Death
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Bato na porta uma vez e sem realmente esperar resposta entro furioso.
"Olá novamente, Sr. Curtis." Digo com certo desprezo em minha voz.
O diretor me encara com uma carranca no rosto e faz sinal com a mão para que eu espere um momento. Está falando ao celular e o assunto obviamente não o agrada.
Caminho até a cadeira vazia á sua frente e sento-me sem cerimonias. Jogo minha mochila no chão e tiro o celular do bolso, pondo para tocar algum hardcore brutal e barulhento.
Meu lábio arde. Está inchado e ainda sangra. Minhas roupas estão terríveis, tenho a camisa aberta e a calça jeans rasgada e suja. A adrenalina da briga recente continua a correr em minhas veias; estou suando e meu coração martela rapidamente em meu peito. Isso tudo é bom, me sinto vivo e um pouco menos furioso com o mundo.
Suspiro. O Sr. Curtis continua a falar no telefone e sua careta de desgosto só aumenta. Com esse aparente mau humor, sinto que ele irá pegar pesado comigo dessa vez. Minha mãe irá ficar furiosa!
“Sim, eu entendo perfeitamente. Marque uma reunião para resolver essa situação e depois me ligue, Gavin. Até mais.” O Sr. Curtis desliga o telefone com brutalidade e em seguida suspira. Sua atenção se volta pra mim.
“Bom dia, Christian.” Ele diz em um tom cansado. “Gostaria de poder dizer que estou feliz em vê-lo.”
Sorrio friamente para ele.
“É um prazer revê-lo também, John.”
“Sr. Curtis pra você.” Ele resmunga e ajeita os óculos redondos.
Eu continuo a sorrir e ele me encara com desapontamento.
“Quantas vezes precisarei repetir o mesmo sermão para você, Christian? Será que não entende quão destrutivo é esse caminho que está tomando?” Ele parece cansado.
“Eu entendo perfeitamente, Senhor. Mas infelizmente já não sou capaz de parar a mim mesmo…” Meu sorriso aumenta.
“Porque faz isso, Christian? É um menino brilhante, tem toda uma vida pela frente e simplesmente está a jogando fora sem razão…”
“Porque o mundo é cheio de merda, Senhor. E eu simplesmente me cansei de ser fodido pela vida.”
Ele retorce o rosto com o meu linguajar, mas não comenta nada sobre isso.
“Diga-me, Christian.” Ele fala suavemente. Seu tom me faz estreitar os olhos, sei que não vem boa coisa por aí. “Você sente falta do Dylan?”
E por um momento, esqueço como respirar. O nome liberta uma profunda dor dentro de mim que faz seu caminho até a superfície esmagando tudo á sua frente. Minha garganta subitamente seca e eu engulo com dificuldade. Filho da puta!
Tento conter as lágrimas e manter minha voz firme quando falo:
“Sim, demais.” Respondo a sua infeliz pergunta. “Mas onde é que isso se encaixa em nossa conversa?”
“Eu imagino a dor que deve estar sentindo.” Ele comenta, examinando meu rosto a procura de qualquer reação.
Porque aquele maldito está trazendo esse assunto á toa? Ele sabe a dor que me causa e mesmo assim parece não se importar a mínima.
E de repente, a fúria está de volta. Aquela fúria incontrolável que faz meu coração se acelerar e meus pensamentos obscurecerem. Tudo que quero nesse momento é socar sua cara gorducha e esmagar seus óculos com meus punhos. Quero que ele experimente a mesma dor que vem me torturando por três angustiantes meses.
“Não, você não faz ideia de como é a dor.” Eu sussurro tentando controlar minha raiva. “Você não faz ideia de como foi horrível ver o corpo sem vida do meu irmão e perceber que ele nunca mais estaria ali.”
Eu espero que ele diga algo, mas como se mantem calado, eu continuo.
“O mundo é uma merda, Sr. Curtis.” Sorrio com desgosto. “Dylan era talvez o cara mais brilhante dessa escola. Ele era bonito, carismático e inteligente. Tinha um futuro incrível pela frente… Mas aí, esse filho da puta a quem chamam de Deus, resolveu ferrar com a vida dele e com a minha. E ele morreu, com meros dezoito anos.”
“Christian, eu…”
“Cale a boca.” Eu peço, e por mais incrível que parece, ele me atende.
