Decifrando seu coração

3 Terça-feira - A borboleta...


Notas iniciais
Oi de novo, pessoal! Bom, primeiramente desculpem a demora. Esse capítulo exigiu bastante de mim, tanto simbolicamente quanto concretamente falando. Eu tive um conceito inicial para ele, que logo depois foi descartado devido a uma lindíssima fan art que eu vi. Nunca na minha vida eu sofri tanto escrevendo um capítulo como esse, pois não importa quantas vezes eu tentava, não conseguia expor fielmente a emoção que eu gostaria de passar a vocês. Não me parecia estar certo... Mas cá estou eu superando as adversidades e entregando a vocês o melhor do melhor, como de costume. Por isso mesmo, antes de começarem a leitura, eu gostaria de deixar meus mais sinceros agradecimentos por toda a paciência, compreensão e apoio tanto pela minha pessoa como por essa história que vocês gostaram tanto. E qual melhor forma de retribuir, se não presenteá-los com mais um capítulo dessa fic deliciosa? Dito isso, sem mais delongas, desejo a todos uma boa leitura!

Ao que tudo indicava, o choro era uma reação humana natural que ocorria sempre que fortes emoções se apossavam da pessoa, tais como: o luto, o medo e a saudade. Até onde suas buscas o permitiram chegar, ele sabia que Rayne Ames, além de constituir um dos 8 atuais visionários divinos também era o irmão mais velho de Finn. Entretanto, devido ao alto nível de exigência que aquela ocupação exigia de seus membros no ministério da magia, era apenas o natural que Rayne permanecesse mais e mais distante de casa, resultando que sua interação para com o irmão mais novo se tornasse praticamente nula.

Era por isso que Finn havia chorado daquele jeito no dia anterior? Embora não fizesse ideia das motivações do mais velho, não poderia negar que o vínculo existente entre eles era muito forte e não poderia ser quebrado tão facilmente com algo tão superficial como a distância. Não, aquela conexão fraterna estava longe de ser algo frágil, porém, ao mesmo tempo, parecia ser tão dolorosa ao passo que reconfortante para o mais novo.

Algo forte e leve, que protegia e machucava simultaneamente? Por que alguém iria se sujeitar a sentir algo tão contraditório como isso? E, mais importante, por quê ele, Carpaccio, parecia se preocupar tanto com aquele rapaz a ponto de ocupar sua tarde inteira pesquisando em suas enciclopédias sobre um tema tão distante e supérfluo para si como as emoções humanas? Por que ele não conseguia simplesmente esquecer a expressão que Finn demonstrou ao encarar aquele bendito quadro? E o que diabos era esse aperto que estava sentindo em seu peito toda vez que se recordava do triste semblante de Finn? Parecia que quanto mais se questionava a respeito disso, mais patética sua situação ficava.

Nunca, em toda sua vida, ele se preocupou com outra coisa que não fosse sua própria sobrevivência naquele frígido e solitário campo de batalha chamado mundo real. Até então, sempre foi ele contra o mundo e se era verdade que os mais fortes prevaleciam sobre os mais fracos, então essa era uma luta que ele definitivamente não iria perder.

Coisas como afeto e compaixão eram tão longínquas quanto desnecessárias em seu cotidiano. Afinal, a ovelha que você cuidava hoje poderia se tornar seu lobo amanhã. Não era de se espantar que altruísmo não fosse seu forte. Tudo aquilo não passava de pura inocência e estupidez pela ótica de Carpaccio. Algo que ele jurou a si mesmo que jamais cederia à tentação. Durante anos ele se saiu perfeitamente bem e cada vez mais sua concepção acerca da vida se mostrava verdadeira para si. Tudo o que conquistara até então foi tão somente devido aos seus esforços. Nunca precisou contar com a boa vontade de terceiros para isso e não seria agora que precisaria. Mas por que, as coisas tinham que ser diferentes com Finn? Seria ele uma exceção à regra? Se sim, por qual razão?

Quanto mais pensava no rapaz, mais a sua curiosidade era instigada. Nunca acreditou naquele famoso dizer dos “opostos se atraem”, mas definitivamente alguém tão diferente de si como Finn estava fazendo um ótimo trabalho a ponto de tirar seu sono por questões aparentemente tão triviais como essas. Sim, Finn Ames de fato era intrigante para dizer o mínimo.

