Death Note: Resurgence

22 Death Note - Maçã (Parte 2)


Notas iniciais
Continuação do capítulo anterior.
Boa leitura!

Eu sabia que havia maçãs restantes, pois reparei em Yagami as guardando mais cedo. Minha curiosidade por este fato se tornara alguma necessidade. Amane enrolou a ponta dos cabelos com os dedos, parecendo cogitar um pouco sobre realizar ou não meu pedido.

— Amane-chan...

Ela me olhou. A mão que antes estava sobre meus lábios apoiou meu corpo para próximo dela. Alcancei facilmente o pé de seu ouvido. Movi meus lábios para proferir...

— Eu sabia.

— Sabia o quê? – o detetive parou no meio da trajetória, enquanto levava uma jujuba azul para a boca.

— Sabia que ia rolar um romance aí.

— Eu já disse, Amane é uma mulher muito linda, mas isso é...

— CHEGUEEEI! b35;

L deslizou o pé pela poltrona inconsciente no momento em que ouviu a voz, indo ao chão com um barulho cômico. Misa parou depois da porta, encarando o desastre com curiosidade. Matsuda levou a mão para a boca, tapando uma risada repentina.

— O que houve com L-kun?

— Ele só está um pouco... gamado. Hahaha... – Matsuda escondeu o sorriso de novo.

— Ãhm?

— Não é nada disso, Matsuda-kun. Eu só caí. Isso se chama força da gravidade.

O rapaz se colocou em pé, com um rosto frustrado. Misa olhou para ele.

— Você está bem?

— Sim. Estou ótimo. – disse – Porque não vai tomar um banho, Amane?

— Sim, sim! É isso mesmo que vou fazer! Vou ficar cheirosa, porque tenho uma entrevista com a Magazine Kawaii daqui algumas horas... até mais tarde!

A mulher subiu as escadarias, enquanto L se recompunha em cima da poltrona. Olhou sério para Matsuda, que lhe oferecia um sorriso de quem diz “Fala a verdade...!”.

— Posso continuar?

— Pode, pode... – Matsuda continuava a dar indícios de uma risada.

Eu perguntei apenas porque Yagami parecia me recusar a oferecer maçãs. Sussurrei próximo de seu ouvido por segurança. Amane me olhou bastante hesitante.

— Porque... Porque, no estado atual de Ryuuzaki, maçãs não são gostosas.

— Aposto que são melhores que pêras. Por favor, estou com muita fome...

Meu rosto podia estar completamente desfigurado, mas minha expressão de ‘pidão’ estava inteiramente convincente. Ela torceu a cara.

— Não, não, não...! – senti o nervosismo nos olhos dela. Parecia numa tentativa frustrada de negar meu pedido, mas... – Aaaah... Raito vai me matar...

A garota levantou-se. Andou tranqüila para os fundos do galpão. Porém, até onde minha visão pôde alcançar, a vi parar no meio do caminho. Ela ficou estática virada de costas para mim. Observei-a... Misa fez um gesto positivo com a cabeça, e, segundos depois, olhou a mim por cima do ombro. Fez uma face ainda mais contorcida, então, deixou o galpão. Eu não voltei a vê-la naquela noite.

Acreditei que, se Yagami quisesse mesmo me manter longe das maçãs, não as deixaria sobre supervisão de Amane... Talvez como última opção. Mas, então, o que guardava aquelas maçãs? E o que Amane confirmou naquele momento? Isso me deixou bastante frustrado.

— Era o Shinigami, era Ryuuku. – observou Matsuda, encarando L e penetrado em sua narrativa.

— Sim, suspeitei disto.

L colocou um pedaço inteiro de torta de maçã na boca. Mastigou-o enquanto Matsuda o fitava aguardando L prosseguir. Depois de engolir, o detetive continuou:

Procurei pelas maçãs. Andei pela área do galpão em que estava.

Enquanto as buscava, encontrei um pedaço de maçã roído. Abaixei-me ao lado e peguei-o com o indicador e o polegar. Larguei-o no momento em que meus olhos percorreram minha frente: lá estavam elas.

Estavam escondidas debaixo de alguns entulhos. Suspeitei onde estavam pela direção que Amane tomou. Recolhi o pacote de frutas, pegando uma delas. Mal vi a hora de experimentá-la...

— Acho que Raito não ficará feliz se fizer isso.

Interrompi meu ato. Olhei por minha volta, tentando decifrar de onde vinha aquela voz rouca. Pude recorrer à minha fraca memória... já havia ouvido ela antes.

— O que é? Você pode me ouvir...! huhuhu...!

Quando virei meu rosto para frente de novo, me deparei com a criatura mais horrenda e monstruosa que pude me recordar. Seus olhos eram esbugalhados, vermelhos; um sorriso largo, cheio de dentes desnivelados, ornamentava seu rosto torto e igualmente feio. Ele me ofereceu uma risada debochada de cabeça para baixo no ar, enquanto eu me afastava alguns passos com o meu único olho presente maior que uma bola de gude.

— Quem... Quem é você?

