Death Memories: Operação Marshall
20 O Pequeno Gamer I
Notas iniciais
"Até uma pessoa encarar a morte, é impossível dizer se ela tem o necessário para sobreviver."
(Saw)
P.O.V Mello
Graças a Near ter se metido em uma briga nós fomos obrigados a ficar no quarto até segunda ordem, mas essa nem era a pior parte. A pior parte era que Paul tinha que ficar lá dentro conosco vigiando cada passo nosso. Era certo que Near não havia tido tempo de contar nada sobre a noite anterior já que só saiu para ir ao banheiro e lá levou uma surra.
Minha paciência já tinha acabado, eles não nos explicavam direito o que tinha acontecido até porque não entendiam muito também. Near comprando briga era algo inédito. Tá certo que ele provoca qualquer um mesmo sem querer com aquele seu jeito ridículo de ser, mas propositalmente... Era um aluno da Herstmore então com certeza ele fez aquilo pra conseguir informações.
Maldito, ficou um passo a minha frente. Maldito mil vezes. Eu devia já ter me aproximado de algum dos alunos, mas as lembranças da Unter, a aparição da Alice... Tudo me desviou demais do meu real objetivo ali. Destronar Near! Ele estava ganhando muita vantagem contra mim, eu precisava fazer alguma coisa.
— Vem cá... – Matt começou. – Esse confinamento exige jejum também? – ele estava deitado com metade do corpo na cama e a cabeça quase batendo no chão. Logo ia cair.
— Podem ligar para a recepção e pedirem o que quiserem. – Paul falou sem tirar os olhos de um livro que não tinha absolutamente título nenhum na capa.
— Certo, então vou ligar lá e pedir um pouco de liberdade. – murmurei e Paul ergueu os olhos acima do livro.
— Não comece Arthur.
— Ah me poupe. – me levantei da minha cama. – Pode nos vigiar do lado de fora pelo menos.
— Não. – ele falou seco.
— Não era uma pergunta! – me irritei. – Mas é o cúmulo eu ter que ficar preso aqui com você e sua cara de bosta. – Matt imediatamente se ergueu, mas só vi o vulto dele pelo canto do olho, estava encarando fortemente o homem que me devolvia a raiva pelo olhar.
— Eu digo o mesmo, mas são as ordens para cumprir nosso trabalho.
— Ah maldito, escuta...
— Já chega! – Matt gritou. – Vocês dois estão me dando dor de cabeça. Acham que tem problemas por terem que lidar um com o outro? E eu que tenho que aturar os dois? – era evidente a falta de nicotina no seu organismo para tamanho mal humor.
— Eu não posso e não vou sair, reclamem o quanto quiserem. – o homem continuou a ler seu livro sem título.
— Podemos ao menos ir ver o Charles então? – falei sem saber de onde me ocorreu tal ideia absurda, ver a cara do albino era tão insuportável quando ver a dele, claro que Matt pensou a mesma coisa e me encarou com os olhos esbugalhados.
— Assim que ele puder receber visitas, sim. Mas ele deve voltar logo, nem será necessário ir vê-lo. – me joguei na cara cruzando os braços.
— Ei Paul... – Matt voltou a falar, dessa vez mais calmo. – Acha mesmo que tem alguma chance de tentarem nos matar?
— Se há chances ou não Jhonny eu não sei dizer, mas eu posso afirmar que mesmo que tentem não irão conseguir. – ele falou tão casualmente sem tirar o livro da cara. – Não permitiremos isso sob hipótese alguma.
— Hum... bom saber... – Matt falou mais para si mesmo que para ele, suspirei pesadamente... Algo o incomodava, não apenas a falta dos cigarros. Desde que contei sobre a Unter ele ficou estranho, não sei se já estava me achando maluco, se não acreditou em nada do que disse... De repente me senti o maior otário do mundo por ter falado aquilo pra ele. Certamente iria querer me colocar numa clinica psiquiátrica quando voltássemos.
