Dear Mr. Nemesis
2 Capítulo 2
Complaining over nemesis’ futile longing is completely tiresome.
Sábado. Sobre o centro expandido da cidade, o Sol se encontrava no ponto mais alto.
Era um bonito dia ensolarado — tão bonito que as pessoas não conseguiam se conter e se viam interrompendo fosse o que fosse que estivessem fazendo simplesmente para admirar a paisagem hipnotizante ao seu redor. Haviam pássaros cantando alegremente, seu canto uma razão mais do que suficiente para trazer um sorriso ao rosto das famílias que se encontravam deitadas sobre as sombras curtas das árvores. O mundo parecia mais colorido, como se a natureza tivesse decidido dar tudo de si e mostrar seu verdadeiro potencial.
Era de tirar o fôlego.
Um homem sorridente descia a rua, indo em direção ao seu costumeiro local de almoço, seus passos tão leves que ele estava basicamente saltitando. Ele sabia que as pessoas o estavam encarando, mas não conseguia se importar; de qualquer maneira, ele já estava acostumado a ter as pessoas olhando para ele. Seu sorriso era largo, indo de orelha a orelha e iluminando suas feições. Havia tanta felicidade em seu coração que outros poderiam chamá-lo de egoísta por não compartilhar. Seu peito estava quente, e cheio.
Ao lado dele, sua cadela — seu precioso animal de estimação e companheira leal — brincava enquanto caminhava à frente, pulando enquanto perseguia uma pequena borboleta roxa. O homem a observava atentamente, e teve de se conter para não fazer o mesmo.
Quando a fachada da loja apareceu no horizonte, seu sorriso ficou ainda maior. Yu-topia estava logo adiante, tão perto que ele já podia ver a pequena multidão que geralmente se reunia em frente à entrada nos fins de semana, composta de pessoas aguardando por uma mesa.
Suas mãos tremiam, mas de um jeito bom. Seus pés começaram a se mover mais rápido.
O mundo parecia brilhante e colorido aos seus olhos, mais do que nunca. Talvez ele tivesse sido contagiado pelas emoções que continuavam transbordando para fora de seu peito.
—--
Em Yu-topia, Victor foi recebido com notícias ruins e um tanto frustrantes.
— Yuuri não está aqui hoje — Hiroko explicou quando veio anotar seu pedido, sentindo-se mal pelo homem que não parava de olhar ao redor com olhos esperançosos e indagadores. Aquelas palavras foram como um balde de água fria, o qual foi derramado sobre sua cabeça e o deixou encharcado com sentimentos de decepção.
Como de costume, ele estava sentado nas mesas dispostas no lado de fora, na área externa do restaurante. Makkachin estava bem ao seu lado, animada como sempre. Nestes últimos dias, o clima havia começado a ficar mais frio devido à aproximação do inverno, mas ainda era suportável apenas com seu suéter — graças ao Sol sempre presente, que ainda não os havia privado de seu calor. No entanto, logo ele teria que começar a vasculhar seu armário atrás de seu casaco mais grosso.
Seus lábios vacilaram uma, duas vezes. Somente na terceira tentativa ele foi capaz de se recompor o suficiente para que as palavras fizessem sentido ao saírem de sua boca.
— Aconteceu alguma coisa? Ele está doente? — perguntou Victor, preocupado com o homem que ocupava grande parte de seu coração e de seus pensamentos.
O tempo estava começando a virar, e não era incomum que alguns se tornassem vítimas da mudança trazida pelos últimos dias da estação. Apesar dos dias ainda serem em sua maioria quentes, as noites já estavam bastante frias e muitos se viam despreparados diante da queda repentina de temperatura no final da tarde.
Se Yuuri foi uma das pobres pessoas a se tornarem vítimas das implacáveis garras da gripe sazonal, Victor tinha que — não, ele faria algo a respeito. Da forma que as coisas eram agora, eles já não se viam o suficiente, então de forma alguma ele iria permitir que algum vírus insignificante se colocasse no caminho da pequena preciosidade que era o breve instante que eles tinham juntos.
Como se ela pudesse ler os pensamentos em sua mente — ou talvez ele tivesse apenas, inconscientemente, dito uma parte deles em voz alta — Hiroko riu brevemente. Enquanto observava a maneira como as bochechas dela ficavam rosadas enquanto seu rosto se iluminava em meio às gargalhadas, Victor se viu perguntando se Yuuri se parecia com sua mãe quando ria. Embora sua curiosidade fosse grande, ele tinha medo de nunca descobrir a resposta, porque o sorriso de Yuuri provavelmente o cegaria imediatamente.
— Meu filho foi com o pai fazer algumas entregas. Muitos pedidos foram feitos para hoje, mas o funcionário que normalmente ajuda Toshiya não pôde comparecer — explicou Hiroko, com a intenção de livrar o homem de suas preocupações desnecessárias. Funcionou, pelo menos parcialmente.
— Vocês estão conseguindo lidar com tudo sem o Yuuri? — Victor perguntou, sabendo muito bem o quão ocupado Yu-topia sempre ficava nos fins de semana. — Por favor, não se sobrecarreguem.
— Está tudo bem. Um bom amigo de Yuuri veio nos ajudar, mesmo sendo avisado tão em cima da hora. — Hiroko sorriu despreocupadamente, e então girou a cabeça em direção ao interior do restaurante.
Victor seguiu o olhar de Hiroko, movido pela curiosidade.
Um menino conversava com um dos clientes, vestido no familiar avental verde. Com uma das mãos ele colocava a comida na mesa, uma expressão gentil repousando em seu rosto; enquanto isso, sua outra mão permanecia firme enquanto segurava uma bandeja repleta de copos vazios e sujos.
O garoto — Phichit, ele ouviu Yuuri chamá-lo uma vez — logo percebeu que haviam dois pares de olhos pousados nele, e se virou para lançar um sorriso amigável na direção deles. Hiroko acenou e Victor fez o mesmo, seu corpo movendo-se no piloto automático, simplesmente copiando o gesto feito pela mulher ao seu lado.
Enquanto seu sorriso permanecia firme e imperturbável, um ciúme horroroso latejava e queimava dentro de seu peito, acendendo e colocando lenha em uma chama que ele desejava extinguir naquele exato momento. Ele sabia muito bem que esses sentimentos eram desnecessários e estúpidos, afinal, Phichit e Yuuri eram amigos e nada mais. Yuuri não teria concordado em sair com ele se já estivesse envolvido com outra pessoa; mesmo que suas interações até então tenham sido breves, Victor ainda se sentia confiante para afirmar isso.
Victor não permitiria que suas inseguranças aumentassem. Esse não era o tipo de pessoa que ele era.
Percebendo a maneira como os olhos de Victor olhavam para baixo, em direção às mãos que agora estavam descansando sobre a mesa, Hiroko perguntou se estava tudo bem. Victor suspirou e procurou o rosto dela uma vez mais, encontrando-o cheio de preocupação e de um amor tipicamente maternal. Isso o deixou feliz de alguma forma, mesmo que não devesse.
— Só estou triste por não poder ver ele hoje — confessou, desanimado. Era tarde demais para tentar esconder seus sentimentos depois de ter sido tão alto e claro na semana anterior. Além disso, ele não queria mentir para ela.
Mesmo que seus sentimentos não fossem um segredo para ninguém que tenha estado presente na semana passada, Hiroko ainda pareceu surpresa com sua declaração. Vendo aquelas expressões no rosto dela, Victor engoliu em seco e se perguntou nervosamente se ele tinha ido longe demais, preocupado que ela talvez não quisesse nem gostasse que seu filho se envolvesse com um vilão como ele, que sempre estava causando problemas para os habitantes da cidade. Seria uma razão válida para considerá-lo indigno de seu precioso filho.
Mas então um doce sorriso surgiu em seus lábios e seus olhos arregalados tornaram-se gentis e relaxados.
— Yuuri pode ser um menino bastante tímido e inseguro, mas, por favor, cuide bem dele.
De repente, Victor ficou muito grato pelo tempo ligeiramente frio, ou então seu coração teria sido completamente derretido pelas palavras calorosas da mulher.
Após ser deixado sozinho enquanto Hiroko informava os cozinheiros de seu pedido, Victor esperou, desconcertado pela forma como seus pensamentos iam a toda parte e a lugar nenhum ao mesmo tempo. Suspirou, sentindo-se subitamente atordoado pelo que acabara de acontecer.
Ele acariciou Makkachin, sua fiel parceira, e a cadela pressionou de volta contra sua mão. Ele pegou o celular, deu uma olhada rápida em sua caixa de mensagens e então abriu o WhatsApp, os cantos dos seus lábios erguendo-se quando seus olhos encontraram um bate-papo em específico dentre os outros tantos que preenchiam sua caixa de entrada, alguns ainda aguardando uma resposta de sua parte.
