Debaixo Das Terras Sagradas
4 Capítulo 3 - Tire-me daqui, meu príncipe. 2ª parte
Notas iniciais
Lembro que enquanto estava desacordada tive um sonho, não exatamente um sonho... Era quase uma visão. Alguém me chamava, era jovem e às vezes se transformava em um gato. Era muito estranho, como se quisesse me levar a algum lugar. Neste ‘sonho’, esta moça possuía cabelos negros como os meus, mas seus olhos eram púrpuros. Ela possuía um ar misterioso junto com uma superioridade inabalável. Conforme quase me hipnotizava, estava me levando a algum lugar e me mostrando o caminho, como se quisesse me levar ate lá na realidade, prestei bastante atenção no caminho. Existiam lugares que eu já até tinha conhecimento que existiam. Ao final, chegamos a uma vila humana, eles já estavam na era feudal, e ela era um mulher viúva e tida como bruxa na sociedade, o que eu acho que era verdade.
Ao acordar, me senti dentro de uma caverna, sendo carregada por minha irmã que resmungava por eu ser tão pesada.
– ei, para, eu não sou gorda! – eu dizia com voz sonolenta.
– ALELUIAAA, você acordou! Vamos, desça do meu colo. – dizia Denachi como se isso fosse a salvação do mundo dela.
– ah não, estou cansada, por favor, me deixe ficar aqui por mais um tempinho – eu disse forçando a “manha” em minha voz.
Sem mais delongas, ela me jogou no chão. Bati de costas, o que não foi muito feliz. Ao sentir que todo o meu corpo estava doendo muito, Lucis caiu no chão.
– Denachi eu disse pra você carregá-la – dizia ele com grande esforço.
– mas por que se ela já está acordada?
– porque ela está fraca, não tem como se mexer, eu usei cada gota de vitalidade que ela tinha. Se você deixar ela caída ai, eu não vou poder me levantar e muito menos carregar o seu dinheiro.
Conforme a explicação de Lucis, minha Irmã começava a entender como um sistema Chevalier – Mestre funcionava, e eu continuava não entendendo nada. Depois, ela me pegou no colo e Shruikan pôde se levantar.
Ao cair da noite, paramos em uma cabana abandonada e dormimos por lá. O cheiro era de mofo puro, o que não era muito diferente de nossa casa.
Enquanto dormia, sonhei com aquela mulher de novo, contudo, eu estava na cidade feudal anteriormente relatada e conversava com ela, eu tentava escutar o que ela dizia, mas não conseguia ouvir. Ao acordar, não me sentia mais zonza, somente continuava com aquele sonho em mente.
– eu vou sair para tentar achar algo que comer. – disse Lucis.
– finalmente eu já estava com fome! – gritou Denachi, como sempre.
Assim meu cavalheiro saiu da cabana sem dar ouvidos à minha Irma.
– cara idiota, nem me dá atenção... -
Poucos minutos após a sua saída, apareceu um gato branco de olhos roxos na porta, que, por coincidência, estava entreaberta. O reconheci imediatamente de meus sonhos. Era a mulher de cabelos negros e olhos roxos que às vezes virava um gato.
– Olha, Kat! Um gatinho! – falava Denachi maravilhada, a única coisa viva que ela gostava além dela mesma eram os gatos.
– Saia de perto dela, Dena! – eu gritei apavorada, enquanto o gato virava gente.
– AAAAH! MAS QUE MER...
– Não precisam ficar apavoradas... Sou um demônio também. – ela falava com simplicidade na voz, enquanto colocava uma manta negra para cobrir seu corpo nu.
– Eu te conheço... Você e a mulher que invadiu meus sonhos...
– Ahn? Que sonhos, Katsu? – falava Denachi, como sempre não entendendo nada.
– É claro, eu controlei seus sonhos, mas como você estava demorando demais para ir até mim, eu vim até você. Seus poderes ainda estão muito fracos, por isso pude entrar em sua mente. Pena que não posso te controlar por causa do seu sangue nobre. – disse a mulher ironicamente.
– Mas porque você queria me levar até você? – eu disse soberana, assim como ela, era uma disputa ideológica de egos.
