Decifrando seu coração
4 Quarta-feira - Amigos ou...?
Notas iniciais
"Como será que anda a recuperação da pequena?” – Divagou o rapaz dos olhos esmeraldas enquanto estava a lanchar no refeitório durante o intervalo pós-aulas com seus amigos.
Em toda sua vida, Finn nunca se deparara com tamanha sensibilidade e ternura como a de Carpaccio. Era como se a essência verdadeira sua alma estivesse clamando desesperadamente por ajuda, como se um fardo sufocante o estivesse impedindo de ser quem ele realmente é. De certa forma, também era irônico e até mesmo fofo que alguém com uma postura tão imponente e intimidadora como a do castanho-avermelhado agisse como uma criança assustada e indefesa em se tratando das próprias emoções.
Só de se recordar do brilho vívido e belíssimo que refletiu dos olhos de Carpaccio ao encarar o pequeno inseto, os batimentos de seu coração tornaram a se acelerar e um frio na barriga começou a subir. Ah, ele estava completamente hipnotizado por aquela visão e esperava ver mais dela em suas próximas reuniões em dupla.
Contudo, não poderia evitar de sentir uma pontada de ciúmes da borboletinha por estar recebendo toda a atenção de Carpaccio. No fundo, ele desejava que toda aquela ternura e devoção fossem direcionadas a si. Era uma sensação inexplicável, mas a cada segundo que passava longe dele parecia uma dolorosa eternidade, deixando-o ainda mais ansioso para que pudessem se reencontrar.
De repente a ideia de manter uma distância de 1 quilômetro daquela pessoa, que pouco a pouco estava encontrando o seu cantinho dentro de seu coração, parecia absurda. Finn não conseguia e nem gostaria de sequer imaginar um futuro em que viessem a se separar.
Um suspiro involuntariamente escapou de seus lábios. Odiava a incerteza que pairava no ar sobre o que seria deles após aquela pesquisa. Já estavam no meio da semana e com destreza que o projeto era conduzido, não restavam dúvidas de que até o fim daquela semana tudo chegaria ao fim. Isso queria dizer que eles parariam de se ver? E, afinal, o que Finn era para Carpaccio? Apenas um parceiro de trabalho? Um amigo? Ou... algo mais?
Ah, ele temia saber a resposta para aquilo. Pelo restante do tempo que estariam juntos, prometeu a si mesmo não estragar o que quer que estivesse florescendo entre eles ali.
“Tempo, seria demais pedir para que você parasse pelo menos um pouco?” – Refletiu com pesar.
— Finn...?
O chamado repentino de um certo azulado ao seu lado o fez cessar seus pensamentos acerca do castanho-avermelhado e voltar à realidade. Seus 4 amigos o encaravam preocupados com a quietude excessiva do rapaz.
— Desculpe, Lance, do que você estava falando? – Questionou de forma fática em seguida.
— Nada por enquanto, mas hoje você está mais calado do que o normal. Eu me pergunto o que está acontecendo... – Respondeu o maior esboçando seu típico semblante sério.
— Certeza de que aquele monstro o ameaçou de novo! – Exclamou Dot com seus punhos cerrados. O desgosto era tão evidente em seu tom de voz, que sequer se dava ao trabalho de proferir o nome do castanho-avermelhado.
Sim, os amigos de Finn também estavam à par do trabalho em dupla que ele estava desenvolvendo com Carpaccio e por mais que agradecesse todos os dias por estar envolto de pessoas tão calorosas, receptivas e compreensivas como eles, teve de segurar a sua vontade de desferir um soco no ruivo após ouvi-lo chamar o seu parceiro daquele jeito. Uma raiva fervente começou a crescer dentro de si, enquanto seu olhar se tornava mais sombrio a cada segundo que se passava ali naquela mesa.
— Espera, aquele assassino desumano te feriu de novo, Finn? – Dessa vez foi Lemon a indagar, enquanto se levantava de seu assento e se inclinava sobre a mesa na direção do rapaz dos olhos esmeraldas. Suas mãos vagavam livremente pelo seu rosto em busca de algum resquício de machucados.
— Não tenho a menor dúvida! Se ele deixasse de existir, faria um favor ao mundo... – Logo após tais palavras terem saído da boca de Dot, uma mão foi de encontro à sua face, resultando em um tapa estrondoso, fazendo-o quase ir ao chão. Vislumbrando esse comportamento anormal, Lemon tratou de retirar suas mãos dele, tornando a sentar-se em seu lugar, visivelmente aterrorizada.
