Death
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Espero que gostem, pessoal. Qualquer crítica construtiva é bem vinda até demais! :3
Death
Ele soluçou.
Uma. Duas vezes.
Aquele soluço entrecortado de quem lamenta pelo mundo.
Se houvesse uma maneira de confortá-lo, eu confortaria. Diria que aquele não era o fim, apesar de ser. Havia algo grande esperando por todos eles – não era responsabilidade minha definir, mas qualquer ser pensante poderia saber que fim brilhante aqueles homens teriam. Fins brilhantes para humanos brilhantes. Era isso o que eu diria, se ele pudesse me ouvir. Infelizmente, não me eram concedidos os dons da comunicação.
Mais uma vez, ele soluçou.
E atirou-se por sobre o corpo do outro como quem clama por uma segunda vez.
Ao redor dele, todos os outros. Dentre tantos aspectos que os diferenciavam, a tristeza e a dor faziam-lhes semelhantes a meus olhos. Não era a primeira vez, eu me lembrei. Parando para pensar, eu já havia perdido a conta de quantas vezes havia presenciado a mesma cena – a mesma aflição, a mesma tristeza, a mesma raiva. Mas mesmo depois de tanto tempo na mesma situação, vi-me aflita como se um dos meus houvesse partido. Não se engane, no entanto; não tenho aqueles que eu deveria chamar de meus. Minhas são as almas, os silêncios eternos, as pausas. Pontos finais. E mesmo que eles não estivessem chorando por mim, sabia que minha parcela de culpa estava ali, visível a todo e qualquer um que utilizasse de bons olhos ou boa percepção.
Senti pena. Pena daquele homem de cabelos curiosamente espetados que, em prantos infantis, clamava pela volta daquele que eu viera buscar. Pena do homem de olhos esverdeados logo atrás, que não media esforços para conter a emoção. As esmeraldas de seus olhos estavam corrompidas pela mágoa, eu queria dizer. Pela mágoa e pela impotência. Mas ele estava ali também, assim como todos os outros que lamentavam tanto por uma perda memorável.
É engraçado perceber.
Aqueles que antes cantavam sobre mim,
hoje choram por descobrirem como são meus modos de agir.
Eu me aproximei do homem de cabelos espetados jogado sobre o caixão, tentando com todas as forças fazer com que aquele outro humano abrisse os olhos. Acariciei-lhe os fiapos morenos, tendo certeza de que ele não perceberia, mas sentindo-me infinitamente bondosa com aquele ato. A Morte acalentando um humano. Quatro. Vinte. Era difícil saber quantos haviam ali, ou como se dispunham, ou como se chamavam. Já não era a primeira vez que eu cruzava com aquelas criaturas; ouso até mesmo lembrar de algumas. O “fã” – creio que é assim que se refiram os humanos a outros humanos. Desculpem, não sei de seus termos, apenas interpreto o que vejo – caíra de um local muito alto. Mais uma vez, meus serviços haviam sido requisitados, mas uma voz me impediu de continuar. Aquela foi uma das inúmeras vezes que eu cruzara com aquelas existências tão simples, mas tão imensamente complexas. A voz firme dos olhos verdes me fizera parar e fizera com que acudissem aquela vida. Salvara-o.
E agora, olhe que curioso.
A voz que antes havia salvado alguém
agora pedia para ser salva.
“Brian.” O rapaz dos olhos verdes se aproximou, agarrando os ombros do homem de cabelos espetados. “Vamos, cara. Eles têm que tirá-lo daqui.”
“Matt...” A voz chorosa do de cabelos espetados me fizera sentir incomodada. “Ele era meu melhor amigo, cara...”
“Eu sei. De todos nós...”
A contragosto, o tal Brian levantou-se lentamente, escorando-se no homem de olhos de relva, despedindo-se internamente do homem deitado no caixão. Juntou-se a um punhado de outros mais – um pequeno, outro par de olhos verdes e mais alguns. Eu me aproximei deles, como quem se junta ao luto, e tentei ouvir o que diziam. Abraçavam-se. E choravam. Os quatro. Os quatro amigos, os quatro irmãos que não partilhavam do mesmo sangue. Jimmy, eles diziam. Jimmy, Jimmy, Jimmy. Está na hora. Não pode ser. Não com ele. Me leve junto com ele. Devolva-o para nós.
Desculpem-me por desapontá-los, queridos.
A hora de vocês ainda não chegou.
“Está na hora.” Alguém disse. Não me dei ao trabalho de conferir. “Temos que levá-lo para o crematório.”