– Ah! Claro. Para ensinar a vocês duas a usar seus poderes. — ao dizer isso, materializou uma cadeira que parecia ser muito confortável.
– Como assim poderes? – disse Denachi, que parecia ter gostado disso. – tipo, poderes para matar pessoas? – falava enquanto um sorriso maléfico brotava em seu rosto.
– É, é... Você também pode matar pessoas com seus poderes. – dizia a demoniza como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. – mas também pode controlá-las ou simplesmente fazê-las desaparecer, virar pó. Não é, Katsugo?
– Como assim, Katsugo? – perguntava minha irmã, enquanto olhava para mim fixamente.
Eu simplesmente me mantive calada. Somente uma coisa me intrigava: como aquela mulher sabia...
– Ela não te contou? – falava a mulher de cabelos negros, interrompendo meus pensamentos. — mas que péssima irmã você tem! Bem típico dos demônios mesmo... Ao completar 14 anos, sua irmã fez toda a escola virar pó, lembra? Do dia em que todos na sala viraram pó?
– Katsugo, foi você? – perguntava-me minha Irmã impertinente. – de verdade, foi você? Porque foi SUPER LEGAL! – gritou minha irmã, extasiada só ao lembrar-se de todos aqueles celestiais ridículos desaparecendo.
– Sim, fui eu. Mas me descontrolei. E também eu nem sabia que podia fazer isso.
– Por isso eu estou aqui, vocês tem que aprender a controlá-los, e no seu caso, Denachi, despertá-los ainda.
– Por que você nos ajudaria? Pelo o que eu saiba, demônios nunca ajudam uns aos outros. – eu a perguntei, provavelmente teria algum objetivo em mente.
– Bem, a sua mãe não queria que vocês despertassem seus poderes, porque se finalmente os controlassem, poderiam destruir ela. Eu apreciava esse pensamento, ela iria tomar o poder do mundo e simplesmente escravizar a todos, até mesmo os demônios. Ainda bem que ela morreu! Agora, como vocês devem saber, os celestiais estão à caça dos demônios, muitos ainda sobrevivem, mas precisam se esconder. A maioria nem sabe que possui poderes. Ainda bem que você tem uma avó que sabe usá-los – falava enquanto apontava para si mesma, como que se vangloriando.
– Espera um pouco. Então você é nossa avó?- eu disse, totalmente sem acreditar. Ela era tão jovem quanto nossa mãe! Isso seria impossível.
– É claro que não, Kat, a nossa...
– Sim, eu sou – falou a demoniza, sentada à nossa frente, interrompendo a fala de Denachi.
– Uau! Avó, quero ser que nem você quando crescer! O que você fez pra ficar em forma? – perguntava Denachi incessantemente.
Enquanto Denachi falava, Lucis adentrou na sala, e nos olhava não entendendo nada.
– Servo, esta é nossa avó, ela vai nos ensinar a usar nossos poderes. – eu falei como se fosse a coisa mais normal do mundo.
– Até mesmo na pobreza vocês têm um servo leal? Que poder usou nele, Katsugo? – perguntava minha avó, surpresa.
– Nenhum, eu sou o Chevalier dela. Pena que não posso matá-la, conseguiria isso facilmente. – falava Lucis se contorcendo de raiva.
– É verdade, mas não a partir de agora. E a propósito meu nome é Yami no Nagai – falava minha avó como se ele não fosse nada. O que realmente ele não é.
– Viu? Você está ferrado agora – dizia minha irmã entre risos.
– Ele deve saber disso – eu disse, soberana.
Após esta longa conversa, nossa avó nos levou até sua casa, que não era nem um pouco humilde. Na verdade era uma mansão, deixada por seu marido, o ex-barão da região que foi morto por ela. Contudo, ninguém se atrevia a encostar um dedo na mesma, pois havia silenciado a todos.
– Bem, esta é minha humilde casinha – disse a “baronesa” sarcasticamente.
– Parece que ficaremos muito bem instaladas aqui, não é, Katty? – cochichou minha irmã perto de meu ouvido, e depois saiu dando pulinhos de alegria em direção a nossa avó para perguntar onde iríamos dormir.
– Como vocês são novas na cidade, direi que são minhas sobrinhas que vieram morar comigo após o falecimento de sua mãe, o que em parte é verdade, né? Falava ela enquanto procurava um dos criados. – Estão com fome?
