Dedo negro do diabo
1 As crianças (Luther)
O carro parou e fui o primeiro a descer. Um velho veio em nossa direção nos receber, com o passo apressado. O motorista abriu o porta malas, e quando fui pegar a minha o senhor me interrompe:
― Deixe que eu levo. ― Sua voz antiga soa. Ele me olha e sorri, buscando a mala. Depois a dos meus irmãos mais velhos, que eram mais pesadas que a minha ― Espero que tenham feito uma boa viagem.
― Foi mesmo. Até mais ver. ― Diz o motorista. Como já tinha sido pago, partiu.
― Meu nome é Braeden, sou o caseiro ― O ancião estende a mão e eu aperto.
― Sou o Luther ― Digo.
― Joaquim ― Se apresenta de forma casual.
― Franz ― Ele usa sua voz amarga.
― Vamos entrar. ― Braeden diz carregando as malas, fazendo um esforço sobre humano tentando ser cordial.
Olhei para a casa. Rodeada por um muro, coberto por uma vegetação rasteira que crescia como uma montaria, era como uma torre feita de pedra, curta e larga. Parecia ter uma atmosfera opressiva.
― Widmer me ajude. ― Pediu o caseiro, e apareceu mais um homem um pouco mais jovem. Ele carregou uma mala.
O lado de dentro era mais agressivo ainda, as paredes todas eram feitas de pedras antigas. A torre tinha uma escadaria em espiral, e o caseiro nos fez subir até o último andar.
— Bom, vocês vieram aqui porque sua família tem uma dívida com a nossa. — Braeden diz — Agora é hora de fazerem um juramento.
Sei que me foi dito qual era a dívida, mas não sei por que me escapou da memória.
— Ponham suas mãos juntas onde possamos ver. — Widmer dita a frase.
Joaquim estende sua mão e Franz faz o mesmo. Depois eu o imito, e nossas mãos ficam pousadas uma sobre a outra, se tocando.
— Agora digam em voz alta. Juro proteger a vida do meu protegido. Caso for preciso trocarei a minha vida pela do protegido. — O caseiro mais velho pede.
Jurar?
— Juro proteger a vida do meu protegido. Caso for preciso trocarei a minha vida pela do protegido. — Repeti, ao mesmo tempo em que meus irmãos.
Depois de uns segundos, separamos nossos braços, e pareceu que eu não estava no controle do ato.
— Ótimo. Sejam bem-vindos a nossa família. — O caseiro idoso pronuncia.
— Agora vão conhecer seus jovens protegidos. — O caseiro mais novo informa.
O ancião foi os chamar, e quando chegaram percebo que quando ele disse família não queria dizer biológica.
— Esse é o Lars, protegido de Luther. Essas são as gêmeas, Frida e Ofélia, Frida é a protegida de Franz, e Ofélia protegida de Joaquim. Crianças, esses são seus protetores. — Widmer se refere a eles como crianças, mas as moças já eram quase mulheres. O menino ainda era um infante e tinha traços asiáticos.
Proteger de que? Pensei. Algo me dizia que não devia perguntar, então não perguntei.
O menino era baixo, de cabelos pretos bem escuros. As meninas, da mesma estatura e de cabelos loiros de um tom muito claro quase platinado, e uma era o espelho da outra.
— Olá. — Os três dizem em um som só, enquanto encaram com seus pares de olhos.
— Podem ir. — Dispensa Braeden.
Os três saem do cômodo e o outro caseiro vai chamar os outros moradores. Logo ele volta com três rapazes altos.
— Esses são Lazar, Cesaire e Adrien. — Widmer apresenta — Seus treinadores.
— Lazar treina Joaquim — O outro caseiro avisa.
— Muito prazer — Lazar diz com sotaque carregado, vai até meu irmão e aperta sua mão.
— Cesaire é o treinador do Franz — O caseiro mais jovem dita a frase.
— Bom te conhecer. — O olhar de Cesaire segue o de meu irmão, que segura em sua mão. O sotaque em sua voz parecia ser de outro lugar...
— Luther será treinado por Adrien — O velhote diz. Encaro meu treinador.
— É um prazer. — Sua voz também tinha sotaque, só que mais leve. Sua mão tinha toque suave e caloroso. Seu par de olhos me fitam.
Cesaire tem traços orientais, lábios grossos e nariz largo. Lazar tem sobrancelhas grossas, pele bronzeada e barba bem preenchida. Adrien tem a pele muito escura, olhos bem incisivos e ombros largos.
— Agora meninos, mostrem aos convidados seus aposentos — Pede Widmer.
Adrien acena para mim o seguir, e me leva por corredores, o único som no ambiente era o de seus passos. Quando chegamos, vejo que minhas malas já estavam lá. Só tinha uma cama, um lavabo interno e uma escrivaninha com um assento, as paredes de madeira antiga, um tapete como única decoração, sem graça pousado no chão, e nenhuma identidade.
— Seu treinamento começa amanhã. — A voz grave dele soa acentuada pelo sotaque, seus olhos lançam em mim um toque — Bem cedo, não se atrase. E lembre-se que não pode desistir até chegar ao fim. Te vejo na manhã. — Se retirou com seus olhos negros, tão escuro que não se via a pupila do orbe.
Treinar para que? Pensei. Proteger o Lars, ele é meu protegido. Proteger do que? Refleti.
Algo me dizia que eu estava esquecendo alguma coisa, mas o cansaço estava me dominando.
Quando deite na cama, contei alguns carneirinhos e logo o cansaço me fez dormir. Minha mente começou a vagar por uma paisagem nebulosa que imaginei que fosse um sonho. Nele vi um vulto, e o som de sua voz.
“Me ajude” soou a voz infantil, e o vulto julgo que fosse um corpo. Uma criança.
“ Me salve” pronunciou a voz de infante, mas era outra voz. Eram dois pequenos?
“Nos salve por favor” os dois disseram juntos, em um som agudo. Era um sonho? Ou era real?
Salvar de quem? Pensei. Mas os vultos tremularam até sumirem antes que pudesse ver o rosto. Depois disso acordei. Parecia tão real e não me esqueci do sonho.
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