Dear Angel

3 Capítulo 2 — Apenas um treino


Notas iniciais
Que tal um capítulo novo de presente de Natal?

A janela permanecera aberta desde o momento em que ele buscara as espadas; Ensopando a cama toda. Podia-se ouvir um arfar constante de ambos, enquanto Tracey mantinha os olhos fechados, com medo de ser atingida. Suas mãos tremiam ao mesmo tempo em que sua cabeça pendia para o lado que tinha cabelos mais longos no momento.

Ela arriscou espiar. Viu Gadreel se levantando e afastando-se, enquanto retirava alguns fios de cabelo da espada de madeira. Ela engoliu em seco. Seu coração falhou por um instante, deixando as mãos geladas e o corpo suando frio. Estava com medo.

Como ele fora capaz de dominá-la tão rápido assim? É claro, ela havia entregado uma abertura de bandeja, mas no mínimo ela seria capaz de recobrar a posse da espada sem problemas. O rapaz olhou de relance para a garota, que congelou de imediato, tentando não respirar.

O vento frio circundava pelo quarto todo, fazendo os pelos dela se eriçarem como os de um gato quando está bravo. Novamente ele retirou algo do bolso da calça, e uma lâmina de prata pôs-se a brilhar com as últimas chamuscadas que a vela conseguia obter do pavio. Tracey tentou recuar, mas a parede impediu qualquer ação, então ela apenas deslizou para o chão molhado, sentindo a umidade atravessar suas roupas e gelar ainda mais sua pele.

— Ei, relaxa. — sussurrou ele, agachando-se ao lado dela. — Não vim aqui para te fazer mal, muito menos te matar. — balançou o estilete frente ao rosto dela, que tentou enfiar a cabeça entre os tijolos.

Gadreel suspirou. Ele parecia cansado da forma arisca que havia sido tratado até agora, quando o único objetivo dele era aproximar-se. Colocou um braço do lado esquerdo do corpo dela e o outro, do direito, deixando bem próximos os rostos de ambos. Ela conseguia sentir a respiração tranquila dele, que havia se recuperado após a luta, ele com certeza estava acostumado com situações desse tipo, para não se concentrar exatamente nela, mas em como retirá-la de perto da parede.

Primeiro, ele calmamente levantou-a pela cintura, que não resistiu a tal ato. Mas o problema foi fazê-la virar-se de costas, ela acreditava fielmente que seria apunhalada, então ele utilizou um pouco de força e segurou as mãos dela, como uma algema teria o trabalho de fazer.

Tracey tentou novamente deslizar ao chão, contudo, de algum jeito ele elevou-a com apenas uma mão. Já com a outra, estava o estilete que se aproximava do pescoço dela. E ao sentir a presença do objeto, perto de sua pele, começou a debater-se, dificultando tudo ainda mais.

— Solte-me. Por favor. — ela implorou, enquanto sua voz começava a ficar embriagada. — O trato não era a adoção? Por que está fazendo isso?! — choramingou, inspirando com dificuldade.

— E é a sua adoção que eu quero. — ela virou um pouco a cabeça, tentando achar a seriedade com a qual ele recitara as palavras. — Mas, eu nunca adotaria uma criança com o cabelo desigual dessa forma. Por isso quero consertar o que eu causei. — deu um meio sorriso.

Sem mais resistir, seus pés pararam de balançar no ar. Gadreel então a recolocou ao chão, e cortou o cabelo rapidamente antes que ela tentasse reclamar mais um pouco.

Ela olhava-o intrigada. Ainda se perguntando o que um sujeito como ele estava fazendo ali. Com toda certeza havia algo por detrás dessa adoção repentina. Uma última rajada de vento sibilou por entre a janela e fez a garota querer vestir mais roupas por cima das que já usava.

Pousou os olhos no enorme tufo de fios castanhos que estavam ao pé da cama. Os cachos todos emaranhados, se enlaçando. Buscou por estes atrás de seu corpo. Chegavam à cintura e agora nem mesmo passavam dos ombros. Teve vontade de chorar como uma criancinha, mas apenas recolheu tudo e organizou suas roupas. Ela estava para ser adotada.

