Debaixo das cerejeiras

1 Capítulo 1 - Promessa sob as cerejeiras


Notas iniciais
NOTA: Nenhuma dessas fanarts me pertence. A da capa está disponível no Pinterest, mas não consegui descobrir o autor. Se souberem, me digam, por favor. A do final do capítulo está no Deviantart, foi feita por Duongvjp, segundo o que está escrito lá. NOTA 2: Essa mini fanfic tem referências da edição do Rock Musical Bleach de 2011, chamada de Shinsei. Recomendo que assistam. A história é maravilhosa, autoral da equipe do musical, e merece demais virar mangá ou animação na minha opinião. Há uma antiga fanfic minha (que pretendo reescrever mais bem feita quando tiver tempo), chamada Haruma, que fiz a partir desse musical. Uma das citações desse capítulo está nos capítulos 8 e 9 da Haruma. NOTA 3: Tenho uma one-shot, chamada Kotodama que é importante para entender uma parte da conversa de Ichigo e Rukia aqui, embora não atrapalhe no geral da história se você não ler. Fiz essa one-shot baseada na canção "Kotodama" que Rukia canta para Ichigo no Rock Musical Bleach Shinsei de 2011.

Capítulo 1 – Promessa sob as cerejeiras

Ichigo colocou as compras num canto no chão e riu quando Rukia gritou ao ser pega no colo de repente.

— Seu gigante maluco! Quer que eu infarte? Já basta todas as vezes em que me atirou do nada de algum lugar!

Ele riu novamente, dessa vez girando com ela até ouvi-la rir junto com ele e parar para não ficar tão tonto que arriscasse derrubar a esposa no chão.

— Ah, foram momentos emergenciais.

— Que eram mais um motivo pra você não me colocar numa nova emergência.

— Você não pode reclamar. A quantidade de vezes que já me agrediu sem necessidade, mesmo depois de muito tempo sem nos vermos, deu pra compensar isso umas mil vezes.

— É o que às vezes preciso fazer pra colocar essa sua cabeça pra funcionar – ela disse, sem estar realmente irritada, fazendo-o sorrir daquela forma doce que ele reservava apenas para ela.

Rukia sorriu de volta, mas o deixou preocupado quando ele fez menção de coloca-la novamente no chão, e ao invés de colaborar com o movimento, ela se agarrou com mais força a ele e se encolheu.

— Rukia... O que há? A grande capitã da 13ª divisão está necessitando ser mimada hoje? – Ele sorriu.

Ela riu baixinho, mas respirou fundo e fechou os olhos, não respondendo à brincadeira provocativa de Ichigo com seu tamanho, e indicando que essa não era a questão, enquanto ele observava seu rosto mudar para uma expressão de desconforto.

— Não sei... De repente fiquei tonta.

Por alguns instantes ele não falou ou se moveu, apenas continuou parado a segurando, vasculhando em sua mente o que poderia estar acontecendo. Eles não tinham enfrentado nenhuma luta perigosa ou se ferido recentemente. Aliás, desde a derrota de Yhwach e algumas reformas no funcionamento da Soul Society, sugeridas por Ichigo a Kyouraku, dois anos atrás, eles não enfrentavam nenhum problema de grandes proporções, o que ajudava bastante no acordo estabelecido deles dividirem seu tempo entre a Soul Society e o mundo dos vivos após se casarem, um ano depois da guerra.

— Vamos cuidar de você então, guardar as compras depois – ele lhe disse com um sorriso acolhedor, caminhando com ela para o sofá e a colocando delicadamente nas almofadas macias

Sentou-se ao lado dela e a puxou para seu peito, onde Rukia se inclinou prontamente, sentindo o ruivo beijar seus cabelos, que ela estava deixando crescer novamente.

— Está melhor?

— Melhorando...

— Acho que giramos demais.

— Não acho que tenha sido isso. Você já fez isso outras vezes, e nem daquela vez que ficou tão tonto que caiu no chão comigo, eu me senti assim.

Ele riu ao se lembrar. Rukia o tinha proibido de girar mais de quatro vezes com ela no colo depois daquilo. Por sorte, ela caiu por cima dele, não sofrendo nenhum arranhão, o que acabou com os dois agradavelmente abraçados relaxando no chão da sala por alguns minutos enquanto a tontura se dissipava, e depois de Rukia brigar com ele, claro.