Respiro fundo algumas vezes tentando impedir as lágrimas que se acumulam em meus olhos. Manti essas malditas lágrimas presas por três meses, não será agora que irei chorar. Isso é patético e não irá mudar em nada o fato de que meu irmão está morto.
“Sabe, eu costumo me perguntar: Porque Dylan e não eu? Vamos ser sinceros, eu sou um inútil, um merda qualquer… Ninguém sentiria minha falta. E mesmo assim, eu continuo aqui e meu irmão está morto.” Eu soco a mesa. “MORTO!”
A raiva e a dor se misturam de tal forma que o sentimento é insuportável. As lágrimas lutam para descer, mas eu não posso deixar que isso aconteça. Não quero ser fraco, não quero me humilhar dessa forma na frente do meu diretor!
Fecho os olhos. Não, eu não vou chorar, eu não vou… Repito para mim mesmo. E após algum tempo começo a voltar ao normal. Consigo pôr de volta o meu usual sorriso sarcástico e volto a encarar o Sr. Curtis com o olhar frio.
“Será que agora você me entende, Senhor?”
E com isso, pego minha mochila do chão e dou o fora dali.
x
Não tenho a certeza se quero ir para casa. Minha mãe provavelmente já sabe da minha mais nova briga e deve estar me esperando furiosa.
Não há onde me esconder e nesse momento o que mais quero é ficar sozinho. O único lugar onde posso estar em paz é ironicamente o lugar que irá me causar mais dor. Não sei se estou pronto para encarar a lápide do meu irmão sem chorar e prometi a mim mesmo que não derramaria uma lágrima. Todo esse sofrimento é em vão, lágrimas não o trarão de volta. Então pra que perder tempo com isso?
Balanço a cabeça tentando clarear meus pensamentos. Aos poucos aquele estranho entorpecimento volta e eu paro de sentir. A dor é guardada no canto mais profundo do meu coração e dessa vez me certifico de que ela esteja bem trancada ali. Sentimentos doem demais e eu já decidi que não os quero.
Calmamente, começo a caminhar em direção ao cemitério. Não sei se quero ver meu irmão sob uma lápide, mas preciso enfrentar isso de uma vez por todas.
O caminho é curto, chego lá em poucos minutos. Passo algum tempo encarando o velho portão de ferro até que me sinto forte o suficiente para entrar. Não sei exatamente onde ele está, então dou algumas boas voltas no lugar até achar o familiar nome:
“ Em mémoria de
Dylan Berington
1992-2010 ”
Meu estomago se revira. Então é isso, aqui está ele.
“Olá, Dylan.” Digo com a voz trêmula. Um sorriso nervoso dança em meus lábios.
Ele não me responde, é claro.
“As coisas estão sendo uma merda desde que você se foi. Acho que mamãe está em depressão e eu estou mais fodido do que nunca. Desculpe te decepcionar, irmão, mas acho que nunca conseguirei orgulhar você.” Eu digo. Falar com Dylan é estranhamente aliviador, me sinto melhor rapidamente.
Sento-me na grama e abraço meus joelhos. Estou em uma posição ridícula, eu sei, mas não me importo.
“Queria que você estivesse aqui, Dy.” Eu suspiro. “Desculpe ter sido um babaca com você enquanto estava vivo. Eu sinto muito mesmo.”
E é como se ele estivesse ali, sentado ao meu lado com aquele estúpido sorriso nos lábios. O pensamento me conforta e permito-me imaginar que ele está vivo e está aqui comigo.
A tarde passa rápido, e pela primeira vez em três meses sou capaz de relaxar. Quando tiro o celular do bolso para verificar as horas, percebo que já são 15:30h. Merda! Minha mãe irá me matar!
Ainda estou da mesma forma que estava ao deixar o Sr. Curtis. Meu lábio está ainda mais inchado e minhas roupas no mesmo estado lastimável. Passo as mãos por meus cabelos rebeldes na inútil tentativa de torna-los apresentáveis. Fecho a camisa com os botões que ainda lhe restam e tento limpar a sujeira do jeans. Sabendo que não melhorou muito, dou uma ultima olhada para a lápide de Dylan e começo a caminhar para casa.
