Dearg Due

1 Capítulo 1 - Luxor


Notas iniciais
Nota AS: Esta é uma fanfic especial para o AS da Liga dos Betas, respeitando o pedido da pessoa presenteada. Totalmente despretensiosa, tentei unir um pouco de duas de suas paixões, espero que goste!

O som ritmado das marteladas produzia um efeito melodioso, ecoando as tilintadas pelas paredes como música para os meus ouvidos. A poeira também estava em todo o canto, assim como o sol, particularmente causticante naquela manhã. Encontrar um lugar em que pudesse me esconder era uma tarefa quase impossível. Olhei a tenda montada, distante demais, um verdadeiro oásis, chamando-me de encontro ao cooler — uma rápida olhada em meu relógio de pulso bastou para saber que o reforço havia sido entregue —, certamente havia algo gelado e bom.

Passei a manga da camisa pela testa, enxugando-a e borrando o rosto na mesma proporção com a mistura de suor e poeira. O trabalho nos sítios passava longe de ser glamouroso, como mostrado no cinema; estar confinado, conviver com um grupo limitado de pessoas muitas vezes por um longo tempo, se submeter a variações climáticas, nada disso era fácil, mas eu não estava reclamando, de forma alguma, era o que eu amava fazer, além de ser um legado de família. Meu pai, avô, tetravô e muitos antes de mim, foram todos homens e mulheres ligados à história, ciência e arqueologia; a prática era mil vezes melhor do que exercer a profissão como teórica.

Como se adivinhasse meus pensamentos, uma garrafinha, tão suada quanto eu, surgiu em meu campo de visão, cheia até a borda com água fresca.

Levantei o olhar e encontrei o sorriso no rosto do meu pai.

— Obrigada. — Rapidamente, peguei a garrafa e com longas tragadas engoli a água. Cheguei a engasgar um pouco, tossindo.

— Vai com calma...

Eu sorri ainda tossindo e passei o plástico vazio de volta para ele.

— Como estão indo as escavações? Alguma coisa aqui do lado oeste? — ele perguntou.

Dei alguns passos, indicando onde poderia ser o topo de um templo.

— Já começamos a encontrar. Não vai haver mais tanto tempo de trabalho por aqui, pai. A não ser que o ministro abra aqueles cofres gordos e invista mais.

— Foi o que pensei... — ele murmurou. Ao mudar de lado, tive que levar à mão ao rosto, sombreando os olhos a fim de encará-lo. — Esse é o problema de licitações com o governo.

— Mas... não há nada em vista, pai? Alguma nova reunião saída da cartola? — brinquei tentando descontrair. O assunto era demasiado sério, pois nossos empregos estavam na berlinda.

Papai moveu a cabeça, negando.

— Já mandei cercar em um raio de cinco quilômetros, filha. Com o ritmo que empunhamos e a pressão do ministério, mais uma ou duas semanas de trabalho e depois entram as outras equipes. — Talvez minha expressão preocupada ou temerosa tivesse feito com que meu pai se apiedasse e ele prosseguiu: — Mikaela, vai dar certo, filha. Assim que estivermos no hotel, entrarei em contato com alguns amigos... talvez algum deles saiba de um trabalho. Fé, ok? Tenha fé.

Anuí, sem qualquer convicção na tal fé que meu pai empregava em tudo na vida.

Acenei, demonstrando que iria retornar ao trabalho. Papai acenou de volta e eu lhe dei as costas, porém, antes de seguir acompanhando os escavadores, dei uma olhada sobre o ombro, observando meu pai partir. Ele tirou o chapéu e esfregou os dedos no topo da cabeça, onde os fios já estavam espaçados e salpicados de branco, conforme a idade avançava. O gesto, característico de quando estava nervoso, fez com que eu retesasse. Aquele era nosso melhor contrato em anos. Havíamos passado os últimos 15 meses em Luxor, antes disso, no Cairo, mas nem de longe em uma licitação tão boa. Não queria voltar para a sala de aula como assistente de algum professor metido à besta, tampouco contemplar o tédio que era trabalhar em um museu, antes eu havia estagiado, mas agora, eu ficaria entediada profissionalmente.

Notas finais
continua...