— Isso não é normal.

Rukia concordou com ele em silêncio.

— Em todos os anos que te conheço eu nunca vi você adoecer nem depois de tomar o maior banho de chuva da vida ou de se recuperar de ferimentos gravíssimos.

— Devemos ir à Soul Society em alguns dias... – ela disse, olhando para o calendário preso na parede oposta, fazendo Ichigo seguir seu olhar – Posso pedir à capitã Isane que me ajude a identificar se há algo errado comigo.

Não perdendo a respiração profunda e o olhar temeroso do marido, ela virou o rosto para cima para encará-lo.

— Você é muito paranoico – ela disse com um sorriso irônico – Eu estou bem. Talvez tenha sido apenas o giro repentino mesmo – falou, arrastando-se sobre ele para se erguer e beijá-lo nos lábios – Estamos bem, e há séculos nenhum super vilão insano aparece, temos que ficar felizes por estarmos em paz.

Ichigo sorriu de novo, envolvendo as mãos em suas costas, enquanto Rukia descansava seu peso agradavelmente leve sobre ele.

— Normalmente sou eu que faço o papel de nos tranquilizar aqui.

Ela riu.

— Não se engane, seu idiota. Desde que nos conhecemos, se eu não estivesse no comando, você já estaria morto.

Agora Ichigo gargalhou, abraçando-a mais firme para mantê-la segura em cima dele.

— Só se for no comando da fábrica de gnomos do Papai Noel, que são do mesmo tamanho que você.

Ele riu mais alto quando Rukia bateu nele.

— Que culpa eu tenho se você ficou ainda mais alto e mais forte desde a última guerra?! Parece que nunca vai parar de crescer!

Ichigo segurou os pequenos pulsos enfurecidos da esposa, preferindo guardar para outro momento lembrá-la do fato de que, tanto quanto era verdade o que ela acabara de dizer, ela não havia crescido nenhum centímetro a mais desde que tinham se conhecido, e a fez rapidamente esquecer sua intenção de continuar o agredindo quando a puxou para mais perto e colou seus lábios aos dela novamente, esquecendo-se completamente das compras para serem guardadas por enquanto.

******

— Agora mesmo, capitã Kuchiki – Isane lhe disse quando ela se apresentou no 4° esquadrão acompanhada por Ichigo.

O ocorrido tinha sido dez dias atrás, e decidindo que não queria enlouquecer o irmão e Renji de preocupação, e possivelmente despertar seus instintos protetores que poderiam culpar Ichigo ou o mundo dos vivos, ela escolheu irem primeiro em busca da ajuda de Isane e realmente saber o que estava acontecendo.

— Você pode nos acompanhar se quiser – Isane disse para Ichigo quando começaram a andar para dentro do esquadrão.

Rukia segurou sua mão, confirmando que queria a presença dele. Olhando para ela, ele viu um rastro de medo em seu olhar violeta. Ela tinha passado mal mais uma vez depois daquele dia, sentindo-se fraca mesmo depois de ter dormido bastante. E então os dois lembraram de Hisana, e sem precisar trocar qualquer palavra, o olhar que deram um ao outro deixou claro para onde estavam indo suas preocupações. Ichigo apertou sua mão um pouco mais forte, fazendo Rukia encará-lo enquanto andavam.

— Não sabemos de nada ainda. Até lá, você está bem.

Ela sorriu em agradecimento, e foram interrompidos por Isane, anunciando que haviam chegado a seu destino e fechando a porta após os três entrarem, se vendo numa sala de tamanho médio com uma cama semelhante às que costumavam usar para dormir no mundo dos vivos, porém mais baixa, e alguns equipamentos e medicamentos dispostos em algumas prateleiras nos cantos da sala.

— Kuchiki-san, se puder ficar vestida apenas com seu shitagi e se deitar, facilitará minhas investigações.

— Como quiser – ela respondeu, deixando sua zampakutou e o restante de suas vestes numa das estantes vazias, e se acomodando na cama de tratamento.

Ichigo ficou afastado, sentado numa almofada no chão do lado oposto à Isane, mas ainda à vista, onde Rukia facilmente podia vê-lo e olhá-lo se quisesse.

