Dear future husband
1 Capítulo único
Notas iniciais
Aqui estou eu como uma onezinha, confesso que estou me viciando nessas histórias curtas. Dear future husband, é uma ideia que eu tive enquanto assistia ao casamento da minha amiga (sim, eu penso em fics em todos os momentos da minha vida, por isso as pessoas me acham tão distraída) é algo bem simples, mas eu escrevi de coração, então espero que gostem e se emocionem com essa pequena história ♥
Ps.: para quem gosta de ler escutando música, eu escrevi ouvindo Broken Angel do Boyce Avenue para a primeira parte e Never stop do Safetysuit para a segunda, então sugiro ouvir nessa ordem!
This is my love song to you
Let every woman know I'm yours
So you can fall asleep each night babe
And know I'm dreaming of you more
You're always hoping that we make it
You always wanna keep my gaze
Well you're the only one I see
And that's the one thing that won't change
(Never Stop — Safetysuit)
♥
Felicity Smoak
Eu ainda tinha o meu olhar preso na janela. Eu encarava a rua a minha frente quase sem piscar, ainda esperando pelo momento que ele voltaria para casa, arrastando as malas que levara e dizendo que tinha sido um erro e que ele não conseguia viver sem mim em sua vida. Ele sorriria e me pegaria no colo assim que passasse pela porta e me giraria pela sala e eu iria rir, feliz por ainda ter de volta a minha vida o homem mais importante.
Mas já haviam se passado cinco dias, e eu ainda tinha preso na minha cabeça tudo o que acontecera naquela noite.
A briga, os insultos, as lágrimas.
Ninguém sabia que eu estava ali, escutando tudo ainda sentada naquele cantinho da escada. Eu havia acordado no meio da noite e desci para beber água, mas no meio do caminho eu os escutei, eu fiquei assustada com as vozes alteradas, mas principalmente em ouvir o que foi dito. Meu pai dizendo que simplesmente não podia mais ficar, que não aguentava mais enquanto minha mãe o lembrava de que éramos uma família, mas isso não pareceu importante para ele, porque o vi simplesmente dando as costas e partindo pela porta levando suas malas.
Ele sequer se despediu de mim.
Naquela época eu era apenas uma criança de sete anos, eu não entendi muito bem o que estava acontecendo, apenas que meu pai estava indo embora e não estava levando nem a mim nem a minha mãe consigo.
Eu fiquei observando a rua por um longo tempo, e não importa o quanto eu olhasse pela janela, o quanto meu coração se enchia de esperança sempre que um carro passava em frente a nossa casa, eu não o via voltando para nós.
Por que ele não voltava?
O que havia de errado em mim que o fizera ir?
— Querida, você precisa sair dessa janela. – eu sequer me movi quando minha mãe me disse isso, eu ainda tinha esperanças, eu ainda acreditava que meu papai havia ido apenas viajar e que logo estaria em casa de novo, contaria histórias para mim antes de dormir e me ajudaria com o dever de casa, que já estava se acumulando uma vez que eu só aceitava a ajuda dele. — Eu sinto tanto, mas ele não vai voltar, Felicity. – senti as mãos da minha mãe acariciando meus cabelos, sua voz era doce e compreensiva, eu podia ouvir que havia nela o mesmo tipo de dor que eu estava sentindo, exceto que minha mãe a escondia melhor do que eu, mas eu me recusei a aceitar suas palavras e fiz dali meu lugar. Dia após dia, eu sentava sob meus joelhos no sofá, apoiava minhas mãozinhas no encosto e deitava minha cabeça sobre elas, e ali ficava observando pela janela, ainda esperando. Minha mãe não mais tentou falar comigo novamente e dizer que meu papai não voltaria, ela apenas se sentou ao meu lado naquele sofá e me abraçou enquanto nós duas olhávamos para fora.
Esperando por alguém que tinha ido embora.
Esperando por alguém que não nos queria.
Eu demorei algum tempo para aceitar que ele não voltaria, mas entender o porquê dele nos abandonar foi algo que eu nunca consegui, mesmo depois de mais velha.
— Ele não vai mais voltar? – eu desviei meu olhar da janela pela primeira vez naquela semana e fitei minha mãe que estava, como sempre, pacientemente sentada ao meu lado. Havia lágrimas em meus olhos, meus lábios tremiam e minha voz quebrava no meio das palavras refletindo o quão quebrada eu estava por dentro. – Por que ele não me abraçou antes de ir? Por que ele se foi? Ele não me ama a gente mais? – um soluço saiu junto ao choro que agora se tornava maior e mais forte, eu era apenas uma criança afinal, uma criança que não entendia como em um dia tinha um pai que amava ao seu lado e no outro ele simplesmente havia ido embora sem olhar para trás.
— Não pense isso, Felicity. – minha mãe foi enfática ao se dirigir a mim, ela me olhou nos olhos e embora eu soubesse que ela estava tão triste quanto eu, ela sorriu ao me olhar com certa admiração de mãe — Você é uma menina tão linda, inteligente e engraçada. E tem um coração imenso e cheio de amor, qualquer pessoa no mundo teria sorte de receber o seu amor. Eu sou uma pessoa muito mais feliz por ter o seu amor, minha pequena. – meu coração abrandou um pouco a dor quando a minha mãe secou as minhas lágrimas com seus dedos, embora as dela ainda caíssem por seu rosto. Mas eu senti seu amor naquele simples gesto, eu senti o quanto a minha felicidade era importante para ela, ainda mais importante do que a dela própria.
— Então se eu sou tudo isso, por que o papai não quer o meu amor? – eu questionei e vi a expressão da minha mãe se tornar mais dolorosa.
