Dear Devil - Broken
4 Capítulo Terceiro
Notas iniciais
A primeira coisa que fez foi esticar e estalar os dedos e observar as unhas que pareciam recentemente feitas, compridas como garras de uma águia perspicaz, prestes a usá-las para matar sua presa, e pintadas de um dourado que parecia ser ouro líquido, refletindo tudo o que estava ao redor como se fossem espelhos. Em seguida, ela piscou algumas vezes, o peso dos compridos cílios ainda lhe incomodavam um pouco. Tentou fazer com que a visão melhorasse. As imagens eram pretas e brancas, mas, aos poucos, tornavam-se coloridas. Ela se lembrava de passar por isso uma vez. Quando renunciara às suas asas brancas para seu sangue tornar-se dourado e a aura se tornasse negra.
Fixando seu olhar na visão à frente, a imagem dos dois senhores calvos de olhos praticamente brancos, tão puros eram, e estatura baixa foi se tornando cada vez mais nítida. As auras que eles emitiam quase podiam ser vistas a olho nu, um brilho caloroso e fraternal que a chamava. Um sorriso se formou em seus lábios vermelhos de sangue e um brilho furioso tomou seus olhos. Mais uma vez ela sentiu a metamorfose tomar conta de seu corpo. Como amava aquela sensação.
As sobrancelhas grisalhas dos anciãos não se arquearam e seus olhos não se arregalaram. Nenhuma linha de surpresa tomou seus rostos calmos ao presenciarem a mudança do belo (e maligno) rosto numa carranca de olhos completamente negros e profundos, a face branca como porcelana chinesa, exceto por algumas veias negras que a cortavam como rachaduras, os lábios não existentes, apenas uma fenda sem a moldura, além da queda de todos os cabelos. As unhas cresceram e pareciam mais afiadas do que uma navalha e o ódio que sua presença trazia era cada vez mais forte.
Num golpe rápido e certeiro, as garras atingiram os corpos rechonchudos, o sangue angelical jorrando forte contra o demônio retorcido à sua frente, que continuava a atacar ferozmente as carcaças ali. Ela olhou fascinada para as mãos sujas de prateado daquele precioso sangue e seus lábios se aproximaram dos defuntos que ainda o exalavam.
Aqueles eram apenas dois anciãos, dois anjos dos mais puros que cuidavam dos pobres espíritos em estado de quase morte. Apenas mais dois anjos para a numerosa lista de mortes causadas pela assassina. Aquela que a segundos atrás era mais uma das adormecidas e que agora se sentia ainda mais forte, alimentada pelo ódio.
S asas negras de morcego cresceram às suas costas e ela deixou que estas guiassem seu caminho à frente. Sabiam onde ela deveria ir.
***
Antes mesmo que ela pudesse fazê-lo por própria vontade, seus joelhos foram obrigados a baixar-se. Ela se curvou, sentindo o calor das chamas ao seu redor.
Tudo em volta era dourado. As paredes pareciam ouro líquido de tão reluzentes. Alguns diziam que era o sangue dos caídos mortos. Aquele era o coração de todo aquele chamado de inferno. Ela acreditava. A mesma já estivera ali mais cedo. Em sua transformação. Mais uma vez um ritual como aquele acontecia ali. Era um anjo antigo, via-se em sua aura forte e alva. Uma garota loira de olhos de chocolate, o corpo em forma infantil. Se postava ajoelhada de frente para o trono vermelho, a respiração ofegante mostrava o medo.
- Fale. – ordenou a voz sibilante, rouca, extremamente fraca que vinha do trono. Ela já a conhecia bem.
A garotinha era tão pura que parecia impossível fazer algo contra sua bondade. Mas esta mesma levantou-se por um momento e murmurou algumas palavras em latim. Do canto da sala, vestido de preto dos pés à cabeça, ao serviçal se aproximou, trazendo a tigela repleta daquele ouro líquido fumegante. Deu uma ordem e os lábios rosados se abriram. A criança apanhou a tigela e a encostou na boca molhada, despejando o líquido que lhe queimava a garganta, tentando não hesitar, parecer forte. Logo que a tigela se via vazia, ela deixou que caísse e se espatifasse em milhões de estilhaços. Seus músculos se contraíram dolorosamente. Os olhos aos poucos ficavam negros por dentro. As asas, pena a pena, eram arrancadas pelas próprias mãos da vítima. E podia-se ver a olho nu nas veias que transpareciam sob a pele o sangue se tornar dourado.
Ignorando o ritual pelo qual já havia passado, ela se pronunciou.
- Majestade... – sussurrou.
- Lílian. – a voz respondeu. A morena arriscou levantar o olhar. Os olhos ainda estavam completamente negros. – Estava em hora.
Em resposta ela sorriu de lado.
- Não entendo... – confessou.
- A adaga, minha cara. Era dourada.
***
Existiam três delas. A primeira, criada com o bronze forte e cruel. A segunda da prata pura. Eram as únicas armas capazes de eliminar uma à outra. Cada uma com seu dono, eliminavam o inverso da outra. A lâmina dourada, que eliminava qualquer anjo puro, tomada pela Suprema Escuridão e continuava a ser usada. A lâmina prateada, que traria paz aos corrompidos, entregue aos puros, a um único guardião que fora para sempre esquecido em prol da proteção de adaga.
E a terceira capaz de destruir a tudo e a todos, do ferro negro e profundo, pertencia à morte.
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