— Quantas vezes você se sentiu mal e num intervalo de quantos dias?

— Foram apenas duas vezes. Uma tontura repentina dez dias atrás. E muito cansaço há quatro dias, pouco tempo depois de eu ter acordado. Dormi bem naquela noite e por tempo suficiente.

Isane refletiu por algum tempo antes de falar novamente.

— Isso costuma ocorrer durante a recuperação de enfermidades ou ferimentos graves, especialmente se algum ponto importante de reishi for afetado, mas você não passou por nada disso recentemente que eu saiba.

— Não.

— Se puder relaxar pra que eu me concentre em sua reiatsu...

Rukia assentiu, tentando se tranquilizar e ficar tão calma quanto possível.

Isane ergueu as mãos sobre ela e uma luz saiu dali, sem que ela dissesse qualquer palavra para identificar o kido ou método de análise que pudesse estar usando.

— Sua reaitsu está apresentando pequenas instabilidades, mas nada que indique algo grave. Seus centros energéticos parecem todos bem – a capitã do quarto esquadrão comentou – Como anda o ritmo de trabalho de vocês? Somos mais fortes que os vivos, mas ainda não somos de ferro como eles mesmos costumam dizer.

— Bem. Mesmo quando temos muito trabalho pra fazer conseguimos dividir bem entre todos pra ninguém se sobrecarregar.

— Bom – ela falou, continuando sua busca, e esperando deixar Rukia mais calma enquanto conversavam, a fim de confirmar se os temores da pequena capitã estavam influenciando em suas suspeitas, ou se estavam de fato corretas, e se estivessem, fazia muito tempo que não viam aquilo acontecer.

— Se me permite perguntar... Você acha que eu corro os mesmos riscos que minha irmã? Seja lá o que for que a levou?

Isane foi pega de surpresa com o que a estava preocupando, embora fosse de se esperar que ela tivesse tal preocupação.

— Eu não cheguei a tratar sua irmã naquela época, eu não estava nem perto da posição que conquistei nos últimos anos. Mas pelo que sei, foi algo tão específico quanto raro e difícil de explicar, como foi com o capitão Ukitake. Duas almas terem uma conexão desde vivas ou de sangue não é uma regra pra que ambas sofram os mesmos males. Com o quanto você já viveu, se tivesse os mesmos problemas de sua irmã, já saberíamos há muito tempo. Então não considero uma questão para nos preocupar.

— Hum... Obrigada.

Isane sorriu, finalmente conseguindo o que queria quando Rukia respirou fundo e deixou o corpo realmente relaxar, fechando os olhos e aceitando muito melhor o exame que estava recebendo.

— E você? Como vão as coisas no mundo dos vivos, Kurosaki? E sua família?

— Felizmente bem. Desde que tudo aquilo aconteceu, lá tem estado tão calmo quanto aqui. As novas intervenções pra melhorar o trabalho com os hollows e as almas perdidas estão funcionando bem. Tá todo mundo bem por lá. Meu pai e a equipe de Urahara continuam trabalhando e nos dando uma mão com os hollows. Minhas irmãs estão pensando no que fazer quando acabarem o colegial.

— Isso é bom. Calmaria vai fazer muito bem pra vocês nos próximos tempos, tanto lá quanto aqui.

— Como assim? – Ele perguntou – Há algo errado pra que Rukia precise de repouso?

— Repouso ainda não é o caso, mas evitar estresse será bom.

— O que há de errado comigo? – Rukia questionou, voltando a abrir os olhos.

Então aconteceu de novo. Diante do estado de alerta de Rukia, as energias estranhas que Isane sentia no corpo da capitã reagiram junto com ela, misturando-se por um instante, e dificultando distinguir uma da outra. Isane ficou em silêncio enquanto analisava seu corpo e sua reiatsu por mais alguns instantes antes de recolher as mãos e olhá-los com um sorriso.

— Eu nem acredito nisso... – comentou mais para si mesma do que para os dois – Faz muito tempo que não vemos isso acontecer dentro de Sereitei. Acho que seu irmão foi um dos últimos.

Rukia olhou para Ichigo, vendo seu olhar quase em pânico.

— É melhor nos contar antes que ele tenha um ataque.