— Meça as suas próximas palavras, Dot, ou eu não responderei por mim... – Proferiu então Finn. Naquele momento, uma aura emanando determinação e coragem, capaz de silenciar até mesmo os espíritos mais rebeldes daquele mundo o envolveu. Era quase como se estivessem defronte de Rayne ali.
“Não, é um tom ainda mais penetrante e territorialista... é quase como se estivesse disposto a se sacrificar pelo que é mais precioso e sagrado para ele. Finn, não me diga que você...” – Ponderava calmamente Lance, até ter sua linha de raciocínio novamente interrompida pelo bradar do ruivo.
— O que diabos há de errado com você?! Por acaso já se esqueceu do que ele fez?! Então por que o defende agora como se vocês fossem os melhores amigos?! A não ser que... não! Não me diga que está apaixonado por ele! – Redarguiu Dot indignado, enquanto massageava a sua bochecha no lugar onde foi estapeado.
— ... e se eu estiver? Por acaso algum de vocês já se deu o trabalho de o conhecer melhor? Não! –Exclamou Finn, lutando para encontrar forças dentro de si para segurar as lágrimas de caírem. Recusava-se a chorar naquele instante na frente de seus amigos, mas estava se tornando uma tarefa quase impossível. As palavras de Lemon e Dot cortavam seu coração como navalhas e saber que ele mesmo já pensara assim sobre o castanho-avermelhado só fazia com que doesse ainda mais. Com um longo suspiro, conseguiu então prosseguir:
— Pensei que como amigos iríamos nos apoiar nos melhores e nos piores momentos, mas vejo que me enganei...
Após ter proferido tais palavras, um aperto esmagador pareceu atingir seu peito. Não suportando mais estar ali, levantou-se e fugiu o mais rápido que suas pernas o permitiam sem nem ter olhado para trás.
— Tsk, ótimo! – Murmurou o ruivo arrependido por tê-lo afugentado.
Arrependimento esse que durou pouco mais de 5 segundos até sentir um forte puxão em sua orelha.
— Ai! Até você quer me acertar agora, Siscon?! – Esbravejou Dot agora massageando a sua orelha esquerda levemente avermelhada pela puxada do azulado.
— E por que eu não deveria? Você claramente deve desculpas ao Finn! — Repreendeu Lance.
— Desculpas? Hah! Caso não tenha percebido, nosso amigo pode estar correndo perigo ao se envolver com alguém como ele! Como você esperava que eu reagisse ao descobrir isso? – Replicou o ruivo e, embora seu tom de voz denotasse raiva, sua preocupação pelo rapaz dos olhos esmeraldas era genuína.
Ele, assim como todos o restante do grupo de amigos sentados àquela mesa fariam de tudo para vê-lo sorrir sempre. Era apenas natural que qualquer um trouxesse sofrimento àquela alma pura se tornaria automaticamente um inimigo para eles. Lance compreendia bem isso e, por mais que estivesse igualmente preocupado com o menor, parecia enxergar algo que ninguém mais dentro daquele grupo conseguiu captar.
— Entendo como está se sentindo, mas precisamos ter um pouco de fé no Finn também. Ele deve ter seus motivos e se o coração dele o escolheu, não temos outra opção a não ser respeitar a sua decisão. – Disse calmamente o azulado, enquanto desviava o seu olhar para Mash, que até então não se pronunciara sobre o assunto em pauta e desfrutava de um dos seus preciosos profiteroles.
Um tímido sorriso surgia em sua face enquanto uma de suas mãos foi de encontro à maçã direita do rosto do moreno limpando as migalhas do doce que estavam presas ao seu rosto. Tal ação fez com que o fisiculturista ruborizasse e fechasse seus olhos pelo embaraço, uma reação incrivelmente fofa na humilde opinião do azulado.
— Pessoalmente, eu simpatizo com ele. Afinal, o amor pode ser imprevisível... – Complementou Lance por fim depositando doces carícias no rosto de Mash com seu polegar.
— Com licença, mas o que foi que eu perdi aqui?! – Interpelou Dot confuso com tudo o que estava acontecendo naquele dia e se tinha algo que ele odiava acima de tudo era ser o último a ficar sabendo das coisas.
~*~
Enquanto isso, já nos corredores, Finn entregou-se enfim ao choro que estava preso em sua garganta. Ele não queria ter dito nada daquilo aos seus amigos, não depois de tudo o que passaram juntos, mas ao mesmo tempo não conseguia simplesmente ficar parado apenas aceitando as ofensas rasas e injustas sendo dirigidas à Carpaccio de uma forma tão covarde como aquela, sem que ele sequer estivesse ali para poder se defender.