P.O.V. Matt
Ficar preso no quarto era uma tortura em vários sentidos. Não que eu seja o tipo de pessoa que gosta de ficar saindo, mas ficar ali sendo vigiado tão de perto, sem vídeo game, sem cigarro, sem walkman, sem uma revista pornô que seja, era agoniante, eu tinha abstinência de tudo o que me fazia um ser vivo.
Eu tentava a todo custo dormir, repassava até os jogos que já havíamos jogado, tentava elaborar estratégias, mas meu raciocínio estava um caos, até os números perdiam o sentido, ficavam se lógica. E ainda havia o maldito labirinto... Seria mesmo possível que minha mãe tivesse alguma ligação com a tal Unterwelt Spiele? E sendo assim talvez... Naquela noite... Nós não fomos vitimas de um latrocínio... Poderia ter sido um assassinato premeditado...
Foi há exatos três ano, na cidade de São Petesburgo, antiga capital da Rússia e a segunda maior cidade do país. Mas naquele dia, 14 de março de 1998 a cidade ficou conhecida pelo mais terrível dos latrocínios. Numa região afastada do centro, em uma grande propriedade altamente protegida, com os melhores sistemas de segurança um grupo de criminosos bem treinados invadiu a mansão. Assassinaram todas as pessoas, moradores, funcionários, nem os cachorros e cavalos escaparam. Arrombaram cofres, levaram até o último tapete e cortina. A única coisa que restou no lugar foram os corpos ensanguentados.
Até onde a mídia sabe, até onde algumas autoridades da Rússia sabem não houve sobreviventes e toda a fortuna da família acabou nas mãos dos criminosos. Essa foi a história que criaram para me proteger.
Naquele dia minha mãe estava em casa, apesar de atarefada era sempre bom às semanas que ela passava comigo. Nós nos divertíamos muito, volta e meia ela me contava sobre seus projetos, sempre prédios grandes e magníficos. Minha mãe era uma arquiteta e engenharia brilhante e por isso mesmo eu sempre me dedicava tanto nessas áreas, queria sempre entender e ajudar ela, queria ser como ela... Nessa época só havia outra mulher que eu admirava, minha guardiã, babá o que precisasse ser: Kadoshi.
Antes de a minha mãe fundar sua empreiteira e ser tão rica ela contou com a ajuda de quatro amigos para terminar a faculdade mesmo grávida já que meu pai foi um babaca que sumiu no mundo ao receber a notícia. Então, depois da sua ascensão ela convidou todos para morar na mansão e prometeu que os sustentariam no que fosse preciso. Como bons amigos eles ajudaram minha mãe a me criar e administrar a casa e os negócios. Conforme ela precisava se ausentar e o número de funcionários aumentou, eles se tornaram meus guardiões e estavam sempre por perto para minha segurança.
Eu os classificava assim:
Adam, meu treinador. Me ensinou lutas, equitação e sempre topava minhas brincadeiras ao ar livre. Sem falar que era ótimo jogar paintball com ele. A única coisa que ele tinha dificuldades comigo era na natação;
Cesar, meu professor. Ele era uma enciclopédia ambulante, mesmo eu tento aulas particulares em casa com outros mestres era sempre ele que me ajudava com os deveres e que realmente me dava explicações que eu entendia. E conforme eu comecei a amar jogos eletrônicos ele me ensinou sobre programação;
Levi, meu motorista e guarda costas. Ele era sempre sério e calado, talvez um pouco amedrontador, mas aguentava sem se irritar todos os meus chiliques, sempre me levava e acompanhava aos lugares que eu queria não importava o horário ou dia da semana. Fora dos muros da mansão ele era minha sombra e pilotava como ninguém. Mesmo sendo em karts ele me ensinava a dirigir.
E por fim Kadoshi, minha governanta. Ela administrava a casa e os funcionários, arrumava minha agenda, cuidava de tudo referente a mim e por isso me chamava de Bocchan. Eu nunca entendi bem, mas ela era japonesa e na sua língua isso significa pequeno mestre. Eu sempre me empenhei em aprender japonês, mas era minha pior matéria, meu pior idioma.