Yuuri aceitar sair com ele em um encontro parecia algo saído de um sonho, uma fonte de felicidade que nenhuma palavra poderia descrever, bom demais para ser verdade. No entanto, o número que o homem deu a ele quando estava de saída na semana passada, rabiscado em um guardanapo que havia sido dobrado e jogado junto com sua conta, tem sido sua âncora. Toda vez que ele começava a duvidar de sua memória, encontrando-se encurralado por pensamentos e preocupações de que talvez tudo tivesse sido apenas uma fantasia criada por sua mente demasiadamente otimista, ele pegava seu celular e dava uma olhada na sequência de dígitos exibida na tela.
Eles mal trocaram mensagens — o histórico do chat consistindo apenas em uma breve conversa que eles tiveram depois de Victor enviar uma mensagem para ele quando chegou em casa naquele dia, que foi a maneira que o vilão encontrou para que Yuuri também obtivesse seu número — mas ainda assim era uma prova concreta do que havia acontecido, daquele primeiro passo que ele finalmente conseguiu dar a fim de encurtar a distância entre eles.
Victor sorriu, devolvendo o telefone ao bolso ao ver que Mari já se aproximava com uma bandeja de comida em mãos. O tempo havia passado depressa.
— Por que você não manda uma mensagem? Você tem o número dele, certo? — ela perguntou enquanto colocava a comida na mesa, tomando cuidado para não derramar o suco. — Se você quer falar com o Yuuri, basta enviar uma mensagem.
Aparentemente, a conversa dele com Hiroko tinha sido alta o suficiente para alcançar os ouvidos de Mari, ou talvez Victor apenas fosse previsível a esse nível.
Victor considerou a sugestão oferecida, mas encontrou sua resposta com bastante facilidade.
— Combinamos de conversar sobre o nosso encontro hoje, pessoalmente. Não quero pressioná-lo.
Victor sentia que enviar uma mensagem, mesmo que sobre algum outro assunto, talvez pudesse incomodar Yuuri, ou mesmo fazer com que ele se sentisse pressionado e desconfortável. Mesmo que Victor pensasse sobre o encontro durante as vinte e quatro horas do dia, ele não queria dar a impressão de estar desesperado. Mas, mais do que tudo, Victor se preocupava que Yuuri entendesse mal suas intenções e pensasse que Victor não estava sendo sério a respeito de seus sentimentos.
Mari simplesmente acenou com a cabeça, de certa forma satisfeita, mas era evidente que ela estava mantendo distância. Ela não estava em posição de se intrometer e, além disso, envolver-se nos assuntos deles só lhe traria dores de cabeça.
Fazia um bom tempo que Victor vinha demonstrando possuir sentimentos por seu irmão mais novo, e ainda assim foi só na semana passada ele finalmente o chamou para um encontro. Ele parecia ser um homem paciente, de uma forma estranha e inesperada que ela achava que não combinava com ele — ou, pelo menos, com a versão de Victor que ela havia criado em sua mente.
Antes de deixá-lo sozinho com a comida, ela disse:
— É melhor levá-lo para um encontro do qual ele nunca vai se esquecer.
Parecia uma ameaça, e provavelmente era.
Enquanto comia, as palavras dela martelavam em sua cabeça e, ansioso, Victor percebeu que ainda não havia pensado muito profundamente sobre o assunto. Foi ele quem convidou Yuuri para sair, então ele deveria pelo menos ter algum tipo de plano caso Yuuri não mostrasse ter preferências; o que era muito provável. Ele ficou tão feliz com o encontro que se esqueceu totalmente dos pequenos detalhes.
Onde eles deveriam ir?
Ele exercitou sua mente em torno do assunto, mas percebeu que essa decisão era mais complicada de ser alcançada do que ele esperava inicialmente.
O problema não era falta de opções, afinal, ele sempre sonhou com esse dia. Toda vez que ele presenciava um cenário realmente bonito ou ia a uma cafeteria com pratos deliciosos, sua cabeça sempre ia parar nas nuvens e ele começava a fantasiar sobre como seria poder, um dia, levar Yuuri a esses lugares, estar em sua companhia e compartilhar experiências tão maravilhosas... Era tudo o que ele sempre desejou.
O problema era o número de opções que ele reuniu ao longo desses dois anos, desde que sua paixão nasceu. Eram muitas, muitas mesmo.
Mas se não fosse perfeito, não seria bom o suficiente para o primeiro encontro deles.
Era aí que residia o problema.
—--
A semana transcorreu de forma pacífica — pacífica demais, na verdade. Até mesmo os habitantes da cidade estavam começando a se perguntar sobre a estranheza da situação.
Já era o meio da semana e a coisa mais fascinante a ser noticiada nos jornais até então foi sobre a nova marca do Sr. Giacometti, uma loja de roupas sob medida que acabara de ser inaugurada na Torre de São Petersburgo. Em comparação às notícias habituais — carros holográficos aparecendo do nada e ocupando todas as vagas de estacionamento disponíveis porque o Treinador estava cansado de dirigir sem rumo enquanto procurava um local para estacionar, ou quando de repente o tempo ficou extremamente frio porque o vilão estava com saudades de casa — era bem rotineiro e chato.
O Treinador estava quieto, de um jeito que fazia Yuuri se preocupar que algo estava errado. E, às vezes, quietude demais podia ser um sinal de que havia uma tempestade avassaladora a caminho.
Melhor se preparar do que ser pego desprevenido.
Yuuri pegou seu telefone e navegou por ele um pouco, passando pelas mensagens não lidas de Phichit, as quais, mais uma vez, estavam mencionando — provocando-o, na verdade — sobre o que aconteceu no sábado passado. Mesmo que estivesse preocupado com sua mãe e irmã tendo de lidar com a correria da hora do almoço sozinhas enquanto ele estava fora de Yu-topia para ajudar seu pai com as entregas, Yuuri já estava começando a se arrepender de ter pedido a Phichit para ajudá-las em seu lugar.
“Ele era como um cachorrinho perdido, Yuuri! Você não pode negligenciá-lo assim!“ estava escrito na mensagem, o texto seguido por muitos emoticons e figurinhas, muitos dos quais não fazendo qualquer sentido. Enviar mensagens incoerentes e confusas era a especialidade de Phichit, e ele sempre o fazia de propósito.
Ignorando seu amigo por enquanto, decidindo responder às suas provocações em algum outro momento, Yuuri rolou um pouco mais para baixo no Whatsapp até que finalmente encontrou seu chat com Victor. A conversa que tiveram foi breve e direta, e quase não havia emoticons em meio ao texto de suas mensagens — apenas um único e tedioso rosto sorridente. Eram tão diferentes das mensagens vivas e cheias de emojis às quais estava acostumado que Yuuri não conseguia evitar de se sentir um pouco perdido.
Nas vezes em que eles conversaram através de sua conta comercial do WhatsApp, haviam tantos gifs inúteis e frases espaçadas que Yuuri sempre se via perguntando se o Treinador sequer se lembrava de que eles eram nêmesis, e não velhos colegas de escola fofocando sobre os bons e velhos tempos. As conversas eram informais e amigáveis, e eram algo com o qual Yuuri havia se acostumado nesses dois anos que eles têm trabalhado juntos. Parecia certo, da maneira como as coisas realmente deveriam ser entre eles, e Yuuri sempre respondia na mesma moeda, até mesmo enviando algumas figurinhas ele mesmo. Já que eles eram nêmesis amigáveis e tinham uma boa relação de trabalho, talvez esse tipo de proximidade, essa informalidade, fosse de se esperar.
E era justamente porque a diferença era tão gritante que ele se via sem rumo, como um pequeno barco à deriva no vasto oceano. Quando confrontado com mensagens tão normais e atípicas, Yuuri não sabia o que dizer — como dizer.
Olhando para o aparelho em sua mão, ele cogitou enviar algo, mesmo que apenas um breve “olá” ou talvez um “boa tarde”. Ou seria melhor contactá-lo como Katsudon e perguntar diretamente se ele não tinha planos malignos em sua programação desta semana?
Por fim, Yuuri decidiu abrir mão de ambas as ideias e jogou o telefone de volta na mochila.
Enviar esse tipo de mensagem seria o mesmo que colocar fogo em uma fogueira apaziguada. Que tipo de agente ele seria se começasse a encorajar seu próprio nêmesis a causar problemas?
— Um pouco de paz nunca é demais — ele se convenceu, jogando as preocupações de lado. Provavelmente estava se preocupando sem motivo, de qualquer maneira.
—--
Yuri estava com os olhos presos na tela brilhante do monitor do computador, fazendo uma pesquisa entediante para um trabalho da escola que tinha até sexta-feira para entregar, o que o deixava com apenas um dia e meio para fazer a carga de trabalho de um mês inteiro.
