Decadência

1 Capítulo Único


Ninguém pôde imaginar que o rumo dos fatos moldaria caminho tão desastroso...

Ainda me lembro daquele sete de outubro. O Brasil sempre foi uma nação conhecida pela sua instabilidade política, e eu, por conta disso, sempre pensei que conseguiria levar minha medíocre vida de forma aceitável, como sempre levei, ignorando aquela contenda que julgava são ser minha. No entanto, nem eu pude imaginar o quão fora de proporção foi essa histeria coletiva.

Tudo começou quando aquele tal de Bolsonaro conseguiu se eleger presidente logo no primeiro turno. Honestamente, apesar de nunca ter compactuado com os seus discursos de ódio e preconceito infundados, sempre achei que isso nunca passaria de fogo de palha. Ele não foi o primeiro político neste mero planetinha azul a apelar a discursos populistas centrados em ideias radicais, e com certeza ele nem seria o último. Porém, o que não consegui prever foi justamente que as mentes já doentes dos humanos que habitam este país iriam chegar ao limite naquele fatídico domingo...

Histeria coletiva. É o único termo que consigo dar ao sentimento que fez a semente da guerra germinar. De um lado, defensores e simpatizantes do recém-eleito presidente. Pessoas guiadas pelo medo de uma nova onda de corrupção vinda de um espectro político já a muito tempo desacreditado. Ou até mesmo pobres incautos cegos pela ignorância vinda de preceitos criados por histórias da carochinha escritas em um tolo livro dito como “sagrado”. Do outro lado, pessoas que a princípio queriam apenas a sua liberdade e o direito de serem o que são, mas que tiveram as suas almas e razão quebradas e corrompidas por anos e anos de perseguição. Pessoas com ideais nos quais eu sempre quis me distanciar, por achar que muito dessa indignação era vã e utópica, apesar de compartilhar de algumas características dessas minorias. Fartos, combalidos e feridos, eles abandonaram a esperança de buscar por um mundo melhor por meios pacifistas, partindo para luta usando fogo contra fogo.

Essa foi a receita para o desastre. O medo e a indignação logo se tornaram ódio e ira. Não demorou muito para que as ruas fossem tingidas de vermelho graças ao sangue derramado. Facções foram formadas, governos começaram a perder sua influência, e todos se tornaram alvos em potencial. Muitos dizem que essa é uma luta justificada, uma revolução que nos trará liberdade e paz, mas eu sei que isso não passa de balela. Ideais patrióticos e tradicionais de um lado. Desejos de liberdade e igualdade para minorias de um outro. Ambos justificando seus atos vis como uma luta justa por nossa prosperidade. Mas pra mim, isso tudo não passa de uma piada de mal gosto que a muito tempo foi esquecida por aquele que a contou.

Admito que foi engraçado ver o “ilustre presidente” fugindo do país junto com sua corja de políticos, todos nunca dignos de confiança, deixando essas terras ao Deus-Dará. Sem uma figura de líder, não demorou muito para ver uma luta ferrenha para ver quem iria assumir o poder. E eu pude ver isso com meus próprios olhos. na época, eu era um mero escritor hobbista que frequentava grupos de escritores amadores como o Nyah! Fanfiction, que logo havia se tornado uma espécie de canal de comunicação para organizar uma resistência. Porém, perante o medo e a incerteza, muitas daquelas pessoas acabaram se rendendo à insanidade.

Certamente isso não se desenrolou de forma amigável. Pude ver frequentadores do grupo, muitos deles amigos de longa data desfazendo seus laços afetivos e trocando palavras grosseiras. Revolta, ódio, desilusão e traição. Dias se passaram com aquele lugar sendo pior que os mais obscuros fóruns de internet, trocando calúnias e ameaças desmedias. Eu, que sempre achei essa divisão uma verdadeira perda de tempo, nem tive muito tempo para cuidar dos meus próprios problemas em paz, já que eu era abordado por ambas as facções para que eu escolhesse um lado no qual eu empenharia meus esforços para defender, e por que não dizer, minha “lealdade”. Misantropo como eu sou, eu os respondi com um singelo “fodam-se todos”, partindo para seguir meu próprio caminho. Essa pachorra só foi acabar quando nossa infraestrutura veio a falhar, limitando drasticamente nossas comunicações tecnológicas.

Três anos se passaram desde este evento que muitos chamam de “A Grande Decadência”. Hoje, perante tamanho caos, não me restou muitas opções para ter uma vida digna, e perante isso, decidi jogar meu destino à própria sorte, vestindo o véu de mercenário. Tive que me virar para deixar para trás minha compostura medíocre de civil e adotar um perfil mais apto à sobrevivência, aprimorando meu físico, minha destreza e minha insensibilidade. As ruas são um lugar hostil e ninguém mais está seguro. Hoje, sou um nômade peregrinando entre as zonas seguras que o resquício de civilização que sobrou conseguiu erguer, aceitando trabalhos sujos e abastecendo os soldados dessa desprezível guerra com mantimentos e munições.

Os dias são cinzentos, como um presságio do eterno tormento. Meus poucos contatos fieis que me restaram sempre se questionam até quando essa guerra civil irá durar. Hoje mesmo, enquanto fazia meu reabastecimento de rotina em uma das maiores “cidades-bunker” ao nordeste do país, pude me reencontrar com uma outra amiga de longa data que foi forçada a adotar essa vida de mercenária que adota o codinome de “Holanda”. Ao contrário de mim, ela evita ao máximo sujar suas mãos, apenas aceitando trabalhos de resgate e escolta, protegendo aqueles que estão dispostos a pagar por um pouco de segurança. Eu pude ver a desolação em seus olhos, que clamava por aqueles dias que não voltariam mais, que por mais problemáticos que fossem, eram definitivamente tempos pacíficos.

Ela sempre me questiona se “estou orgulhoso” do caminho do que trilhei, numa clara ironia de que meus esforços são definitivamente nocivos e maliciosos e que apenas ajudam a perpetuar essa eterna guerra entre facções. Não tiro a razão dela de julgar este meu trabalho como imundo, mas infelizmente, este é o único trabalho no qual se sustenta perante meu perfil. Eu já era uma pessoa insensível e desolada antes deste conflito desabrochar, e hoje, essas minhas convicções foram amplamente reforçadas. O conceito de certo ou errado pra mim não existe mais. Eu apenas vendo aquilo que os tolos almejam, tentando fazer seus pífios ideais se sustentarem por mais um dia.

Longe de eu desdenhar da esperança alheia, mas isso não é uma coisa no qual sou digno de carregar. Todos nós fomos vítimas de nossa própria intolerância e descrença, e hoje o que nos resta é apenas nossas pernas, no qual podemos usar para seguir em frente... Não importa o quão em caos esse país esteja…

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