- cinco semanas depois -

Merda! Hugo sempre estraga tudo.

Logo quando Marjorie está na sua época de matança, Hugo precisa que eu dê uma festa, algum anúncio importante que ele tem que fazer e quer comemorar com a irmã mais velha (ou porque eu sou maior de idade e posso comprar álcool para ele). Eu preciso muito ensaiar. Por isso, tento evitado contato familiar nas últimas semanas. E como moro com meu irmão, meio que compensa o resto da família que eu não tenho que aturar. Digamos que Hugo vale por quatro.

Estava indo para o rinque, então guardei o celular dentro da bolsa, paguei a conta e saí do pequeno café que conhecia desde que eu me associara ao Centro e rumei.

O rinque, como sempre, estava vazio. Deixei minhas coisas em uma arquibancada qualquer, pus o som, coloquei os patins e dei início à rotina que trazia há muitos anos. Atualmente, não tinha uma coreografia para ensaiar, pois esta ainda não havia sido montada, então ensaiava os movimentos essenciais – e mais alguns que eu sabia que sempre me creditavam pontos e conseguia dominar – e tentava os memorizar para quando fosse montar uma sequência de ensaio. Eu patinava no gelo desde os nove anos no lago congelado que havia os fundos da casa dos meus avós e, apesar de ter sido por motivos de insistência, acabei me apegando tanto ao esporte que hoje o levava como profissão.

Depois de muitas horas e uns dois tombos ocasionais, a fadiga e a fome já se apossavam de mim. Sei que não deveria me desligar do mundo por tanto tempo, mas eu tinha que ensaiar muito, o quanto eu pudesse se quisesse alcançar as metas propostas por mim mesma. Eu tinha que alcançar.

Ouço passos atrás de mim. Imaginei que fosse algum aluno perdido, mas era alguém que eu sabia que conhecia muito bem área e que não estava perdido. Acho que ele não me reconheceu, mas fico satisfeita por saber valor de uma namorada por uma noite.

- EI! – chamei quando vi que ele se afastava.

Ele se virou. Tinha alguns flocos de neve na cabeça, o que restava de um dos primeiros dias de neve desse inverno – Procurando por alguém? – perguntei, indo até a amurada. Olhando porta afora, via uma fina camada de neve quase derretida.

- Não, na verdade. Eu achava que ninguém vinha aqui nos sábados – Scorpius examinou o lugar, percebendo que eu estava sozinha. Acho que ele fez uma careta por baixo do gorro quando ouviu o que estava tocando pelo lugar inteiro.

Uma das vantagens de passar tanto tempo por lá, era que eu sabia como abrir todos os vestiários, pegar emprestado um par de patins quando eu não queria trazer os meus, e também sabia como conectar o som de todas as caixas de som com meu celular. No momento, começava Fuck me pumps, e eu tinha quase certeza de que a próxima era Wherever you will go.

- Ninguém vinha mesmo, mas agora eu venho. Já estou saindo, se você quiser... – falei, mas na verdade pretendia continuar praticando por mais uma ou duas horas até desmaiar. Não estranhe, acontece muito.

- Não, pode ficar! – se apressou em dizer, e já ia saindo.

- Venha aqui! – chamei. Quando ele se virou, cantava um trecho da música – Don’t get too upset if they call you a skank, cause like the news, every day you get pressed – cantei junto. E estava surpresa por alguém ainda saber Amy Winehouse.

- Cara, essa música me atormenta! – ele riu, e eu não entendi o motivo.

- Como assim? – me sentei na amurada, com as pernas para fora, os patins pesando e ameaçando a me derrubarem. Scorpius se aproximou e escorou-se ao meu lado.

- Minha irmã só ouvia isso, o dia todo, todas as noites. Acho que em um mês eu já sabia o Frank inteiro de cor.

- Frank é o melhor álbum. Eu não me importaria de ter uma irmã que escutasse Amy – silêncio. Até que girei o corpo e coloquei os pés para dentro do gelo, e voltei a fazer o que fazia antes. Parecia tolo, mas eu ficava mais ativa se ouvia música.

- O que está fazendo? – ouvi Scorpius gritar.

- Entre aqui!

Eu sabia que não era permitido entrar no gelo de tênis tanto quanto Scorpius, mas, como ninguém estava por perto, não faria mal. Quanta ousadia, não?

Ele caminhou até onde eu estava, e estava rindo do jeito desajeitado que eu dançava Fuck me pumps, uma música, de certa forma, charmosa, que nós dançávamos como dois bêbados, pois Scorpius quase não conseguia levantar os pés, os tênis grudando no gelo, e eu estava com um par de lâminas afiadíssimas nos pés e tentava dançar parada, o que não sucedeu muito, já que eu só arranhava o gelo. Quando estávamos bem perto, percebi que ele tinha uma cicatriz que ia de sua orelha esquerda até a sobrancelha do mesmo lado, só desse jeito eu conseguia ficar da mesma altura que ele. Levantei seu gorro até conseguir tocar a cicatriz, que, ao toque, parecia ser resquício de um corte bem profundo.

- O que foi isso? – perguntei. Ele baixou o gorro e afastou minha mão, mas não acho que tenha sido sua intenção ser rude ou alguma coisa assim.

