Dear Angel
1 Prólogo — Canção gotejante
Notas iniciais
Poderia ser talvez apenas mais um dia, daqueles que você resolve dormir até tarde. Ou então, simplesmente aqueles em que fica na cama com aquela preguiça de um cansaço desnecessário. Deixa o pensamento enrolar e desenrolar pelo menos cinquenta vezes. Mas não era.
Não havia sol, mas sim nuvens. Nem mesmo chuva, porém um temporal. A ventania parecia brincar de tentar cortar a gravidade e partir ao meio tudo que encontrasse. Lutando contra esta vontade do tempo, estavam um casal que não é muito diferente dos de hoje em dia. A grande diferença era a criança que eles carregavam no colo. Sua filha.
Os curtos cabelos castanhos dela balançavam e quicavam com os cachos em uma espécie de tubo. Estava tão assustada, que havia se aninhado no colo de sua mãe contra sua própria vontade. Nem bem fizera um ano de idade e estava para sofrer com isso.
Seu pai guiava ambas, correndo na frente e abrindo caminho em meio aos carros amontoados e revirados na rua. Era como se o mundo todo fosse um grande quarto, e tudo nele estava completamente fora de ordem. Muito repentinamente uma enorme faísca alaranjada cruzou o céu em negrito, deixando um rastro luminoso. Esta deu de encontro com uma série de veículos amontoados a não mais que dois metros de distância da família, explodindo cada um deles.
Estavam encurralados. E voar naquele instante salvaria apenas um deles, pois o voo seria turbulento com alguém os seguindo e os atacando.
— O que ainda quer conosco?! — grunhiu o pai da criança.
— Sabem as regras, eu tenho de levar todos os Nefilim comigo. — deu um pouso gracioso, logo em seguida arqueando suas majestosas seis asas brancas para trás. — Não podem ficar vivos de forma alguma. É uma pena. — soltou uma gargalhada ardilosa.
O casal se entreolhava, buscando uma comunicação rápida como os relâmpagos que estalavam no topo dos prédios, fazendo o coração de Lúcia ter dificuldades em controlar o incessante choro que sua filha demonstrava.
O anjo dobrou os joelhos levemente, os arqueando em um V. Estendeu os braços também um pouco arqueados, fazendo parecer até que suas unhas haviam se transformado em garras. Suas mãos começaram a brilhar, de uma forma nada reconfortante em um amarelo ouro que cegava muito facilmente e logo, algo como duas esferas foram tomando forma, até se tornarem algo gelatinoso que se espatifou no chão. Ele também estava sem a presença de uma peça de roupa sobre o tronco, deixando à mostra, sobre sua pele dourada, aquela marca hexagonal, com um círculo em cada ponta. O cubo de Metatron.
Dessas duas formas surgiram dois animais de grande porte, mais precisamente, dois leões não muito comuns. Caliel e Haziel. Não em suas formas de anjos, porque, para começar eles são dois anjos que simplesmente não deveriam estar ali.
— Você sempre me surpreende. — começou Yekun, falando ao anjo bom. — Desde que tentou me convencer a não seguir Lúcifer. Sempre muito esforçado, mas eu nunca pensei que logo você quebraria uma regra dessas. — alinhou a franja de seus cabelos negros um pouco para cima e se endireitou também, deixando as costas retas.
A mulher de cabelos, em um tom castanho fosco, entendeu o que ele estava fazendo. Ganhando tempo. Recuou lentamente um passo, vendo o leão branco reluzente, que se encontrava do lado esquerdo do anjo, se posicionar e rosnar para ela. Fugir de um leão-anjo. Ótimo! — pensou Lúcia andando um pouco para o lado, ficando mais próxima do marido.