Um temporal desaba na metade do caminho e o frio acaba comigo. Chego em casa encharcado, sujo e machucado. Respiro fundo e me preparo para o sermão quando entro em casa. Minha mãe está na sala, seus olhos estão inchados e vermelhos, mas ela mesmo assim sorri pra mim. Sei que andou chorando por Dylan.
“Oi mãe.” Eu digo, pondo a mochila em cima do sofá e esperando pela bronca.
Ela olha pra mim com… Afeto, decepção, compreensão?
“Oi Christian.” Ela sorri sem vontade.
“Eu sinto muito por hoje.” Eu não sinto, mas tento deixa-la satisfeita.
Ela se aproxima de mim e com cuidado toca meu lábio. Arde um pouco com o seu toque, mas eu ignoro. Ela então me abraça e eu vejo que faz um enorme esforço para conter as lágrimas.
“Desculpe mãe. Eu sou uma decepção.” Suspiro.
Ela olha para mim, séria.
“Jamais repita isso novamente, Christian. Você é meu orgulho.”
Não mereço isso, não sou digno desse amor que ela sente por mim. Não sou como Dylan, nunca serei motivo de orgulho. Como essa mulher pode dizer algo assim?
“Ah, mãe.” Sussurro tristemente. “Eu realmente gostaria de ser. Desculpe.”
Com isso me afasto e subo as escadas em direção ao banheiro. Olho para o espelho e encontro um estranho garoto magricela me encarando com curiosidade do outro lado do vidro. Têm os cabelos jogados nos olhos e um sorriso frio nos lábios. Ao redor do olho há um hematoma arroxeado e a boca está inchada e suja de sangue. O menino parece desolado, angustiado. Com horror percebo que se trata de mim mesmo. Aquele estranho garoto a me encarar no espelho sou eu.
Mas que merda!
Entro no banho e deixo a agua quente cair sobre mim, é aliviador. Não me permito pensar em nada: futuro, responsabilidades… Dylan. Por um glorioso momento, tudo parece bem… Mas é apenas por um momento, e ao sair do banho a realidade me acerta um belo soco na cara. Apesar de tudo, estou um pouco melhor quando saio do banho. Ponho uma camisa azul e bermuda branca. São 17:00h agora e minha mãe não está. A casa parece terrivelmente vazia e silenciosa sem ela. Como de rotina, vou até o quarto de Dylan e me enrolo nos cobertores da cama por fazer. Está tudo da forma como ele deixou. Pilhas de livros amontoadas no chão, um copo intocado de chá na mesa, pôsteres mal colados na parede… Minha mãe ainda não consegue entrar aqui sem desabar em lágrimas, mas eu, por mais incrível que possa parecer, me sinto estranhamente confortável aqui. É o único lugar onde eu realmente sinto a presença do meu irmão, onde posso me lembrar dele.
Olho distraidamente para o quadro de fotos em uma das paredes. Há uma foto nossa quando éramos menores, provavelmente a ultima foto que temos juntos. Estamos na praia, ele deve ter uns treze anos e eu dez. Estou abraçado a ele com um enorme sorriso estampado no rosto. Naquela época eu costumava considerar Dylan como um Deus, e realmente não me importava de ser constantemente ofuscado por ele. Era meu sonho ser como ele: bonito, inteligente, talentoso… Mas tudo que eu conseguia era ser o irmão problemático do “perfeito Dylan”. Acho que foi aí que a admiração passou a ser transformar em raiva; também deve ter sido nessa mesma época que eu resolvi dar um “foda-se” ao mundo e me tornar a decepção da família.
E agora aqui estou eu, contendo desesperadamente as lágrimas, encolhido pateticamente na cama do meu irmão, desejando mais do que tudo que ele ainda estivesse aqui e eu pudesse me desculpar por ter sido um idiota todo esse tempo.
E enquanto sou torturado pelo arrependimento o sono toma conta de mim. Fecho os olhos agradecido por poder fugir da realidade e torço para não ter pesadelos dessa vez.
Acordo algum tempo depois. Já é noite e eu demoro um pouco para me acostumar com a súbita escuridão. Há uma nova mensagem em meu celular e eu pego para ver:
“Tenho algumas respostas para você. Encontre-me hoje á meia noite próximo à praia.
L”
O número não está em minha lista de contatos. Estreito os olhos em desconfiança.
Digito uma resposta rápida:
“Quem é você e que tipo de respostas são essas?”
Uma nova mensagem chega dois minutos depois:
“Dylan.”
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