Death
3 Could be worse
Notas iniciais
Para ser sincero, nunca acreditei em vida após a morte. Eu tentei. Juro que tentei acreditar em céu, inferno e toda essa porcaria que as religiões costumavam impor sobre nós. Tentei não ser tão pessimista e achar que talvez algo de bom pudesse estar nos esperando após a morte. Porém, quanto mais eu pensava na possibilidade mais via o quanto era estúpido sequer tentar acreditar em algo assim. Todas essas crenças não passavam de tentativas inúteis de nos fazer sentir melhor no fim do dia... E por mais triste que fosse, estava claro que morrer era o fim.
Ao menos, era nisso que eu costumava acreditar antes de morrer.
X
Eu acordo.
O que não é algo novo, na verdade, porque eu já acordei diversas vezes antes... Mas há algo diferente dessa vez; Algo errado.
Não, não acordo. Desperto.
A primeira coisa que noto muito antes de abrir os olhos é o som das ondas a se quebrarem não muito distantes de mim. E a principio, é um pouco desorientador quando enfim abro os olhos e sou cegado momentaneamente pelo sol forte que bate contra meu rosto. Estou deitado em uma praia.
Esforço-me ao máximo para lembrar algo que explique a situação, qualquer coisa sobre a noite anterior, mas não há nada. Nada que faça sentindo, pelo menos. Minha cabeça está uma tremenda bagunça, cheia de meias memórias e flashes de quase-lembranças.
Há algo errado comigo, isso é certo. É quase como se parte de mim estivesse faltando. Sinto como se não pertencesse a esse lugar, como se eu não devesse estar aqui.
Eu demoro para notar os pequenos detalhes. Como por exemplo, o fato de eu não estar respirando. Ou que também não sinto o vento ou a areia sobre os meus pés. Não sinto, simples assim. O significado dessas coisas não me acertam de uma vez, é gradual... As engrenagens em meu cérebro trabalhando a todo vapor, tentando encaixar esses pedaços em alguma explicação plausível, pois a única coisa que me vem à mente no momento, a única explicação para isso tudo, soa absurda demais, irreal. Então eu me recuso a sequer cogitar a possibilidade.
Estou em negação, acho. Sei disso lá no fundo, mas não admito. Não quero admitir.
Não tenho certeza de quanto tempo se passa antes que eu me levante; Poderiam ter sido horas, ou talvez alguns segundos... Não sei. Ainda meio desnorteado, sacudo a areia dos jeans e caminho pela praia deserta. O sol brilha forte. O dia está claro e o céu muito azul, é de se espantar que a praia esteja deserta.
A praia em questão é familiar; não muito longe do meu colégio. Costumava vir até aqui com alguns colegas nos fins de semana, mas há meses deixara de fazer isso. Fui aos poucos me afastando deles. Todas as tentativas de me fazer sentir melhor, os olhares nervosos e carregados de empatia... Era demais para mim.
Eu continuo a caminhar. E em algum ponto ponho a mão nos bolsos e só então noto que o cordão de Dylan não está lá. O tenho levado comigo desde sua morte, mas dessa vez não está lá.
“Merda!” Eu digo vasculhando nervosamente os bolsos do casaco. Também não está ali.
Corro de volta ao local onde acordei, parte de mim feliz por ter uma distração da questão mais importante no momento. Eu cavo inutilmente a areia fofa, mas não o encontro. Eu continuo a cavar, desesperado, porque não sei mais o que fazer.
Cavo até que meus braços comecem a arder, mas o problema é: Eles não começam a arder. Não sinto nada; Nem cansaço ou dor. Não sinto a areia em minhas mãos e até o ato de cavar me parece difícil, é preciso um enorme esforço de minha parte para sequer tocar a areia. E então eu quero chorar, mas nem tenho certeza do por quê.
“Christian.” Diz uma voz vinda de trás de mim, e eu congelo, porque eu sei exatamente a quem ela pertence.
“Christian.” Ele repete em um tom cauteloso.
Eu não sei se me alegro ou entro em choque quando enfim crio coragem para virar o rosto em sua direção, porque, bem–
Permita-me apresenta-lo; O rapaz à minha frente é alto e bronzeado. Significativamente forte; O tipo físico de um atleta. Tem os cabelos curtos, cor de palha, e seus olhos vagam entre um tom castanho claro e verde.
O ressentimento queima na garganta. Ele é tudo que eu, magrelo e pálido, gostaria de ser.
Aquele é Dylan, meu irmão mais velho. E ele não parece nada contente.
“Dy-dylan?” Eu pergunto, forçando a voz a sair.
Ele não diz nada, apenas balança a cabeça em confirmação. A expressão rígida.
“Você não deveria estar aqui.” Eu digo. É estúpido, eu sei, mas há esse momento meu cérebro já virou geleia.
Dylan dá os ombros e sorri daquele seu jeito calmo e casual.
“Não!” Eu passo há mão pelos cabelos, puxando-os nervosamente. “Isso está totalmente errado.”
“Por quê?” Ele pergunta. A voz estranhamente sem emoção.
Ele parece tão vivo naquele momento que eu começo a duvidar se os últimos três meses realmente aconteceram.
“Você está morto?” Eu digo tentando convencer a mim mesmo, mas ao invés de uma afirmação, soa mais como uma pergunta.
“Sim.” Ele sorri, mas os olhos parecem tristes e cansados. “Eu preciso que você me escute atentamente, Christian. Por favor.”