Ele se odiava por ter deixado o trabalho de lado até agora, apenas sentando para dar uma olhada no relatório que tinha que escrever para a aula de História no último minuto; no entanto, seu arrependimento e rancor para com seu eu-passado ainda não eram suficientes para que ele passasse por alguma mudança drástica de personalidade e refletisse sobre seu descuido. Mesmo se ele pudesse de alguma forma voltar ao passado, ele tinha certeza de que faria a mesma coisa novamente.
Ele não se importava o suficiente com a escola para colocar algum esforço verdadeiro e honesto em seus estudos. No entanto, ao mesmo tempo, por causa de seu acordo com Mestre Yakov, ele não tinha opção a não ser gabaritar esse trabalho e todos os outros com que teria que lidar nos próximos três anos do ensino médio. Por isso — e por esse motivo apenas — ele estava fazendo o que tinha que fazer, o que era necessário se quisesse continuar a seguir nesse caminho que o conduziria aos seus sonhos e ambições.
Olhando para um ano atrás, Yuri ainda não conseguia acreditar que estava aqui agora. Aqui, onde ele sempre foi suposto de estar. Aqui, ao lado do Treinador. Aqui, finalmente.
Pedir ao velho Yakov para que pudesse deixá-lo foi estressante e, uma vez que Yuri basicamente cresceu sob suas asas — uma consequência inevitável do fato de que seu avô era um velho conhecido do Mestre Yakov —, ele não tinha nem tanta certeza de que receberia permissão para ir atrás de Victor, mesmo que esse fosse o seu maior desejo. No entanto, para sua grande surpresa, Yakov deu seu okay até que bem rapidamente. Talvez ele já esperasse que algo assim acontecesse um dia ou outro, ou talvez ele simplesmente pensasse que seu próprio aprendiz seria confiável para cuidar bem de Yuri em seu lugar. Yuri não tinha certeza do que fez o velho vilão aceitar seu pedido, mas estava grato de qualquer maneira.
Porém, o acordo assinado entre eles estava vinculado a uma regra principal, que não estava de forma alguma aberta à negociação. Yuri teria permissão para ir, bem como ele queria, desde que continuasse sua educação em uma escola de escolha de Yakov. Além disso, ele tinha, por obrigação, que ter um desempenho excepcional em seus estudos.
— Um vilão precisa ser brilhante, inteligente e ter um vasto conhecimento sobre uma ampla gama de assuntos — era o lema do velho, e ninguém sob seus cuidados tinha a opção de ir contra ele.
Desrespeitar as crenças de Yakov era o mesmo que desrespeitar o próprio Yakov, então todos faziam tudo o que estava ao alcance — e mesmo um pouco do que não estava — para corresponder às expectativas do homem.
Ninguém desejava ser considerado inferior, ou inadequado para a posição que ocupavam.
Nenhum deles queria decepcionar o homem.
Como Yuri já era naturalmente inteligente, não teve problemas com o acordo, o qual aceitou na hora. Não havia sentido em pensar mais a fundo sobre um assunto que já vinha habitando sua mente há anos. Sua resposta não mudaria, mesmo que ele desperdiçasse tempo refletindo a respeito.
Ele começou a empacotar suas coisas logo no dia seguinte, e então prosseguiu seguindo o homem que o havia deixado para trás alguns anos antes, uma promessa os conectando.
Estar ao lado do Treinador — inicialmente como seu aprendiz e, no futuro, como seu parceiro de confiança no mundo do crime — era tudo o que Yuri sempre quis, um sonho que surgiu quando ele ainda era muito pequeno e o próprio Victor era apenas um adolescente. E morar com Victor era um bom bônus, pois dava a ele a oportunidade de ver o vilão trabalhando de muito perto.
Para Yuri, Victor sempre foi uma inspiração. Algo pelo que se esforçar. Um exemplo vivo do tipo de vilão que ele esperava ser um dia.
No passado, quando Victor ainda estava trabalhando duro em seus estudos como aprendiz de Yakov, ele costumava ficar grande parte do dia em uma sala isolada nos fundos do Covil, onde poderia aproveitar do sossego para se manter concentrado na pilha de livros que ele sempre carregava com ele.
Foi lá que Yuri o conheceu, e onde seu interesse despertou e seu sonho ganhou vida.
Já que seu avô costumava deixá-lo com Victor quando ele tinha assuntos para discutir com o Mestre Yakov, Yuri cresceu observando Victor de muito perto. Era impossível que sua admiração não crescesse cada vez mais enquanto observava o jovem Victor dando o melhor de si a cada dia, trabalhando mais duro do que qualquer outro.
Os olhos do jovem Victor eram azuis e bonitos, e estavam cheios de uma determinação inabalável. Yuri esperava que os seus também tivessem uma presença tão profunda dentro deles, um dia.
Yuri cruzou os oceanos e fez sua viagem através do mundo, deixando para trás seu país natal e caminhando em direção ao futuro que escolheu para si. Enquanto estava no avião, ele podia sentir seu coração batendo loucamente rápido devido à ansiedade e ao desejo que ardiam em seu peito, um pulsar tão forte que ecoava em seus ouvidos. Ele se perguntou como seria o reencontro deles, as palavras que diria, e as coisas que fariam a partir de agora.
Só quando chegou à porta de Victor é que percebeu o quão unilaterais os seus sentimentos haviam sido esse tempo todo.
Quando Victor abriu a porta, ele ficou evidentemente surpreso ao ver Yuri parado diante dele, com sacolas que deixavam clara a mensagem — a intenção que Yuri tinha de ficar. Aparentemente, o fato de que Yuri poderia vir atrás dele era algo que Victor nunca na vida considerou, mas essa não nem era a pior parte. Não havia qualquer sinal de compreensão em seus olhos. O vilão não parecia se lembrar de suas próprias palavras, a promessa de treinar Yuri quando este ficasse mais velho tendo sido completamente esquecida junto das demais coisas que não tinham importância para ele.
Yuri não disse nada, mas estava frustrado. Ele se perguntou se era o único que tinha sentido a presença de um forte vínculo conectando os dois, talvez o sinal de uma possível parceria no futuro…
Essa foi sua primeira decepção. Um sonho de infância destruído em poucos minutos.
Sentindo-se culpado, Victor decidiu aceitá-lo sob suas asas. Yuri tentou pensar nisso como uma pequena vitória. Mesmo que o reencontro deles não tivesse sido tão tocante quanto ele sempre imaginou que seria, ele havia conseguido alcançar seu objetivo de qualquer maneira.
Mal sabia Yuri, porém, que isso simplesmente o levaria à sua segunda decepção.
Com o passar dos dias, semanas, meses, Yuri se viu ficando cada vez mais frustrado, a ponto de ranger os dentes basicamente do amanhecer ao anoitecer. Ele não conseguia acreditar no tipo de vilão que Victor havia se tornado depois que ele se mudou da Rússia. Ele queria dizer a si mesmo que era algum tipo de engano, mas era impossível fazer isso quando ele estava vendo tudo com seus próprios olhos.
Dentre as invenções inúteis nas quais Victor desperdiçava seus dias trabalhando, e das quais ele tanto se orgulhava, não havia sequer uma que pudesse ser minimamente útil em um esquema que poderia de fato trazer algum tipo de desastre para o mundo, ou mesmo para a cidade. Suas ações não cheiravam à vilania, mas à tolice. Se ele continuasse se comportando dessa forma, não tinha chances de seu nome ser colocado no centro das atenções de grandes corporações de combate ao crime.
De alguma forma, enquanto ele não estava olhando, Victor havia se transformado em um homem totalmente diferente, e uma grande decepção de vilão.
Mas havia algo que incomodava Yuri mais do que qualquer outra coisa: o relacionamento de Victor com seu nêmesis, que era como uma grande piada que Yuri nem mesmo conseguia ironizar a respeito.
— Que porra é essa que eles estão fazendo, agindo como se fossem grandes amigos? — ele se perguntava constantemente. Mas, no final, Yuri percebeu que era incapaz de odiar Katsudon de verdade, pois ele parecia ser o único que levava Victor a sério em toda aquela cidade. Pelo menos ele tratava o Treinador como um vilão.
Outra coisa que realmente o irritava era Victor sempre dizendo seu nome errado. O apelido veio do nada, e o menino não gostou nem um pouco. Sempre o chamando de Yurio, Yurio, Yurio... Urgh.
— Seria estranho chamá-lo do mesmo jeito que chamo meu doce e amável Yuuri — Victor explicou um dia, quando um Yuri mal-humorado finalmente se cansou de ser alvo de tal tratamento. Em retaliação, Yuri o chutou no estômago e ignorou Victor pelo resto da semana. Não resolveu nada, mas pelo menos ele se sentiu melhor e menos irritado.