– Ainda bem que você fez essa pergunta — disse Lucis como se fosse a salvação do mundo.
– A pergunta não estava sendo dedicada a você – disse minha avó asperamente – és um servo, não tens de falar nada.
Assim, chamou uma de suas servas para mostrar os aposentos de Lucis entre outros.
– Bem, minhas queridas, os seus quartos eu pessoalmente mostro.
Conforme falava sobre a arquitetura da casa, subia as escadas, cujos corrimões de ouro puro brilhavam com a luz do lustre de cristais. A mesma era coberta por um tapete vinho que se assemelhava a cor dos meus olhos. Pelos corredores que passávamos, enquanto minha avó falava sobre seu processo histórico, minha irmã olhava impressionada as pinturas penduradas na parede. Era de se esperar, estas retratavam principalmente guerras e a dor alheia. Após andar um pouco, chegamos a uma porta no começo de um longo corredor. Esta era de madeira com detalhes de ouro.
– Este aqui é o meu quarto. Toda a vez que tiverem algum problema, podem vir que estarei aqui.
Depois desta breve explicação, seguimos caladas até uma outra porta, um pouco distante da primeira.
– Este daqui vai ser o quarto de Denachi, ambos seu e da Katsugo são iguais.
Falava enquanto abria a porta do quarto. Este era muito melhor do que imaginávamos. Parecia um quarto de princesas, como ouvíamos falar nos livros celestiais. A cara da minha irmã não foi muito boa.
– O quarto tem que ficar assim mesmo? Todo cheio de bondade no ar? – falava minha irmã assustada.
– Claro que não, você pode decorar do jeito que quiser, só não o deixe muito sombrio, pois podem-se espalhar alguns boatos sobre você que poderiam atrair celestiais para cá.
– Ah, claro.
Mesmo assim, ficamos maravilhadas. Os quartos possuíam todo o conforto que qualquer humano poderia querer e que nós nunca tivemos. O quarto de minha irmã era azul, praticamente, então a mesma decidiu deixá-lo assim, por causa dos boatos que poderiam se espalhar. Meu quarto era vermelho, minha avó me explicou que fora decorado assim, pois era de visitas, mas mesmo assim o adorei, era uma de minhas cores favoritas.
Depois de nos apresentar os quartos, ela foi embora, deixando cada uma em seu respectivo quarto. Assim comecei a vasculhar o que teria por ali. Olhei o guarda roupa, mas nele não havia muito que se vestir. Somente as roupas de dormir. Imaginei que minha avó iria comprar mais roupas amanhã. Após alguns minutos vasculhando, um servo veio me avisar que já era a hora de jantar. Assim saí do quarto e o segui até a sala de jantar, a mansão era tão grande que dava para se perder.
Ao chegar à sala, logo vi uma enorme mesa de jantar, que tinha somente três assentos, que exagerado. Na cabeceira da mesa, minha avó estava sentada, contudo, logo me lembrei que deveria a chamar de “tia”. Não poderíamos estragar nosso disfarce. Ao seu lado direito, estava sentada minha irmã com cara de esfomeada, coitada.
– Venha, minha querida, sente aqui ao meu lado. – disse minha avó fingindo ser amável. E como ela disfarçava bem.
– Claro.
Assim como minha “tia” pediu, sentei ao seu lado. Notei uma ligeira falta de meu servo, geralmente ele nos servia a comida, contudo deveria estar mais ocupado. Tinha uma mansão inteira para cuidar, ainda bem.
– Desculpe-me por minha falta de cordialidade. O jantar ficou um pouco atrasado, pois pedi um prato especial para esta ocasião. Amanhã chegarão suas roupas, mandei fazer algumas que poderão mudar caso não for de seus respectivos gostos.
Quando terminou de falar, gesticulou com uma das mãos para nos servirem o jantar. Era algum tipo de prato rico, pois eu não sabia o que estava comendo, mas era bom. Ao terminarmos de jantar, fomos para nossos quartos novamente.
Quando cheguei a meu quarto, subitamente me joguei em cima da cama. Estava muito cansada. O dia tinha sido longo, mas pelo menos agora teremos um pouco mais de conforto.
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