Tranquilamente tomou o queixo dele sob sua mão, tocando delicadamente a pele áspera pela temperatura que queimava no inferno, com a sua aveludada, sem a devida preocupação do certo e o errado. Era muito estranho ela querer o ter para si naquele momento? Em um beijo desesperado, compartilhando cada emoção enquanto o desejo de ambos só aumentava gradativamente? Ele nunca fora muito doce, mas ela sempre gostara do amargo. Este provavelmente seria o último beijo.
A essa altura, Metatron já havia cruzado os braços e feito caricias aos “seus” bichinhos pelo menos cinco vezes; Quando eles finalmente se soltaram e Lúcia disparou com a criança nos braços, passando por entre o emaranhado de carros. O leão que esperava essa ação — Haziel —, seguiu ambas pouco tempo depois, como se as tivesse dado alguns segundos para se distanciarem. Uma grande batalha teve início.
Yekun desenrolou suas asas negras em uma grande explosão sonora, que ecoou pelas ruas arrastando alguns objetos para longe e até mesmo uns poucos veículos. O seu par era mais escuro que o próprio céu repleto de nuvens daquele momento. Reluziam em um azul doentio e aconchegante, não aquele brilho que fazia cegar, que anjos bons geralmente tem. A escuridão é mais confortável às vezes. Por conta das asas, ele agora se encontrava com o dorso de pele escura nu. Seus olhos amarelados pediam pelo sangue adversário.
— Se ela tivesse ficado aqui, Haziel pouparia a vida dela. — Metatron falou como se estivesse triste, mostrando um grande desprezo. — Agora, todos morrerão.
— Veremos. — posicionou a mão no quadril, puxando uma espada pelo cabo.
A lâmina do objeto estava tão bem afiada, que fez um barulho agudo ao repentino movimento. Ele a balançou no ar algumas vezes, testando a sua própria velocidade no manuseio desta. Por fim apontou-a com a mão esquerda para o inimigo.
Nisso tudo, Lúcia já estava bem distante dali, procurando um lugar em especial. Sua filha com certeza estaria mais segura lá do que talvez, sobre os cuidados de seus próprios pais. Boammie com certeza cuidaria dela, mesmo que estejam de lados opostos. Com algum tempo de vantagem e a adrenalina pulsando nas veias, ela correria para sempre, se isso significasse que sua filha continuaria vivendo.
Por fim, quando o fôlego lhe traiu, ela finalmente tinha chegado ao tal local. A boca seca, com seus lábios vermelhos em forma de coração, completamente enrugados. Só lhe faltava pingar as gotas de suor, mas elas se localizavam bem ali em seu rosto e pescoço.
Subiu uma escadaria de três degraus, dando de encontro com uma porta de madeira em estado deplorável, que sucumbira aos cupins. Seria muito fácil derrubá-la, o que não era nada bom, mas ela confiava em Boammie. Tinha que confiar. Bateu na mesma suavemente, tentando recuperar o ar. Era como se os seus pulmões não estivessem dentro de seu corpo, pois não supriam sua necessidade no momento.
Uma sensação ruim corroeu Lúcia por completo, causando uma reação instantânea de lágrimas. Assim como ela, o céu começou a lagrimar também, se utilizando do teto como piano, para criar a sua ácida melodia mórbida. Uma mulher, usando uma camisola — um pouco extravagante demais, para uma freira —, abriu a porta, revelando seus olhos azuis cristalinos, que se arregalaram pouco a pouco com a pessoa na sua frente. O cabelo claro brilhava ao menor raio de luz, parecendo fios de ouro.
—... Lúcia?! — exclamou espantada, segurando a mão direita sobre o peito. — Céus! O que faz aqui? O que aconteceu? — lhe enchia de perguntas, mas o interrogatório só trazia dor de cabeça.
— Isso não interessa, acho que não terei tempo de te contar de qualquer forma. — deu um sorriso falso, enquanto mais lágrimas correram para as extremidades do rosto. — Apenas, cuide de minha filha, por favor. — implorou, estendendo com relutância a criança.