Yuri suspirou, sentindo-se cansado por diversas razões. Já havia se passado um ano e, às vezes — como agora —, ele se via questionando o que estava fazendo com sua vida. Ele não se arrependia de sua decisão de ir atrás de Victor, mas muitas vezes se perguntava se não havia uma maneira de as coisas retornarem ao caminho certo.
O monitor à sua frente ainda estava brilhando e o documento aberto no computador permanecia quase vazio. Uma música do Spotify chamou sua atenção e ele foi dar uma olhada — era de um novo álbum de alguma banda norueguesa que, de alguma forma, encontrou seu caminho para dentro de sua playlist, e cujo som era bom o suficiente para ter Yuri batendo o pé no chão conforme o ritmo da música. Ele estava checando algumas outras músicas do álbum quando seu telefone tremeu daquela forma específica que tremia quando a notificação vinha do Instagram. Ele desbloqueou o celular e franziu as sobrancelhas quando percebeu que era um pedido para receber uma mensagem de alguém de fora de seus contatos.
A pessoa não tinha sequer uma postagem feita e nem mesmo uma foto de perfil para ajudar a identificá-lo. No entanto, como o nome de usuário não deixava dúvidas sobre sua identidade, Yuri o aceitou de qualquer maneira.
Imediatamente, ele abriu o chat, nem mesmo pensando em dar tempo para a outra pessoa entrar em contato primeiro.
“O que você quer, porco?” ele digitou e apertou a tecla de enviar.
—--
Sexta-feira. Enfim uma tarde promissora na Torre de São Petersburgo.
Inclinando-se sobre uma pilha de papéis, um homem trabalhava diligentemente no projeto de uma máquina bem elaborada. Linhas, curvas e tracejados se uniam para formar um desenho, que então ganharia vida através das mãos hábeis do homem.
Aquilo que a princípio não era nada mais do que uma ideia, nascida de um repentino momento de inspiração, logo seria a sua mais nova criação.
Em um canto, um garoto o observava em silenciosa contemplação, mais feliz do que ele jamais admitiria — não que palavras fossem realmente necessárias. O sorriso presente em seus lábios e o brilho de seus olhos tornavam seus sentimentos bastante óbvios para qualquer pessoa que se importasse em dar uma olhada em seu rosto.
“Finalmente o idiota está trabalhando em alguma coisa”, o menino pensou consigo mesmo, em celebração.
Caminhando dois passos à frente, em direção ao homem que se encontrava dentro de seu mundo particular, concentrado no que tinha em mãos e nada mais, o garoto perguntou o que exatamente ele estava fazendo. Pairando sobre o ombro do homem, ele tentou dar uma espiada no desenho, mas ainda não havia chegado ao ponto em que poderia ter um entendimento claro sobre um projeto tão complicado.
Sem tirar os olhos das mãos, as quais trabalhavam com cautela ao traçar linha após linha, medindo cada uma delas repetidas vezes para se certificar de que estavam na posição certa, o homem respondeu que não podia correr o risco de ficar preso em filas em seu tão esperado encontro
O garoto piscou uma, duas vezes.
Por fim, ele suspirou.
O garoto não sabia porque ainda se importava em criar qualquer tipo de expectativa. Mais uma vez, a frustração encheu seu peito e sua amargura era tão grande que ele podia sentí-la consumindo o interior de sua boca.
Ele se perguntou se isso era tudo que o homem conseguia pensar a respeito.
Mas, bem, pelo menos ele estava fazendo algo... A inércia do homem na semana anterior havia feito o jovem cerrar o maxilar até mesmo durante a noite, e isso certamente não podia ser bom para seus dentes.
Algo era melhor que nada. Certo?
—--
Yuuri não tinha ideia do que estava fazendo — ou do que pensava que estava fazendo.
O Sol havia se posto horas atrás e a Lua estava escondida atrás de nuvens espessas. Era tarde e frio, e a ideia de se perder na maciez de sua cama era um pensamento muito bem-vindo. Ainda assim, por algum motivo, Yuuri se via olhando para dentro de uma janela aberta no laboratório do Treinador, pendurado de cabeça para baixo e certificando-se de não olhar em direção ao chão, já que ele nunca foi um grande fã de alturas.
A noite estava ventosa e ele podia sentir que estava se movimentando levemente, seu corpo balançando de um lado para o outro em sincronia com as rajadas de vento. Ele engoliu em seco, nervoso embora soubesse muito bem que seu equipamento não o deixaria na mão.
Na verdade, esqueça o que ele disse. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Ele simplesmente não sabia se essa era a sua ideia mais inteligente.
Ele veio dar uma olhada no Victor — ou no Treinador, tanto faz.
Yuuri tem estado angustiado devido ao comportamento incomum de seu nêmesis desde que percebeu aqueles primeiros sinais, mais de uma semana atrás, e nada do que ele fez foi capaz de libertar sua mente das recorrentes preocupações, as quais não o deixaram sozinho nem por uma hora inteira durante toda a semana. O fato de Victor não ter ido a Yu-topia no sábado só piorou as coisas, sua angústia crescendo a tais proporções com o passar dos dias que, por fim, o agente se viu incapaz de se conter e não tomar algum tipo de providência.
Algo devia estar errado e Yuuri estava ansioso para saber o quê. Ele estava preocupado, além de curioso.
Sua aflição foi tão grande no meio da semana que ele até entrou em contato com Yurio pelo Instagram, a única rede social em que conseguiu encontrar o jovem — porém, ao se deparar com um perfil cheio de fotos de gatos, algo que não estava dentro de suas expectativas, Yuuri se perguntou por um minuto se ele realmente havia encontrado a pessoa certa.
Ele não tinha tanta certeza de que conseguiria algo com o jovem aprendiz, já que tinha quase certeza de que não era muito querido, mas surpreendentemente Yurio aceitou seu pedido para trocar mensagens e, de certa forma, eles puderam se comunicar, mesmo que de uma forma estranha e desconfortável.
Inicialmente, o garoto não tinha nada a dizer além de compartilhar sua própria frustração com a maneira como as coisas estavam, mas a situação mudou nos últimos dias. No início, as coisas pareciam ter começado a melhorar, se os relatos de Yurio a respeito da inspiração renovada de Victor fossem alguma indicação, mas Yuuri logo percebeu que havia se deixado levar por seus pensamentos positivos, os quais vinham falando mais alto do que sua racionalidade.
E então, nesta quinta-feira, ele recebeu uma mensagem que acabou sendo o ponto de inflexão de sua indecisão. Finalmente vestindo o seu terno, o agente decidiu que era mais do que hora de realizar uma pequena investigação.
O que fez com que Yuuri mudasse de ideia foi o último relatório de Yurio. De acordo com o jovem, os sinais promissores de que Victor estava voltando ao seu eu-anterior desapareceram repentinamente, e a máquina que Victor — que o Treinador — havia começado a trabalhar no final da semana anterior — que havia sido uma fonte de esperança para ambos nêmesis e aprendiz — jazia agora completamente esquecida, como se o vilão tivesse coisas mais importantes com o que se preocupar.
Yurio disse que o homem não parecia ser ele mesmo, estando sempre distraído e suspirando enquanto olhava para nenhum lugar em específico. Yuuri perguntou se ele sabia o motivo disso, ou pelo menos tinha algum palpite.
“É tudo culpa do Yuuri,” o garoto reclamou por mensagem. “Se algum dia eu encontrar esse cara, vou chutar a bunda dele com tanta força que ele vai ficar engatinhando por uma semana.”
Yuuri ficou bastante confuso com a estranha intimidação do garoto e se perguntou se ele estava indiretamente mandando ele se tocar, mas então percebeu que Yurio nunca foi a Yu-topia. Ele suspirou, aliviado, sentindo-se um tanto grato que o jovem e teimoso aprendiz não sabia de sua identidade. Não era um CONFLITO com o qual ele queria ter de lidar agora, pois já estava com as mãos cheias.
Um amargo sentimento de culpa preencheu seu peito enquanto se perguntava se tinha estragado tudo, acidentalmente.
Verdade seja dita, Yuuri gostava um pouquinho do Victor, e dizer o contrário seria falar uma mentira descarada.
Como ele poderia não ter sentimentos pelo Victor?
Como poderia alguém não ficar encantado depois de colocar os olhos em um homem tão perfeito?
Seu nêmesis era gentil como um oceano tranquilo que abraçava a costa com o máximo de cuidado, lindo como o céu azul-claro de uma tarde de primavera, e engraçado de um jeito que sempre fazia Yuuri sorrir, às vezes até no meio de uma luta que deveria ser preenchida com tensão e seriedade. Além disso, ele tinha um cachorro fofo e adorável; como poderia ficar melhor que isso?
