Death Note: Resurgence
12 Death Note - Equívoco
Notas iniciais
\"A escrita do nome não terá efeito se o escritor não tiver em mente o rosto da vítima. Assim, pessoas que compartilham o mesmo nome não serão afetadas\"
(Death Note — How to Use It — Rule 2)
Todo aquele alvoroço de seis anos de Kira havia se aliviado dentro mente de Near, mas não tanto quanto ele imaginava. Alguma coisa insistia em martelar seu subconsciente, como o aviso de que o fim verdadeiro ainda não terminava o jogo. Nenhum outro assistente residia mais com ele; já não era necessário: Kira tinha sido morto, as provas recolhidas, o caso dado como encerrado. Contudo, não para Near. Ousava em brincar com o boneco sem-cabeça nos dedos, enquanto aquele que representava L estava ao seu lado. De vez em quando, Near desviava o olhar de Kira decapitado para este. O rapaz o pegou e encaixou no dedo indicador oposto. Agora ambos estavam virados um para o outro, na frente dos olhos atentos de um adolescente que insistia em brincar de fantoches-de-dedo.
— Será que algum dia recolocarei a cabeça de Raito Yagami? — sugeriu Near, olhando para a parte que faltava neste ao seu outro lado, mais distante, esquecido no chão — L... você que tem uma mente tão superior a minha e à de Kira... porque não volta para me responder à essa questão?
Os olhinhos pintados de L no fantoche fitavam o garoto, estalados. Near girou os olhos para Kira.
— O quão é influente neste mundo, afinal? — questionou agora para este segundo boneco. Obviamente, nenhuns dos dois fantoches lhe respondiam às suas perguntas.
Entediado pelo silêncio, Near pegou o controle remoto com a mão que abrigava o boneco de L e apontou com sua cabecinha no botão de ligar a TV. Neste momento, a voz da âncora do jornal fez-se presente, ligeira e atrativa como sempre:
“... mais quinze presidiários recentemente encontram-se mortos na penitenciária de Kyoto. Não se sabe ao certo o porquê de suas mortes. As autoridades que examinaram os corpos não quiseram revel... ”
Near apertou o botão e mudou de canal.
“... Novos acontecimentos trouxeram medo na população japonesa. Mortes com sua causa de parada cardíac... ”
“... em um ônibus, onde um homem assaltava morreu após deixar o veículo e ser atropelado por um caminhão à velocidade de oitent... ”
“... ortes misteriosas em cadeias de todo o país... ”
“... Seria um suicídio em massa? Dez foragidos se jogaram do mais famoso prédio d... ”
“... acreditam que a ameaça está de volta. Porém, não há motivo para... ”
“... todos já se encontram em pânico, mas as autoridades de operações especiais afirmam que são apenas coincidên... ”
O garoto apertou rapidamente o botão de desligar. Seus olhos estavam presos na tela escura da TV. Ficou pensativo durante bom tempo. Depois, aproximou-se da cabeça do bonequinho que representava Raito Yagami e moveu-a na frente dos olhos.
— Você é capaz de burlar as leis de Deus tanto quanto se imagina, Yagami?
— Humano? Bom, voltar a ser humano seria uma coisa bem complicada, sabe? Mas... dá pra fazer você terem suas aparências humanas de volta.
Ryuk passava a mão na nuca, parecendo ponderar sobre como resolver a questão imposta por Raito.
— Mas se eu me tornei um Shinigami, quer dizer que eu também poderia ser um humano, não?
— Sim, há a possibilidade. Mas, para que iria querer voltar a ser vulnerável daquela forma? Você continuaria com algumas poucas características de Shinigami, mas voltaria a se tornar fisicamente mortal.
Raito andou um pouco para o lado. Misa apenas acompanhou-o com o olhar, ansiosa. Ficava esperando cada movimento dele, para qualquer motivo comentar algo como \'Ah, você fica tão bem pensativo!\' ou \'Raito, sem dúvida, supera a beleza de qualquer Shinigami!\'. Por que, raios, ainda suportava a existência de Misa? Seria um transtorno continuar a sustentá-la por perto... porém, pensando melhor, tão útil fora ela quanto Mikami. Se a eliminasse naquele momento, um a menos do seu lado, que agora perdia destaque.
— Para quê? Oras, Ryuk... É gostoso jogar um jogo quando somos mais fortes, mas é ainda melhor quando estamos no mesmo nível que o adversário. Aliás, ser um Shinigami me dá a desvantagem de não poder mais ter meu próprio caderno. Para julgar, vou precisar ser o dono do Death Note novamente. Ainda assim... — ele voltou os olhos tão ansiosos quanto os de Ryuk — ... o tédio me consumiria.
— He! Raito Yagami sempre procurando os desafios...! Desde que o conheci, nunca ignorou um só desaforo quando pôde colocá-lo contra o inimigo... Será que vamos recomeçar nossa diversão, uhm?
— Sim, Ryuk. Se você me ajudar, diversão agora é que não vai faltar...
— Misa também quer se divertir! — empolgou-se a Shinigami.
— Você disse que há possibilidade, Ryuk. É só nos dizer o que fazer, e então faremos... não há mais barreiras para mim — afirmou Raito, sorrindo abertamente.