— Venha aqui para o meu colo. – ela pediu e eu me arrastei pelo sofá indo até ela, me sentindo instantaneamente muito melhor apenas por estar em seus braços, sentir seus dedos passeando por meus cabelos num movimento acalentador, o calor do seu corpo enquanto ela me abraçava tão firme que eu escutava seu coração retumbar erraticamente. Eu já não me sentia tão triste ou sozinha quando estava com ela, eu nunca entendi como, mas o colo da minha mãe sempre me trouxe um alívio imediato, eu corria para os braços dela sempre que me machucava ou quando a tempestade estava muito forte lá fora e o barulho dos trovões me assustava. Eu sempre encontrei naquele colo um conforto e uma sensação de ser incondicionalmente amada e de estar segura e protegida como jamais encontrei em outra pessoa. E dessa vez não era diferente, apesar da dor ser muito maior do que um joelho ralado e o medo não se resumia ao medo de uma simples tempestade, seu abraço ainda remendava o machucado no meu coração, e me lembrava de que, apesar de estar perdendo alguém importante, eu ainda tinha amor na minha vida e tendo a ela e seu abraço com propriedades curativas, eu poderia sobreviver. – Não é que o seu papai não queira o seu amor, pequena. – ela começou num tom maternal — É que infelizmente nem todo mundo sabe como retribuir a algo tão puro de forma incondicional, algumas pessoas são egoístas, algumas pessoas se importam apenas consigo mesmas e não valorizam o amor que recebem. E a verdade querida é que quando você ama alguém, não há nenhuma garantia de que esse amor vai ser retribuído, você dá o seu coração e apenas espera que essa pessoa cuide bem dele. – ela suspirou, possivelmente pensando no próprio coração que não foi cuidado, no amor que não foi devolvido. — Amar é um grande risco.
Eu pensei por um tempo em suas palavras, eu era apenas uma criança e eu sentia que estava aprendendo uma grande lição, a minha vida que costumava ser bem mais simples naquela época, começava a parecer tão boba agora, minhas preocupações se resumiam a fazer meu dever da escola, assistir desenhos animados e se o menino idiota que sentava atrás de mim iria parar de puxar minhas trancinhas. Eu nunca tinha pensado no amor como algo destrutivo, para mim era fácil, eu amava os meus pais, e eu os abraçava e os beijava para mostrar isso. Mas eu começava a entender que amar ia além de beijos e abraços, amar era sobre estar ao lado da pessoa amada, era se importar o suficiente para ficar, amar era sobre cuidar do coração do outro ao invés de machucar. E a ideia de que você poderia amar alguém e essa pessoa não a amar de volta, ou ainda, que essa pessoa usasse seu coração ao invés de cuidar dele, era assustadora.
E se eu amasse tanto alguém, assim como eu amava o meu papai e ele me deixasse?
E se meu coração fosse destroçado novamente por causa do amor?
E se eu perdesse meu coração por causa do amor?
— Você ama o papai? – perguntei. Minha mãe não esperava pela pergunta, mas sua resposta, ainda assim, veio sincera, embora fosse impossível ignorar o quanto doía a ela admitir isso.
— Sim, eu o amo. – ela sorriu triste para mim, e eu a fitei mais atentamente observando o que o amor tinha feito com a minha mamãe. Ela era sorridente, ela cantava o tempo todo e mesmo sempre errando a letra da música, ela não se importava, ela apenas continuava a cantarolar a letra que inventava.
Minha mãe era alguém feliz. No seu rosto sempre havia um sorriso amplo e sincero, e agora havia apenas lágrimas.
O amor tinha feito isso com ela.
— Você deu a ele o seu amor, e ele não quis. – constatei me sentindo irritada, me erguendo do seu colo ficando de pé. Minhas mãos cruzadas em frente ao meu corpo. – Por que ele não quis?
Minha mãe me fitou parecendo abalada com a minha mudança de comportamento, ela desceu do sofá, se abaixando para ficar da minha altura e bem de frente para mim, suas mãos sobre meus ombros. Eu via o quanto aquela conversa estava magoando ela, o quanto de dor meu pai causara a nós duas simplesmente porque ele era incapaz de nos amar da forma que nós o amávamos, mas ainda assim a minha mãe continuava forte, eu não entendia como, apesar de estar sofrendo ela ainda conseguia ser forte.
— Querida, essa é uma resposta que eu não tenho. – ela respondeu com uma paciência que me irritou ainda mais do que sua resposta. – É algo que apenas seu pai pode responder.
— Mas quando ele se casou com você, ele prometeu amá-la! – bati o pé sentindo aquela raiva que nascera no meio da tristeza se espalhar por mim – Por que ele não cumpriu as suas promessas e ficou ao seu lado em todos os momentos bons e ruins? Por que ele fugiu? Nós éramos uma família porque ele...
— Pequena... – ela me abraçou novamente, seu abraço aplacando a dor e preenchendo o vazio que aquele abandono trouxera. Me permiti chorar em seu ombro soluçando enquanto as lágrimas vertiam quentes e grossas pelo meu rosto, me permiti agarrar firme em seu corpo e sentir seu coração quebrado batendo junto com o meu – Eu vou amá-la por nós dois. – ela garantiu, beijando cada parte do meu rosto e aos poucos eu fui me acalmando. Eu sabia que o amor dela era verdadeiro, eu sabia que minha mãe jamais me abandonaria ou deixaria de me amar, eu sabia que ela cuidaria do meu coração. Porque o amor dela era do tipo que curava as feridas e não do que as causava. Eu a abracei por um longo tempo, deixando que nosso amor uma pela outra amenizasse a dor, deixando que o vazio que meu pai deixara em meu coração fosse preenchido pelo amor dela.
E eu percebi que o amor dela era seguro.
Não era o suficiente para me livrar daquela sensação de ter sido abandonada, mas era suficiente para eu me sentir amada e querida. Eu só precisava do amor dela e do seu abraço capaz de curar aquelas feridas, eu só precisava tê-la na minha vida e eu seria amada sem correr o risco de não ter meu amor retribuído.
— Eu nunca vou me casar. – anunciei de repente determinada a nunca colocar meu coração naquela situação, eu o protegeria – Eu nunca vou dar meu coração a ninguém, mamãe, por que assim ninguém mais poderá machucá-lo. – eu imaginei que minha mãe aprovaria a minha decisão, mas a expressão em seu rosto se tornou mais triste.