Sair com Victor, com seu nêmesis, era algo que Yuuri não era nem um pouco contra, e ele se via obrigado a admitir — pelo menos para si mesmo — que estava até, de certa forma, ansioso pelo encontro.
No entanto, ele se preocupava com o relacionamento deles como arqui-inimigos. Eles eram o Sol e a Lua, dois lados da mesma moeda, o yin e o yang, duas partes que se encontravam no meio do caminho a fim de se tornarem uma.
Ele não queria perder o que eles já tinham. Ele não achava que o relacionamento deles seria completo de outra forma.
Yuuri precisava que o Victor — o Treinador — fosse um vilão e causasse problemas, ou então ele seria designado para outra pessoa e ele não queria isso. Ele não conseguia se imaginar trabalhando com outro além dele; o pensamento sozinho já o incomodava. No entanto, a separação deles seria inevitável se as coisas continuassem como estavam por muito mais tempo.
Por mais que Yuuri gostasse de Victor e de seus sorrisos tímidos, e do calor de suas expressões e suas visitas semanais a Yu-topia, ele também gostava do Treinador que sempre estava tão ansioso para causar problemas por causa de bobagens enquanto vestia aquelas roupas extravagantes e engraçadas isso não ficariam bem em mais ninguém.
Ele valorizava o relacionamento de Yuuri e Victor tanto quanto o relacionamento entre o Treinador e Katsudon.
Foi por essa razão que decidiu agir: porque não queria perder o que eles tinham, aquilo que construíram juntos ao longo dos últimos dois anos. Para manter seguro o futuro deles como nêmesis, Yuuri estava pronto para escalar a lateral de um prédio e enfrentar seu medo de altura, pendurado de cabeça para baixo em uma noite de vento forte apenas para dar uma olhada na situação. Isso era o quão longe ele estava disposto a ir.
Depois de finalmente se certificar de que não havia ninguém por perto, Yuuri — não, Katsudon balançou seu corpo para frente e se jogou para dentro com a ajuda do impulso que obteve com o movimento de seu equipamento. Ele encontrou o laboratório vazio, as luzes de emergência brilhando discretamente nas linhas que corriam por todo o chão.
Ele caminhou um pouco com a ajuda de seu relógio de pulso, usando-o para trazer ao salão um pouco de luz. Em um canto, ele viu a máquina em que o Treinador estava trabalhando, e que foi completamente abandonada pelo que parecia.
Katsudon se aproximou com passos leves, por hábito, com a intenção de dar uma olhada mais de perto na máquina que estava a meio caminho de ser finalizada, uma visão que só fez o desconforto dentro de seu peito pesar ainda mais. A construção parecia estar quase concluída, mas ainda haviam muitas peças e ferramentas largadas descuidadamente pelo chão; há quanto tempo elas têm sido deixadas assim, Katsudon não tinha ideia.
Katsudon continuou andando à frente, mais fundo no laboratório, apontando sua lanterna ao redor e procurando por qualquer coisa que pudesse lhe dar uma pista da situação.
Em uma mesa, ele encontrou uma pilha de revistas, marcadores coloridos escorregando para fora das páginas. Ele agarrou a que estava por cima e olhou para a capa, onde uma adolescente se obrigava a sorrir e posar de uma forma que, não importava o quanto ele olhasse, não parecia nem um pouco natural. Um texto estava destacado ao lado de sua cabeça, que dizia: “Como obter o coração dele! Os 10 lugares a se evitar em seu primeiro encontro!”
Katsudon empurrou a revista para longe, o sentimento de culpa queimando-o por dentro, uma pontada de dor atacando sua consciência. Sentia vontade de balançar a cabeça, ou beliscar a pele até que ficasse vermelha, mas sabia que não acordaria mesmo se o fizesse. Não era um pesadelo, nem um sonho alimentado por suas preocupações e ansiedade, era a realidade e era muito pior do que qualquer coisa que ele pudesse ter pensado em se preocupar.
Quem poderia imaginar que um único encontro poderia trazer tantos problemas…
Katsudon considerou suas escolhas e, pela primeira vez, ele se perguntou se deveria ter dito não naquele dia, em Yu-topia.
As coisas seriam resolvidas se ele voltasse atrás em suas palavras? A situação melhoria se ele dissesse a Victor que mudou de ideia sobre ir a um encontro com ele? Mas isso era cruel, e com certeza deixaria Victor deprimido... Além disso, nada disso garantia que as coisas voltariam ao normal. Parecia ser um tiro no escuro, um que ele nem queria puxar o gatilho.
Katsudon continuou andando e investigando o lugar, sentindo-se mal por invadir, mas nem tanto. Seu habitual medo de ser um incômodo e de se impor sobre os demais havia sido completamente subjugado pelas preocupações que enchiam sua cabeça.
Sua lanterna refletiu a superfície de uma porta de aço, que parecia familiar.
Da última vez que ele esteve diante dela — embora que do outro lado — ele recebeu um sermão de um Yurio muito irritado, e suas palavras na época foram como agulhas perfurando-o nos locais corretos: onde doía mais e era mais necessário.
Naquele dia, ele se sentiu culpado, pois sabia que estava errado. Deixar o Treinador esperando foi um erro de sua parte, um que ele admitia ter cometido, e um que ele nunca se permitiria esquecer.
Katsudon não pensou duas vezes. Ele abriu a porta de aço e a cruzou com a cabeça erguida e os olhos castanhos cheios de determinação, sem olhar para trás ou se preocupar se estava ultrapassando os limites. Seus passos se aceleraram enquanto caminhava pelo longo corredor, uma linha sendo sua companhia ao longo do caminho e emitindo luz junto ao chão. Katsudon chegou à escada e subiu dois degraus de cada vez. Mais rápido do que imaginava, já estava nos limites da sala de estar e dentro da casa do Victor.
As orelhas de Makka se ergueram e ela imediatamente veio cumprimentá-lo, as suas patas colidindo rápido contra o chão e o rabo abanando animadamente. Victor estava deitado no sofá, de costas para ele e sua atenção em outro lugar. Seus pés estavam apoiados confortavelmente em uma pilha de almofadas e ele estava vestindo uma roupa básica que parecia quase simples demais para os seus padrões. Em uma de suas mãos havia um celular; em seu colo, um tablet. Uma pilha de revistas também estava ao lado dele, junto com alguns jornais impressos cheios de fotos de restaurantes e pôsteres de filmes, as imagens sempre seguidas por uma compilação de críticas e anotações que o próprio Victor provavelmente fizera.
O foco de Victor estava indivisível. Observando-o de longe, era fácil perceber que a única coisa em seus olhos — e mente — era seu encontro com Yuuri. Nada mais importava.
Olhando para ele, Katsudon sentiu algo crescer dentro de seu peito, fervendo em meio à ansiedade e frustração que vinha sentindo. Ele cerrou os punhos, tão forte que suas unhas se cravaram na pele. Makka olhou para ele com olhos pequenos e preocupados, gemendo fracamente. O choro preocupado da cadela não ajudou a aliviar a angústia que Katsudon carregava em seu coração, mas foi suficiente para chamar a atenção de Victor.
O homem ficou surpreso ao encontrar Katsudon em pé em meio a sua sala de estar, e suas expressões mostravam isso claramente.
Ele se levantou rapidamente.
— Katsudon? O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, pulando por cima dos papéis que se encontravam espalhados ao redor de seus pés e caminhando lentamente em direção ao seu nêmesis depois de deixar seu celular e tablet sobre o acolchoado do sofá.
No entanto, antes que ele pudesse alcançar Katsudon, foi forçado a recuar em uma esquiva rápida. O pé de Katsudon deu uma volta no ar, voando em um círculo praticamente completo e quase acertando o nariz do vilão. Quando finalmente conseguiu firmar os pés no chão, Victor se surpreendeu ao notar que havia outro ataque repentino a caminho, os pêlos de sua nuca se arrepiando por inteiro.
Ele posicionou as mãos na frente do corpo, uma súplica silenciosa para que Katsudon se acalmasse.
— Katsudon? — Ele manteve a voz calma, mas o seu olhar traia a máscara que ele havia vestido em seu rosto.
Katsudon foi para cima dele novamente, ignorando completamente o desejo de Victor por paz e por receber uma explicação sobre o que estava acontecendo e porquê.
Seu nêmesis era rápido e manteve um ritmo acelerado em seus golpes. Victor nunca foi tão grato pelo treinamento pesado pelo qual Yakov o fez passar, e pelo fato de ele ter um pouco mais de experiência em combate do que Katsudon. No entanto, ele era mais velho e a diferença de resistência entre eles não era algo que pudesse ser ignorada.
Ele tinha que terminar essa luta rapidamente, ou então estaria em apuros bem em breve.