Eu apenas balanço a cabeça, porque não sei mais o que dizer.
“Eu estou morto, sim.” Ele diz. “E normalmente, você não deveria ser capaz de me ver, sim também.”
“Então...?”
“Há um motivo para isso.”
Ele hesita.
“Eu sinto muito, Chris. Sinto muito mesmo.” Sua voz soa melancólica, mas acho que se eu estivesse morto provavelmente também soaria.
Naquele momento Dylan mal parece Dylan. Seu rosto exibe uma expressão dura, quase de raiva, mas se não fosse pela ausência de lágrimas eu diria que estava chorando.
“Você...” Sua voz some e ele recomeça: “Você queria saber como pode ser possível me ver...”
“Sim.” Eu o incentivo a continuar.
“Bem... Isso é porque você está morto também.”
Eu rio.
Não. Isso é loucura.
Ok, eu estou definitivamente sonhando.
Não, não, não!
E eu rio mais uma vez. E de novo. Então começo a gargalhar histericamente e só paro quando o riso ameaça se tornar em choro.
Não!
Sinto meu estomago se revirar e é como se eu fosse vomitar minhas entranhas, mas acontece que estou morto e isso já não é possível.
“Não...” Eu sussurro.
Mas agora é tarde demais, as memórias surgem com violência em minha mente. Minha cabeça dói, mas ao mesmo tempo não. O que mais quero é gritar, mas minha garganta parece estar cheia de cacos de vidro, me impossibilitando de produzir qualquer som.
Tudo vêm em minha mente. As lembranças tão claras que me vejo revivendo a noite anterior. A gargalhada de Raymond pouco antes, o olhar glacial de Pearl penetrando minha alma, a expressão estranhamente limpa de Damien, então o click do gatilho e em seguida o barulho ensurdecedor do tiro...
Oh, eu estou morto.
“Christian?” Dylan pergunta cautelosamente.
“Estou bem.” Eu digo balançando a cabeça. “Estou... bem.” E estranhamente, eu não sinto como se aquilo fosse uma mentira.
“O.k.” Ele responde calmamente e me encara como se esperasse algum tipo de surto.
Não farei isso. Eu digo a mim mesmo. Vou ser forte, pelo menos dessa vez.
Eu não lidei bem a morte do meu irmão, é verdade. Mas a situação me parece completamente diferente agora. Eu havia perdido Dylan há meses atrás, e agora eu estou perdendo a mim mesmo... Mas, estranhamente, eu não me sinto dessa forma.
Afinal, eu estou morto e continuo aqui; de alguma forma vivo. Então, talvez nós não fossemos, de fato, só um acaso do Universo... Talvez houvesse algo a mais.
Entenda; Eu sofri com a morte de Dylan não apenas por ele estar morto, não era esse o problema. O que me desesperava era o pensamento de que meu irmão era apenas um corpo em decomposição agora. Todas as memórias, sentimentos e conquistas que o constituíam não existiam mais e a única coisa que restava de seus dezessete anos de vida eram as lembranças que tínhamos dele, e até isso, eventualmente, deixaria de existir quando chegasse nossa vez. O desesperador em sua morte foi perceber que todo o esforço em viver era em vão, pois no final terminaríamos da mesma forma que ele. Era um pensamento fodidamente assustador.
A pior parte em viver era essa; saber que uma hora a morte chegaria e não havia como fugir. Já nascíamos com o tempo contado.
Lembro-me do meu professor de inglês ter uma vez perguntado a minha classe qual era nosso maior medo. Quando chegou minha vez, respondi sem pensar duas vezes: “Ser esquecido.”. Por que eu apenas não conseguia suportar a ideia de que algum dia não haveria vestígio algum de que eu sequer existira.
A morte de Dylan não foi só sobre perder meu irmão, ela também me fez compreender minha própria fragilidade, e que em algum momento tudo isso acabaria pra mim da mesma forma como acabara para ele.
E então... Eu morri, e tudo em que eu acreditava provou-se estar errado.
Morrer não era o fim, afinal.
“Morto.” Eu digo em voz alta, experimentando a palavra. Não me parece nada bom.
“Sim.” Dylan diz suavemente. “Eu sinto tanto, Chris.”
“Oh, cale a boca, Dylan.” Eu murmuro em resposta.
Ele parece chocado.
“Você é terrível em dar noticias, algum já lhe disse isso?” Eu continuo.
“Eu... É... Não.” Ele diz por fim. Obviamente confuso. “Você não deveria estar, você sabe... Triste?”
“Eu estou. Eu quero morrer, pra falar a verdade.” Então eu rio, porque me dou conta do que acabei de dizer. “Oh, bem, isso é um pouco irônico, não?”
Eu caminho até a pedra onde Dylan estava pouco antes e me sento ali, observando o mar revoltado. As águas escuras caem contra mim, mas não as sinto, já não sou mais capaz de sentir nada.
Alguma parte de mim está triste, eu sei disso. Mas o restante de mim experimenta aquela familiar sensação de entorpecimento que eu já sentira tantas vezes antes. No momento me sinto apenas... cansado.
Após algum tempo, Dylan aproxima-se de mim e senta ao meu lado.
“Não vou mentir, é uma merda.” Ele diz. “Mas com o tempo você se acostuma.”
“Duvido muito.” Eu respondo. “Mas obrigado mesmo assim, Dy. Senti sua falta.”
Ele sorri.
“Eu sei. Eu também, Christian.”
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