Death Memories: Operação Marshall
2 Convite Inesperado
Notas iniciais
"O Xadrez, a Música e a Matemática são os únicos setores da atividade humana em que se conhecem casos de crianças prodígio."
P.O.V Mello
— Acorda, acorda! – a voz entrou estridente na minha mente. – Anda logo, loira, levanta. – o colchão afundou com o peso de Matt e logo em seguida ele começou a pular com os joelhos.
— Mas que merda... – eu abri os olhos de uma vez enquanto era empurrado para fora da cama rolando no chão. – MATT! – gritei. – Perdeu a noção do perigo?
— Ótimo, você acordou. – o ruivo a minha frente já estava vestido com bermuda escura, uma camisa listrada e os seus tênis marrons.
— Estamos de férias droga, podemos dormir, o café vai até mais tarde e você me acorda às sete da manhã?
— Exatamente. Estamos de férias e esse ano vamos aproveitar. Nada de estudo extra pra você e nada de games o dia inteiro pra mim. Que tal? – ele estendeu a mão e eu suspirei.
— Não vamos fazer promessas que sabemos que não conseguimos cumprir. – deixei ele parado no colchão sozinho com a mão estendida enquanto contornava a cama rumo ao banheiro.
— Qual é, nós precisamos relaxar. – ele falou com uma voz calma e quase maternal. Me virei pra ele sério. Que beleza ia começar logo cedo.
— Não eu não preciso, eu não posso... – cerrei o punho e o ruivo andou até mim. – Não insiste mais, não vamos discutir antes do café Matt.
— Mello eu entendo. Olha pra mim. – ergui o rosto. – Eu sou o único que te entende e por isso mesmo quero que você faça uma pausa, mesmo que só por uma semana, só por hoje. Fala sério a última prova foi ontem e a próxima é só em três meses.
— Exatamente, eu tenho esse tempo pra superar o Near.
— Esqueça aquela praga por um minuto, mano. Sabe por quê? Isso... – ele se afastou abrindo os braços indicando ele, o quarto, tudo. – É a sua maior vantagem. Você tem uma coisa que o Near nunca vai ter, nunca conseguirá entender. Esfregue isso na cara dele.
Pensei um instante e me recordei de alguns anos atrás quando Near mostrou suas garras, quando eu perdi meu pódio e quando discuti com ele pela primeira vez. Havia uma frase em particular que eu sempre me recordava.
— Tem razão, eu não entendo e nunca conseguirei por mais que queira. E eu não quero, eu não sou esse tipo de pessoa Mello. Eu não sou emotivo, eu não tenho amigos, eu não ligo para lembranças boas nem ruins que eu deva recordar. Eu não me importo com essas coisas desnecessárias.
— Você... – eu estava cego de raiva e aquilo me tomou de surpresa. Só conseguia pensar em como queria matá-lo. – Essa é sua grade vantagem!? Acha que isso basta pra você ganhar!? Você é vazio Near, sempre será e por isso mesmo eu não te deixarei vencer, alguém como você não pode ser o L!
— Mello? – o ruivo de chamou de volta a realidade.
— Tá bom. – suspirei. – Mas não perderei tempo às férias todas, viu.
— Fechado. Então se arruma, vamos começar com uma visita ao centro pra comprar bobagens. Sei que gastou dinheiro no meu Game, mas eu vou bancar a gente e seus chocolates.
— Porcaria! – levei a mão na testa. – Agora que me lembrei.
— O que foi?
— Precisei de um adiantamento da Carter pra pagar seu Game e agora devo ela um caso.
— Qual?
— Tenho que ajudar ela a pegar o ladrão de joalheria de Londres. – me joguei na cama. – Nossas férias foram pro buraco e mais uma vez, só pra deixar claro, tudo culpa do Kyle!
— Fala sério. – Matt resmungou. – Ah! Levanta logo. Vamos, nós dois resolvemos isso rapidinho, pegamos a grana e então estaremos livres.
Ele mal pronunciou as palavras e ouvimos um bipe. Matt levantou o colchão tirando o iBook, seu grande orgulho. Se tratava de tecnologia de ponta, ele não precisava de cabos para ter acesso a internet o que levou Matt a vender jogos, todos os seus portáteis, roupas e se eu desse bobeira até meu cabelo para comprar a nova invenção da Apple. Tivemos que resolver cerca de vinte casos em cerca de cinco meses para receber o suficiente para comprar aquilo. O que se aliando a batelada de provas e estudo da Wammy’s me custou várias noites de sono, mas até que valia a pena.
— Falando no diabo... – ele disse abrindo o notebook.
— O que foi?
— Ela tá te cobrando o caso e disse que se não der notícias vai ligar aqui e nos dedurar pro Roger. – ele revirou os olhos. O blefe dela era mesmo péssimo. – E então, qual seu plano?
