Dear Moments
5 Revolta
Os quatro adolescentes estavam finalmente juntos. Depois de tantos encontros e desencontros, todos se encontravam na sala dos Brooks’s. Allyson, Louis e Nathan jogados no tapete, enquanto Juliana estava sentada com as pernas cruzadas no sofá, ainda cabisbaixa e fungando de leve.
O dia de hoje havia sido um episódio engraçado. Não para todos.
Juliana permanecia absorta em sua dor. Um pouco inconformada por ter sido tirada a força do lado de sua mãe. Sentia-se incompreendida.
– Juh! – o timbre tão conhecido quebrou a onda de silêncio do lugar.
Com as costas de sua mão, tirou algumas lágrimas que ainda molhavam o seu rosto e lentamente direcionou-se aos amigos.
– O que fazem aqui? – perguntou com descaso, à medida que os via se aproximarem.
Não obteve uma resposta, pelo menos não verbal. Allyson se jogou de joelhos, tentando reconfortar a amiga e a si mesma com um abraço forte. Louis e Nathan permaneceram à alguns passos atrás, respeitando o momento das garotas.
– Eu sinto muito, Juh. A tia Cordélia esta em um lugar melhor, pode ter certeza. – murmurou em seu ouvido.
Por que sempre dizem a mesma coisa? Será que não viam que ao dizer isso, perdiam a ótima oportunidade de ficarem calados? Todos ficam sempre tão ocupados em amenizar uma dor, que não percebem o quão pior tornam os momentos.
Um: “sinto muito” nem sempre é a melhor coisa a se dizer. Se tudo que tem a dizer a alguém for "sinto muito", prefira ficar no silêncio. Juliana não desprezava de maneira nenhuma as demonstrações de carinho, porém ninguém tinha a noção de que as palavras eram mais superficiais que os cabelos platinados de Tom Felton fazendo Draco Malfoy.
Allyson sentia-se extremamente mal por não se recordar de uma data tão importante e por sua falta de apoio à amiga em momentos tão críticos. Tem plena noção do quão delicado é esse assunto, mas não havia feito por querer. Só não lembrou.
Louis não sabia o que fazer. Sentia muito por Juliana, mas não conseguia se expressar. Toda vez que criava inúmeros diálogos “impactantes” em sua mente e tentava os realizar, dava errado. Sua coragem parecia sumir e nem o começo de seus planos conseguia realizar. Falar ou demonstrar sentimentos não é a sua área.
Nathan então, que considerava a Hanks como uma irmã mais nova, sentia-se pior que Allyson. Irmãos deixam o outro desamparado e ele fez isso, sem levar consideração alguma. Pretende concertar seu erro, porém essa não era o momento, ainda. Juliana necessitava de um tempo para recompor-se.
A pele alva toda manchada de um tom róseo, inchada e sensível, olhos avermelhados e expressão desgastada. Quem visse, diria que a adolescente está irreconhecível. Todavia, essa sempre fora a sua aparência, por fora com uma camada de maquiagem e, por dentro, cheio de feridas. As pessoas se esquecem de olhar de verdade.
Os sentidos enganam, dizia John Locke*. Até onde podemos confiar em nossos olhos? De nada adianta um par, se não aprendemos a usá-lo. De nada adianta eles serem saudáveis se não soubermos interpretar os sinais. De nada adiantaria Allyson, Louis e Nathan estarem ali de corpo e alma, se não compreendessem o estrago que Juliana insistia em omitir.
A dor possui escalas diferentes. Numa escala de 1 a 10, o que pode ser um oito para um, é seis para outro. Por isso, é delicado falar da dor, sem sentir. Juliana que o diga. Assim como outros, privou-se do direito de falar e preferiu a dor do silêncio. A última coisa que desejava era pena, para passar a imagem de vítima.
Tudo que a mente de Nathan procurava encontrar, era apenas uma maneira de quebrar o silêncio e o clima que impregnava e incomodava a todos no momento. De repente, algo finalmente veio-lhe a mente.
– Você devia ter visto, Juh, sua amiguinha foi patética hoje. Quase nos matou por causa de um medinho de barata.
Com a simples fala, garantiu um olhar descrente vindo de Allyson.
– Como é que é? – indagou Allie, semicerrando os olhos.