“Se ao menos eles tivessem a chance de ver o que eu vi, não diriam essas coisas horríveis sobre ele...” – Ponderava enquanto as insistentes lágrimas teimavam em cair de seus olhos embaçando sua visão por completo.
O estado de transtorno emocional era tanto que não fazia a menor ideia de onde suas pernas o estavam levando numa velocidade tão estúpida como aquela, ainda por cima. Não era de se espantar que no segundo seguinte tenha vindo a trombar violentamente contra o corpo de alguém no meio dos corredores devido ao estado em que se encontrava.
Pela frágil constituição de seu corpo, o impacto facilmente o teria feito ir de encontro ao chão, bater sua cabeça e de brinde o levaria a um coma, isto é, se um par de braços não houvesse sido ágil o suficiente para agarrá-lo naquele mesmo instante.
— Finn! – Ah, aquela voz tão monótona, apesar de exaltada devido ao calor do momento, ele reconheceria em qualquer lugar...
— Carpaccio... – Sim, o próprio. Só de ter pronunciado aquele nome foi o suficiente para seu coração involuntariamente acelerar o ritmo, mesmo que aquele não fosse o momento mais apropriado para tal.
Contudo, o contrapeso desproporcional produzido pelo corpo do maior fez com que ele acabasse caindo para trás, puxando Finn consigo em um efeito gangorra.
Seria uma cena cômica, se não fosse suficientemente embaraçosa. Finn agora estava em cima de Carpaccio. Sua pelve estava sobre a cintura do maior, fazendo com que seus tórax estivessem em contato um com o outro e seus rostos apenas a pouco mais de 5 centímetros de distância. Um rubor não falhou em se instalar em ambas as faces devido à proximidade repentina.
Ah, como ele gostaria de descobrir como seria a sensação de ter aqueles lábios unidos aos seus naquele exato momento. A tentação era forte, mas Finn resistiria pelo bem da sua amizade com Carpaccio... se é que ele poderia dizer que o sentimento que nutriam um pelo outro poderia ser chamado de amizade.
— Desculpa... – Pronunciou-se enfim o menor, envergonhado, desviando seu olhar dos lábios do castanho-avermelhado.
— Está se desculpando por que, se fui eu quem nos derrubei? – Retrucou o estudante da casa Orca.
— Mas isso não teria acontecido se eu não tivesse me chocado contra você, não é?
— Agora que mencionou isso, para onde você ia com tanta pressa? Aconteceu alguma coisa? – Questionou Carpaccio levando uma de suas mãos ao rosto do rapaz de sardas em sinal de preocupação genuína, o que não passou despercebido por Finn e isso foi o bastante para reascender a chama da paixão em seu coração por finalmente estar recebendo toda a atenção e o carinho daquela pessoa, que tão fervorosamente desejava.
De alguma forma, o castanho-avermelhado nunca cessava de o impressionar. Até então, no decorrer dos últimos dias, o maior nunca tentou fazer algo para machucá-lo. Na verdade, todos os momentos pelos quais passaram juntos o fizeram se sentir estranhamente acolhido e compreendido. Não que não pudesse contar com seus amigos, mas era um tipo de carinho diferente, algo especial, algo mais... íntimo. Algo que ele só poderia ter com Carpaccio.
— É uma longa história... — Murmurou Finn. Pouco a pouco ele percebia o quão incompreendido Carpaccio realmente era e no momento, nada poderia doer mais do que se recordar do quão ignorante e infeliz foi um dia compactuar com aquela visão distorcida que anteriormente atribuíra ao maior.
— Sou todo ouvidos. — Insistiu Carpaccio, determinado a extrair o mínimo dos detalhes sobre o que foi capaz de deixar Finn tão perturbado como estava agora.
— Ahaha, não tenho opção, né? – Respondeu o rapaz dos olhos esmeralda não disfarçando a risadinha pelo gesto adorável do castanho-avermelhado, na sua concepção.
— Exatamente! – Exclamou o castanho avermelhado em resposta e com isso Finn tornou a relatar os últimos acontecimentos pouco antes do seu encontro inesperado com Carpaccio, omitindo, obviamente, sua paixão insurgente pelo seu parceiro de trabalho.
[...]
— Entendo. Não posso culpá-los por pensarem assim de mim. Não tenho a melhor das reputações, afinal. Já me acostumei com isso. – Retorquiu o estudante da casa Orca com sua típica indiferença e frieza.