— Não diga isso, pequena! – ela se afastou minimamente de mim, apenas o suficiente para me olhar nos olhos, sua mão se colocando envolta do meu rosto num carinho singelo de mãe. — Um dia você vai conhecer alguém, alguém que vai amá-la de volta, que vai não apenas cuidar do seu coração, mas lhe dar o próprio para ser cuidado e amado. Não deixe que esse momento ruim a prive da maravilhosa experiência que é amar.
— Mas e se eu amar alguém e ele me deixar como o papai deixou você? E se ele quebrar meu coração também? Doí muito, mamãe, eu não quero me sentir assim de novo. – Havia dor nos olhos dela, e eu sabia que era a minha própria que eu via refletida ali, minha mãe me amava tanto que quando eu sofria, ela sofria junto comigo.
— Então ele nunca mereceu seu coração. – ela explicou pausadamente – Porque quando um amor é verdadeiro, quando você encontra o escolhido, aquela pessoa que vai não apenas te amar, mais se importar com seu bem estar, te fazer rir quando você estiver chateada e te abraçar quando a tempestade chegar, se ele a amar verdadeiramente ele vai fazer de tudo para merecer o seu coração, e o mais importante, ele dará o seu próprio, e confiará que você irá cuidar dele com amor.
— Amar é como fazer um transplante de corações? Ele me dá o dele e eu dou o meu? Vamos ter que ir ao hospital para trocá-los? – pela primeira vez eu vi minha mãe rir naquele dia. O jeito que os olhos dela sorriram e brilharam para mim, me deixaram mais feliz, eu a estava fazendo rir quando ela estava chateada. Não era isso o que se fazia quando se amava alguém?
— Não, minha pequena, ninguém precisa ir ao hospital para trocar os corações.
— Isso é bom, eu não gosto de hospitais. – falei verdadeiramente aliviada. – Imagine se tivesse que tomar injeções também? – minha mãe sorriu novamente, e eu percebi que aquele brilho tão característico de Donna Smoak voltava aos poucos.
— Sem agulhas também. – me garantiu — Mas como nós duas aprendemos amar pode machucar as vezes, porque quando você ama tanto alguém você dá a essa única pessoa o poder sobre seu coração, mas se ele merecer o seu coração, se ele for o escolhido ele não vai machucá-lo, pelo menos não intencionalmente, e mesmo se ele te machucar sem querer, ele vai usar o amor para curar qualquer ferida.
— Como eu vou saber se ele vai merecer meu coração? Amar é tão complicado! – Resmunguei, afinal até onde eu entendi amar era dar o coração a alguém e essa pessoa tendo o meu coração poderia machucá-lo. E iria doer. E eu não gostava de sentir dor.
— Não querida, amar é simples. – ela disse — Amar não é sobre nunca se machucar, amar é sobre ter alguém ao seu lado nos momentos bons e ruins, alguém que se importa com você e que coloca a sua felicidade acima da própria, que te aceita e ama apesar e por causa dos seus defeitos e qualidades. Amar é precisar de alguém e saber que pode contar com ela para tudo, é poder desabafar e contar seus problemas. É ter aquela pessoa que mesmo que te faça chorar às vezes, ela mesma irá secar suas lágrimas. É encontrar todo o conforto para todos os seus temores e tristezas num único abraço. E acima de tudo, amar é sobre se doar sem medo, porque o medo pode restringir nossos sentimentos, pode nos fazer nos doar pela metade. – advertiu — Amar é um risco, mas é um risco que vale a pena correr porque seu coração nunca se sentira tão vivo enquanto você não se entregar de corpo e alma a esse sentimento. – eu assenti fazendo uma lista mental sobre tudo o que minha mãe falava — Você vai entender melhor quando vivenciar isso, quando encontrar o seu escolhido, daqui uns vinte anos.
Escolhido?
— E como eu encontro essa pessoa? O meu escolhido? Tem que ser alguém perfeito e que goste das mesmas coisas que eu? – perguntei, afinal eu queria a pessoa certa, não queria cometer nenhum erro quando se tratava dessa coisa tão bonita e perigosa que era o amor.
— Não. Infelizmente não existe fórmula secreta, é por isso que as pessoas as vezes erram, as vezes dão seu coração acreditando que o amor é correspondido, e é por isso que as vezes machuca tanto. – suspirei, temendo passar por isso – Você precisa ser cuidadosa, mas não se fechar completamente para o amor. E quando ele aparecer na sua vida, você vai saber, vai sentir tudo aqui... – ela colocou a mão sobre meu coração – ...mudar. E vai ser lindo se apaixonar.
Eu sorri, porque apesar de meu papai ter machucado o coração da minha mamãe, ela ainda falava do amor como se fosse algo bonito e especial, algo pelo qual valia a pena viver. Mas ainda assim, para mim não parecia seguro.
— Então eu posso fazer uma lista sobre como o escolhido deve ser para eu saber que posso amá-lo? – perguntei.
— Oh, não! – minha mãe negou de pronto — Não é assim que funciona, seu coração vai escolher a pessoa, querida, você não terá nenhum controle sobre isso.
— Então eu posso acabar dando meu coração a alguém que não o mereça! – bufei emburrada me sentando sobre o sofá, estávamos dando voltas. – E ele pode não dar valor ao meu coração e machucá-lo!
Minha mãe me olhou atentamente, percebendo que estávamos num impasse. Eu sabia que ela queria que eu não desistisse de amar por medo, ela tinha feito todo um discurso sobre como amar era algo bom, que mudaria a minha vida, e sim, havia uma parte de mim que queria muito isso, mas ainda havia aquela parte que temia ser machucada novamente.