— Diz pra ela mandar tudo sobre o caso, a gente toma café e resolve isso. – ele assentiu.
— Lá se vai nosso dia. Ah! Eu mato o Kyle. – de repente ele parou de digitar com a expressão de louvor no rosto. – É isso!
— Isso o que? – perguntei enquanto me trocava.
— Vamos aprontar pra cima dele.
— Ótimo, e aí passamos o resto das férias de castigo. – comecei a rir quase tentado a aceitar a ideia dele quando ouvimos batidas na porta. Imediatamente Matt fechou o laptop e o colocou no esconderijo enquanto eu pedia para esperarem um instante.
— Mello, Matt... – um funcionário da secretaria chamado Rupert que tinha sotaque francês e cabelos claros nos encarou sério, como sempre. – O diretor quer vê-los imediatamente.
— O que? – exclamei. – O que a gente fez agora? – não era possível que um a briguinha besta com Kyle fosse nos levar pra detenção. Como sempre Rupert nem respondeu. – Cara, ainda não tomamos nem café da manhã.
— Isso será providenciado, ele os solicita imediatamente. – ele saiu apressado e sem escolhas nos entreolhamos e passamos pela porta também.
— Você falou que ia consertar o Game pra ele?
— Falei, mas disse que numa brincadeira eu quebrei sem querer, não ia entregar a briga, né idiota. – sussurrei pra ele de volta.
— Então que merda nós fizemos pra começar levando bronca no primeiro dia de férias?
— Sei lá, não me lembro de nada grave. – Matt me encarou com severidade. – Nem vem, eu nem tenho visto o Near ultimamente. – foi quando eu me dei conta e parei.
— E agora, que foi?
— Rupert... – ele me voltei pra trás. – Ele seguiu pro fim do corredor. – Matt sabia o que eu queria dizer e fez sinal de negativo com a cabeça.
— Vamos logo Mello, antes que a gente leve bronca por demora também. – assenti e saímos pelo gramado onde o calor já começava a se instaurar.
No fim do corredor... O quarto do Near fica naquela direção....
P.O.V Matt
— Roger? – bati na porta chamando pelo diretor do orfanato.
— Matt, Mello... Entrem. – ele parecia apreensivo, mas não furioso ou decepcionado que seria o de costume, coisa que eu e Mello logo estranhamos.
— Er... Então. – Mello começou de uma vez sem paciência como sempre. – O que fizemos agora? – ele se jogou no sofá a frente de Roger que estava na poltrona. Era estranho ele não estar na sua cadeira confortável na mesa perto da janela.
— Nada de grave por enquanto, sei da briga de vocês com Kyle, mas... – ele suspirou. Havia desistido de nos tornar civilizado e contanto que ninguém saísse gravemente ferido ele no máximo nos repreendia por sermos briguento. – Como ninguém se machucou muito. – ele reparou nos arranhões que eu tinha o braço por ter rolado a rampa e um pequeno corte no lábio inferior do Mello.
— Então o que é? – perguntei agora curioso, me sentando ao lado do loiro.
— Se trata de um assunto bem sério, mas antes devemos esperar por mais algumas pessoas... – ele mal disse a frase e ouvimos o bater na porta.
— Entre. – o diretor disse suspirando e logo em seguida entendi por que. Passando pelo batente, em seu pijama largo e branco estava o candidato número um a suceder o L.
— Near? – Mello falou mais como uma pergunta do que pelo espanto. Atrás do albino havia uma figura totalmente escura, com casaco e máscara. Não demorei a reconhecê-lo.
— Watari. – eles entraram e Mello logo se pôs de pé, era hora do show começar.
— O que está acontecendo Roger? – o loiro parecia preocupado.
Eu devo dizer que comecei a entrar em pânico, a última coisa que precisávamos era de Watari chegando ali dizendo que L estava morto e sei lá, que nós três teríamos que competir até a morte pra ver quem era o melhor, nos unir, resolver um caso super difícil e tantas outras ideias mirabolantes de seleção. Ou ainda pior, ele poderia chegar ali dizendo que L havia se decidido entre nós três e acabar não sendo o Mello, aí sim aquele orfanato viria a baixo. Essas eram as únicas opções cabíveis para eu estar ali junto com o Diretor, o assessor do L e os maiores gênios da Wammy’s.
— Por favor, todos, sentem-se e escutem com atenção. – Watari falou e eu sentia a irritação e apreensão de Mello dali. Near se colocou ao meu lado, usava suas calças claras e meias apesar do calor, uma camisa comum sem mangas só que mesmo assim deveria esquentar bastante. Ele também devia estar preocupado porque antes que Mello tivesse a chance ele falou.
— Aconteceu alguma coisa com o L? – seu tom era calmo, mas também parecia ansioso com a resposta.