O fato é que minha mãe confiava neles profundamente e eles nos serviam de tão bom grado a ponto de morrem por nós. Agora eu me pergunto se todos eles estavam envolvidos com a Unterwelt. Se aquele ataque foi por conta de algo que minha mãe fez, afinal a palavra de ordem durante a invasão da mansão foi: Protejam o pequeno Mail.
São memórias horríveis que eu tentei apagar, mas ainda sim lembro claramente. Estava tarde da noite, eu dormia quando Kadoshi entrou pela porta do meu quarto e me acordou as presas.
— Mail! Acorde! – ela me sacudiu.
— Kadoshi... O que...?
— Rápido, venha comigo. – ela me jogou um casaco e eu calcei os sapatos. Apesar de ser inicio de primavera ainda estava um pouco frio. – Isso, vamos. – ela falava sussurrando, resolvi fazer o mesmo.
— Kadoshi o que é isso?
— Por favor, não faça perguntas bocchan. – ela saiu me puxando pelo corredor indo para os fundos da construção. Reparei que ela usava um colete por cima do pijama e um cinto com vários coldres.
— Isso são armas? – eu arregalei os olhos e ela me puxou de repente para a parede. Uma das janelas estava com a cortina aberta.
— Escute e faça exatamente o que eu dizer. – ela me encarou. – Algumas pessoas entraram na mansão, mas está tudo bem, a polícia está a caminho. Só temos que chegar até o abrigo e esperar. Então, vamos passar abaixados pela janela.
— Tá bom. – respondi e começamos a engatinhar. Minha respiração começava a ficar acelerada, mesmo com Kadoshi ali eu estava começando a ficar assustado.
Quando chegamos ao corredor que levava as escadas apressamos o passo, eu tentava manter o controle quando um tremor nos fez cair no chão e o barulho da explosão me ensurdeceu.
—KADO... – eu comecei a gritar e ela tapou minha boca e me carregou pela escadaria até o térreo. Correu comigo até a cozinha e abriu a porta da dispensa no exato momento que vi um vulto e uma bala acertou a porta de metal. – O QUE DIABOS ESTÁ ACONTECENDO? – eu não sabia se gritava de medo ou por meus ouvidos estarem zumbindo por conta da explosão.
— Bocchan...
— Aquele barulho! Essas pessoas... Onde está a minha mãe!?
— Mail! Acalme-se. – ela segurou meus ombros. – Está tudo bem, eu estou aqui com você. – mais tiros vieram do lado de fora. – Eu vou te proteger, está bem.
— Mas... a minha mãe... os outros... – eu nem me dei conta de como estava chorando. – Aquela explosão foi no lado oeste onde estão os quartos!
— Ei... – ela sorriu limpando minhas lágrimas. – Sua mãe está bem e tenho certeza que os funcionários também. Todos aqui estamos nos esforçando para proteger vocês e a polícia logo chegará. – eu começava a soluçar. – Só precisa fazer o que eu dizer.
— Está... está bem. – me controlei, minha cabeça doía, eu suava apesar do tempo fresco e meu coração parecia que ia sair do peito. Eu estava apavorado. Me agachei abraçando os joelhos completamente em pânico, mas tentando me controlar.
— Muito bem, não precisa ficar com medo bocchan. – a porta começou a ceder, Kadoshi me arrastou para trás de uma adega de vinhos e tirou duas pistolas dos coldres. – Eu sou sua governanta, certo? Não deixarei nenhum contratempo estragar a rotina do meu patrão. Agora fique aqui.
Ela saiu de trás da adega indo para o meio da dispensa. A porta caiu e tiros foram disparados. Eu segurei o grito enquanto observava por uma fresta entre os caixotes e as garrafas. O colete de Kadoshi a protegeu e quando as pessoas mascaradas miravam em sua cabeça ela se movia rapidamente.