Boammie olhou intrigada para a criança. Definitivamente não era comum, era filha de Yekun e com toda certeza era uma nefilim. Ela estava hesitante, mas pegou-a no colo, sentindo que as vestes dela estavam completamente encharcadas.
— Saia desta chuva, venha, entre. — adentrou um pouco o local, esperando que ela fizesse o mesmo, sem sucesso.
— Eu... Não posso... Tenho de voltar, Yekun precisa de mim. — algo em dizer isso estava erradamente certo, como se a necessidade fosse intensa demais, como se ela pudesse, sei lá, lutar com o anjo mais poderoso de todos. — Precisa saber que Tracey ficará sob seus cuidados.
— Mesmo que eu seja oposta a ele? Duvido. — bufou, pousando a mão sobre a maçaneta. — Tracey? Hm, belo nome. É uma bela criança também. Será adotada rapidamente.
Lúcia fingiu sorrir, mas seus lábios estavam pesados demais para emoções leves. Apenas agradeceu pelo grande favor, e se retirou dali, correndo ainda mais rápido do que antes.
Uma hora depois, a grande notícia estralou para todos os lados, em uníssono de comemoração e desprezo. Alguns sons nítidos de tristeza também foram expressados, mas eram poucos.
Yekun e Lúcia Westner estavam mortos.
[...]
Cerca de cinco anos haviam se passado e ninguém havia adotado aquela criança ainda. E não fosse por beleza, que não era em falta. Pele pálida, voltada para um tom leve de bronze reluzente, olhos verdes bem escuros e cabelos castanhos como chocolate, que faziam tubos de tão cacheados que eram. Possuía também algumas sardas no rosto, elas eram mínimas, mas jeitosas de mesma forma. O pequeno corpo da mesma era facilmente encaixado em vestidos floridos em forma de evasê.
A questão era algo mais em relação à personalidade dela, que só via o lado negro das coisas e desde sempre estava olhando o nada com uma mortalidade estampada. As pessoas não gostam de ouvir a verdade e ela é bem sincera quanto a tudo. Ouvia o que diziam e sabia muito bem distinguir o tom de voz falso do verdadeiro, ela não precisava de mais mentiras em sua vida, principalmente porque seus pais não a quiseram, por que ela iria querer outros?
Bom, ela pensava assim, até aparecer uma garota estranhamente parecida com ela. A diferença só estava óbvia, por causa do formato de seus rostos. O de Tracey era mais ovalado, enquanto o da outra garota era mais gordinho, por conta das privilegiadas maçãs dela. A outra também não possuía sardas, nem tinha um corpo muito esguio, era menorzinha, mas igualmente adorável. O mais notável disso tudo era a divergência em suas personalidades.
Ruby ensinou Tracey a brincar de boneca, e coisas que uma garota normalmente faria, já que ela havia convivido por um tempo com familiares, mas quando seu irmão a abandonara, logo após a morte dos pais, ela só pôde ir ao orfanato religioso. Mesmo com toda a insistência em mostrar para a amiga como se deveria fazer algo, ela lutava com isso e nunca gostou.
E esta fora a única amiga que ela teve, até que Ruby fora adotada. Sendo assim, Tracey crescera estudando o primário no orfanato com as irmãs lhe dando aula. Mas logo que chegou ao fundamental, ela teve de ser matriculada em uma escola. Assumamos que sua vida nunca fora fácil, e que para ajudar, como todos sabiam de quem ela era filha, reprimiram-na completamente, chamando-a de demônio, por vezes. E assim, ela foi se fechando cada vez mais em seu próprio mundo, ignorando ordens e a própria reza do local que era requerida.
Apenas Boammie conseguia conversar com ela sem ser chutada para fora de seu quarto, e as únicas amizades que ela fazia, eram com as pessoas de sua escola. Foi assim que estes amigos passaram a frequentar o local, somente para vê-la. Logo o orfanato havia se tornado apenas uma casa da qual ela entrava e saia livremente, pondo sua vida em risco.
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