— Mas não é justo com você! Se ao menos eles tentassem te conhecer melhor, se fizessem um esforço para... – Finn tentou argumentar, até ter sido interrompido por Carpaccio em seguida:
— Finn, não tem nada a ver com justiça, você sabe o que eu sou capaz de fazer, não sabe? – Proferiu o castanho-avermelhado em resposta.
O calouro da casa Adler, após ouvir essa asserção, não precisou pensar muito a fundo para dar a sua resposta ao rapaz castanho-avermelhado e, assim, com um suspiro prosseguiu:
— Sim, eu sei bem... você é apenas a pessoa mais gentil e sensível que eu tive a chance de conhecer e todos mereciam conhecer esse seu lado também. – Finalizou com aquele terno sorriso que tirava o fôlego de qualquer um.
De repente, o coração de Carpaccio começou a bater descompassadamente, seu corpo suava frio e tremia todo ao estar contemplando aquela rara expressão de Finn, que agora estava sendo direcionada a ele e a ele somente.
O que raios estava acontecendo ali? Seriam essas sensações ansiedade? Medo? Nenhum dos manuais ou enciclopédias não falavam nada sobre uma reação tão inebriante como a que sentia agora. Quanto mais tentava se recordar de informações, menos ele sabia como deveria proceder diante daquilo e isso o assustava a ponto de quase travá-lo. Nunca, em toda a sua vida, alguém foi capaz de produzir efeitos tão esquisitos e bizarros em seu corpo. Ninguém além de Finn Ames...
Era simplesmente muita informação para digerir de uma vez só. Porém, ainda assim, mesmo que não soubesse o porquê, seus braços naturalmente se abriram e envolveram Finn em um abraço, fazendo com que o menor se surpreendesse um pouco pelo contato repentino.
— Ah, desculpe, isso é desagradável? — Excusou-se o maior para a sua surpresa e a de Finn. Não era todo o dia que se podia ouvir um pedido de desculpas de Carpaccio, se é que ele já chegou a fazê-lo alguma vez.
— Não, não, assim está bom. Você é tão quentinho, Paccio... — Disse o rapaz dos olhos esmeraldas enquanto se aninhava no peito do castanho-avermelhado, sem ter se dado conta do deslize que acabara de cometer ao pronunciar sua última frase em alto e bom tom.
— Do que me chamou? – Interpelou o maior.
A única pessoa que usava esse apelido para se dirigir a ele era Margarette tão somente para alfinetá-lo sabendo perfeitamente bem o quanto aquilo o incomodava, mas ouvir Finn chamá-lo daquele jeito tão carinhoso e delicado fez com que um misterioso calor se apoderasse seu peito e seu corpo como um todo passasse a se afeiçoar a isso. Ele precisava ouvir de novo...
— A-ah, d-desculpa! F-foi involuntário! N-não sabia que você d-desgostava d-disso! – Gaguejou o menor de antemão, preocupado de tê-lo ofendido.
— Não é isso, eu... gostei... diga outra vez, por favor! – Redarguiu timidamente Carpaccio enquanto escondia seu rosto na clavícula de Finn.
—Paccio... – Proferiu o menor, por fim, fazendo com que o aperto do abraço se tornasse ainda mais intenso.
Enquanto desfrutavam daquele doce momento juntos, os dois pombinhos sequer perceberam que de longe estavam sendo observados por 4 olhares atentos.
— Então é verdade. Eles realmente se dão bem, até melhor do que eu pensei... – Proferiu Lance.
Depois do fiasco no refeitório, o grupo de amigos saiu em busca de Finn, até o terem avistado interagindo com Carpaccio em um dos vários corredores do castelo e decidiram então assistir à cena que estava se passando ali antes de tomarem qualquer decisão precipitada.
— Desde que ele trate o Finn bem, não tenho objeções. Mas se esse desgraçado tentar alguma gracinha de novo, vai virar churrasco! – Ameaçou o ruivo sacando sua varinha.
— Admita, Dot, eles fazem um casal bem fofo estando abraçadinhos assim... – Disse Lemon completamente abobalhada pela dinâmica dos dois.
— Eles me fizeram lembrar do nosso primeiro encontro, Mash... você ainda se recorda? – O azulado tornou a questionar ao namorado amante de profiteroles, mordiscando, em seguida, o lóbulo de sua orelha sabendo bem que aquele era o ponto fraco do moreno.
— Hmm, Lance... – Gemeu Mash baixinho em resposta.
— Vão para o quarto, vocês dois! – Dot gritou, não se dando o trabalho de disfarçar em seu tom de voz o despeito que sentia por ainda estar solteiro, o que fez os outros 3 não segurarem suas risadas.
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