Saltando por cima das prateleiras que foram quebradas ela atingiu um deles com chutes e então atirou a queima no seu pescoço desprotegido. Ela se abrigou atrás de uma prateleira enquanto os outros atiravam incessantemente. Perante isso ela tirou algo do colete e rolou pelo chão ao mesmo tempo em que partiu para a ofensiva atirando.
— Grenade! – ouvi uma voz rouca gritar em inglês e me assustei, deitei no chão imediatamente e tapei a cabeça cobrindo os ouvidos, nem sei de onde isso me ocorreu, mas foi tão instintivo quanto respirar.
Contudo não era uma granada e sim uma bomba de luz, logo tudo ficou tão claro que mesmo de olhos fechados minha visão doía. Continuei deitado e ouvi diversos disparos. Era o meu fim! Kadoshi não poderia contra tantos homens tão bem equipados. Íamos morrer!
Meu pânico era enorme, mas eu sabia o que podia fazer. Podia correr até mais fundo e abrir o alçapão que havia ali ou tentar a janela. Se haviam mais invasores a janela era ruim, pois levava ao quintal. O alçapão, só precisava chegar lá e descer até o subterrâneo onde ficava a coleção de bebidas e outras iguarias das viagens da minha mãe. Mas mesmo sabendo disso, mesmo pensando em um plano eu não conseguia me mexer, eu não conseguia sequer abrir os olhos. Eu travei de pânico.
— Bocchan? – senti uma mão quente sob meu ombro e abri os olhos lentamente ainda meio ofuscados pela luz. – Está tudo bem!? – Kadoshi perguntou meio exaltada tirando um par de goggles dos olhos. – Mail!?
— Estou. – falei num sussurro. – Kadoshi... – a encarei, estava com várias marcas de balas no colete e suja de sangue. Não sabia dizer se era seu ou se havia apenas respingado.
— Ótimo, então vamos... – não a deixei terminar, apenas me joguei no seu pescoço e a abracei. – Bo-Bocchan...
— Eu pensei que tinha morrido! Eu pensei que ia morrer! Eu... Não faça isso Kadoshi! – voltei a chorar. – Por favor, não me deixe sozinho de novo!
— Me perdoe, não vou deixar. – ela me abraçou de volta, mas logo nos separou. Um rádio em seu colete começou a chiar.
— Reportem. Alguém na escuta? – ouvimos a voz de Cesar. – Kadoshi? Adam? E o patrão?
— Aqui é Kadoshi, estou com o Mail. Estamos bem. – ela falou meio ofegante. – Ala sul comprometida. Vamos ter que mudar de plano. Câmbio.
— Entendido. Vou dar cobertura, proteja o jovem Mail. Adam deve estar a caminho, levem-no para fora. Câmbio.
— Certo. – ela ia desligar, mas eu puxei para mim.
— Cesar! Você está com a minha mãe? – falei. – Ela está bem? – apenas ruídos. – Cesar! Me responda, câmbio!
— Patrão... Eu... não estou com ela. – ele disse simplesmente. – Mas os outros seguranças já informaram que estão saindo. Apresse-se e siga Kadoshi para fora da propriedade também.
— Estamos indo. – ela finalizou e me tomou pela mão. Voltamos a correr.
— Para onde vamos? – perguntei. – Podemos nos esconder no porão da dispensa até a polícia chegar. – ela continuou séria. – Kadoshi!
— Adam já deve estar quase aqui com o carro, não se preocupe. Vamos te tirar da mansão em segurança. – ela disse gentilmente sorrindo, mas nem era um sorriso falso, era um sorriso sem convicção nenhuma.
— Minha mãe... Está realmente bem? Está realmente viva? – perguntei baixo, mas Kadoshi nem diminui o ritmo.
— Não duvide de seus funcionários patrão, afinal eu mesma os selecionei. Eu nunca cometeria o erro de contratar alguém que não pudesse fazer seu trabalho.
— Mas...
— E nosso trabalho é apenas um, garantir o bem estar dos nossos mestres. – ela falou convicta. – Tenho certeza de que a madame está bem e aguardando por sua chegada, então vamos nos apressar.