Aliás, Gadreel havia sumido em um piscar de olhos, deixando apenas um rastro de fumaça azul flutuando às narinas de Tracey. “Mais uma troca de vestimentas?” — pensou ela, bufando, enquanto deixava um casaco de lã castanho sobre a mesa, junto de uma calça jeans e uma sapatilha preta bem comum. Logo em seguida, retirando as roupas encharcadas e vestindo as secas.

Não estava feliz, nem tão pouco se sentia triste. Apenas, sem reação. Por algum motivo ela sentia que esta adoção daria certo, porque ele tinha um objetivo ao fazer isso. Mas qual?

Passou novamente as mãos pela nuca, pousando-as no pescoço. Realmente faria falta. Buscou no guarda-roupa por uma bolsa que ficava ao fundo. Ela era grande o suficiente para levar as poucas coisas que se tinha por ali. Sentiu um aroma familiar enquanto fazia isso. Era chocolate quente, com um talo de canela bem grande sendo dissolvido no líquido grosso. Boammie.

Abriu calmamente a porta do quarto, fazendo apenas alguns ruídos. Espreitou-se atrás das colunas dóricas, para não ser percebida pelas outras freiras enquanto se dirigia até a cozinha. Porém, Tracey era hábil e veloz o suficiente. Foi quando pôs seus olhos na mulher de cabelos claros que seu estômago protestou, pedindo comida. É bem óbvio, ela nem tinha comido mais que uma maçã e tomado alguns goles de suco de laranja oferecido por Harriet.

— Fome? — perguntou calmamente a mulher.

A morena apenas assentiu e sentou-se em uma cadeira. Bo preparou uma grande xícara de chocolate quente com canela, e serviu um prato de torradas com geléia de morango, que foram devoradas em poucos minutos.

— O que faz acordada até essa hora, Bo? — questionou a garota bebericando devagar o que restava no recipiente.

— Estava lendo, para ser sincera. — fez uma pausa, observando Tracey ficar com um bigode de chocolate sobre os lábios, logo percorrendo para seu cabelo, porém preferiu nada comentar para não aborrecê-la. — Mas não a Bíblia, como de costume. Às vezes a gente cansa, sabe? Então comecei lendo um clássico muito falado por aí.

— Moby Dick? — simplesmente deu um palpite.

— Como adivinhou? — encarou-a por um instante com os olhos arregalados, logo em seguida caindo em uma doce gargalhada.

Contudo, após isso, elas ficaram em um silêncio perturbador. Era como se ela já soubesse de tudo que estava para acontecer e tivesse medo disso. A mais nova começou a bater as unhas compridas na borda da xícara, e olhava para a mesma enquanto imaginava uma boa forma de contar o que tinha acontecido, de forma que não parecesse uma tentativa de estupro ou furto. Porém ela apenas piscou duas vezes e perguntou uma única coisa.

— Se eu fosse adotada, hipoteticamente falando... O que você iria achar disso? — seu semblante sério demonstrava claramente que nada disso era apenas uma hipótese.

— De início eu me sentiria solitária demais. — Tracey a fitou um pouco intrigada, e ela apenas continuou. — É verdade, você conviveu aqui comigo desde que era apenas um bebê, então é óbvio que eu ficarei triste... Mas contanto que seja uma boa pessoa a lhe adotar, eu não me importarei em deixar que a levem. — a impressão que sua voz deixava, eram que seus olhos estavam aparentemente marejados.

— Bo, você foi a mãe que eu não tive. — esboçou um sorriso triste fazendo as lágrimas da mulher percorrerem seu rosto lentamente. — Acho que deveria atender a porta da frente em alguns minutos. — ela queria ser forte e não chorar, como Bo estava fazendo, mas seus olhos a traíram.

— Tracey... Você está sabendo de algo e não me contou? — aparentemente ofendida, ela posicionou a mão direita sobre o busto, como sempre tivera o costume de fazer.

— Vou pegar a minha mala. — limpou algumas gotas na manga da blusa e correu em direção ao seu futuro antigo quarto.

— Mala?! Tracey! — ao mesmo impasse Boammie começou a correr atrás dela.

A ação de perseguição foi interrompida pelo soar da campainha. A loira estava estupefata, completamente petrificada, o coração tinha parado por um instante, congelado no tempo, e depois já pulsava à mil.

