Declínio Das Trevas
9 Pesadelos são Memórias que Deveriam Morrer
– Definitivamente não consigo. – Daniel disse, devolvendo cinco peças brilhantes e de cores estranhas ao barão. – Você tem certeza que compunham um orbe?
– Que pergunta tola! – Alexander impacientou-se. – Desculpe-me, rapaz, trabalhei muito hoje. Não são iguais às peças que você encontrou na escavação?
– São, mas não faço mais ideia de como montá-las. Simplesmente evaporou da minha mente. Foi-se da mesma forma que veio... – Daniel explicou, lembrando da noite em que havia lido a carta com o convite de Alexander. De alguma maneira, a mensagem inspirou um sonho que o ensinou como montar as peças do orbe encontradas na Argélia. – Talvez se eu sonhasse de novo... Essa orbe que você tem não possuí mais guardião, não é? Como que ela quebrou?
– Um experimento que não funcionou corretamente. – Alexander disse. – Acredite, fui jovem e tolo um dia.
Daniel sorriu. Estavam acomodados em poltronas de veludo vermelho, postas diante da lareira da sala de visitas, toda decorada com troféus de caça. Olhou de soslaio para o barão, tentando imaginá-lo quando jovem. Sem dúvidas ele ainda era um homem carismático e, se possuísse a mesma idade que Daniel, de certo sua aparência seria irresistível, capaz de seduzir qualquer donzela.
– Quer ir deitar-se? – Alexander perguntou, surpreendendo Daniel no ato de observá-lo.
– Ahn? Quero dizer... Sim. Peço suas desculpas, meu barão!
– Pelo que? – Alexander perguntou, fazendo Daniel desesperar-se, pois não sabia ao certo se havia alguma malícia nas palavras do barão.
– Nada. Boa noite. – Daniel respondeu, vendo o homem partir da sala após dizer “igualmente”. O jovem repreendeu-se por uma série de pensamentos inadequados. Se Alexander fosse jovem, seríamos dois rapazes confinados em um castelo estudando o ocultismo e as ciências alquímicas, que são chamados de adoração a Satã pelo povo Europeu. Considerou que os europeus, ainda que estivessem no auge da evolução tecnológica, talvez fossem muito obtusos sobre muitas coisas. Em sua curta estadia na África, conheceu um valente povo do deserto cujas mulheres eram líderes religiosas e políticas. Também ouviu histórias de outros povos, que viviam de maneiras diversas, dos seguidores do Profeta às tribos negras do Congo. Lembrou também que os próprios europeus já haviam sido muito diferentes. Um tom rosado tingiu sua face quando vieram à memória leituras que havia feito sobre o povo grego, em traduções encontradas por acaso em uma caixa escondida sob pilhas de documentos empoeirados nos arquivos da universidade. Considerou que por vezes o tratamento entre ele e Alexander remetia ao cortejo refinado que havia entre estudantes e mestres na antiga Atenas. Não que seja dessa maneira entre nós, é claro. Percebeu que havia levado os próprios pensamentos a uma cilada e isso não era nada bom.
Sacudiu a cabeça, tentando afastar tais ideias. Estava às voltas com o perigo iminente, por isso não devia perder tempo formulando tolices. Alexander havia dito mais cedo que a Sombra estava prestes a invadir Brennenburg e nada poderia conter sua caçada pelo ladrão do orbe. Daniel sabia bem disso, porque os pesadelos haviam intensificado e mal conseguia dormir agora. Deve ser a falta de sono que induziu meu cérebro a ver alguma malícia nos modos de Alexander. Ele é um homem muito gentil e fez muito por mim. Seria injusto temer que ele seja mal intencionado e um pederasta.
Daniel caminhou de volta para o quarto de hóspedes, agradecido por Alexander ter ordenado que as lamparinas do corredor fossem mantidas acesas. Daniel tinha muita vergonha de admitir, mas possuía um pavor terrível do escuro que apenas era agravado pela maldição do orbe. Era até engraçado que fosse um arqueólogo, pois parte de seu trabalho era entrar em túneis, cavernas e templos sem iluminação alguma. Sua escolha profissional podia ser vista como uma forma de enfrentar esse medo, embora a principal razão de tal escolha fosse Hazel. Ela havia dito que gostaria muito de viajar pelo mundo, então Daniel prometeu que faria isso por ela e anotaria cada detalhe em seus diários e os enviaria para ela. Seria como se tivéssemos viajado juntos.