Victor se colocou em posição de combate, finalmente mostrando alguma intenção de revidar, e foi para cima de Katsudon com o punho direito cerrado firmemente. Seu soco voou rápido e forte, porém a velocidade ainda assim não foi suficiente. Katsudon esquivou-se sem dificuldade, posicionando-se fora do caminho com um movimento limpo e rápido de seu torso, seu corpo se movendo tão graciosamente que era quase como se ele estivesse dançando.
Então, Katsudon tentou derrubá-lo com uma rasteira.
Victor tirou a perna do caminho, dando um passo para o lado.
O braço de Katsudon veio em sua direção antes que pudesse firmar os pés devidamente no chão. Seus olhos azuis se arregalaram.
Sem nem pensar, Victor segurou o braço de seu nêmesis e o usou para se manter em pé. Com o equilíbrio recuperado, ele agarrou o homem pelo terno e o jogou por cima do ombro, certificando-se de não o soltar até que Katsudon estivesse perto o suficiente do chão — afinal, não desejava machucá-lo desnecessariamente. No entanto, para sua surpresa, Katsudon segurou sua camisa e, aproveitando o impulso da queda, levou Victor junto com ele.
Victor viu seu mundo rodar, girando rapidamente em seu eixo.
Suas costas bateram contra o chão, a colisão acompanhada de um estrondo, e ele fechou os olhos brevemente enquanto respirava fundo. Felizmente, o tapete de alguma forma aliviou sua queda. Suas costas doíam, mas a dor era suportável.
Makkachin latiu alto, claramente preocupada e confusa sobre o que deveria fazer perante tal situação, mas não se pôs entre eles.
Sem dar tempo para que seu nêmesis se recuperasse, Katsudon os girou e sentou em cima de Victor, imobilizando-o. Ele não largou a camisa de Victor, ainda apertando o tecido com força dentro de seu punho.
O coração de Yuuri batia forte dentro de seus ouvidos. Era desconfortável, como uma orquestra sem sintonia.
Enquanto isso, um desejo ardia em seu peito.
Ele queria bater no Victor, deixar alguns hematomas e marcar seu corpo para que, sempre que olhasse no espelho, ele se lembrasse dele — não de Yuuri, mas de Katsudon, seu arqui-inimigo e a pessoa que esteve ao seu lado por tanto quanto. Ele se conteve, claro.
Sua garganta se encontrava seca e ele podia sentir um grito tentando escapar. Novamente, ele se conteve.
Yuuri limitou-se a ficar como estava, sentado em cima daquele homem por quem ele tinha sentimentos tão complicados. O tecido em suas mãos estava perto de ser rasgado, mas ele estava muito fora de si para notar um detalhe tão insignificante.
Victor estava prestes a se libertar quando percebeu que o corpo de Katsudon estava tremendo em cima dele. Ele procurou por seus olhos e seu coração se apertou quando os encontrou — dor e traição refletiam-se naquelas pupilas atormentadas e radiantes.
Suas mãos encontraram as de Katsudon, mas sua mente não reconheceu a ação até que seu nêmesis se afastou, fugindo de seu toque.
— Ei, Treinador. Essa coisa entre nós é assim tão insignificante para você?
Sua voz estava rouca, baixa, e triste. Victor sentiu algo quebrar dentro de si.
Então, Katsudon se levantou e foi para casa, saindo pela porta da frente, nem mesmo esperando até que seu nêmesis se recuperasse dos danos que as suas palavras causaram ao coração dele.
Victor permaneceu deitado no tapete, suas costas ainda latejando por causa da queda recente. Quando Makkachin veio e se deitou ao lado dele, ele se virou de lado e escondeu o rosto no pêlo fofo de seu animal de estimação. Ele não tinha ideia de quanto tempo ficou ali, acariciando sua cadela e abalado por uma dor no peito que machucava como nenhuma outra que ele já tivesse experimentado antes, mas quando se levantou estava cansado e já era bem no meio da noite. Ele foi direto para a cama.
Se palavras pudessem deixar cicatrizes, ele agora teria um precipício correndo pelo seu peito.
—--
Victor nunca teve problemas para adormecer, não até aquele dia.
A dor em seu peito aparentemente não estava disposta a deixá-lo sozinho por um segundo sequer, tornando impossível para ele manter seus pensamentos longe dos eventos recentes, sua luta com Katsudon uma nova memória que ele não conseguia se impedir de revisitar — não que ele fosse ser capaz de esquecê-la tão cedo, já que o latejar em suas costas era um lembrete mais do que suficiente.
As palavras que seu nêmesis disse antes de partir martelavam em sua cabeça, dolorosa e repetidamente, em um ciclo desagradável que mais parecia uma punição.
Ele olhou para o teto, que o encarou de volta.
— Eu realmente tenho colocado ele tão de lado assim? — ele perguntou ao silêncio da noite. Ninguém respondeu de volta.
Não que ele precisasse que outros lhe dissessem o que ele já sabia tão bem.
Não é como se ele não soubesse a resposta para sua própria pergunta. Ele estava somente em negação.
O teto de repente parecia estar olhando para ele com desdém, julgando-o por suas ações e comportamentos recentes. Ele merecia isso, reconheceu Victor com um sorriso torto.
Ele se sentia um tanto estúpido. Um tolo.
—--
Quando acordou no dia seguinte, Yuuri encontrou seu corpo doendo em todos os cantos e se sentindo pesado como se tivesse sido atropelado por um caminhão. Preguiçosamente e a contragosto, ele se arrastou para fora da cama, e quando se olhou no espelho não ficou surpreso ao ver seu reflexo ainda vestido com o terno preto.
Seu cabelo estava uma bagunça, as pontas viradas em todas as direções, e sua gravata azul estava frouxa ao redor do pescoço. Seus olhos doíam um pouco e pareciam muito secos, e levou um minuto inteiro para perceber que havia completamente esquecido de tirar as lentes de contato antes de atirar seu corpo cansado no colchão.
Yuuri se despiu e foi até o banheiro após trocar de roupas, onde lavou o rosto com bastante água e sabão. Quando voltou para o quarto, sentindo-se um pouco mais revigorado, mas ainda consideravelmente cansado, encontrou seu celular avisando sobre novas notificações no Instagram, sendo todas elas mensagens do Yurio. Isso já era esperado, considerando todo o tumulto que ele causou tão tarde da noite. Surpreendente foi o garoto não ter ido e se juntado à festa, na verdade. No entanto, o número de mensagens superou em muito suas expectativas. Só esta manhã, Yurio sozinho enviou a ele mais mensagens do que todos os seus familiares durante toda a semana.
“Que porra você fez?” dizia a mensagem mais recente, todo o texto em maiúsculas.
—--
Sábado. Mais um horário de almoço como qualquer outro em Yu-topia.
Estava um dia lindo, e as nuvens no céu tornavam a temperatura agradável.
Do lado de fora, as pessoas passavam compartilhando sorrisos e trocando palavras. Algumas entravam, atraídas pelo aroma delicioso que saía do restaurante. Já outras, em vez disso, carregaram sua própria comida em cestas enquanto seguiam em direção ao parque localizado nas proximidades.
Um homem vigiava atentamente a entrada, um avental verde frouxamente amarrado em torno de sua cintura e de seu pescoço. Seu dever era ficar atento às pessoas que entravam, observando de perto cada cliente para que ninguém fosse feito esperar excessivamente — ou, pelo menos, era assim que era suposto de ser.
Hoje, no entanto, ele não conseguia se concentrar. Não apenas seu espírito estava em pedaços, como seus olhos também eram incapazes de ignorar o homem sentado do lado de fora, que parecia tão solitário mesmo com sua preciosa cadela, sua fiel companheira, bem ao seu lado.
Pensamentos complexos preenchiam sua mente enquanto uma preocupação inquieta reinava em seu peito. O sorriso suave que ele sempre mantinha firme em seus lábios durante o horário de trabalho encontrava-se completamente ausente.
Seus olhos se recusavam a desviar a atenção para longe daquele homem.
—--
Victor estava sentado do lado de fora de Yu-topia, como de costume. No entanto, as coisas estavam muito diferentes hoje.
Normalmente, ele estaria se afogando em sentimentos de amor e felicidade, já que a chegada do sábado significava o surgimento de uma oportunidade — uma desculpa — para ver seu precioso Yuuri. Hoje, porém, era como se um buraco negro tivesse estacionado em seu peito, o qual ele sentia vazio e frio em vez de quente e terno. Nada parecia ser capaz de melhorar seu humor.
Makkachin se esfregou contra a perna do homem e choramingou baixinho, seus gemidos ecoando a tristeza silenciosa que enchia o coração de Victor. O animal de estimação tem estado desanimado desde a briga com Katsudon, realmente um reflexo de seu dono.