A freira encostou lentamente a mão na maçaneta, com receio do que poderia ter ali fora. Ou melhor, quem. Tentou respirar fundo duas ou mais vezes, antes de conseguir girar o objeto, ainda assim hesitando um pouco.

Vai demorar muito para abrir a porta? — um tom grosso e peculiar tamborilou em sua cabeça, fazendo-a lembrar-se imediatamente de a quem pertencia.

— Vá embora, agora. — sussurrou bem perto da porta.

— Acontece que eu ganhei uma aposta e — empurrou sem esforço algum o impedimento da conversa e a pessoa a quem esta se dirigia, adentrando o local. —, vim buscar Tracey Westner. — desta vez seu dorso não estava nu, ele trajava uma camiseta branca e uma jaqueta preta por cima.

— Que tipo de aposta?! — ela se preparava para defender a todos ali, dando a si mesma mais liberdade de movimentos, retirando um pedaço da bainha da camisola.

— Poxa, eu me sinto purificado nesse lugar! — falou ele inspirando fundo e abrindo os braços de forma a deixarem seu corpo como uma cruz.

— Está zombando de Jesus? — ela obviamente ficou enfurecida.

— Imagine... — estendeu um braço e balançou a mão, pedindo que ela ficasse quieta.

Antes que se pudesse continuar com uma discussão irrelevante para ele, Tracey apareceu carregando uma mala recheada de roupas e que aparentava ser pesada. Então Gadreel tomou-a da mão dela e segurou-a atrás do ombro, com um sorriso mais do que malicioso, intencional.

— É disso que estou falando, senhorita Boammie. — fez uma pausa para acenar a garota que estava com o cabelo mais curto. — Você parece não querer deixá-la ir comigo, mas nem mesmo notou que estão faltando dezenas de cachos a ela. — acariciou a cabeça dela e esta imediatamente tocou a mão dele para longe, ajeitando tudo com as suas.

— O que... — engoliu em seco a freira e olhou de soslaio para a que estava para ser adotada. — Você não pode levá-la, ela foi confiada à mim! — retrucou enfurecida.

— Por quem? — ao invés de manter-se quieta, ela se pronunciou curiosa. — Uma vez me disse que eu simplesmente havia sido deixada para morrer em frente a uma casa qualquer e que essas pessoas me mandaram para cá...

— Ela mentiu para você. Não é uma pessoa horrível? — Gadreel envolveu-a pelos ombros com o seu braço livre.

Se assim fosse, toda a sua vida tornou-se uma mentira neste momento. Ela não foi abandonada, ela estava ali para ser protegida por esta mulher, que a havia enganado. Concentrou-se em um ponto fixo, os seus sapatos pretos que tinham algumas gotinhas de orvalho devido o horário inconveniente para uma adoção.

Tracey estava começando a ficar furiosa, mas simplesmente decidiu ignorar isso. Já fora tantas vezes iludida, que uma a mais não faria diferença. Mesmo que essa tenha sido de praticamente todo o início de sua existência. Não se desvencilhou do rapaz. Pelo contrário, passou o seu braço ao redor da cintura dele, tal como fazia com a maioria de seus amigos.

“Se tem alguém que parece não mentir, ele é essa pessoa” — pensou consigo mesma, mordiscando o lábio inferior.

— Vamos logo, Gadreel. — falou ela, virando-se um pouco em direção à porta escancarada pouco iluminada por um velho castiçal com uma vela em seus últimos sussurros de vida.

— Não! Você não vai a lugar algum. — Boammie tentou segurar Tracey de alguma forma, mas o rapaz foi mais rápido e tirou-a da mira. Muito rápido.

Tão logo isso ocorreu, eles já estavam fora do local e alguns pingos de chuva já começavam a chocar-se com o corpo deles. Foi como dar um salto no tempo e aparecer ali. Ele levou-a até um carro preto bem lustrado de quatro portas e abriu a do passageiro por dentro do veículo para que ela entrasse. A bagagem atirada no banco de trás e uma arrancada veloz.

— Adeus, Bo. — ela sussurrou para si mesma.

