Decaindo
2 Chuva
Notas iniciais
Está chovendo.
Em algum momento entre às duas às quatro da madrugada eu ainda estava acordado, sem o menor indício de que dormiria logo. Mas, com o tempo, eu acabei me acostumando a dormir quando o sol está alto no céu, e a ficar acordado quando a escuridão chega. Eu acabei trocando o dia pela noite. Com isso, deixei de interagir com as pessoas. Minha única companheira é a lua, sempre brilhando majestosa no céu noturno. Era uma pequena lembrança de uma pessoa que nunca mais irá voltar.
A chuva estava dentro de mim.
Rukia era a única que conseguia fazer minha chuva interna parar. Mas ela se foi, junto com todo o resto. Já fazem doze meses desde que perdi tudo, e nesse tempo não houve qualquer sinal da existência de fantasmas, hollows ou... Ou shinigamis.
Se é que realmente existiram.
Me sentei na cama e fitei meu reflexo no vidro da janela fechada. É totalmente compreensível os olhares de pena que recebo quando uma das minhas irmãs se esforça para ficar acordada junto comigo. Meu cabelo laranja estava comprido, o suficiente para cobrir meus olhos, mas não o bastante para esconder as olheiras profundas. Aquele não era eu. Por mais que o tempo tenha passado, ainda lembro da minha própria imagem ao encarar um espelho; determinado e confiante. Mas essa imagem é completamente o oposto. Os olhos castanhos estavam opacos e sem vida; a tristeza é a única coisa que se podia ver neles. Aquele cara não poderia ser eu.
Não querendo mais olhar para meu estado deplorável através do vidro, empurrei a janela, fazendo-a se abrir com um rangido. Imediatamente uma ventania fria bateu em meu rosto, e preencheu o quarto. Trinquei os dentes, começando a me arrepender de ter aberto a maldita janela, mas não tornei a fechá-la. Ao invés disso me debrucei sobre ela, fitando o céu escuro com milhares de pontinhos luminosos.
— Estou ficando louco sem poder te ver — sussurrei ao vento. Não era à lua, que não aparaceu hoje, a quem me referia.
Eu não poderia ser mais patético. Falar sozinho no meio da noite, desejando que ela volte, mesmo sem a mínima chance de acontecer. Soltei uma gargalhada sem humor, me sentando na beirada da cama com a cabeça baixa e cobrindo meu rosto com as mãos. Como meu pai suportou isso? Ele tinha uma vida na Soul Society, eu tenho certeza. Pai, mãe, tios, tias e quem sabe até um outro filho? Então como ele conseguiu aguentar perder tudo? Eu não conhecia aquele mundo há muito mais tempo que ele, mas eu tinha amigos lá. Tenho amigos!
Prendi a respiração, tentando me acalmar o bastante para não chorar. O velho tinha a Masaki, minha mãe. Ele encontrou alguém que mantinha sua cabeça no lugar e que lhe trouxesse paz. Mas no meu caso, minha apaziguadora também se fora.
Louco...
Abaixei as mãos, encarando o piso sujo com algumas gotículas de água derramadas. Eu mesmo disse, não é? Depois de tantas coisas que já se passaram pela minha mente, essa talvez a que faça mais sentido — talvez menos, eu não sei. Talvez eu realmente seja louco, a ponto de imaginar tudo. Talvez eu esteja muito mal para pensar em algo assim. Talvez shinigamis não existam. Ou talvez eu devesse sair de casa e parar de criar hipóteses sem sentido. Porque, definitivamente, Kurosaki Ichigo não é louco!
Mas se... hipoteticamente... eu sou. Teria eu imaginado cada uma daquelas lutas, mesmo com tantos detalhes? A derrota e a vitória? Dor? Rukia seria apenas parte da minha imaginação?
De qualquer forma, das duas, uma: eu estou ascendendo, a ponto de reconhecer que tenho um problema grave; estou decaindo, entrando em depressão e acreditando em mentiras que eu mesmo conto.
Soltei uma risada nervosa, jogando a cabeça para trás, encarando o teto. Preciso parar de pensar assim. O que Rukia faria se me encontrasse nesse estado deprimente? Com certeza levaria uma voadora, ou algo assim. Eu realmente sinto falta daquela baixinha.
Foi nesse momento que notei algo pairando no ar. Um inseto, ele deve ter entrado assim que abri a janela, mas não percebi. Fiquei observando a borboleta rodopiar pelo meu quarto, até que ela resolveu se aproximar, pousando em meu ombro.
"Eu estou aqui, Ichigo."
Palavras foram sussurradas em minha mente e eu me levantei num sobressalto. A borboleta é uma Jigokucho, usada na Soul Society como meio de comunicação. Eu não deveria poder enxergá-la! Olhava para todos os cantos do quarto, extremamente agitado. Essa voz...
De repente senti algo tocar minhas bochechas, como se duas mãos me mostrassem para onde olhar. Consegui sorrir, colocando as minhas mãos por cima das outras duas.
— Rukia...
Fale com o autor