“Que tipo de feitiço você lançou sobre mim, Finn Ames?” – Tal reflexão soava como uma piada clichê e de mal gosto se não estivesse falando tão sério.

De repente, sua linha de raciocínio foi cortada por um ruído insistente retumbando no interior de seu quarto. Dando-se por vencido, levantou-se da cadeira de onde estava sentado em direção à fonte do inusitado som e para o seu espanto, estava defronte da última coisa que esperaria encontrar dentro de seus aposentos: uma pequena e gravemente ferida borboleta a bater suas asas freneticamente contra o chão.

— Como você entrou aqui? – Questionou-se o castanho-avermelhado visivelmente confuso com o que estava a presenciar naquele exato momento. Ele não se considerava uma pessoa desleixada, pelo contrário! Sempre que havia de deixar ou de retornar à noite ao seu dormitório, lembrava-se de trancar sua porta devidamente e o mesmo poderia ser dito de suas janelas. A única explicação possível era que o inseto teria entrado junto dele em seu quarto, sem que Carpaccio se desse conta disso.

“Que esperta você é...” – Divagou. Não poderia dizer que era um aficionado por borboletas, mas aquela em particular chamou sua atenção. Mesmo com seu corpo pequeno e frágil e com uma de suas asas quase que completamente arrebentada, o pequeno hexápode lutava bravamente pela sua vida, resistindo a todas as adversidades que o ambiente lhe proporcionava e, de alguma forma, ela invadira o quarto de Carpaccio, sem que ele se desse conta, tal qual Finn invadira seus pensamentos sem ter sido convidado e estava pouco a pouco estabelecendo sua morada ali.

Aliás, quanto mais se atentava aos detalhes, mais percebia o quanto aquela pequena e delicada borboletinha se assemelhava ao rapaz dos olhos esmeraldas. Suas asas possuíam uma coloração preta com detalhes em amarelo. Uma combinação belíssima em sua mais humilde opinião.

Mas espere um pouco, ele acabara de admitir que Finn era belo? Não, não! Isso era tolice! Finn era um humano e não uma borboleta! Isso por si só já fazia uma baita diferença, não é?

Afastando tais devaneios, voltou sua atenção novamente ao pequeno inseto e ao notar que aos poucos a frequência com a qual suas asas batiam foi reduzindo, percebera que aquilo era o prenúncio de que tão logo ela morreria. Aquilo de alguma forma parecia tão familiar para si. De súbito, seus pensamentos o levaram novamente para o fatídico dia em que Finn o confrontou. Não precisava ser um gênio para ter noção de que qualquer pessoa comum já teria cedido por muito menos, mas o rapaz o surpreendeu. Mesmo com o tanto de sangue que estava a perder, ainda assim ele não desistia. O mesmo se poderia dizer da borboletinha à sua frente. Não sabia o que teria ocorrido a ela para que estivesse nesse estado agora, mas de fato ela era uma verdadeira guerreira assim como Finn o era.

Estranhamente, ao se recordar da cena o mesmo aperto no peito, acompanhado de uma sensação de angústia tornaram a acometê-lo e embora não compreendesse ainda a razão para tal, ele sabia que não queria deixar o pequeno inseto perecer ali.

Dotado de uma delicadeza que nem mesmo ele sabia que possuía, agachou-se e esticou seus braços de forma que suas mãos estavam ao alcance do hexápode, que assustado com a proximidade repentina começou a tremer.

— Não tenha medo, pequenina, não vou te machucar. – Disse calmamente após ter conseguido segurar a borboleta com jeito em suas mãos.

Embora não fosse um especialista, recordou-se de algumas informações que chegara a estudar um dia sobre as borboletas. Mesmo que suas asas estivessem danificadas, era possível recuperá-las quase que totalmente desde que alguns cuidados para as conservar fossem mantidos.