— Nós podemos escrever uma carta para ele. – franzi o cenho sem entender e o sorriso da minha mãe se alargou — a pessoa que seu coração escolher, assim ela vai saber o quão precioso é o seu coração e que precisa cuidar direitinho dele, com muito amor e carinho, e não machucá-lo e em retorno você promete fazer o mesmo com o dele. – sugeriu. Eu gostei da ideia, eu poderia contar a ele como cuidar do meu coração e talvez assim ele não o magoasse.
— Tá bom. – concordei pulando do sofá, me sentindo pronta para fazer aquilo. – Pode pegar uma folha do meu caderno e uma caneta para mim, mamãe? – minha mãe voltou com o que eu pedi e nós duas nos sentamos no chão da sala enquanto eu me debruçava sobre a mesinha de centro com a caneta na mão, confusa sobre como começar. — Como eu deveria chamá-lo, se eu ainda nem o conheço? – questionei, mordendo a tampa da caneta enquanto encarava minha mãe.
— Hum... – ela pareceu ponderar por alguns instantes — Se você vai dar o seu coração, ele vai ser alguém muito importante na sua vida, certo? – eu concordei com a cabeça, eu não iria dar meu coração a qualquer um – Então pode endereçá-la ao seu futuro marido.
Me senti estranhamente nervosa quando coloquei a caneta no topo da folha, isso era algo grande e eu não poderia errar, afinal era o meu coração que estava em jogo. Floreei a letra o máximo que consegui, tentando deixá-la bonita. Eu pensei que seria mais difícil escrever uma carta a alguém que eu ainda não conhecia, mas descobri que era incrivelmente fácil colocar naquele papel todos os sentimentos que eu queria e ao mesmo tempo temia sentir.
Querido futuro marido,
Eu não te conheço ainda, mas mamãe me disse que daqui uns vinte anos eu vou conhecê-lo e que preciso ter certeza de que você é a pessoa certa antes de lhe entregar meu coração. É por isso que estou lhe escrevendo essa carta, para que você saiba exatamente o que fazer para merecê-lo...
♥♡♥
Minha mãe tinha razão.
Amar não era sobre escolher a pessoa que tem os mesmo gostos e pensamentos. Ou ainda sobre imaginar a pessoa perfeita para se encaixar na sua vida. Não existia fórmula secreta para proteger seu coração de ser machucado, amar era sobre fechar os olhos e andar de mãos dadas juntos em direção ao desconhecido, confiar que a pessoa que seu coração escolheu é aquela que vai estar ao seu lado nos piores e melhores momentos da sua vida. Incondicionalmente.
Amar é uma das melhores coisas dessa vida.
Depois de muitas decepções e erros, depois de finalmente acreditar que esse amor ideal jamais apareceria para mim, eu finalmente o tinha encontrado, onde eu menos esperava, quando eu menos esperava e mais surpreendentemente ainda, quando eu mais precisava dele.
O meu escolhido.
Aquele que fizera esse meu coração cauteloso e cheio de medos acreditar novamente. Aquele que me mostrara o quanto amar era bonito, o quanto esse sentimento me fizera sentir viva e completa, e acordar todas as manhãs com seu corpo abraçado ao meu e passar a tarde com vontade de cantar músicas bobas e dançar pela casa, aquele que mesmo quando me fazia chorar secava as minhas lágrimas e que me fazia rir quando eu estava chateada com algo. Eu não tive medo de dar meu coração a ele, até mesmo porque ele me dera o seu sem qualquer reserva, apenas confiando que eu cuidaria dele.
Eu ainda me lembrava com perfeição do dia que o conheci num hospital. Eu havia recebido uma chamada avisando que minha mãe tinha passado mal e tinha sido internada, eu me lembro de deixar o trabalho as pressas e chamar um táxi porque não confiava em mim mesma e em meu nervosismo para dirigir até ela. Eu estava apavorada e corria ofegante e desesperada pelo hospital, temendo chegar tarde demais, temendo não estar ao seu lado para lhe dar amor e apoio quando ela precisava de mim, principalmente porque ela sempre esteve ao meu lado. Mas quando eu cheguei ao seu quarto, eu me surpreendi, eu estava pronta para ver uma Donna Smoak abatida e fraca, mas não, ela estava rindo com vivacidade. Havia um homem sentado a beira da sua cama e contando uma história qualquer sobre a infância dele, eu não tinha visto o seu rosto ainda, eu sequer precisei, apenas de saber que ele tinha sido capaz de fazer minha mãe rir novamente depois de tanto tempo, apenas isso já me fez sorrir em pura gratidão.
Amar é fazer alguém rir quando a pessoa estiver chateada.
Eu apenas me permitir ficar ali encostada ao batente da porta apenas apreciando o quanto era bom ver alguém fazer minha mãe rir, havia tão poucas risadas nas nossas vidas ultimamente que era impossível não me sentir bem em apenas ouvir esse som novamente. Donna havia me dado todo o seu amor quando meu pai nos abandonou tentando ao máximo suprimir aquele vazio, ela me amara por dois, ela me ensinou a amar e me ensinou também a proteger meu coração e a dá-lo apenas a quem o merecesse, ela era a mulher mais forte e com o maior coração que um dia eu conheci e agora estava doente porque seu coração tão grande e cheio de amor estava falhando.
Naquele dia eu descobri que o homem que fazia minha mãe rir se chamava Oliver, ou melhor, Dr. Queen.
Ele não era mais do que um interno no hospital e auxiliava o cardiologista da minha mãe, ele foi uma presença constante durante todo o tempo que durou o tratamento dela, que não foi pouco, ela praticamente morou no hospital durante um ano inteiro, o caso dela era grave, seu coração estava fraco demais e ela precisava de um coração novo. E como eu tinha que trabalhar o máximo que conseguia para pagar as contas médicas, era um alívio saber que Oliver sempre estava com ela, fazendo-a rir, distraindo-a da própria doença.