Saímos pelos fundos da casa onde o jardim era denso e levava ao pomar, nos misturamos nas árvores e corríamos para um dos portões. Ouvíamos tiros vindos da mansão e pelas janelas que via de relance apareciam vultos e sangue. Comecei a tremer e suar ao mesmo tempo. Kadoshi parou.
— Estou aqui Adam. – ela sussurrou no rádio. Nenhuma resposta. – Câmbio.
Ouvimos passos, estávamos na borda do pomar, Kadoshi me levou até o celeiro deixando uma fresta aberta para olhar do lado de fora. Novamente estava respirando pesadamente, a cabeça girando, os olhos ardendo. Gritos vieram do lado de fora, não soube identificar o idioma, mas tenho certeza de que mesmo que fosse de algum que conhecia não entendia, não captava as palavras.
— Eles... vãos... nos matar, não vão? – falei enquanto tentava acertar a respiração.
— Não, claro que não.
— Kadoshi... Não precisa mentir pra mim. – falei calmamente. – Por que eles querem nos matar? Se querem a mansão, o dinheiro... Não ganham nada nos matando. – comecei a falar. – A menos que queiram me fazer de refém para minha mãe, seria a única coisa lógica.
— Mail. – ela ergueu meu queixo. – Peço mil desculpas por isso, não devia ter deixado nada disso acontecer. – ela sorriu, dessa vez gentilmente enquanto ouvia passos do lado de fora e mais gritos.
— Entretanto você não deve pensar nessas coisas, é assunto de adultos, certo? Crianças não devem se preocupar com isso, crianças devem brincar para crescerem saudáveis. – ela continuou tirando o coldre axilar com duas pistolas e o colete. – Então nós vamos fazer o seguinte... – ela colocou o colete e o coldre em mim. – Nós vamos jogar um jogo, está certo?
— O que...?
— Escute bem, pois não vou repetir as regras. Vai ser parecido com o paintball que joga com o Adam, ok. – ela passou a mão pelo meu rosto limpando as marcas das lágrimas. – O objetivo é simples, tem que chegar até o deque da piscina onde o Adam vai estar esperando. Mas deve seguir rente ao muro da mansão. Não pode ser atingido por nenhum inimigo, ser pego por nenhuma luz e nem tropeçar.
— Kadoshi, você...
— O seu equipamento é composto de um colete, duas pistolas nove milímetros, com trinta tiros cada, e também... – ela abriu um zíper do colete. – Essas granadas de luz.
— Você não vai...
— Me deixe terminar. – ela falou séria. – Nós dois vamos apostar corrida até o deque, o número de alvos atingidos não conta. Quem chegar primeiro sem ser atingido ganha, entendeu?
— Kadoshi... – eu ia começar a chorar de novo.
— Feche os olhos Mail. – eu os fechei, ela tirou os goggles e colocou em mim. – Esses óculos tem uma lente especial, vai conseguir enxergar bem tanto no escuro quanto na claridade das granadas. – abri os olhos e focalizei seu rosto meio alaranjado. – Agora repita comigo, é só um jogo.
— É... É só um jogo. – falei.
— E eu não posso perder pra Kadoshi.
— E eu... – senti algo descer pela minha garganta. – Definitivamente não irei perder.
— Quais as regras?
— Chegar ao deque e me encontrar com Adam sem ser atingido ou parar pelos obstáculos. Seguir pelo muro da mansão até lá. – falei firme.
— Esse é meu gamer. E como é que o Adam sempre faz quando jogam paintball?
— -E-Ele mira na cabeça... Acerte os olhos.
— Exatamente, faça tudo como ele faria. – ela segurou meu queixo e me deu um beijo no rosto puxando outra pistola do coldre em sua perna. – Boa sorte boccha e que o melhor vença.
— Kadoshi... – voltei a chorar. – Por quê? Você disse que não ia mais me deixar!
— Eu não vou, nós vamos competir. Somos rivais agora.
— Não! Você é minha segunda mãe! – ela se espantou com isso.