— Não interessa quem sou. Só digo: Não coma as minhas maçãs!

Ele virou seu corpo e tocou o chão com extraordinária leveza.

— Raito me deixou tomando conta delas, então não chegue perto.

— Mas eu só ia levá-las para Raito-kun. – menti. Não é que minha cabeça funcionava um pouquinho ainda? – Ele me pediu para pegá-las. Como eu ia saber onde elas estão se ele não tivesse me contado?

— Hmm...

A criatura abraçou o saco de frutas contra o corpo, me olhando fixamente. Parecia pensar um pouco sobre o que eu havia justificado.

— É, tem lógica... Toma. Mas não as coma.

Ele me ofereceu o saco, e eu, sem hesitar, fui pegar.

— Obrigado. Não as comerei, prometo... mas... e se eu as comesse?

— Não comeria. – o monstro parecia ter se arrependido do ato.

— Espere um pouco... eu poderia te dar milhões destas.

— Sim?

— Sim. Tenho bastante delas onde eu morava antes. Aliás, posso comprar muitas delas para você...

— Quantas, exatamente?

Olhei-o. Um sorrisinho abriu-se em meus lábios fragmentados.

— Sabe quanto é trezentos mil?

— Isso é muito?

— Este é um dos melhores números do mundo humano.

Uma risadinha soou da boca enviesada dele. Parecia longa inclusive ansiosa e divertida. O exaustor refletia a luz que a lua, no direito, jorrava no teto do galpão. Feixes prateados piscavam lentamente para cima do monstro e de mim, conforme o exaustor girava. Um momento escuro, noutro, claro e visível.

— Você faz propostas interessantes, L. Soube que você é um humano com mente equivalente à de Raito. Fazer tratos com mentes inteligentes, até agora, só me trouxe cada vez mais diversão...

— Não acredito que você fez um pacto com o Shinigami!

— Pois fiz, e cumpri.

Matsuda olhava pasmo para L. Este último, apenas passava o dedo em círculos sobre o prato vazio. Ninguém podia determinar se o espanto de Matsuda era apenas pela história, ou também pela velocidade em que o detetive devorou o bolo.

— Você deu a ele as trezentas mil maçãs?

— Sim. Bem, pedi isso a Near. Ele cuidou do caso desta vez. – ele passou a língua pelo dedo, pela última vez, para então dizer: Propus ao Shinigami que, se ele cumprisse minhas ordens, eu lhe daria as tais trezentas mil maçãs. Eu peguei as maçãs da sacola naquela noite, comi várias delas, até que recuperei noventa e oito vírgula noventa e dois por cento de minha capacidade lógica e de minha memória, além da melhora excepcional na aparência física. Redescobri, praticamente, o mundo de novo. Deixei o lugar sabendo quem exatamente Yagami era, o que ele tramava contra mim e o restante do mundo, o dia de minha morte e qual era meu dever.

— Você me assombra, L. – Matsuda recostou o corpo no sofá, com as mãos sobre o colo. – Como conseguiu, mesmo sem estar com estes noventa e oito por cento da...

— Noventa e oito vírgula noventa e dois por cento. – corrigiu o outro.

— Ah, bem, que seja. Com este número aí de lógica, como conseguiu persuadir um Shinigami a fazer o que queria?

— Não só o Shinigami, mas como Misa Amane também.

— Como assim? Mas ela não lhe entregou as maçãs...

— Por interrupção do Shinigami. Ela quem me induziu a investigar se havia alguém protegendo as maçãs. Logo, ela tem parte importante neste aspecto, mesmo sem querer.

— Inteligente...

— Ouvi meu nominho aí?

L e Matsuda fecharam a boca quando ouviram os passos descendo a escadaria. Olharam. Lá vinha Misa, bem trajada com um belo vestido negro estilo boneca, decotado e justíssimo, que possuía um detalhe na cintura – como aqueles vestidos rodados de bailarina – escondendo apenas o começo de suas coxas. Um par de sapatilhas da mesma cor do vestido e longas meias monocromáticas ornamentavam seus delicados pés. Ao menos foi o que os dois homens repararam depois que ela atingiu a base do chão e foi até eles.

— Como Misa está?

Matsuda encarou a expressão de L. Não deu outra: Matsuda segurou o riso outra vez. Parecia que L havia visto um novo Shinigami. Seus lábios estavam demasiadamente separados, enquanto seus olhos estavam maiores do que de costume.

— Que cara de espanto é essa, Ryuuzaki? Hihihi...

Misa avançou para perto de L e lhe tocou de leve sobre os lábios com os seus, tão delicadamente quanto plumas, tão rápido quanto uma memória feliz. A expressão de L não mudou após aquele beijo surpreso, e Misa cantarolou naturalmente:

— Vou indo, garotos! Nos vemos mais tarde!

A porta bateu de leve. Matsuda estava com as mãos sobre a boca. Ele imaginou que L ficara mais pálido do que já era, além de achar que ele estava morto – de novo. Nem se arriscou a tocá-lo. Apenas levantou-se – entre risadinhas –, contornou a poltrona e foi embora no momento em que L desabou no chão.