– Pobre Hazel. – Daniel murmurou, acomodando-se na confortável cama. Antes de fechar os olhos, considerou que se Hazel estivesse melhor dali a um ano, poderia trazê-la para Brennenburg. Alexander havia dito alguma coisa sobre sentir falta de jovens em sua casa, então certamente iria gostar de Hazel e ela ficaria absolutamente encantada em hospedar-se em um castelo medieval.
Ambos tinham lindos olhos verdes, iguais aos da falecida mãe. Brincavam de espelho. Ela ria a cada gesto e careta que o irmão imitava. Então ela cansou do jogo, deitou na cama e tirou o livro que guardava cuidadosamente sob o travesseiro.
“Leia para mim, Daniel.”
Mas uma mão pesada bateu na porta do quarto das crianças. Uma voz trôpega os chamou, reclamando que causavam todos os problemas e despesas daquela casa. Daniel lançou-se contra a porta, tinham posto uma cadeira apoiada no trinco que estava prestes a ceder. Hazel abraçou o livro, apagou a luz e correu para dentro do guarda-roupas.
“Fique segura, Hazel.”
Ele rolou pelo chão quando um chute fez a porta escancarar-se. Sentiu o peso da cadeira sobre seu corpo. Empurrou o móvel e virou-se, queria fugir, fazer o homem persegui-lo pela rua e esquecer que Hazel existia.
Mas o homem pisou nas costas do garoto, antes que ele pudesse levantar. Ele xingou e ignorou os apelos fraquinhos. “Por favor, pai, não!”
Daniel era machucado, várias e várias vezes, em um contínuo sádico. Sempre diante dos olhos de Hazel. Ela chorava e tinha medo, olhos brilhantes de criança espiando o irmão por trás da madeira fina do guarda-roupas. Dois pares de brasas na escuridão. E mais chutes, tapas e dor.
“Que ele não encontre Hazel.” ele repetia. “Ela morreria.” Por isso deveria assumir para si todo castigo e dor. “Me machuque mais, esqueça que ela existe.”
A Sombra vinha e rasgava, tragava tudo em um redomoinho feito de toda a ausência de luz. Encontraram o corpo do professor completamente desfigurado e a polícia britânica olhava para Daniel como se ele fosse uma aberração, quando ele gaguejava que não sabia o que estava acontecendo, embora sempre tivesse sido o último a conversar com as vítimas.
“Que ela não me encontre.” repetiu, fugindo das garras afiadas. Elas cortavam e cortavam, querendo dissecar esse pequeno réptil. “Eu não sou isso, sou um humano. Meu nome é Daniel.”
Venha para os braços da morte, Daniel.
“Não!”
Pior Daniel, você vai ficar preso em um lugar muito, muito escuro. E lá só tem medo e dor.
O olhos de Hazel brilharam por trás da porta do armário. Ela estava vendo tudo que acontecia com ele, apesar da escuridão. “Não, Hazel!" Era tarde demais, ela havia sido vista. Olhos famintos voltaram-se para a menina, abandonando o corpo lacerado de Daniel.
Ele gritou. E gritou mais. Apertou as unhas contra a pele até sentir que estava vivo e no mundo real. Ouviu a porta do quarto ser aberta e braços apertarem seu corpo, dizendo que parasse de se machucar.
Daniel cedeu totalmente ao abraço, desabando contra o corpo de Alexander. Contou ao barão sobre memórias que nunca havia revelado a nenhum de seus colegas na faculdade.
– Ele bebia tanto... Começou com esse hábito depois que ela morreu. Ele não conseguia aceitar e culpava Hazel, porque nossa mãe ficou muito debilitada após o nascimento dela. – Daniel contou, mortificado. – Só que minha irmã sempre foi muito pequena e fraca, Alexander. Se ele encostasse nela... Era melhor que batesse em mim. Que machucasse a mim... Eu fiquei tão feliz no dia em que ele morreu e nos deixou em paz!
O barão concordou com o jovem e Daniel sentiu-se grato pela estranha forma que Alexander demonstrou sentir pelo passado trágico, porém sem mostrar-se penalizado:
– Daniel, se você não aprender a lidar com esses seus traumas, será tão fácil para a Sombra romper as defesas...
– Eu não consigo, Alexander. Eu não sou forte como você. – Daniel soluçou, constrangido por expor o barão a um momento de tamanha fraqueza. – Deve haver algo, alguma coisa que me ajude a dormir sem sonhar.
– Hum, talvez... – o barrão murmurou, coçando o queixo. – Há algo que pode te ajudar, meu caro. Mas saiba desde já que é apenas uma máscara para seus demônios interiores, estes que a Sombra tão maliciosamente não hesita em usar.
– Por favor. – Daniel disse, não escondendo mais as lágrimas do outro homem.
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