— Ah, Mail. Fico lisonjeada. – ela segurou a maçaneta. – Por isso eu irei na frente como prêmio, espere trinta segundos e saia discretamente, entendeu?
— Eu... – levantei os goggles e limpei os olhos. – Wakarimashita!¹
Ela sorriu pra mim, disse um já nee², abriu a porta e saiu correndo, logo ouvi os tiros e grito. Peguei uma das pistolas e assim como quando jogava paintball conferi o cartucho e destravei a arma. Quinze segundos. Fechei os olhos, me controlei, mentalizei todas as partidas com Adam, todos os jogos de guerra e perseguição que já havia jogado, respirei fundo. Vinte e sete segundos. As batidas do meu coração se normalizam. Trinta segundos. Corri.
Segui pelo caminho que Kadoshi havia instruído, logo vi vultos do outro lado lutando. Um clarão se espalhou, mas dessa vez não me atingiu graças aos goggles. Aumentei o ritmo segurando as pistolas bem firme. Com o canto do olho senti uma presença enquanto estava para sair da área cercada de árvores. Mire nos olhos, patrão. Ouvi a voz de Adam, ergui a mão com a pistola, um vulto negro apareceu. E então aconteceu...
Tudo ficou em câmera lenta enquanto a figura também ia erguendo sua arma. Uma linha de trajetória apareceu do cano da pistola, a velocidade, a distância em que estávamos um do outro, a diferença de altura, o impacto que sentiria no braço... Tudo surgiu claro a minha frente, os números pareciam cantar para mim. Ajustei o ângulo, mirei nos olhos, previ seu disparo. Apertei o gatilho e saltei para trás caindo de costas. Ouvi o grito do homem, a viseira de seu capacete ensanguentado.
Tinta vermelha... É sempre joguei com essa.
Voltei a correr, mais vultos vieram, dessa vez em grande número. Joguei a granada. Alguns tentaram se proteger colocando o braço em frente ao rosto.
Que erro. Ainda mais com a mão que segura sua arma.— atirei contra o cotovelo e logo em seguida a viseira. — Mais cinco alvos derrubados.
A piscina estava próxima, nenhum inimigo por perto. Atirei na fechadura do portão e entrei no deque.
— Isso! Venci! – comemorei rindo e só então me lembrei de Kadoshi. Me virei para trás, nenhum sinal dela. Então só houve um clarão, dessa vez foi uma bomba de verdade. – Kadoshi? – o impacto me lançou para trás até a borda da piscina.
Fiquei catatônico, sentado no mesmo lugar com as pistolas na mão. Nem me toquei de como estava perto da beirada, da água... Soltei uma pistola e verifiquei. Dez balas faltando? Mas... eu não gastei isso tudo... eu não... não atirei tanto, atirei? Se atirei não me lembrava, mas na outra pistola faltavam outras setes. Quanto foi que eu...?
Não terminei meu raciocínio, apenas senti o impacto contra a água e alguém enlaçando o braço no meu pescoço. Graças ao goggle conseguia enxergar perfeitamente a água... A água ficando vermelha, o gosto de sangue entrando pela minha boca enquanto eu me debatia.
Eu... eu venci, maas... eu vou morrer. Desculpe Kadoshi.
Já sem fôlego me dei por acabado enquanto a pessoa que me segurava começou a ter espasmos. Havia desmaiado? Morrido de vez? Juntei minhas forças e me soltei dela. Alcancei a superfície e respirei fundo antes de voltar a afundar. A única coisa que Adam, que eu dizia ser meu técnico não me ensinou, nunca conseguiu me ensinar foi a nadar. Eu sempre detestei o esporte e não me dediquei nada. Maldição, agora mesmo livre ia morrer afogado.
Foi então que mãos me enlaçaram e finalmente alcancei a superfície. Tossindo e com frio eu focalizei o rosto e captei as palavras em russo.
— Mail! Mail! – Adam gritava. – Tudo bem, calma. Respire devagar. – ele se sentou na borda da piscina agora em tons rubro, do meu lado havia uma terceira pistola, provavelmente a que ele usou para atirar no corpo que agora boiava na água.