Aos poucos eu permiti que Oliver entrasse na minha vida também, foi gradual e inevitável. Ele era uma presença constante no quarto da minha mãe e ele não fazia apenas ela rir, mas a mim também. Eu gostava das suas histórias e me sentia bem com a sua companhia, nós costumávamos almoçar ou jantar juntos no hospital, minha mãe sempre dava um jeito de obrigá-lo a me levar para comer ou a dar uma volta comigo quando ela precisava fazer algum exame. E de repente ela não precisava mais nos obrigar a isso, nós íamos por vontade própria. Eu gostava de passar aquele tempo com Oliver, com ele eu podia desabafar e mostrar que eu não era tão forte quanto eu fingia ser na frente da minha mãe, com ele eu podia ser eu mesma. Oliver me escutava e me confortava, eu tive nele o apoio de um amigo num momento tão ruim. Não foi difícil notar que aos poucos aquilo se tornava maior, que eu queria passar mais momentos com ele, que eu sentia a falta dele nos dias que não o via e como esses dias pareciam mais tristes e nublados, foi quando eu percebi que queria mais do que sua amizade.
Mas eu me agarrei ao que tinha, acreditando que aquele não era o momento certo para fantasiar com o amor.
Eu não podia me jogar naquilo, e arriscar perder o que tinha.
E o que eu tinha com Oliver era bom. Ele segurou forte a minha mão quando recebemos a notícia de que minha mãe precisava de um novo coração. Ele ficou ao meu lado nos momentos difíceis quando pensamos que íamos perdê-la e lutou com todas as forças para conseguir um coração para ela.
Ele conseguiu.
Porque Oliver é obstinado e porque Oliver amava Donna assim como eu.
Eu me lembro de beijá-lo pela primeira vez quando ele disse que tinha achado um coração para ela. Eu ainda me lembrava com perfeição daquele momento, foi quando tudo mudou para mim. Eu tinha acabado de chegar do trabalho e tomado um banho rápido, e preparado uma pequena mala para ir ao hospital e passar a noite com minha mãe. Ele mal teve tempo de tocar a campainha, porque no mesmo instante em que ia fazê-lo eu abri a porta, eu temi por um momento que fossem más notícias, mas não eram e quando ele disse que havia encontrado um coração para ela, eu senti o meu próprio retumbar acelerado dentro do peito, eu não pensei muito no que fazia, eu estava tão feliz e eu queria dividir essa felicidade com mais alguém.
Mas não qualquer alguém.
Esse alguém era Oliver.
Eu o abracei primeiro, envolvendo meus braços ao redor de seu pescoço, deixando nossos rostos tão pertos quanto era possível, eu me inclinei apenas um pouco fitando seus olhos encontrando tantas coisas, sentimentos e emoções que me impeliam para ele, senti os braços dele se apertando ao redor da minha cintura, levando o meu corpo para o dele, fazendo com que se encaixassem com tanta perfeição que pareciam moldados um para o outro. Eu me rendi ao momento e me inclinei mais um pouco, cobrindo seus lábios com os meus num roçar suave, eu sabia que estava mudando as coisas, eu sabia que estava dando um passo grande demais, mas eu estava cansada de conter tudo o que eu sentia trancado dentro de mim. E quando Oliver exalou contra meus lábios, quando o sentir me apertar ainda mais contra si e sua boca mover-se junto a minha com vontade, fome e com carinho, tomando tudo de mim e ao mesmo tempo entregando tanto de si naquele beijo, que eu percebi que talvez ele estivesse cansado de conter o mesmo sentimento que eu.
Quando eu era criança minha mãe me dissera que eu entenderia o amor quando eu fosse mais velha, quando eu encontrasse aquele que faria meu coração se sentir mais vivo. E quando lentamente os meus lábios se afastaram do dele, quando eu terminei de beijar Oliver e senti os resquícios de seu gosto em minha boca, senti meu coração desejar envolvê-lo em meus braços e beijá-lo novamente e nunca parar, porque só em seus braços eu me sentia completa, eu entendi.
Eu entendi o amor.
Oliver não disse nada sobre o beijo naquele momento, apenas me deu um sorriso tímido, acariciou meu rosto com certa devoção e entrelaçou a minha mão forte junto a dele e então me levou ao hospital, mas eu via nos olhos dele que tudo havia mudado para ele também.
Nós sorrimos e comemoramos quando ela sobreviveu a cirurgia e choramos e nos consolamos quando o seu corpo começou a rejeitar o coração.
E ele me abraçou forte acalmando a fúria dentro do meu coração em uma noite chuvosa de novembro quando ela se foi. Ela ainda permaneceu ao meu lado durante o enterro, e me fez dormir em seus braços quando eu me senti sozinha.
Eu me lembrei da minha mãe dizendo que o amor quando era verdadeiro era o alento para um coração, e eu me agarrei ainda mais aquele abraço, naquele amor que eu via surgir em meu peito, e eu percebi que assim como o abraço da minha mãe, o de Oliver também aliviava a dor e aos poucos fazia o ferimento causado pela perda dela cicatrizar.
Oliver me deu seu amor, quando eu havia perdido o meu.
Oliver com seu amor ajudou o meu coração a se curar e por mais temerosa que eu estivesse, afinal eu já havia experimentado duas vezes o quanto doía perder alguém que se ama, ele me mostrou, assim como minha mãe que amar era belo, e que valia a pena ser vivido em toda a sua intensidade, que valia a pena se arriscar.
Eu me arrisquei com ele.
E não me arrependi.
Eu levei a mão ao meu rosto secando as pequenas lágrimas que ameaçaram cair com tantas lembranças. Eu estava me sentindo emocional demais naquele dia, e não era para menos. Encarei o meu reflexo naquele espelho de corpo inteiro respirando fundo ao olhar a visão da mulher vestida com um lindo vestido de noiva rendado, que me olhava de volta. Ela havia tido o amor e o perdido, e mesmo com medo de amar ela havia o encontrado novamente. Era um tipo diferente de amor dessa vez, mas ainda assim era o amor que ela sempre procurara até mesmo sem saber.