Assim, com uma mão Carpaccio passou a segurar a borboleta e com a outra catou sua varinha, recitando o feitiço de materialização em seguida fazendo com que um pequeno pote de vidro, alguns cubos de açúcar e uma jarra de água surgissem sobre sua mesa. Com cuidado, abriu o pote acrescentando um pouco de água e logo após colocou os cubos de açúcar e a borboleta dentro, respectivamente. Antes de vedar o recipiente, utilizou sua faca para produzir pequenos furos sobre a tampa, permitindo que o ar pudesse passar livremente. Por fim, tampou o pote, colocando-o em uma região mais arejada e longe do calor excessivo no quarto, sobre uma de suas estantes.

— Não se preocupe. Eu vou cuidar de você... – Se era ou não ridículo conversar com uma borboleta, Carpaccio sinceramente não poderia se importar menos. Afinal, a pequena e enigmática criaturinha lhe passava uma estranha sensação de leveza e tranquilidade. Algo que há muito ele não sentia, se é que alguma vez em toda a sua existência já chegou a experimentar tal sensação. Não poderia doer mantê-la por perto por um tempinho a mais, não é mesmo?

O badalar do relógio em sua parede anunciando que o horário de sua reunião com Finn se aproximava foi o suficiente para fazê-lo retornar à realidade. Juntou todos os seus materiais e depois de ter dado uma última olhada na pequena borboleta, deixou seu quarto trancando-o em seguida e foi de encontro com sua dupla no mesmo lugar do dia anterior.

~*~

— Carpaccio...

— Hmm? – Murmurou o maior enquanto estava sentado no banquinho a anotar os relatórios daquela pesquisa.

— Sempre sou eu materializando aqui... por que você não tenta também? – Questionou Finn não escondendo a curiosidade em seu tom de voz.

De tudo o que ele tinha ouvido falar a respeito do castanho-avermelhado, não fazia sentido algum ele se negar a praticar uma magia, por mais simples que ela fosse. Dizer que era ruim nisso ou que sua magia era vergonhosa não eram justificativas plausíveis, haja vista que sua técnica beirava a perfeição, sem falar de seu vasto conhecimento acerca de vários assuntos era igualmente invejável. Então, por que ele não queria treinar ali com Finn agora?

De alguma forma, Carpaccio temia que essa pergunta fosse feita em algum momento. Suspirou em derrota e, embora falar sobre aquilo abertamente com seu “inimigo” não o agradasse, aquele era um fardo que o estava incomodando desde o dia anterior e sentia que precisava externar aquilo ou se tornaria algo insuportável mais adiante.

— Porque, diferente de você, eu não tenho a quem me apegar... – Retrucou e, não intencionalmente, seu tom soara levemente sorumbático.

Finn, após ouvir essa resposta, recordou-se do quadro de seu irmão que materializou na segunda-feira. Em sua concepção, era apenas natural que o estudante da casa Orca desconhecesse coisas como afeto, carinho e amor, uma vez que fora privado dessas coisas desde seus mais tenros anos de vida. Então, fazia total sentido ele ser tão apático e inexpressivo.

Contudo, algo parece ter mudado em Carpaccio, pois jamais iria imaginar que algo tão distante e aparentemente “inútil” para alguém assim poderia ter despertado sua curiosidade, chegando ao ponto de perturbá-lo em um nível pessoal assim como o tom de sua voz o denunciava.

Por mais que o maior provocasse em si uma sensação de medo avassaladora, não pôde evitar de se compadecer do emaranhado de confusão que estava a sua cabeça naquele exato momento. Ele sabia que poderia vir a se arrepender amargamente depois, mas seu maldito coração falava mais alto que sua mente e agora ele sentia que o certo seria ajudá-lo a desvendar esse labirinto que era as emoções humanas.

— Carpaccio, a verdade é que não vejo meu irmão com frequência desde a infância. Então, a saudade foi a única coisa que restou a qual poderia me apegar, entende? Eu não sei se isso vai vir a mudar algum dia, mas tenho esperanças de que nos encontremos novamente e compensemos todo o tempo perdido. – Proferiu o menor fazendo uma breve pausa para controlar o choro que estava vindo por ter se lembrado do mais velho novamente. Após um longo suspiro e fechando os olhos, continuou:

— Nunca é tarde demais para mudar e até nosso último suspiro de vida muita coisa pode acontecer ainda. Não tenha pressa, um dia você ainda vai encontrar alguém especial assim. Ou talvez já a tenha encontrado, só não percebeu ainda! E tudo bem, leve o tempo que precisar para digerir essas informações e se encontrar. E... sempre que precisar desabafar, estarei aqui contigo... – Finalizou. Nem mesmo Finn sabia de onde teria vindo tanto altruísmo, mas ao abrir novamente seus olhos foi contemplado com uma visão surpreendente.