— O que acontece... É que eu encontrei três reiatsus diferentes dentro de você, por isso a instabilidade. Estavam todas misturadas. Quando você fica calma se torna mais fácil distinguir uma da outra e de onde estão fluindo. A princípio eu me perguntei se isso não seria resultado de quando vocês inseriram energia espiritual um no outro quando se conheceram e no conflito envolvendo Homura e Shizuku. Isso explicaria uma das misturas energéticas estranhas, mas ainda havia a outra.

O casal arregalou os olhos.

— O que... Você quer dizer? – Rukia perguntou.

— Que você pode começar a pensar em como contar ao capitão Kuchiki que ele será tio.

— Que?! – Ichigo exclamou, e Rukia riu de seu espanto, antes de se calar quando o anúncio finalmente a atingiu.

— Você realmente disse o que acho que disse? – Ela perguntou.

— Sim. Você está grávida, capitã Kuchiki. Meus parabéns aos dois. Pode se arrumar. Está terminado por hoje.

— Hoje?

— Quero ver você de novo de vez em quando, é bom acompanhar o desenvolvimento dos fetos.

— Fetos? – Rukia perguntou num fio de voz ao se sentar, ainda mal acreditando na descoberta, e a essa altura Ichigo já estava ajoelhado ao lado dela, segurando uma de suas mãos sem sequer perceber o que fazia, enquanto seu olhar continuava vidrado em Isane, esperando mais explicações.

— Eu senti duas reaitsus diferentes dentro de você que não são suas, embora se pareçam muito. O ponto onde se concentram é em seu útero.

— Mas... Quanto tempo? – Ichigo perguntou, finalmente saindo do transe em que tinha entrado.

— Eu acredito que pouco mais de um mês. Somos mais sensíveis que os vivos, não considero anormal apresentar sintomas mais cedo. Eles costumam só descobrir por volta dos dois meses ou mais, geralmente.

Rukia refletiu, finalmente aceitando que o atraso de suas funções físicas femininas no gigai não se deviam a causas emocionais, do quanto estava feliz ultimamente.

— Faz muito tempo que isso não acontece aqui, por isso pouco se fala no assunto, mas sabiam que é possível? Ter filhos aqui no mundo espiritual? Até as almas comuns que vivem em Rukongai podem fazê-lo, é muito mais raro, claro. Pra sobreviver naquele lugar há coisas muito mais urgentes com que se preocupar, e se precisa de uma boa quantidade de energia espiritual pra passar bem pelo processo. Seu irmão e o tenente Abarai são duas dessas crianças. Eles nunca viveram no mundo dos vivos, nasceram aqui.

— Eles já me disseram – Rukia respondeu – Embora Renji não se lembre de seus pais.

— A vida em Rukongai é extremamente dura no distrito de onde vocês vieram. Mesmo se houver energia espiritual e força suficientes para gerar e dar à luz a uma criança, tudo isso pode se esvair durante o nascimento. Esse é um dos motivos de lá haver tantos órfãos.

O casal assentiu, um pouco triste por confrontar tal realidade, mas o que estavam discutindo agora é o que importava.

— Então... Meus bebês... – Rukia falou com um pequeno sorriso, demorando-se um pouco para terminar a frase, absorvendo suas próprias palavras – São dois... – murmurou para si mesma, ainda assimilando a notícia.

— Sim. Embora eu ainda não consiga saber os gêneros. Mas levando em conta como uma das duas reiatsus é particularmente parecida com a sua, talvez eu possa arriscar que ao menos um é menina. Mas é só um palpite por enquanto.

— Mas, como... – Ichigo começou tentando formular a pergunta – Nossos filhos serão espíritos ou terão corpos físicos? Ou gigais?