O outro Shinigami, como Raito, fez o mesmo. Sorria também. \'Desafio\' era um forte sinônimo de \'Diversão\' para Ryuk, por isso, valeria uma eternidade trancafiado numa cova do Reino Shinigami a ficar no tédio de novo.
O toque do telefone. Seus assistentes ainda de plantão foram instruídos para apenas ligar quando houvesse uma emergência. Claro que Near já adivinhava o que era. Ele atendeu, colocando os fones de ouvido e a distorção de sua voz, caso fosse alguém que não era de confiança.
— Aqui é N.
— Kira não morreu.
Near olhava de soslaio para a cabeça de Kira recolocada no boneco.
— Não. Kira não morreria. Kira não é só uma pessoa, mas como pode ser várias.
— Sim, sabemos que o poder daquele caderno pode ser transferido... O que faremos?
A voz do rapaz detetive tardou bastante a falar. Por isso, a mulher do outro lado da linha pediu:
— Near, me responda — ela parecia levemente nervosa.
— Nada, Lidner. Não faremos nada.
— O quê?!
— Exatamente. Por hora, o que podemos fazer é ficar pensando em quem neste mundo imenso é o novo Kira, analisar e tirar conclusões equivocadas.
Agora foi a vez de Lidner calar-se. Ficou durante algum tempo muda do outro lado da linha, enquanto Near trazia o boneco de L para perto dos olhos.
— Você não acha que matou o Kira errado, Near? — questionou a mulher.
— Não. Kira era Raito Yagami. Este novo é outra pessoa.
- Como pode ser um novo Kira, se recolhemos todos os cadernos de nosso alcance?
— \'De nosso alcance\'. Está correta quando a isso. E aqueles que não podemos enxergar...?
Ele dirigiu os olhos para um terceiro boneco esquecido na mesa, mais ao longe. Era um fantoche de aparência monstruosa, que possuía uma foice e uma face cadavérica. Caminhou até ele, o recolhendo, enquanto Lidner prosseguia:
— Não podemos enxergar...? Afinal, quantos cadernos você suspeita que existam?
— Ninguém poderia dizer ao certo sobre um número deles. Mas \'Shinigami\' é a resposta.
— \'Shinigami é a resposta\'? Como assim, Near? Deveria parar de dar meias respostas numa hora destas! — falou Lidner um pouco exaltada.
— Achei que você entenderia mesmo se eu lhe desse um quinto de uma. Pense um pouco, Lidner... Para onde vamos depois que morremos? De onde vêm os Shinigamis?
Ela não lhe respondeu. Achou que Near estava ficando um pouco confuso quanto às suas perguntas.
— Até onde quer chegar com isso? — perguntou a moça.
— Quero chegar até ele novamente. Até Raito Yagami.
— Lembram-se dos seus corações arrancados? Vocês precisam pegá-los de volta. É a única forma de voltar a ter uma aparência humana — instruiu Ryuk aos outros dois.
— Sim... mas onde eles estão Ryuk? — perguntou Raito, mas já supondo mentalmente uma resposta.
— No Reino Shinigami. Estão enterrados, e muito bem enterrados por sinal, ao alcance do Rei Shinigami. Na verdade, a intenção do Rei Shinigami de transformá-los em Shinigamis não foi a de ajudá-los, mas sim de \'rebanhar\' os humanos mais influentes no mundo humano para a coleção dele. Não foi à toa que vocês estavam aprisionados quando acordaram.
— Ai, esse Rei Shinigami é mesmo um ganancioso! — reclamou Misa — Querendo Misa assim, porquê? Misa não é do Rei Shinigami, Misa é...
— ... do Raito. — completou Ryuk bobamente, fazendo Misa abraçar Raito veemente.
Raito girou um pouco os olhos, porém depois sorriu, tentando esconder seus sentimentos quanto a isso que Misa sempre fazia.
— Então vamos buscá-los. Estamos perdendo tempo. Há essa hora, Matsuda já deve ter cumprido alguma parte do meu mando. Aliás, minha vingança contra ele está parcialmente cumprida. Assim que eu matá-lo, ele permanecerá no vazio de sua própria morte, eternamente...
— Raitooooo... Por favor, não mate Matsu... — exclamou Misa, apertando o braço esquelético dele contra o próprio corpo.
— Misa. Você prefere que ele morra ou que eu sobreviva?
— Misa quer que Raito sobreviva, é claro!
— Então Misa terá de ver Matsuda morrer. Assim como Near, assim como todos aqueles traíras... Enquanto eles sobreviverem, não poderei limpar este mundo que está a cada segundo voltando a ficar mais impuro. Aos poucos, todos voltarão a se curvar ante minha imagem...! Vá até lá, Ryuk, e traga-os novamente. Encontraremos-nos em breve.
O Shinigami Ryuk abriu suas asas.
— Pode deixar, he! — falou ele, dando um forte impulso e subindo verticalmente aos céus numa velocidade incrível.
O sorriso de Raito enchia seu rosto de canto a canto... uma ansiedade insana percorria por toda sua alma...
- O que quer dizer com isso, Near?
- Eu quero dizer que ele quebrou mais uma regra, Lidner: Ele não está morto.
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