Não. Ainda não.
Uma lamúria escapou da boca de alguém, mas não tenho certeza de qual dos quatro — se era Brian, ou o que se chamava Matt, ou o pequeno, ou o outro de olhos esverdeados. Poderia ser algum dos outros. Os pais. Parentes. Amigos. O pranto de todos eles se misturava naquele velório.
Voltei-me para o humano dentro do caixão, a expressão pacífica de alguém que jamais havia acordado. Quem o visse agora não acreditaria nas experiências que aquele corpo carregava. Todas as alegrias, as mágoas, os sorrisos e as descrenças. Era um humano tolo, um humano fraco, assim como todos os outros. Sua hora chegara mais cedo, mas aquele era o fim que todos deveriam esperar. Mas, mesmo assim, havia algo pesando dentro de mim, como se tirá-lo deles, de alguma forma, arrancasse algo de dentro de mim.
Não. Absolutamente não.
A morte não sucumbiria ao lamento daqueles humanos.
Toquei a mão pálida e gélida de meu mais novo “inquilino”, e o quão não me surpreendi quando seus olhos se abriram e ele se levantou, confuso e complacente ao mesmo tempo. Parecia entender e se conformar com tudo o que acontecia. Era difícil encontrar almas assim, destas que se levantam e questionam com os olhos mesmo que aquele mundo não mais os pertença. Pareceu compreender o que aquela cena mórbida significava e, ao olhar para mim, um sorriso indecifrável delineou-se em seus lábios agora vívidos. Era por aquela alma que choravam, por aquele tal de Jimmy. Finalmente eu havia compreendido.
“Caralho.” Ele sussurrou, e eu arregalei os olhos brevemente. Poderia considerá-lo como petulante se aquele gesto tão verdadeiro não houvesse me fascinado. “Se você é quem eu estou pensando que é, porra, tu é muito diferente do que eu imaginava.”
Franzi o cenho. Das poucas almas que se levantaram e vieram ao meu encontro, todas elas fizeram o mesmo comentário. Mas não cheguei a compartilhar daquela informação, pois nada do que eu dissesse poderia mudar o inevitável. Sem falar que era a primeira alma que me abordava tão diretamente, confiante, como se soubesse tudo a meu respeito.
“Esses caras...” Soltou uma gargalhada travessa, como um menino que havia aprontado alguma brincadeira. De fato, havia. Só não era possível reparar seus danos. “Olhe como choram, esse bando de viados. São muito frescos, mesmo. E cara, eu estou parecendo uma lombriga neste caixão.” Olhou para mim de forma inquisitória e apontou para seu corpo físico dentro do caixão. “Não acha?”
Suspirei.
Mas que ironia, Destino.
A alma daquele humano fascinara até mesmo a Morte.
Já não havia mais tempo. Era hora de partir, minha pequena e doce alma. Sua estadia neste mundo já não era mais bem-vinda. Odeio ser a portadora de más notícias, mas não mais poderás vê-los. Seu corpo físico não passará de cinzas, mas sua alma precisa voltar para o lugar de onde viera. De uma forma ou de outra, sinto-me triste. Aquela alma tão dócil, mas de essência tão infantil, não precisava ir. Não agora. A vida, infelizmente, age de maneiras cujo sentido é duvidoso e quem leva a culpa e os maus pensamentos sou eu. E lá estava eu, mais uma vez, sucumbindo a sentimentos tão humanos quanto a tristeza e a saudade, quando minha função era exatamente a de despertá-los. Como eram imprevisíveis, esses tais humanos. Surpreendendo até mesmo a mim.
Tomei a alma dos olhos de céu em meus braços, acalentando-o como quem acalenta um recém nascido. Bem ou mal, era isso o que ele era. O tal Jimmy morrera para nascer na eternidade, onde o tudo e o nada eram possíveis. Ele não hesitou em entregar-me sua alma, descansando em meu colo e permitindo-se guiar. Contudo, eu podia ouvi-lo murmurar – cantarolava baixinho, quase de forma imperceptível, sua despedida. Eu conhecia aquela melodia tão bem que poderia acompanhá-lo, mas não ousei embalar tão profundas palavras com minha voz.
I know you'll find your own way when I'm not with you tonight...
E lá estava aquela alma, tão pura, tão corrompida.
Ela cantarolava em meus braços enquanto eu seguia meu caminho.
Aquele que você irá percorrer um dia.
Também em meus braços.
~
Notas finais
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