O percurso com certeza não fora longo, mas silencioso sim. Tracey não tinha certeza ainda se poderia confiar nele, tanto quanto parecia. Só para começar eles haviam acabado de sair em uma fuga de um orfanato. Ou seja, ela nem ao menos tinha sido adotada de verdade. Passara todo o caminho com a cabeça recostada na janela, sentindo-a esfriar pouco a pouco com aquela incessante precipitação.

Ela se aninhou completamente para o canto, deixando as mangas da roupa cobrirem metade dos seus dedos. Estava para pegar no sono, quando finalmente chegaram à casa nova. Preguiçosamente esticou o corpo e abriu a porta, colocando uma perna após a outra lentamente e sem pressa alguma. Suspirou e levantou-se de uma vez, carregando suas coisas.

A casa era bem grande, definitivamente falando. Porém pouco arejada. Haviam umas poucas janelas com algumas grades de proteção na frente. A tintura branca por fora, servia para dispersar o calor, mas nessa época já não adiantaria muito, pois a intenção é contrária. O jardim precisava de um trato imediato. A grama que cercava a casa batia rente ao joelho das pessoas e as outras plantas estavam começando a ficarem sufocadas.

Tudo era bem incomum, até mesmo por dentro. A porta de entrada saía no quarto, onde peças e mais peças de roupa estavam jogadas em todos os cantos, além de algumas várias bitucas de cigarro que poderiam causar um incêndio se não fossem apagadas de imediato. O carpete verde musgo estava gasto e áspero. “Uma cama só. E de casal...” — ela concluiu em pensamento, se demorando um pouco em seus devaneios, mantendo como ponto fixo o cobertor branco e cinza embolado.

Depois disso, vinha a cozinha, que era provavelmente a parte mais organizada de todas. O que também era estranho. Passando por ela tinha uma sala quase tão bem arrumada quanto o quarto, com um sofá de couro azulado repleto de travesseiros — sim, não eram almofadas —, uma televisão de LED, e uma ampla mesa de jantar ao fundo, que estava bem posicionada.

Ao lado esquerdo, bem ao fundo da sala, uma porta dava de encontro a um banheiro/quarto, que era enorme, e realmente dava para enfiar um colchão de modo fácil entre o vaso e a pia.

— É... — ela ergueu a voz que ecoou ao se chocar com as paredes brancas. — Onde você disse que eu iria dormir mesmo? — o semblante atormentado se esvaiu, deixando um sorriso besta transparecer.

— Em momento algum eu disse algo do tipo. — Gadreel parecia sério quanto a isso, mas logo soltou uma pequena gargalhada de deboche. — A mesma coisa com as espadas... Você imagina as falas e acredita que sejam de verdade? — Tracey enrubesceu levemente com o comentário, porque era mesmo uma péssima mania.

— Certo, então você não disse. — ficou irritadiça a garota, quase levantando a mão para dar uns tapas nele, porque paciência não é seu ponto forte. — Onde, nesse caso?

— Oras, não viu a cama?

— Mas, só tem uma... — ela voltou a pensar mil coisas, enquanto ele apenas assentiu.

— Isso mesmo. — um sorriso malicioso se estendeu em seus lábios, enquanto ele puxava as mãos dela, fazendo uma pose dramática. — Porém, contudo... Todavia, eu nunca faria nada disso com a minha protegida. Até porque você não parece me desejar com todo o seu fervor, e se não é assim, que graça tem? — ela abruptamente desvencilhou-se das mãos dele.

— Só, por favor, não me diga que dorme apenas de cueca. — ela fechou os olhos pedindo mentalmente.

— Claro que não. — negou com todas as forças que tinha, fazendo-a suspirar de alívio. — Eu durmo sem nada mesmo. — e logo ela virou-se muito irritada. — Brincadeira, fofa. Eu coloco um short pelo bem da humanidade, minha cara virgem. — zombou, fazendo-a corar brutalmente.

E fazer o que? Negar que era? Só teria uma repercussão falha nisso tudo, porque seria um motivo para ele ficar a provocando. Como se Gadreel já não fosse fazer isso sabendo ou não desse fato.