Eu só queria que minha mãe estivesse aqui para ver que eu tinha conseguido encontrá-lo, o escolhido.
— Você parece uma noiva pensativa demais... – deixei de encarar o espelho me virando para encontrar minha futura cunhada ali vestindo um longo vestido rosa de madrinha e segurando um delicado buquê de flores de cerejeira e delicados botões de rosas brancas — Já aviso que não vai deixar meu irmão no altar, eu te arrasto até lá se for necessário e te obrigo a dizer sim. – eu ri, diante da impossibilidade de deixar Oliver.
— Não vai ser preciso, Thea. – respondi com firmeza observando Thea se jogar num sofá num canto do quarto parecendo cansada – Mas talvez devesse checar se o noivo não está pensando em fugir.
— Como se ele quisesse ir a qualquer lugar longe de você. – eu sorri contente, sabendo no fundo do meu coração que Thea estava certa. Oliver havia provado mais de uma vez que sempre estaria comigo.
— Felicity, essa é a última caixa da sua mãe que achei. – Sara entrou pela porta do quarto trajando o mesmo vestido que Thea, mas carregando uma caixa de papelão consigo e a colocando sobre a cama. Senti meu coração imediatamente disparar. Ergui a saia do meu vestido e corri em direção a ela, sentei-me a cama e comecei a revirar as coisas da minha mãe me sentindo ansiosa. Eu ainda sentia saudades dela, eu gostaria que ela estivesse aqui comigo e Oliver, mas com o tempo eu aprendi a conviver com a perda, a aceitar o tempo valoroso que tive com ela como um presente e me consolei dizendo a mim mesma que ela estaria feliz por mim. – Vá com calma, as coisas estão guardadas aí há muito tempo e estão empoeiradas, não vai querer sujar o seu lindo vestido, vai? – suspirei frustrada tirando as coisas mais devagar, Thea e Sara me ajudaram ao verem o quanto aquilo era importante para mim.
— O que estamos procurando exatamente? – Thea questionou, abrindo uma caixinha de joias vazia.
— Uma carta, uma carta bem antiga. – expliquei me sentindo frustrada, eu vinha procurando isso há tempos, desde quando Oliver me pedira em casamento, eu revirei cada uma das coisas da minha mãe, e não a havia encontrado em lugar algum, essa era a minha última chance. – Não está aqui! – Reclamei frustrada ao ver que não havia chegado ao fundo da caixa. Senti meus olhos arderem, com lágrimas que queriam tão desesperadamente sair.
— Por que parece tão chateada? É apenas uma carta, Felicity. – senti a mão acolhedora de Thea segurar a minha, bem como a de Sara. Eu não tinha mais família, mas aquelas duas me acolheram como irmãs em suas vidas, assim como os pais de Oliver me acolheram como uma filha.
— Não era apenas uma carta, era algo que fiz com minha mãe, era especial para nós duas — expliquei sentindo aquele aperto no peito tão característico de quando eu pensava na minha mãe — Eu deveria dar isso a Oliver hoje, minha mãe ficaria decepcionada se eu não desse.
— Mesmo que você não a encontre a carta, você pode sempre contar sobre o que havia nela ao Oliver, eu tenho certeza que sua mãe ficaria feliz ainda assim e Oliver também – Sara tentou amenizar.
— Ou só porque você não encontrou essa carta hoje, não significa que irá parar de procurar, apenas não vai fazer isso agora porque precisa estar no seu casamento, não queremos que Ollie tenha um ataque cardíaco achando que a noiva desistiu, não é?!
— Eu nunca desistiria de Oliver. – eu ri novamente, deixando Thea mais contente.
— Ótimo, então levante-se e seque essas lágrimas, pense o quanto sua mãe odiaria saber que você se casou com a maquiagem borrada. — Eu ri ainda mais, secando os meus olhos com cuidado enquanto pensava na minha mãe.
Ela não ficaria realmente chateada se eu não encontrasse aquela carta e a desse ao Oliver, mas ficaria louca se minha maquiagem borrasse no dia do meu casamento.
♥♡♥
Uma melodia suave começou a tocar na medida em que eu entrava na igreja. Eu era vagamente ciente dos olhares e sorrisos na minha direção, mas havia apenas um olhar e um sorriso com o qual eu me importava, ele me esperava no altar e eu caminhei até ele, porque era com ele que meu coração estava.
Eu gostaria de dizer que prestei atenção nas palavras bonitas do padre sobre o casamento, ou ainda no quanto as pessoas a nossa volta pareciam emocionadas. Mas eu não consegui. Eu tinha minha mão entrelaçada na de Oliver, meus olhos presos nos dele, eu sentia tanto amor e tanta felicidade naquele momento, eu até mesmo podia sentir minha que minha mãe, aonde quer que ela estivesse, abençoava a nossa união e estava feliz por eu não ter desistido do amor como quis fazer quando era criança.
Minha voz quebrou-se várias vezes emocionada demais enquanto disse meus votos simples, porém de coração ao Oliver, e tremi ainda mais quando deslizava a aliança no dedo dele e o aceitava como meu marido. Ele se emocionou com minhas palavras e me agradeceu por amá-lo tanto, por fim ele respirou fundo se preparando para a sua vez.
