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Depois do almoço ainda tínhamos as aulas do período da tarde,resolvi me adiantar na esperança de chegar no horário. As aulas de artes era dadas em um prédio separado passando pelo caminho que rodeava os jardins, na porção mais antiga da escola.Sempre que passava por aquelas rosas me recordava das graciosas formas dos kurbits, pinturas decorativas que surgiram nas áreas rurais noruegueses,se expandindo quando artesões pobres se dirgiam as cidades em busca de serviço pintando igrejas,casas e moveis com forma em s e c com detalhes florais e formas geométricas. Minha cabeça rondava as geleiras de Jostedal,a catedral de Nidaros e o museu viking de Oslo,mas meu corpo nao parecia chegar em lugar algum.

Eu sabia que meus devaneios rotineiros estavam me mantendo longe de algo mais além da realidade,tenho 16 e apesar da independência que usufruía em morar fora de casa nao posso deixar o pais sem a montanha correta de papelada,documentos incluindo passaportes,identidade,e sim a autorização de um responsável .Conclui que ja era hora de fazer a minha visita a caixa de correio.

Quando eu finalmente cheguei ao ateliê ainda tinha dez minutos de antecedência para esfregar na cara do relogio,mas foi apenas para descobrir que hoje teríamos uma aula de campo.

____Como alguns de vocês já devem estar cientes nosso programa de conscientização cultural sofreu uma grande evolução desde o inicio desta década e este ano resolvemos torna-lo internacional.Nossa estimada diretora decidiu que o destino em questao seria a Noruega,por issso hoje faremos uma visita ao museu Palácio Olímpio campos para discutir as obras de Alfred Andersen.___ Disse Srta.Medonça nos encarando como se calculasse a probabilidade matemática de fazermos besteira.___Por favor,acompanhem a Sra.de Lima ate o transporte designado.

Nossas esperanças de que o trasporte designado fosse munido com ar condicionado de ultima geraçao e latas de refrigerentes cancerígenas se mostraram vãs ,nossa turma de 50 alunas foi distribuida em dois mini ônibus com o design inspirado em uma lata de sardinha,cada metade da turma sendo dividida entre as duas professoras.Rita,Sophie e eu soltamos um suspiro coletivo por acabarmos no mesmo grupo,o da professora de artes.A Srta.de Lima ocupou a viagem com um caloroso debate sobre artistas escandinavos,roupas de frio e nomes de cidade que me fariam dar um nó na língua.

A exposição do artista plástico Alfred Andersen,o norueguês conhecido como pai da pintura pareneanse seria aberta ao público nordestino apenas pela segunda vez,tendo sua primeira exposição organizada no ano passado no Centro Cultural Correios em Recife. Anderson havia dedicado seus últimos anos a efusão da arte em Curitiba, morrendo nesse mesmo local em 1935.

Chegando a galeria de artes nos dirigimos a seção onde suas obras seriam expostas ,eu havia sido arrebatada desde a primeira vez que havia visto "intimidade um",o retrato impressionista de uma infante com um cachorro no colo ancorada na mãe com traços indistinguíveis entre as duas figuras quase como se fossem miscíveis.

Como de costume eu carregava um caderno de rascunhos que eu considera uma extensão do meu corpo,eu me afastei do grupo com receio que meus desenhos ofendessem os olhos deuses das artes e da pintura e localizei um banco solitário aonde poderia fazer um sketch apressado de "intimidade".Ate que notei algo bloqueando o minha fonte de luz.

Para falar a verdade quase o confundi com parte da exposiçao .Ele parecia uma reprodução de uma estátua de Michelangelo, com cabelos ondulados e escuros,olhos caramelo,pele branca como marfim e perfil grego, mesmo que um pouco mais baixo que Davi.Eu passei um tempo tentando imaginar que tipo de encanto poderia ter o levado até ali,para mim parecia que Pigmalião tinha deixado a solta mais de uma obra viva.

____Eu posso ver que esta bem anatomicamente detalhado__Ele diz apontando para o" tanquinho" do meu desenho,eu havia aberto meu caderno nos meus esboços da aula de artes.