Já eram aproximadamente quatro horas da manhã quando ela se deitou sobre a cama bagunçada e incrivelmente confortável. E mesmo assim, Gadreel não o fez, dando a desculpa de que iria deixá-la descansar tranquila por hoje, que tinha sido uma madrugada complicada e ao amanhecer talvez fosse mais. Então ele apenas pegou uma cadeira da cozinha e ficou fumando enquanto assistia-lhe dormir.

Ficou tanto tempo curvado, fitando o nada que suas costas começaram a latejar. Endireitou-se na cadeira e olhou para o relógio que estava pendurado em uma parede azul marinho. Eram cinco e meia. Tracey passava provavelmente por seu milésimo sonho, então não teria problema relaxar um pouco antes de preparar a comida — o que estranhamente é algo do qual ele se orgulha em fazer bem. Segurou a coberta e trouxe-a até perto da cintura dela, logo inserindo seu corpo sob esta.

Sentiu o quanto seus braços estavam frios assim que suas mãos esquentaram, e também quando seu ombro tocou o dela, que parecia aconchegada. Não dava vontade de acordá-la. Pequena e infantil. Por um momento pareceu surgir um sorriso a delinear seus lábios. A resposta obtida foi a mesma por ele, que também esboçou um bem ciente do destino.

Vou protegê-la, não se preocupe. — sussurrou para si mesmo, mantendo o olhar para o teto.

Apesar de ter dormido durante a tarde toda e parte da madrugada, depois do ocorrido ainda conseguiu descansar por mais três horas, acordando assim às sete horas em ponto. Não que houvesse um despertador, mas sim o aroma que parecia lhe atravessar o corpo através do nariz para fazê-la ficar com fome só por diversão. Era o inconfundível cheiro de cookies recém assados se misturando ao do pão e dos limões frescos. Ela ouviu o tilintar da colher batendo nas bordas da jarra e se levantou de imediato.

Espreguiçou-se já de pé, e percebeu o quão bem havia dormido. Nunca se sentira mais revigorada. Olhou para o relógio. Ainda tinha uma hora até as aulas começarem, poderia comer algo, vestir-se e pedir que Gadreel a levasse.

— Bom dia, Tracey. — disse ele lá da cozinha.

— Bom mesmo. Sinto-me ótima. — afirmou. — Vou me arrumar para ir à escola. — cantarolou enquanto passava por trás dele, indo em direção ao banheiro.

Subitamente ele explodiu em gargalhadas forçadas, assustando-a.

— Escola, claro. — coçou a testa com a manga de seu casaco preto comum. — A partir do momento em que pisou nesta casa, tudo que vai fazer é o que eu disser, então nem adianta tentar, porque você não vai mais.

— Como assim? — indagou ela, pouco antes de entrar no banheiro, fazendo uma voz descrente.

— Foi o que você ouviu. Eu vou te treinar, e transformá-la em uma boa lutadora. — fez uma pequena pausa. — Nem conseguiu me deixar cansado na nossa partida de ontem, que dirá em um combate de verdade. — seu semblante era tão sério e intenso que ela apenas gostaria de ter dito sim e obedecido sem mais nem menos.

— Por quê? É como se eu não tivesse escolhas. Você está escondendo algo de mim também? — automaticamente ela se lembrou das mentiras de Boammie.

— Eu estou sim, de fato escondendo algo. A freira guarda para si o mesmo segredo que eu, porém, prefiro não contar, a simplesmente mentir, inventar uma história que nada tem relação com aquela que é real. — o cheiro de ovos mexidos começava a se depositar no ar enquanto ele se explicava. — Somente, treine sem reclamar. — curto e grosso em suas ordens.

Há muito ela queria ter férias de tudo um pouco, porém isto era o inverso daquilo que foi pensado. Tracey lavou o rosto com água gelada e ficou se observando no espelho, os cabelos que lhe fariam falta. Foi como se ela abandonasse aquela garotinha do orfanato. Lógico, jamais o faria com os seus amigos, contudo agora seria mais difícil vê-los. Sentiria vontade de encontrar-se com eles, principalmente com Louis, que ia lhe buscar todas as manhãs. E então um nó que quase não foi engolido surgiu.