— Eu.... – falei como se caso não o fizesse acabaria mudo. – Eu... – puxei os goggles para o pescoço. – Realmente odeio água. – Adam riu de canto.
— Ótimo, vamos sair daqui. – ele me colocou de pé e pegou todas as pistolas. – Quando isso acabar juro que vou te ensinar a nadar, mas até lá continuemos as aulas de paintball. – ele me entregou uma arma e me encarou sério.
— Certo. – peguei a pistola. – O que vem agora, treinador?
— Bom, vamos passar pelos vestiários até a garagem. – ele destravou as armas e se colocou a minha frente. – Vamos pegar um carro e sair pelo estábulo. – eu assenti quando ele começou a andar. – Preste atenção, quando... – ele mal teve tempo de falar quando mais pessoas apareceram. – Mail!
Ele girou o corpo e me tirou da linha de tiro, apontou a pistola e gastou apenas uma bala para cada homem, bem na cabeça. Uma mira perfeita. Tão perfeita que se esqueceu da defesa. Adam tinha olhos tão poderosos, que quando jogávamos paintball ele conseguia se defender do meu tiro, atirando na munição que explodia no ar. Mas dessa vez ele não fez isso e o resultado foi seu abdome atingido. Por que logo ele estava sem colete?
— Adam! – chamei.
— Corra! – ele segurou meu braço. – Vamos!
Tomamos a rota dos vestiários, Adam gemia e andava se contorcendo, mas não parada por nada. Chegamos no final do vestiário sob a expressão preocupada dele. E não era pra menos, havia deixado uma trilha de sangue pelo chão.
— Agora que você falou, como chegamos na garagem daqui? – ele caiu sentado. – Adam!
— Perdão, patrão. Eu devia ter sido mais claro, não posso ir com você.
— O-O que?
— O duto de ar, entre nele Mail. Conhece a planta, chegue até a garagem e... – ele tossiu enquanto pegava a chaves de dentro do bolso. – Pegue o Cherokee, vá em direção aos estábulos e atropele tudo, sem medo até sair na plantação. – sua voz começou a ficar ofegante. – S-Siga até a rodovia e... e... Não pare por nada, Mail. Prometa.
— Mas.... – eu queria gritar e chorar, mas agora não conseguia. Eu sentia um imenso nó na garganta, uma dor no estômago, mas por alguma razão não conseguia sequer chorar. – Você não ia me ensinar a nadar?
— Ah Mail... você é um caso perdido. – ele riu uma última vez. – Aqui, leve. – ele me entregou o rádio. – Estou apostando nas suas habilidades de piloto agora, espero que Levi tenha te ensinado direito.
— Tá. – falei. – Nisso eu serei bom pelo menos.
— Certo. – ele tentou mexer a mão, mas suas forças estavam no fim. – Arma no coldre... – ele apontou. – Arma mão, dedo gatilho... – eu comecei a tremer vendo que ele mal conseguia falar. – Mire... olhos... viva, Mail.
E assim, os olhos sarcásticos, precisos e imbatíveis de Adam perderam todo o brilho. Coloquei meus goggles, ainda estava encharcado então tirei o caso e os sapatos. Usando um dos box dos chuveiros como apoio alcancei o duto de ar. Depois disso tudo é um borrão.
Lembro de destrancar a porta do jeep, de avançar contra as madeiras do estábulos, passar pela plantação enquanto outros faróis apareciam corriqueiramente e então quando dei por mim estava na autoestrada. Tinha acabado de bater e derrubar uma placa de sinalização. Puxei o freio de mão bruscamente e acertei a respiração.
— Failed to reach destination: Police station. – dizia a voz eletrônica do GPS. – Falha ao chegar ao destino: Posto policial.
O som do GPS foi substituído por sirenes e hélices de helicópteros. Ignorei tudo isso e deitei a cabeça no volante. Adam, seu babaca! Olhei o GPS de relance, na tela havia a seguinte mensagem em inglês: liberar freio de mão para continuar o trajeto.
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