Victor olhou para suas mãos, as quais repousavam sobre a mesa à sua frente. Seus dedos eram longos e finos, e ele os moveu um pouco e observou como eles se mexiam obedientemente, conforme seu comando. Infelizmente, seu coração não era algo que ele pudesse manipular à sua vontade, não tão facilmente quanto um estalar de dedos.
Victor amaldiçoou seus pés por carregá-lo até Yu-topia — memória muscular às vezes podia ser bem assustadora. Em um momento ele estava levando Makkachin em seu habitual passeio de fim de semana, andando distraidamente e arrastando os pés enquanto seguia atrás de seu animal de estimação; então, quando percebeu, já havia se sentado à mesa de sempre no restaurante.
Independentemente da rotina que vinha mantendo nos últimos dois anos, ele não estava certo de que ir a Yu-topia tenha sido uma boa ideia. Ele não estava de bom humor. Abalado como estava, ele nem sabia se conseguiria manter um sorriso firme nos lábios. Ele não queria deixar uma má impressão.
Ele estava começando a achar que era melhor comer em casa quando o arrastar de uma cadeira desviou sua atenção para longe de suas mãos. Na frente dele estava justamente a pessoa com quem ele menos gostaria de ter de lidar agora.
Victor imediatamente olhou para baixo, esperando que seu cabelo pudesse esconder esse lado feio dele, do qual ele tanto desgostava.
Ele não desejava ser visto assim, especialmente não pelo Yuuri. Naquele momento, ele não se encontrava nem um pouco apresentável…
Mas Yuuri não estava disposto a aceitar nada disso. Afinal, ele mesmo carregava emoções muito complicadas em seu peito. Haviam assuntos que ele queria ver resolvidos, na esperança de aliviar o peso sobre seus ombros.
Depois de observar Victor por algum tempo, tentando se concentrar em seu trabalho, mas sendo totalmente incapaz de evitar que seus olhos virassem em sua direção, Yuuri desistiu e sucumbiu aos seus anseios. Era insuportável ver Victor assim, parecendo abatido como se alguém tivesse atravessado seu coração com uma estaca e drenado todas as esperanças e sonhos de seu espírito... Ele não aguentava mais. Além disso, foi por causa dele que a situação ficou tão ruim, então Yuuri não podia simplesmente ficar parado e não fazer nada.
Porém, mesmo que seu desejo de ajudar fosse sincero, Yuuri não tinha ideia do que deveria fazer agora.
Um silêncio constrangedor surgiu entre eles. Ambos se sentiam desconfortáveis por causa de todas as coisas que não haviam sido ditas, mas nenhum tinha a menor ideia de como lidar com isso ou de como dar o primeiro e difícil passo adiante. Yuuri não era um bom orador, e Victor parecia estar literalmente se afogando no desespero que a situação lhe havia trazido.
Pelo que parecia, eles haviam chegado a um impasse.
Então, Makkachin veio ao resgate.
Escalando a perna de Victor, Makkachin latiu e latiu, como se estivesse dizendo a eles para falar e resolver as coisas de uma vez. Ambos olharam para cima e, quando seus olhos se encontraram, Victor sentiu um aperto no peito. Eles se olharam em silêncio por alguns segundos, mas estes pareceram se prolongar por minutos inteiros. O tempo passava lentamente e, quando Yuuri sorriu timidamente, um suspiro escapou dos lábios entreabertos de Victor.
Pela primeira vez, Victor percebeu que seus sentimentos eram ainda mais profundos do que ele havia imaginado até então. Ele nunca se sentiu assim por ninguém. Ele realmente amava este homem. E, mais importante, ele confiava nele. Ele confiava a ele sua vida, seu coração, seu tudo.
— Posso falar com você sobre uma coisa? — Victor perguntou, nervoso. À medida que as palavras saíam de sua boca, ele tinha cada vez mais certeza de que essa era a coisa certa a se fazer. — É meio pessoal, mas se você puder me ouvir...
— Sim! — Yuuri respondeu imediatamente, nem mesmo o deixando terminar. Sua voz apresentou-se firme e alta, surpreendendo os dois.
Victor abriu um sorriso sincero e apaixonado. Yuuri estava corando um pouco e isso era adorável. Victor gostava especialmente da maneira como a ponta de suas orelhas estavam completamente rosadas. Ele queria estender a mão e pressionar a mão contra o suas bochechas; ele se perguntava se estavam tão quentes quanto pareciam estar.
Victor suspirou e se endireitou na cadeira, deixando sua admiração de lado por enquanto. Ele precisava se concentrar.
— Eu machuquei alguém — Victor começou a explicar, medindo cuidadosamente o tom de sua voz e fazendo o possível para transmitir o peso de seus sentimentos para suas palavras.
Victor também se certificou de não desviar o olhar, nem mesmo por um instante. Ele queria que Yuuri soubesse sobre todas as partes que juntas formavam o seu inteiro, sobre todos os lados de sua vida, os bons e também os maus.
— Alguém importante para mim. Nós brigamos alguns dias atrás — Victor continuou.
Yuuri engoliu em seco. Ele sabia ser a razão de Victor estar na situação que estava, mas nunca passou pela sua cabeça que eles fossem conversar sobre isso dessa maneira; uma conversa que só era possível porque Victor ainda não havia feito a conexão entre Yuuri e Katsudon. Ele estava meio que feliz que seu nêmesis fosse tão lento, pelo menos neste momento.
— Então vocês brigaram... Por que motivo? — Yuuri perguntou, fingindo ignorância. Nunca esteve tão grato por ter tido algumas aulas de atuação como parte de seu regimento de treinamento no SOAP.
— Essa pessoa… Ela disse que eu não me importo com ela, basicamente.
— E você se importa? — Yuuri perguntou, sentindo-se repentinamente muito ansioso. Ele não tinha a intenção de dar voz a essa pergunta, mas quando percebeu já era tarde.
Yuuri escondeu as mãos embaixo da mesa, apoiando-as sobre as pernas. Mesmo que ele fosse capaz de manter suas expressões sob controle, parar o tremor de suas mãos não era tão fácil. Suas mãos se fecharam, cerrando-se em um punho, a familiar ardência de suas unhas pressionando a pele dando-lhe um pouco de chão para firmar os pés.
— Claro que me importo! Faz dois anos que ele está ao meu lado! Katsudon é importante para mim!
A resposta de Victor carregava uma emoção tão crua que Yuuri foi incapaz de conter o rubor que se espalhou por seu rosto. Se ele dissesse que essas palavras não foram como uma onda enorme o arremessando em direção ao fundo de um oceano profundo, ele estaria mentindo descaradamente. Ele se sentia abalado, e o chão firme em que plantou seus pés agora parecia ser feito de areia fofa. Ele se perguntava se seria capaz de manter a máscara no lugar por muito mais tempo, considerando a maneira como as coisas estavam indo.
Usando Makkachin como desculpa, Yuuri olhou para baixo, em direção ao chão. Ele acariciou a cabeça da cadela e ficou feliz quando ela virou em sua direção.
— Então eu não vejo qual é o problema — Yuuri respondeu, tão calmamente quanto foi capaz. — Converse com ele. Tenho certeza de que ele vai entender se você disser isso a ele.
— Mas ele disse que eu o negligenciei…
— E você fez isso mesmo?
— Talvez… — Victor respondeu, desviando os olhos e se sentindo culpado. — Ok, sim, um pouco... Muito.
— Apenas não faça isso de novo. E fale com ele. Garanto que ele entenderá — Yuuri disse com firmeza. Ele parecia tão certo do que estava dizendo que Victor não teve outra opção a não ser acenar com a cabeça e aceitar o conselho.
Deixando-se levar pela ternura que preenchia seu peito, Yuuri procurou pela mão de Victor em cima da mesa e colocou a sua por cima. Victor ficou surpreso, e visivelmente feliz. Sua boca permaneceu aberta por um tempo antes de ser tomada por um grande sorriso. Yuuri sorriu também, e ele estava tão lindo que o coração de Victor deu um salto.
Ele realmente amava esse homem.
— Então... E o nosso encontro? — Yuuri perguntou timidamente e Victor quase engasgou.
Victor queria pedir que Yuuri se repetisse, mas ele sentiu que isso seria abusar demais da sorte. Além disso, Yuuri não precisava dizer essas palavras de novo, porque Victor sabia com certeza que não tinha escutado errado. Então ele se conteve, mesmo que realmente ansiasse pela revalidação.
“Yuuri não esqueceu do nosso encontro!” Victor comemorou dentro da privacidade de seus pensamentos.
Saber que ele não era o único que ficava pensando a respeito disso parecia uma bênção. Victor se perguntou se, pelas palavras dele, ele poderia assumir que Yuuri também estava ansioso para o encontro deles.