- So dust off your fuck me pumps – cantamos o fim.

- Está aqui há muito tempo? – perguntou ele, mudando rapidamente de assunto.

- Sim, é – respondi, e ele levantou uma sobrancelha, como se perguntasse o motivo — um salto. Um salto que eu não consigo finalizar.

- Posso ver?

Por mais surpresa, que eu tenha ficado ao notar que Scorpius queria ver meu salto, fiz. Ele se afastou e eu peguei impulso para o movimento. Ao voltar à amurada, depois do salto, Scorpius se aproximou novamente.

- Eu posso estar errado, mas... – ele pegou meu braço esquerdo e o esticou na horizontal, depois meu braço direito e colocou-o ao redor do meu corpo por trás.

- O que você está fazendo? – perguntei, quando vi que ele queria que eu mantivesse a posição – O que você sabe sobre patinação? – ele só me encarou.

- Faça de novo, mas quando puser os pés no chão, deixe seus braços assim. E dobre seus joelhos.

“Como se eu não tivesse tentado”, pensei. Mas fiz, não tinha nada a perder e talvez me ajudasse quanto ao equilíbrio.

E deu certo. Deu certo. Scorpius Malfoy, um jogador de hóquei, o esporte mais monstruoso dos rinques, consertou meu salto. Estava prestes a agradecê-lo, mas, quando me virei para onde ele estava antes, ele havia sumido.

Bebida? Certo. Música? Certo. Decoração? Não, eu odeio isso. Comida? Eu nunca me esqueceria da comida.

Meu plano era não sair do quarto durante a festa, só se Hugo colocasse fogo no apartamento, ou se eu quisesse comida. E eu não queria querer.

Pelo som de passos e a música alta e as risadinhas, soube que as pessoas começavam a chegar. Acho que fiquei horas no quarto tentando me concentrar em um livro quando uma menina adentrou meu quarto sem bater à porta. Senti vontade de mandar que ela se retirasse de meu apartamento, pois, apesar de ser uma pessoa calma, eu tinha uma regra. Ninguém entra no meu quarto.

- Você é a Rosalie certo? – assenti – Hugo pediu para você aparecer no quarto dele.

A menina desapareceu, fechando a porta do quarto, e eu bufei com meu irmão, mesmo sabendo que ele não estava aqui. No momento, eu usava um moletom, calças largas e pantufas gastas, roupas de ficar em casa. Esgueirando-me pelo corredor, tentando não ser vista pelas outras pessoas, fui até o quarto de Hugo. Ele estava sentado na cama, de costas para a porta. Levantou-se e veio até mim quando me viu.

- Queria falar comigo? – perguntei apreensiva vendo seu semblante.

- Sim – ele respondeu, mas parecia nervoso, como se temesse que eu fosse espancá-lo se eu não gostasse do que ele diria – Você sabe quem estamos em uma situação um tanto complicada lá em casa, não? – e estávamos mesmo. Papai tinha uma companhia e... Olha, eu posso te contar outra hora. Agora quero ouvir o que Hugo tem pra dizer. Concordei com a cabeça, incentivando-o a continuar — E ele quer que eu volte a trabalhar com ele. E...

- E... – incentivei.

- E ele está me mandando de volta para o Canadá.

Eu não sei se me sentia brava com Hugo por ter feito drama por isso ou feliz por sua oportunidade.

- Isso é bom, não é? – pulei para abraçá-lo e senti que ele aliviara os ombros – Você achou que eu não fosse gostar? – perguntei enquanto saíamos o quarto e íamos em direção à cozinha. Eu não queria sair do quarto, mas ele apontou para o pudim, e eu não resisto a pudim.

- Acho que a gente mora junto há tanto tempo que eu achei que você iria ficar braba de ter que morar sozinha, se bancar enquanto eu viajo para outro continente, sabe?

- Nem mencione isso, Hugo. Nisso eu ainda não tinha pensado. Tá, e cadê o pudim?

- Na mesa de centro, pega ali.

- Não, eu to de pijama. Pega pra mim – fiz uma cara de pedinchona, e ele foi. Enquanto esperava, me sentei no balcão da pia, balançando os pés e observando os leões nas pontas das pantufas que conservava desde pequena.

- Gostei das pantufas – disse alguém atrás de mim.

Dei um pulinho, sentada, de susto. Virei-me para trás e a menina que me chamara no quarto, antes, me encarava. Só agora eu reparara nela e em uma garota que dançava logo atrás. As duas eram parecidas, eu diria que eram irmãs. A que eu já havia visto, era loira, tinha cabelos cacheados e olhos azuis. A irmã, atrás era um pouco mais alta e esguia, como uma modelo. Era uns bons anos mais velha que eu e se parecia com a irmã, mas seus olhos eram pequenos e castanho-escuros. O cabelo era liso e a face era carregada de maquiagem.

- Ah, obrigada – respondi, dando-lhe um sorriso – Como está a festa?

- Você deveria saber, é sua festa.

- Não, o lugar é meu. A festa é do...

Eu não pude acabar a frase.

Notas finais
comentem o que vocês acharam :)

@hearthalia
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.