— Não. – Watari disse se colocando ao lado do diretor. – Na verdade ele deseja falar com vocês três. – meus olhos se arregalaram, como melhores alunos ganhávamos presentes fora de época e outros contatos do L de vez em quando, claro que nunca comentávamos nada. Mas juntar nós três ali, porra ele havia se decido então.
As batidas do meu coração eram altas e acho que as de Mello poderiam superar facilmente. Watari tirou um notebook da maleta e conectou alguns cabos, caixa de som e colocou um microfone a nossa frente. Era a hora da verdade.
— Matt, Mello, Near, obrigado por vim. – ordem alfabética! Ele falou nossos nomes por ordem alfabética provavelmente para não transparecer favoritismo. A voz distorcida continuou. – Lamento tirá-los de suas rotinas, contudo gostaria de lhes mostrar uma coisa.
Watari colocou três envelopes amarelos sobre a mesa. Peguei o meu e abri curioso. Era um relatório policial, coisa que eu e Mello estávamos acostumados por conta de Carter. Olhei para os lados, Mello lia de sobrancelhas cerradas e Near mantinha o seu na mesa enquanto enrolava uma mexa do cabelo.
— O que é isso? – resolvi dar continuidade a conversa.
— Estes são os arquivos de um caso em que estou trabalhando. – ah, era um dos desafios dele, menos mal. Mello pareceu suspirar de alívio também fechando a pasta que colocou no colo e encarou a câmera.
— O que quer de nós? – ele falou bem mais calmo agora.
— O que vocês acham? – eu que mal li os dados voltei minha atenção de novo pra pasta, então logo Near falou depois de Mello apoiar o braço no do sofá e se virar para ele.
— Um torneio de xadrez onde uma escola está sendo invicta. – nas pastas continha fotos e dados referente a campeonatos em vários países. – Os times estão sempre mudando, mas os resultados continuam perfeitos, além disso, as crianças são novatas na escola e aqui diz que não tem bom convívio social. Nada fora do padrão. O preocupante mesmo é a quantidade de prêmios e dinheiro que a escola recebeu nos últimos três anos graças a campeonatos de xadrez e o fato de os alunos deixaram a instituição após ganharem.
— E quanto a você Mello? – a voz perguntou e eu me virei para o lado encarando-o.
— O que está tentado fazer L? – ele cruzou os braços e tinha aquele olhar de irritação na face. – Isso é alguma piada? – ele ergueu a voz e eu vi que a porra era séria. L o havia irritado!
— De maneira alguma. Eu não brincaria com algo assim.
— Err... Dá licença... – gaguejei. – Ainda estamos falando de resultados comprados?
— Exatamente Matt. Eu acredito que essas competições foram arquitetadas e as crianças matriculadas na escola apenas com esse intuito de vencer.
— E... Qual o problema disso? – deixei escapar. – Quer dizer, é trapaça claro, vai contra o regulamento, mas não consigo entender porque isso é um caso e você está nele L.
Três fotos foram colocadas na tela no lugar da característica letra.
— Encontramos essas crianças mortas, a primeira, Olivia Tracy estava no time que ganhou o torneio dois anos atrás e os outros dois foram do time campeão ano passado.
— Alguém está caçando os vencedores. – Mello concluiu.
— Todas essas crianças vieram de famílias pobres ou mesmo de orfanatos, foram adotas por algum tempo e então devolvidas alguns meses após ganharem as competições, mas desde então desapareceram. As pessoas por trás disso devem lhes ter prometido dinheiro. – isso era novidade, Mello e eu fazíamos várias coisas para ganhar grana e nem de longe era tão fácil assim, se tinha esse tipo de trambique nós estávamos perdendo tempo com as outras.
— Você quer que a gente entre no torneio, ganhe e vire isca, além é claro de pegar uma confissão daqueles que compram os jogos. – Mello parecia mais tranquilo.
— Sim. É arriscado e eu pensei muito sobre isso. Conclui que precisava de crianças infiltradas e infelizmente a CIA não possui espiões assim, além é claro do fato de que tais crianças devem conseguir fazer frente a jogadores profissionais e campeões nacionais. Eu não conheço outras crianças com potencial e características assim além dos alunos da Wammy’s House, em especial vocês três. Claro que participarão disso se quiserem e eu lhes protegerei de qualquer maneira, usarão disfarces e nada lhes acontecerá.
— Então basicamente está pedindo nossa ajuda em um caso. – Mello disse coçando o queixo. – E quer que nós todos trabalhemos juntos. – isso significava trabalhar como Near, ia dar problema, aposto que se não fosse o L ali na nossa frente o loiro já teria rido largamente e mandado o cara pra puta que pariu.
— É um pedido difícil e por isso eu lhes darei tempo para pensar.