– Louis quase bateu o carro quando a ligação caiu. Ele jurava que você havia passado mal, sido estuprada ou coisas do gênero. – revirava os olhos ao mesmo tempo.
E mais um bate-boca rotineiro se iniciou.
Finalmente Juliana ergueu a cabeça e resolveu fitar os amigos. Definitivamente não estava no clima para aguentar mais uma das discussões sem cabimento de Allyson e Nathan. Levantou-se da poltrona e dirigiu-se à saída.
– Aonde pensa que vai? – Allyson foi a primeira a perceber.
– Embora – disse simplesmente.
– Vamos com você.
Os outros três se levantaram no mesmo momento para acompanhá-la, vendo que esta já estava na com parte do corpo para o lado de fora.
– Não – seu tom frio assustou Allyson.
– Mas, Juh...
– Mas nada, Allie, me deixem só! – pediu, impaciente – Eu não estou com cabeça para aturar você e o Nate nessas briguinhas sem sentido, essa infantilidade de vocês não está descendo, não hoje! Eu estou mal e queria que vocês fizessem um mero esforço para me compreender.
Allyson se sentiu magoada. As palavras indiferentes da amiga haviam lhe ricocheteado em sua mente, como um tapa.Nathan não conseguiu dizer nada; achava que provocar Allyson desviaria a mente da amiga e a faria esquecer, enganou-se. Louis permaneceu inexpressivo; apenas agradecia mentalmente por nada à respeito de si ter sido dito.
– Nós estávamos tentando... – Allyson olhava para baixo, enquanto uma mão apertava a outra em sinal de constrangimento.
– Não estavam não! Estavam procurando uma maneira de fazer com que as coisas fossem mais fáceis para vocês; uma maneira com que a situação de Juliana Hanks não fosse tão pé no saco para a convivência de vocês! Vocês! – frisou — Querem mesmo me ajudar? Me deixem em paz!
– Por que está falando assim conosco? – a Brooks estava ofendida – Não precisa ser grossa a este ponto. Se não queria a nossa companhia, era só falar; não era necessário despejar todos esses fatos.
– Eu estou sofrendo, Allyson! Sofrendo! – enfim, explodiu – Você não sabe o que é isso, porque tem um pai e uma mãe do lado todo dia quando acorda! E tudo o que você me faz é falar algumas palavras superficiais! Nem parece que é a minha amiga!
E as palavras de Juliana continuaram a atingir Allyson em cheio. Esta, mesmo tentando reprimir as lágrimas, não aguentou: caiu no choro.
– Sabe... – limpou uma lágrima com as costas de uma das mãos – Eu não preciso perder alguém para saber o que você sente. Eu achava que te compreendia – riu sem humor – Vejo que não. Eu sempre me imaginava sem pais e depois multiplicava a dor e por fim, achava que compreendia. É horrível, uma sensação de dor no peito que te corrói. Não sou boa com palavras, mas achei que você valorizaria meus verdadeiros sentimentos ao invés de palavras bonitas. Todas as vezes que eu disse “sinto muito”; foram sentimentos que vieram do fundo, porque – fungou – eu nunca conseguiria encontrar palavras que pudessem descrever o quanto sofro por você e por mim mesma. Eu conheci sua mãe, se lembra? Mas se você não consegue superar sozinha e seguir em frente, não nos culpe! Porque estamos aqui cumprindo os nossos papéis! – despejou Allie com fúria.
– Papéis... Então quer dizer que vocês foram atrás de mim e se preocupam para seguir um roteiro de: “Como ser um bom amigo”? – caçoou – Me deixem em paz!
Nada disseram depois que a porta bateu bruscamente.
Allyson comprimiu os olhos e fechou as mãos em punhos. Mordeu a língua para não soltar coisas que sabia que mais tarde se arrependeria. Sem olhar para trás, subiu para seu quarto.
Louis estava imóvel. Seu nome não havia sido pronunciado nenhuma vez, mas acreditava que estava incluído no pronome: vocês. Sentiu-se um monstro sem coração. Não era bom com sentimentos, nunca foi! Então não sabia como agir nem interpretar os sinais do seu redor. Se Juliana sentia tudo isso, deveria ter falado, pois Louis a conhecia muito bem, para saber que ela sabia que ele não era bom com essas coisas.