— C-Carpaccio, você...está chorando?

Ao ouvir a indagação, o castanho-avermelhado levou suas mãos às maçãs de seu rosto constatando a presença das lágrimas insistentes que estavam a cair de seu rosto.

“Então, isso é chorar... é uma sensação desagradável, mas estranhamente satisfatória ao mesmo tempo... Finn, você costuma se sentir assim com frequência?” – Refletiu enquanto enxugava sua face.

— Certo, eu vou tentar. – Pronunciou o maior enquanto se levantava do banco e se dirigia até Finn.

Apegando-se ao que sentiu após ter sido motivado pelo discurso do menor, recitou o feitiço de materialização e...

“O que? Por que ela apareceu aqui agora?”

— Nossa, ela é linda! Não sabia que gostava tanto de borboletas assim, Carpaccio... – Disse Finn embasbacado com a beleza da borboletinha dentro do pote de vidro segurado por Carpaccio.

— E não gosto, mas essa está precisando de alguns cuidados. – Replicou o castanho-avermelhado apontando para a asa danificada do pequeno inseto. Um semblante preocupado se apossava de seu rosto.

Ele não conseguia entender. Quando recitou o feitiço, seus pensamentos sequer o haviam levado até a borboleta em seu quarto, pelo contrário! Sua mente se concentrava justamente em Finn, sobre como se sentia estranhamente acolhido e compreendido e, principalmente, sobre como ele gostaria de poder...protegê-lo?

Seria, então, a borboleta a forma com a qual seu subconsciente associava seus sentimentos ao pequeno rapaz dos olhos esmeraldas? Mas o que isso significava, afinal? Ele estava cada vez mais confuso com tudo isso.

— Espera, quer dizer que você a salvou? Isso é tão nobre da sua parte... – Proferiu o estudante da casa Adler, dessa vez dirigindo sua admiração ao maior.

—Não é nada demais, todos poderiam ter feito o mesmo! – Exclamou o castanho-avermelhado um tanto envergonhado por estar tendo seu segredo revelado ao menor.

“Não, não poderiam...” – Refletiu o menor, enquanto seu coração não pôde evitar de falhar uma batida pela doçura que o maior escondia bem nas profundezas de seu ser.

Muitos dos que se diziam ser “amantes das borboletas” não teriam a paciência e a menor sensibilidade de restaurar uma criatura tão bela e pura como essa. Então, era uma atitude realmente admirável, a qual pouquíssimos estariam dispostos a realizar. Finn sabia muito bem disso e por isso mesmo, algo aparentemente “pequeno” assim já dizia muito mais sobre a verdadeira essência de Carpaccio do que ele poderia imaginar.

Naquele instante, algo também pareceu mudar dentro de si. Repreendeu-se mentalmente pela imagem do monstro desalmado e completamente desprovido de emoções que outrora atribuíra a Carpaccio, pois a cena que estava a testemunhar no presente momento era a prova indiscutível de seu engano.

Ali, bem na sua frente, estava uma alma verdadeiramente gentil apenas esperando ser descoberta por alguém e Finn não desejava outra coisa, se não descobrir mais da gentileza de Carpaccio e todas as belas cores que ele estava a esconder do fundo de sua alma.

Notas finais
Sim, esse capítulo foi carregado de simbolismos, um dos motivos pelo qual ele demorou um tantinho mais do que os dois últimos para ser lançado. Contudo, justamente pelo impacto que ele tem na história como um todo, torna ele um capítulo muito especial. No geral, foi uma experiência super bacana escrevê-lo e não estou exagerando quando digo que talvez seja o meu capítulo favorito da fic inteira. Enfim, muito obrigado por ter lido até aqui e até o próximo capítulo! ♥