— Eu sei que os votos de casamento são um momento sagrado em que os noivos fazem as tradicionais promessas na saúde ou na doença e até que a morte os separe. Eu sei que este é o esperado, mas eu tenho mais a prometer a Felicity do que apenas isso, meus votos representam não apenas minhas promessas a você, mas a mim mesmo. É por isso que eu gostaria de um momento para falar diretamente a minha amada futura esposa e fazer as coisas um pouquinho diferentes. – eu o fitei sem compreender e sussurrei um “o que você está fazendo?”, mas Oliver apenas sorriu para mim e apertou minha mão mais firme na dele pedindo que eu confiasse nele, e assim eu o fiz. – Felicity, você provavelmente não sabe, mas sua mãe me entregou isso há alguns anos atrás. – ele tirou do bolso interno do paletó um envelope antigo que imediatamente reconheci, levei a mão a boca com aquela surpresa emocionante — Era noite de novembro e chovia muito, eu fiquei além do meu plantão porque eu sabia que Donna não gostava de ficar sozinha em noites chuvosas e você ainda não tinha chegado, ela sabia que não estava bem, o corpo dela rejeitava o coração que conseguimos, e por mais que ela quisesse lutar ela também sabia que estava tudo bem partir. – as lágrimas caiam agora sem parar quando eu me lembrava daqueles dias sofridos, apertei a mão de Oliver mais firme junto a minha, me recordando de que ainda tinha aquele que sempre seria meu alento em dias tristes como aquele – Nós conversamos muito aquela noite e Donna me disse que o maior medo dela era ir embora e te deixar sozinha no mundo, te deixar sem amor assim como o seu pai a deixou. Mas que agora ela olhava para você, e via em seus olhos esperança e seu coração aberto e pronto para amar, para me amar. – Frizou. Como ela conseguiu ver tudo aquilo em mim? Com, sem eu sequer dizer uma palavra, ela sabia que eu estava me apaixonando por Oliver? — Eu fiquei nervoso ao ver o verso da carta direcionada “ao meu querido futuro marido”. Eu não fiquei nervoso porque eu não te amava, eu me apaixonei por você Felicity quase que assim que a vi, eu fui atingido pela sua beleza num primeiro momento, e depois me encantei pela dedicação e seu amor pela sua mãe, me encantei pela mulher forte e ao mesmo tempo sensível que conheci e me apaixonei pelo seu coração puro que é tão belo quanto você. Eu me vi organizando minha agenda e passando mais tempo no hospital apenas para ter uma desculpa para te ver, eu até mesmo sugeri a sua mãe que dissesse para você almoçar comigo ou apenas dar uma volta para distrair. Eu fiquei nervoso ao receber aquela carta, porque até então eu só tinha te beijado uma única vez, e ainda que aquele beijo tenha balançado o meu mundo, eu temi que estivesse me aproveitando de você por estar tão vulnerável com a doença da sua mãe. Eu não sabia se eu seria o seu futuro marido, ainda que eu quisesse.
— Mas ela sabia. – sorri, ainda impressionada com minha mãe.
— Ela sabia. – Oliver sorriu de volta – Donna me pediu duas coisas naquele dia, me pediu para amá-la por nós dois e eu assenti, sabendo que o faria mesmo que ela não pedisse. E ela pediu para que eu abrisse essa carta quando você me dissesse sim. Infelizmente ela morreu naquela mesma noite, e nunca chegou a ver o momento em que pedi para que fosse minha ou pode estar aqui no nosso casamento. – eu me lembrei daquele dia horrível, lembrei-me de Oliver me contando que minha mãe havia morrido, e pensei que uma parte de mim havia morrido com ela. Mas então senti braços fortes ao redor de mim, o calor de um corpo conhecido, senti meu coração se acomodar naquele abraço que aliviava a dor, que me fazia sentir viva quando tudo ao meu redor estava morto.
— Eu devo minhas desculpas a Donna porque apesar de cumprir com o primeiro pedido, eu trapaceei quanto ao segundo, eu abri a carta antes que você me dissesse sim, antes que eu pudesse ser o seu futuro marido. Me desculpe por isso Donna. – ele se desculpou erguendo os olhos para cima como se falasse com minha mãe, parecendo envergonhado por ter trapaceado — Eu abri porque pensei que não fosse ser ele, e estava irritado pensando em como ele seria e porque não seria eu. Nós estávamos juntos há poucos meses e nós tivemos essa briga horrível, eu estava trabalhando muito no hospital e você estava preocupada com o meu bem estar, eu andava estressado e não dormia direito e quando você tentou me convencer a diminuir o ritmo, nós brigamos e eu saí de casa batendo a porta atrás de mim. – eu me lembrava bem daquele dia, me lembrava de quanto doeu ver Oliver sair da minha vida daquele jeito, e como aquilo reabriu velhas feridas. – Mas eu voltei para casa no meio da noite e te encontrei deitada na cama, eu te abracei e pedi desculpas por ser idiota e contei que estava chateado porque eu tinha uma paciente morrendo e eu não sabia como salvá-la. Você ficou contente porque eu me abri com você e me consolou, e naquele dia você finalmente disse que me amava, e em contrapartida eu prometi que nunca iria embora da sua vida. Se lembra disso?
— Sim. – foi um alívio sentir novamente o abraço dele naquela noite, sentir que eu ainda o tinha, e ouvi-lo conversar comigo, confiando os seus problemas e abrindo seu coração me fez sentir que era especial para ele.
— O que havia dentro dessa carta me atingiu aqui, Felicity. – Oliver disse levando minha mão que estava unida a dele para junto de seu coração — Essa carta me fez perceber que eu tinha a coisa mais preciosa do mundo, e que eu precisava cuidar dela direito. Por isso, hoje, no dia em que eu me tornarei seu marido, eu quero não apenas te oferecer promessas, eu quero te oferecer um homem melhor, o homem que a sua carta me fez querer ser. Por você e para você. – eu suspirei, eu sorri, eu chorei. Oliver simplesmente estava conseguindo me fazer sentir tantas coisas que pensei que meu coração pudesse explodir com tantas emoções — Você se importa se eu a ler? – Ele perguntou, e neguei com a cabeça, me sentindo apenas feliz por minha mãe ter dado o seu jeitinho para essa carta ter chegado ao seu destinatário. Oliver abriu a carta com delicadeza, e notei que a mesma estava um pouco amassada, me fazendo questionar quantas vezes ele a havia lido.
Ele respirou fundo, seu semblante se tornando mais determinado a medida que começou a ler as palavras que escrevi quando ainda era uma criança.
— Querido futuro marido, — Oliver sorriu para mim – Esse sou eu. – anunciou orgulhoso, antes de continuar a ler.