— Bom... Isso nunca aconteceu entre um shinigami e alguém vivo desde que eu estive aqui, então não há dados oficiais que comprovem nossas hipóteses, mas eu e a capitã Unohana chegamos a discutir bastante essa e outras situações hipotéticas, mesmo antes de você se tornar um shinigami substituto. Como vocês já sabem, temos máquinas Reishi Henkan-Ki, que são capazes de converter kishi, a energia dos vivos, em reishi, a nossa energia. É assim que aqueles amigos vivos de vocês vêm aqui quando precisam. Isso agora é automático na passagem entre a Soul Society e o mundo dos vivos, apenas temos sistemas de alerta pra que possíveis desconhecidos não entrem aqui com isso. Apesar de utilizar um gigai no mundo humano, ele ainda funciona perfeitamente como um corpo comum, como você já deve ter comprovado várias vezes. Ainda que seja artificial, se receber o que precisa, o gigai é perfeitamente capaz de gerar novos corpos humanos, que realmente serão corpos e não meio corpo, meio gigai.

— E quando eu precisar sair do corpo? E vir pra cá?

— Eu recomendaria que sempre usasse sua Soul Candy e a instruísse muito bem de como cuidar de seu corpo enquanto estiver fora, mas sei que soul candys costumam ser temperamentais às vezes, e provavelmente ela não teria noção do cuidado necessário. Você também pode simplesmente vir aqui com o gigai, a conversão vai acontecer do mesmo jeito, embora o mais saudável seja utilizar o gigai apenas quando necessário. Eu acredito que quando você sair do gigai, os corpos dos fetos não permanecerão nele, ficarão apenas com você, sendo naturalmente convertidos durante a passagem pelo portal, uma vez que são mestiços.

— Isso pode ser arriscado pra eles? – Ichigo perguntou.

— Creio que não. Vocês atravessaram o portal hoje sem saber de nada, não foi? E os dois estão perfeitamente bem. No entanto, para esclarecer nossas dúvidas e arquivar corretamente as informações, eu gostaria de acompanha-los quando voltarem ao mundo dos vivos, pra analisar seu gigai e ver o que encontro nele, se permanece como um único corpo e acomoda os fetos apenas quando você está nele. Os Soul Candys estão com os corpos de vocês enquanto estão aqui agora?

— Sim – Ichigo respondeu.

Normalmente ele jamais deixaria Kon cuidar de seu corpo e sua imagem por dias seguidos, mas felizmente a alma modificada se tornara mais consciente e responsável nos últimos anos, se tornando capaz de realizar o trabalho junto com Chappy.

— Por enquanto também não posso afirmar com certeza, mas eu creio que o ideal seria que você estivesse no mundo humano quando nascerem. Essas crianças precisarão ter corpos físicos reais. O gigai é capaz de criar isso, você é a prova viva – ela disse a Ichigo – Acredito que o gigai se adaptará aos pequenos avanços do crescimento das crianças do tempo que você passar aqui, mas não sei como seria se nascessem aqui, se automaticamente um corpo físico seria gerado ao atravessarem o portal, mesmo sendo mestiços. Isso também é algo que vamos estudar ao longo dos meses. Há algo mais que queiram saber?

— Não. Isso é tudo por enquanto. Muito obrigada – Rukia sorriu, levantando-se com a ajuda de Ichigo e indo se vestir.

— Está feliz? – Isane perguntou e viu o rosto da capitã ficar reflexivo por alguns segundos antes dela sorrir.

— Ainda estou absorvendo a ideia. Eu não esperava por isso, mas... – o sorriu dela aumentou – Estou sim.

******

A caminho da mansão Kuchiki, Rukia parou de andar quando Ichigo também parou e segurou sua mão mais forte. Ela se virou para vê-lo com um enorme sorriso e o deixou puxá-la para perto e envolve-la pela cintura. Olhou em seus olhos castanhos e retribuiu o sorriso dele.

— Você já conseguiu colocar isso na cabeça? – Ele perguntou – Nós vamos ser pais.

Rukia riu de maneira adorável.

— Ainda parece mentira. Mas... Me sinto tão feliz. Apesar de já termos falado sobre isso, eu nunca parei pra pensar como seria se realmente acontecesse. E vamos ter dois de uma só vez.

— O velho vai ficar louco.

— E meu irmão.

— Espero que ele me deixe vivo pra isso.

Rukia gargalhou.

— Ele vai sim. Essa é uma graça que infelizmente ele não pode alcançar. Ele vai ficar muito feliz, Ichi.

Após mais alguns instantes encantado por seus orbes violetas, os dois olharam juntos para cima, vendo as pétalas cor de rosa das cerejeiras que começavam a desabrochar, tanto na Soul Society quanto no mundo dos vivos.