Ele decidiu se permitir um pouco de esperança, mesmo que apenas para alegrar seu dia.
Victor se sentia tão feliz que não duvidava morrer de felicidade. Considerando que ele havia inicialmente assumido não ter chance alguma, tendo tanta certeza de que seus sentimentos nunca alcançariam Yuuri, ele com certeza conseguiu chegar longe. E foi tudo graças àquele que o encorajou — seu nêmesis e amigo, Katsudon.
Victor sorriu. Então, não perdendo mais tempo, ele virou a mão e entrelaçou os seus dedos com os de Yuuri. Eles se encaixaram perfeitamente, quase como se tivessem sido feitos uns para os outros. Uma combinação perfeita.
— Eu tenho que resolver as coisas com Katsudon primeiro. Mas assim que isso estiver feito, envio uma mensagem pra você. Okay? Podemos fazer assim?
O homem pareceu tocado por sua resposta, aparentemente admirado pela importância que Victor colocava em suas amizades. O sorriso de Yuuri ficou ainda maior e suas bochechas se tornaram rosadas. Victor foi imediatamente lembrado do rosto sorridente de Hiroko, de quando ela riu abertamente em sua frente no outro dia, e isso o fez se perguntar se algum dia veria tais expressões em Yuuri — ele esperava que sim.
Yuuri acenou com a cabeça, silenciosamente, finalmente dando uma resposta.
— Estarei esperando — Yuuri respondeu, e adicionou um pouco de pressão na mão de Victor.
—--
Segunda-feira. Um final de tarde tranquilo nas ruas do centro.
O céu estava pintado de vermelho, e azul, e roxo, e tantas outras cores que apenas um olho treinado poderia encontrá-las todas em meio à aquarela pintada acima de suas cabeças. Era uma pena que estava um tanto nublado, ou então aquela vista seria um cenário ainda mais impressionante.
As pessoas caminhavam pelas ruas com as cabeças erguidas, algumas até parando para apontar suas câmeras para o céu, nem um pouco incomodadas com as nuvens espessas; umas poucas inclusive diriam que acrescentava ao charme.
Um dos que caminhavam pelas ruas do centro da cidade naquele fim de tarde era um rosto familiar a muitos, mas também não alguém que as pessoas se dariam ao trabalho de olhar duas vezes.
O homem estava saindo de um supermercado, uma sacola pesada em cada uma de suas mãos. Ele havia perdido tanto tempo lá dentro, procurando tudo o que precisava comprar para levar ao restaurante e, posteriormente, pagando pelos itens, que o céu já havia escurecido dois tons quando ele finalmente pisou do lado de fora. Era uma pena, pois por causa disso ele perdeu o espetáculo recém oferecido pela Mãe Natureza.
Ele teve azar, pois o tempo gasto esperando em filas foi o que mais atrasou sua saída da loja. Infelizmente, todos pareciam ter tido a mesma ideia de parar no supermercado para comprar comida antes de voltarem para casa depois de um longo dia de trabalho.
O homem estava cansado e mal podia esperar para chegar em casa e atirar o corpo na cama. Mesmo assim, ele ainda precisava dar uma passada no banco para pagar algumas contas, um pedido de sua mãe que não poderia ser adiado. Com passos apressados, o homem fez a curta viagem em direção ao banco, navegando pelas ruas com a facilidade de quem conhecia o caminho como as costas das mãos. No banco, porém, o homem se deparou com outra fila angustiante à sua espera.
Ele suspirou, mas caminhou em direção a ela mesmo assim. Não era como se ele tivesse opção.
Porém, antes que pudesse entrar no fim da fila, uma luz brilhou à sua frente e sobre as pessoas que já aguardavam, entediadas e com contas e documentos em mãos. De repente, elas começaram a se virar e a se afastar do banco, no entanto, pelas expressões presentes em seus olhos, elas não estavam fazendo isso conscientemente. As pessoas pareciam confusas com seus pés, que por alguma razão decidiram andar por conta própria.
Entretanto, a preocupação que tomou conta do homem ao ver aquelas pessoas sendo atingidas por aquela luz bizarra e se comportando de maneira tão estranha logo se transformou em felicidade, pois aquela situação poderia significar apenas uma coisa.
O Treinador estava de volta.
—--
Yuuri nunca trocou de roupa tão rápido antes e, quando saiu de casa, seus passos eram tão rápidos e ansiosos que Hiroko podia fazer nada além de se preocupar que algo tivesse acontecido; sua preocupação, no entanto, desapareceu assim que viu o sorriso presente nos lábios de seu filho. Suas expressões estavam brilhando de uma forma que não acontecia há semanas. Ela só conseguia sorrir ao vê-lo partir.
Naquela noite, o Treinador e Katsudon tiveram uma briga como nenhuma outra. Eles se enfrentaram com vontade e dedicação, punhos, pernas e pés movendo-se rapidamente e coordenados como se estivessem no meio de uma dança. Nenhum dos dois sofreu mais do que um arranhão, já que ferir um ao outro nunca foi o objetivo de suas batalhas.
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Quando eles finalmente ficaram sem fôlego, eles se deitaram no chão, suas respirações falhando de uma forma que não o faziam há muito tempo. Eles estavam cansados, mas se sentiam vivos e nenhum deles conseguia parar de sorrir. O peito deles estava quente, e cheio de um misterioso sentimento.
Agora, eles se encontravam sentados na cozinha de Victor para tomar uma xícara de café. Victor o convidou e Katsudon aceitou imediatamente, pois sabia que ainda tinham muito o que conversar, muitas verdades a serem ditas e emoções a serem compartilhadas.
A xícara que estava diante de Katsudon estava quente, o vapor subindo e desaparecendo no ar logo acima da cerâmica. Eles permaneceram em silêncio por um tempo, mas não muito. Victor não pretendia ficar de rodeios desta vez.
— Eu sinto muito. Eu estava errado e isso não vai acontecer de novo — Victor disse e abaixou a cabeça, mas não o suficiente para que o contato visual fosse quebrado.
Katsudon suspirou.
— Era como se você não se importasse, sabe. Eu valorizo isso — disse Katsudon, apontando entre eles. — E me deixou triste pensar que eu era o único..
— Sim, eu refleti a respeito… — Victor admitiu.
Katsudon franziu os lábios, mas não estava mais com raiva de verdade.
Como Katsudon decidiu ficar quieto, Victor aproveitou a oportunidade para ser honesto sobre alguns de seus sentimentos.
— E eu quero que você saiba que eu me importo, muito. Você é meu nêmesis, meu importante arqui-inimigo, e não consigo imaginar ninguém mais ocupando esse lugar na minha vida além de você. Me desculpe se eu estava um pouco distraído por causa do Yuuri. Vou ter certeza de deixar minha vida pessoal e profissional bem separada de agora em diante.
Katsudon sorriu, e isso foi resposta suficiente.
Estava tudo bem novamente.
—--
Mais tarde naquela segunda-feira, Yuuri estava deitado em sua cama quando seu celular vibrou. Ao ver que era uma mensagem de Victor, o homem se levantou e sentou-se na beirada do colchão para dar ao aparelho a devida atenção.
“Ei, Yuuri. Sobre o encontro... Você está livre na próxima sexta-feira? Quer ir a algum lugar?” dizia a mensagem recém-chegada.
O coração de Yuuri deu uma cambalhota.
Quando Victor disse que iria enviar uma mensagem para ele assim que o assunto com Katsudon estivesse resolvido, ele não pensou que estava falando literalmente. Pensou que demoraria mais alguns dias...
Ele leu e releu a mensagem repetidamente, olhando para as palavras, considerando o que deveria responder e tentando imaginar quais expressões Victor tinha agora no rosto. Yuuri se viu sorrindo com o pensamento.
Ele respirou fundo e jogou o corpo de volta na cama, onde então se virou para descansar o queixo em um travesseiro. Ele olhou para as paredes de seu quarto pelo que pareceu uma eternidade, sua mente livre de pensamentos, mas cheia ao mesmo tempo. Então, ele olhou para o celular, e correu os olhos pela mensagem mais uma vez. Ele nem sabia quantas vezes já tinha feito isso, pois havia perdido a conta há muito tempo.
Um suspiro escapou por seus lábios, junto de um sorriso.
“Que tal um passeio naquele parque no centro da cidade?” ele digitou e apertou enviar antes que pudesse começar a pensar demais sobre a situação. "E traga Makkachin, é claro." Ele acrescentou, apenas um segundo depois, digitando alguns rostos sorridentes em sua mensagem e pressionando a tecla de enviar.
Ele respirou fundo novamente. Já era a terceira vez — não que ele estivesse contando.
Deuses, talvez ele amasse Victor afinal de contas. E não só um pouquinho...
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