Nathan pegou seu casaco que estava pendurado em um dos braços de uma das poltronas e saiu de sorrateiro, já que o amigo aparentava estar mergulhado em devaneios. Já não havia nada pra fazer naquela casa. As palavras da Hanks foram duras para todos.
Ao pisar do lado de fora, o Cooper mirou os lados, imaginando que caminho Juliana devia ter tomado. Suspirou pesado. E suspirou assim novamente ao recordar de que havia deixado sua Hayabusa na escola. Teria de pegar um táxi.
Allyson permanecia escorada na porta, com a cabeça encostada na mesa, cotovelos apoiados nos joelhos dobrados e as mãos pressionando com força contra sua boca. Não queria que seus soluços fossem escutados pelos garotos. Travava uma luta contra si mesma onde parte de si dizia que não devia estar chorando e a outra doía como nunca.
Juliana sentia remorso, a cada passo que dava a distanciando ainda mais da residência dos Brooks, a vontade de voltar excedia. Não que tudo revelado fosse mentira ou palavras de uma cabeça quente. Estaria mentindo se dissesse que mentira anteriormente. Entretanto as coisas não deviam ter sido proferidas assim.
No último momento, Nathan decidiu mudar a rota do taxi para o tão conhecido pub entre ele e os amigos: a J.C. Melon.
Na escola, todos se esqueceram dos compromissos que os aguardavam.
Vilma já estava no limite com Allyson e mais um deslize, ela estaria fora da equipe e Jessica no topo; o sumiço de Juliana também não agradou de fato a mulher. O treinador Wood treinou como um dia qualquer, daria um jeito em Louis e Nathan quando os mesmos aparecessem.
Só quando regressava para casa, pôde perceber o quanto havia escurecido. Ainda com a cabeça cheia, pisou em casa com pretensão de seguir direto para o quarto e assim faria, se o pigarreio não lhe tivesse chamado atenção. Virou-se surpreso ao ver o homem presente, sentando no sofá da sala com uma postura rígida e um semblante sério.
Automaticamente seu humor mudou.
– Lembrou que tem uma casa, pai? – debochou – Melhor! Lembrou-se que tem uma família?
– Não permito que fale assim comigo, Nathan! – o tom da voz do homem se elevou – Sua diretora me ligou hoje. Mais uma detenção? Você não tem jeito mesmo, moleque!
– Então é isso! – exclamou irritado – Esse foi o “milagre” que fez o senhor dar as caras e sair mais cedo do trabalho! Você só aparece quando eu faço merda na escola, estou certo? – proferiu com rancor.
– Não é verdade...
– Não é verdade? – berrava – Quantas vezes a mãe suplicou para que você almoçasse conosco ou trabalhasse menos? E quantas vezes você aderiu ao pedido da sua esposa? Muito bem. Mas quando a Dawson liga para falar de mim, você vem correndo para casa com sede de um puxão de orelha!
– Pare de agir feito um desequilibrado e aja como homem, Nathan! Não te eduquei para crescer e agir assim!
Nathan apenas gargalhou raivoso.
– Eu deveria ser um desequilibrado, não? Não tenho um pai em casa! Você me educou? – riu descrente – Mal para em casa! Tudo que eu sei e sou hoje devo a mãe e a escola!
– Ora... – o Sr. Cooper se levantou pronto para avançar se no último momento sua esposa não tivesse aparecido.
– O que está havendo aqui? – a mulher perguntou perdida, pelas expressões dos rostos dos homens da casa, presumiu que não era nada bom.
– Não é da sua conta! – o homem vociferou.
– Olha como fala com ela, seu...
– Já chega vocês dois! – a mulher entrou no meio – O jantar está pronto, andem!
A atmosfera pesada permaneceu até cada um se dirigir para o seu canto.
Nathan de forma alguma conseguia deixar a cabeça esfriar. Ao repassar a discussão, seu sangue fervia ainda mais e uma vontade sobrenatural quase lhe dominava para ir tirar satisfações e terminar a conversa com seu pai.
Permaneceu por um longo tempo sob a água gelada do chuveiro pensando. Sua mãe não merecia isso e por ela, manteria seu pai intacto, por enquanto.
John Locke* - Filósofo que defendia o empirismo; onde afirmava que nossas ideias eram baseadas em nossas experiências sensoriais.
Fale com o autor