— Você se lembra do que eu te disse daquela vez? – Rukia perguntou – Quando nossos mundos se uniram na batalha contra Iruma.

— Aquele dia... – Ichigo falou com tristeza, sentindo Rukia apertar sua mão mais forte, para lembra-lo de que ela estava viva.

— Hoje está parecendo aquele momento. As flores estão desabrochando nas cerejeiras, o vento está agradável, o sol está radiante, e as estações estão mudando. Mas nós estamos bem.

Por um instante ele pensou no quão mais, além da própria Rukia, ele quase perdeu naquela batalha, em como esse futuro não existiria agora se Byakuya e o 4° esquadrão não tivessem conseguido trazê-la de volta da morte, além de todos os outros shinigamis assassinados na época. Mas quando Rukia apertou sua mão novamente, exigindo que ele a olhasse, e as palavras de Isane voltaram a seus pensamentos, Ichigo respirou fundo e conseguiu sorrir, finalmente encarando os olhos violeta que tanto amava, e nesse instante desejando que ao menos um de seus filhos tivesse os olhos dela.

— Será que eu tenho que te trazer de volta toda vez que você se perde em pensamentos obscuros? Espero que nisso nossos filhos puxem a mim, ajuda será bom.

Ichigo riu.

— Me desculpe.

Rukia sorriu, erguendo a mão que não estava entrelaçada com a dele para acariciar seu rosto. Unohana lhe contou na época como Ichigo ficou quando a perdeu, como o encontrou chorando segurando-a no colo na noite chuvosa da batalha que a levou, e tudo que tinha presenciado dele enquanto o ruivo permanecia ao lado de seu corpo pelas horas seguintes. Rukia também se lembrava de como o tinha encontrado quando sua alma foi capaz de alcança-lo em seu mundo interior, apenas respirando e imerso em dor, sem nenhum traço da determinação de sempre. Mas agora ela queria lembra-lo da alegria de quando voltou para ele, do futuro maravilhoso que estavam criando juntos, então desviando o olhar dos orbes castanhos para as flores desabrochando acima deles, ela repetiu quase as mesmas palavras que lhe dissera naquele dia.

— Você consegue ver as flores desabrochando nessas árvores, Ichigo? Olhe pra o sol através dos galhos... Não está bonito? E a brisa de hoje não parece confortante? Do mesmo jeito que as estações mudam na natureza, o formato das nuvens que passam pelo céu também muda. Agora... Vamos dizer adeus pra aquele dia, pra o que aconteceu, pra todas as vezes que quase perdemos um ao outro. E as lembranças boas de todos os dias incríveis que vivemos vão sempre continuar nos nossos corações. Lembra da nossa promessa?

— Aquela... Com palavras que só nós podemos entender? – Ele sorriu – E que não podem ser dissipadas pela distância.

— Essa – Rukia falou com alegria – Nós a cumprimos, e ela se fortalece a cada dia. E eu estou orgulhosa de você. E feliz por estar aqui com você agora. Vamos entregar uma nova promessa ao vento agora que nós quatro estamos bem?

Ichigo abriu um novo sorriso quando lágrimas brilharam em seus olhos. Já fazia tanto tempo... A batalha contra Iruma nem tinha sido a última guerra que enfrentaram, que apesar do quão pesada foi, ainda conseguiu feri-lo menos do que no dia que ele perdeu Rukia. E aqui estavam agora, vivos, bem, casados, e a espera de dois filhos de uma única vez. Haruka e Iruma também estavam bem, seguindo seus caminhos até poderem viver juntos de novo um dia, ele no mundo dos vivos, e ela vivendo com Kukkaku e Ganju, e sendo uma boa aprendiz, segundo a própria Kukkaku, além de constantemente visitar Rukongai para ajudar crianças perdidas como ela e Iruma.

Olhando profundamente nos olhos da esposa, que brilhavam tanto quanto os seus, Ichigo permitiu seu sorriso aumentar antes de responde-la.

— Vamos – lhe disse de maneira doce, e seguiu o pedido silencioso de Rukia para que ele se aproximasse, abraçando o pequeno corpo com cuidado quando seus lábios se encontraram, selando uma nova promessa debaixo das cerejeiras da Soul Society.