— Eu não preciso pensar. – falei jogando a pasta na mesa. – Desculpe L, estou fora. – Mello se virou para mim. – O que foi? Eu não jogo xadrez, eu não gosto e segundo a ficha haverá um novo torneio internacional que será oferecido por uma escola de elite de Tóquio, ou seja, no Japão. Eu detesto sair do quarto até pras aulas quanto mais ir pro outro lado do mundo.
P.O.V Mello.
Eu não acreditava no que estava ouvindo. L nos pedindo ajuda, L querendo que eu trabalhasse com Near e Matt recusando logo de cara porque o campeonato mundial de xadrez ia ser no Japão, sendo que alguns minutos antes estava fazendo uma super e nada sedentária programação de férias.
— Tem certeza disso Matt? – L perguntou uma última vez.
— Sim, eu... – tapei a boca dele antes que pudesse fazer merda.
— Nós vamos pensar, qual seu prazo para resposta?
— O torneio começa em cinco dias, vocês tem até amanhã, basta comunicar o Roger. – a voz falou parecendo um pouco mais animada.
— Entendido. – puxei Matt pela camisa enquanto ele ficava com aquela cara de espantando e incrédulo, mas também amedrontado de falar mais alguma coisa. – Obrigado L. – me levantei e sai puxando ele comigo pro lado de fora.
— Mas que droga. – o ruivo murmurou se livrando do meu puxão e arrumando a camisa. – Que você é doido eu sei, mas precisava anunciar pro L, é?
— Eu é que pergunto. – fiz minha melhor expressão assassina. – Como você já tá recusando isso? – abaixei a voz já que estávamos no corredor da secretaria. Matt se virou saindo pela porta e eu corri atrás dele. – Matt!
— Eu não vou pro Japão e pronto Mello.
— E sua programação de verão, idiota?
— E seu acordo com a Carter? – ele rebateu agora já no gramado da frente.
— Cinco dias são mais que suficientes pra resolvermos esse caso, é só não dormir. Qual é a sua desculpa afinal?
— Eu... – Matt cerrou os olhos. – Por que você quer ir nisso? Virar isca? Trabalhar com o Near? – suspirei com aquilo. – Lembrar de certas coisas...
— Eu sei, isso me preocupa e de verdade não sei se quero aceitar, mas se eu aceitar... Essa pode ser a minha chance de mostrar ao L meu potencial e se eu aceitar preciso de você lá comigo pra evitar que eu mate o Near. – o idiota ousou rir da situação.
— Sabe o que eu sempre achei que seria pior pra você do que jogar contra o Near? Jogar com o Near. Você não vai aguentar uma hora junto com ele. E eu... Ah! Qual é, mano. Sabe que jogos de tabuleiros não são comigo, que não posso garantir vitória nenhuma.
— Vamos estar investigando também, nisso você é bom. Além do mais... – andei um pouco ficando meio virado pra ele. – Eu nem estou preocupado como Near, estou com medo de como posso ficar em uma competição dessas. – Matt era o único que sabia mesmo que pouco, algumas coisas do meu passado que envolvia competições assim. Só que clandestinas e mortais. – É um torneio oficial, mas não deixa de me fazer lembrar... – cerrei os olhos.
— Eu sei. – ele se colocou do meu lado fazendo sombra. – Eu não pensei que isso poderia te afetar assim. – encarei ele que suspirou pesado. – Ok, você venceu mano, se você entrar no Torneio eu entro também. Agora tira essa cara de cachorrinho que caiu do caminhão de mudança da minha frente. – sorri de canto satisfeito.
— Você é o melhor amigo do mundo. – pulei comemorando vitória e corri de volta pro prédio, Matt me seguiu lentamente. Abri a porta do escritório do Roger de uma vez. O notebook estava fechado, Near continuava no mesmo lugar agora bebendo alguma coisa numa caneca e o contato do Detetive estava sentado ainda na poltrona ao lado do diretor. – Watari avise ao L que estamos dentro.
Near ergueu os olhos da caneca e me encarou, Matt chegava atrás de mim e também sentiu o olhar dele. Depois de um tempo o albino apenas sorriu daquele jeito medonho dele e voltou a beber seja lá o que fosse.
— Muito bem. – Watari se levantou. – O time está formado, mais instruções chegaram amanhã garotos. – ele disse se levantando, demos passagem e ele saiu da sala.
— Você já aceitou? – entrei e olhei para o Near.
— Sim. – ele simplesmente respondeu e eu murmurei um “hum” baixo me virando e saído da sala. Eu sabia, Matt sabia, Near sabia, Roger sabia e com toda certeza L sabia que era uma linha tênue e que se algo saísse um milímetro dos trilhos não demoraria para tudo isso virar um grade de um belo desastre.
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