentindo-se confuso. Depois acrescentou, para que não estivessem ali a andar com rodeios: — Queres ajudar-me exatamente com quê?
O mundo estava a tornar-se cada vez mais estranho. Ali estava ele, a perguntar algo que apenas requeria uma resposta de “sim” ou “não”, o que já era um feito por si só considerando a pessoa em questão, e já estava a levar por tabela a ajuda de Lily Potter em algo que não tinha exatamente a certeza do que era.
Ela rolou os olhos, como se ele fosse muito lento de raciocínio.
— A conquistar Rose, é claro — afirmou Lily, como se fosse a coisa mais natural do mundo e esta não fosse a primeira vez que tinham trocado mais do que duas frases.
Ele tinha a certeza que sabia falar até dois segundos atrás, então o que é que se passava? Sacudiu a cabeça, como se a tentar afastar o choque.
— Mas porque é que achas que eu preciso da tua ajuda para qualquer coisa? — perguntou, estupefacto. Ele cada vez menos queria saber como a cabeça dela estava a trabalhar. — Ainda mais com isso!
Ele devia estar a quebrar algum recorde em receber olhar condescendentes, porque Lily suspirou antes de voltar a falar.
— Malfoy, Rose está numa fase da sua vida em que pensa que todos os homens são canalhas e podes culpá-la? Não teve a melhor experiência. A menos que, claro, a sua priminha favorita mostre que afinal sempre há algum homem que se aproveite e poderão viver felizes para sempre — concluiu, satisfeita com a sua lógica.
Scorpius não acreditava que ela fosse a prima preferida, mas preferiu não contestar isso, principalmente quando acabara de ser tão subtilmente insultado. Se algum dia duvidara o que a filha do Harry Potter fazia na Slytherin, agora era demasiado óbvio que estava no sítio certo. O que por sua vez também significava que ela era rapidamente trabalhara um acordo para conseguir algo de volta.
— Em troca de quê? — desconfiou, Scorpius.
Lily pareceu pela primeira vez algo satisfeita.
— Quero que me apontes como sub-capitã da equipa de Quidditch — afirmou, fazendo um gesto de descaso com a mão, como se estivesse a discutir o tempo ou qualquer outra banalidade.
Scorpius olhou-a de boca aberta, incapaz de responder por alguns segundos. Será que essa garota era louca? Era uma possibilidade muito real, começava a perceber. Ele, por sua vez, já não tinha discernimento para tentar compreender para onde rumava essa conversa.
Parecia o pedido mais ridículo que se podia fazer. Scorpius era o capitão e ela não poderia fazer nada sem a sua autorização já que a equipa certamente não precisava de duas pessoas para os treinar. Na verdade, a menos que ela tivesse um plano bem maquiavélico para se livrar dele, essa posição não lhe acrescentaria em absolutamente nada, a menos, é claro, que o objetivo principal fosse endoidece-lo. Aí, seria muito bem pensado.
Mas considerando que ela não parecia muito apreciadora da sua companhia, achava que não precisava de se preocupar. Assim, fosse qual fosse a razão dela, não era assunto que lhe pudesse interessar.
De qualquer maneira, teve de lhe perguntar: porquê?
— Porque sim.
Claro que isso era uma razão. Revirou os olhos, mas não esperava que ela lhe contasse alguma coisa.
— Queres saber, Potter, — disse, pondo as mãos nos bolsos com ar descontraído — feito.
O seu bom-senso lamuriou-se. Desde quando se metia ele em situações impossíveis? O que tinha acabado de acontecer com a sua aclamada racionalidade? Só faltava mudar-se para a casa dos leões.
Lily levantou as sobrancelhas, incrédula.
— Fácil assim? Se soubesse nem te vendia os meus serviços em troca, apenas tinha pedido a posição.
Ele ignorou-a.
— E quando vamos começar o teu plano com a Rose?
Ela suspirou. Realmente, os homens eram tão fáceis de manipular quando estavam interessados nalgum rabo de saia. Relaxou contra o encosto de couro e abriu o livro, procurando a página que estava antes da conversa. Só quando a encontrou, é que Lily respondeu, sem nunca levantar os olhos.
— Tudo a seu tempo.
E, simples assim, terminou a conversa, ignorando a presença dele por completo.
Scorpius estava chocado. Com o que estava mais, não sabia ao certo. Podia ser o acordo sem nexo que nem acreditava que tinha feito, podia ser a atitude de imperatriz de Lily, podia ser simplesmente por ele ser um idiota. Não, não, pensou, desta vez Scorpius conseguiria o que queria e até tinha arranjado uma aliada poderosa nessa demanda que seria conquistar Rose. Vendo bem as coisas, ele só tinha recebido notícias boas naquele dia.
Afastou-se dela, sentindo-se estranhamente satisfeito e sentou-se num divã com ar muito luxuoso de costas para ela. Depois, algo incomodativo veio-lhe à mente e que Lily não chegara a lhe responder: se ela ia ajudá-lo então isso significava que Rose estava solteira. Certo? Esperava que sim. A última coisa que queria era ser considerado um destruidor de lares. De qualquer maneira, só a ideia de voltar a se levantar-se para se embrenhar num qualquer esquema dela era extremamente desagradável.
Scorpius já tivera o suficiente de Lily Potter por uma vida toda — e só agora começara.
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