Querido futuro marido,
Eu não te conheço ainda, mas mamãe me disse que daqui uns vinte anos eu vou conhecê-lo e que preciso ter certeza de que você é a pessoa certa antes de lhe entregar meu coração. É por isso que estou lhe escrevendo essa carta, para que você saiba exatamente o que fazer para merecê-lo.
Depois que meu papai foi embora, ele deixou um vazio dentro do meu coração. E eu sei que ele deixou o coração da minha mamãe machucado também, eu vi o quanto ela chorou quando ele nos deixou. Ele recebeu dois corações inteiros, de duas pessoas que o amaram, mas ele não soube cuidar desse amor, e preferiu ir embora. Doeu e as vezes ainda doí, mas não conte isso para a minha mamãe, ela não gosta de me ver machucada.
Mamãe disse que amar é como trocar corações, que temos que cuidar e amar o coração que recebemos e esperar que a outra pessoa faça o mesmo com o nosso. Eu queria que papai tivesse ficado e aceitado o nosso amor, mas nem sempre quando a gente ama vai receber amor de volta, nós demos o nosso coração, mas ele não nos deu o dele de volta e ainda feriu o nosso. Eu espero muito que você seja diferente.
Eu espero que você fique ao meu lado mesmo quando as coisas estiverem difíceis e que converse comigo ao invés de brigar e desistir de nós, e que o nosso amor seja forte o suficiente para que você também não vá embora na primeira briga.
Eu espero que você me faça rir quando eu estiver chateada.
E que me deixe comer todos os m&ms vermelhos porque eles são os meus favoritos.
Eu quero você me abrace quando estiver caindo uma tempestade, por que eu odeio o barulho de trovões, mas tenho vergonha de admitir isso. Eu espero que você seja bondoso, não apenas comigo, mas com todas as pessoas ao redor. Mamãe sempre diz que só conhecemos o coração de uma pessoa pelo modo que ela trata os outros.
E eu espero que seu abraço seja daqueles capazes de acalmar meu coração, de curar as feridas, mesmo que seja apenas um joelho ralado. Eu espero poder contar com você, seu apoio e seu amor sempre que eu precisar, porque você sempre poderá contar comigo.
Se você está lendo esta carta é porque meu coração te escolheu, e eu sei que não tenho controle sobre isso, eu não sei se você vai cuidar dele direitinho e isso me assusta. Mas ainda assim eu vou confiar no meu coração e vou te dar o meu amor, eu vou ficar ao seu lado, eu vou te abraçar durante a tempestade mesmo que ela não te assuste, eu vou te fazer rir quando estiver triste porque a vida é sempre melhor com sorrisos e risadas, eu vou até mesmo te deixar comer todos os m&ms vermelhos se você gostar deles também.
Eu vou fazer isso, eu vou te dar o meu coração, e vou amar você da melhor forma que consigo. Eu só espero que você faça o mesmo por mim, me ame e me dê seu coração. Eu prometo a você que vou cuidar dele.
Com amor, da sua futura esposa
Felicity Megan Smoak
♥♡♥
Oliver ergueu sua mão e secou suavemente minhas lágrimas quando terminou de ler, ainda que as dele caíssem pelo seu rosto. Seu gesto me fez sorrir, e eu me lembrei da minha mãe que sempre secava as minhas lágrimas antes das dela, como se meu bem estar sempre viesse em primeiro lugar. Eu queria falar tantas coisas para Oliver, explicar sobre aquela carta, mas eu não sabia por onde começar, eu estava emocionada demais para falar.
— Eu era apenas uma criança que temia amar e não ter o amor correspondido quando escrevi essa carta, eu sequer sabia se eu encontraria o amor um dia – meneei a cabeça e consertei a frase logo em seguida — se eu encontraria você. – porque eu sabia que era em Oliver que eu havia encontrado o amor — Mas eu preciso dizer, que você é ainda mais do que eu esperava, meu coração não me desapontou quando escolheu você.
— Eu fico feliz em saber disso. – ele disse com uma calma invejável – Mas foi importante poder ler essa carta, eu pude ver e entender você melhor, eu pude me tornar alguém melhor para você, alguém merecedor do seu coração. Eu prometo a você, Felicity, cumprir cada um dos seus desejos dessa carta, exceto que não posso te prometer todos os m&ms vermelhos, eles são meus preferidos também. – todo mundo na igreja riu, até mesmo eu, quebrando um pouco da tensão daquele momento emocional — Podemos apenas dividir? Como dividiremos tudo em nossa vida daqui em diante?
— Sim. — Meu sim não era apenas um sim aos m&ms, era um sim a essa vida que eu queria tanto dividir com ele.
— Hoje, eu vou trocar meu coração pelo seu. – ele disse mais sério e determinado pegando minha mão e finalmente deslizando a aliança de ouro pelo meu dedo anelar — E eu prometo, Felicity, eu vou cuidar dele, amá-lo e nunca, nunca machucá-lo, porque eu sei o quanto seu coração é precioso. Eu apenas espero ser merecedor dele, da mesma forma que eu sei que você é merecedora do meu.
— Você é. – garanti e Oliver se abaixou deixando um beijo singelo sobre a aliança que agora reluzia em meu dedo, quando ele ergueu o rosto para mim, eu vi em seus olhos não apenas as promessas de amor que ele me fizera naquele dia, mas eu vi o seu desejo de cumprir cada uma delas, eu vi seu amor, seu carinho e seu cuidado.
Eu não me importei se aquela não era a hora de beijar o noivo, eu não me importei se o padre ainda não havia nos declarado marido e mulher. Eu apenas dei um passo a frente diminuindo a distância entre nós e o beijei, beijei sentindo todo o amor que tínhamos um pelo outro percorrer o meu corpo, chegando até meu coração que batia feliz, porque eu tinha encontrado o amor de Oliver.
Porque agora meu coração pertencia a ele, e o dele era meu.
E como minha mãe havia adivinhado.
Ele era o meu escolhido.
Notas finais
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