____Obrigada, não e todo mundo que sabe apreciar um verdadeiro tanquinho espartano.

_____Eu estou assustado com o quanto eu estou apreciando este tanquinho.

____Talvez eu devesse deixar voces dois sozinhos.___Falei engasgando com o riso.

Ele conseguira de alguma forma quebrar aquela atmosfera inescrutável de seriedade,até suavizei a minha postura, ele encarou o banco com tanta intensidade que achei que estivesse prestes a soltar raios laser pelos olhos, então e eu tive que convidá-lo a se sentar.Ele se sentou a pelo menos três palmos de distancia, me perguntei se ele conseguia escutar o som do meu coração fazendo parkour no meu peito.

Ele olhou para frente e deu um suspiro,nao um suspiro sheakspeariano,mais ou menos como se tivesse perdido o folego por um instante .

_______As vezes eu confundo essa pintura com uma fotografia,a garota correndo pela sala em uma tarde de domingo ensolarada ,tão quente que ela tivera que transferir a brincadeira para o meio da sala .A mãe entra no recinto e da de cara com a criança esparramada no chão ,em seu vestido branco recém lavado,ela leventa a sobrancelha como se estivesse enviando um ultimato, faíscas explodem no ar entre as duas e e ai que entra na cena Bob,o cachorro,...

____Peraí,quer dizer que você deu um nome para o cachorro?Só para o cachorro?__Falei o interrompendo.

_____ Eu meramente interpretei os fatos.É uma verdade universal que o primeiro cachorro de uma criança sempre se chama Bob.

Eu podia muito bem ter realçado a indeterminação do gênero de "Bob"mas eu ja estava enrolada demais em sua lógica para fazer qualquer contestação.

____Então Bob ,o cachorro, levanta a bandeira branca,com seus sedutores pontinhos de tinta preta figurando globos oculares enfeitiçando as duas por um breve instante, o suficiente para a criança que não e boba nem nada aproveitar esse momento de fraqueza da mãe e a puxar para o chão e a abraçar pela cintura tentando amansar seu gênio.A mãe caí na risada com a malandragem da filha.A risada se torna contagiosa e sonora, como se estivesse tomando forma, o pai escuta esse som misterioso do seu escritório e saí para averiguar o caso e aí...

_____Ele tira a foto,antes que que o Bob começe a ficar agitado demais e babe todo o chão limpo.__Interrompi-o novamente.

____É, mas ele é um fotografo horrível.Da pra ver que ela saiu toda desfocada.

Ele me encarava e percebi que era a minha vez de revelar a minha fantasia embaraçosa no reino da pinturalandia.Ele ja estivera lá e conseguia reconhecer um de seus habitantes.

___Eu sempre pensei nessa pintura como uma memória de longo prazo,ela fica armazenada por tanto tempo na nossa cabeça que a gente começa a esquecer os pequenos detalhes,era uma memória feliz ou uma memoria triste?Ela estavam sorrindo ou chorando?Então ela é recortada várias vezes ate que se fragmente e vai desaparecendo pouco a pouco,de pedaço em pedaço...Até que a única coisa que sobre e uma impressão.

_____Se encaixa perfeitamente no estilo impressionista.

____Eu ainda prefiro a sua historia. Por sinal voce cria uma história para todo quadro que você vê?

_____Eu pensei que todo mundo fizesse. Quer dizer o observador também faz parte do cenário e não precisa ser passivamente, as vezes eu gosto de ser narrador e observador, as vezes personagem, acho que essa e aquela dimensão não são intrinsecamente separadas.

Nós ficamos sentados por um tempo, sem saber o que dizer em seguida, era embaraçoso falar com alguém daquele jeito ,eu senti como se tivesse revelado um pedaço da minha alma ou uma cicatriz esquisita em um lugar embaraçoso.

_____Cara,eu preciso saber o seu nome.

_____Uhm,Mel.Digo Melanie.

______Jan.E jan para os intímos,pode me chamar de jan.

____Jan.__Eu repeti.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.