O café da manhã foi bem silencioso, eles não conversaram, mas ele parecia observar as olheiras de Tracey com intensidade, ou talvez ela estivesse alucinando. Ele realmente cozinhava muito bem, e tinha se dedicado em ir buscar pães pela manhã. A garota se perguntou se estava sendo justa com ele. Treinar não poderia ser tão ruim assim, comparado às mordomias que ele daria.

Depois eles foram para o jardim do fundo, que tinha grama plana, mas nenhuma outra planta em especial. Haviam várias espadas encostadas na parede da casa, era de se perder a conta. Lâminas prateadas no geral, uma ou outra era de ouro e cada uma delas tinha um detalhe diferente na ponta ou perto do cabo.

— Comece com uma bem pesada. — a voz dele ressoou do nada, no imperativo. — Assim você vai se acostumar com qualquer uma e a mais leve se tornará uma arma letal em suas mãos.

— Desde que eu consiga manuseá-la... — deu um rápido suspiro e passou a mão por uma espada com lâmina de ouro, ela tinha detalhes perto do cabo, como se fossem pequenos dentes. — Essa é pesada o suficiente? — apontou.

— Acho que sim. Tente pegá-la. — ela o obedeceu e com um pouco de esforço levantou-a rente ao corpo. — Ótima. Perfeita para você.

Dessa vez ele se aproximou do amontoado de espadas que ficavam do lado direito da porta pela qual haviam saído para o quintal. Gadreel olhou cuidadosamente para as espadas, analisando-as minuciosamente, considerando: Uma que mostre o meu potencial, porém, não a machuque enquanto eu finjo lutar de verdade.

Por fim, encontrou uma de lâmina prateada, sem muitas coisas ou detalhes, um cabo comum. Não era de todo pouco pesada, mas ainda faria alguns estragos.

— Eu vou explicar apenas uma vez, porque paciência definitivamente não me é uma dádiva. — passou os dedos pelo topete, ajeitando a forma como tombavam para o lado. — Vamos batalhar como se quiséssemos trucidar a vida do outro. Não importa quanto tempo vai levar, eu só vou parar de te atacar quando você conseguir me ferir. — esboçou um sorriso em deboche. — Acho que se eu ficar parado aqui, ainda passaremos uns dias.

— Certo, entendi. Mas, matar? — Tracey se lembrou que o objetivo dele não era matá-la, o que não o impedia de machucá-la. — Bem, eu não tenho escolha então.

Quem começou atacando foi Gadreel, aproximando-se rápido demais, surpreendendo a garota. Chegou tão perto, que ela conseguia sentir a respiração dele balançando sua franja. Então habilmente se utilizando do cabo da espada, bateu contra a barriga dela, fazendo-a cair.

— Isso que eu chamo de estar aos meus pés. — esboçou seu sorriso de raposa, enquanto acendia mais um cigarro.

Ela ficou um tempo sem reação, tentando entender o que tinha acontecido. Muito rápido, nem dava para ver. E mais, agora a lâmina da espada se aproximava do seu pescoço de novo. Por impulso, utilizou a sua própria arma, fazendo soltarem algumas faíscas, cegando ambos.

— Bons reflexos. — elogiou, porém, mal deu tempo para que ela se colocasse de pé.

Passaram-se aproximadamente cinco horas desde que tinham iniciado a luta, entretanto, Tracey não conseguira aferir nem mesmo um golpe, enquanto que seus braços e pernas estavam repletos de cortes, tão simples quanto dolorosos.

“Isso é brincadeira, não é?” — pensou ela. Gadreel nem mesmo fadigava, parecia ter acabado de começar e ainda fazia algumas pausas para fumar quando a garota não consegui se pôr de pé. E dessa vez ele olhava-a desapontado, com certeza esperando mais.

O sol já começava a arder em suas costas, pela primeira vez em uma dúzia de dias, não se dera presença de nenhuma nuvem. A grama parecia muito acolhedora para suas costas naquele momento, a sua vontade era fechar os olhos e quem sabe, acordar só amanhã com algumas panquecas, talvez? Ou não, ela sentia que não ganharia uma refeição e uma cama quente sem cumprir o desafio, embora preferisse arriscar a fala.

— Estou faminta. — sibilou, apoiando as palmas no chão, assumindo uma posição em que ficava de joelhos. — Podemos fazer uma pausa?

— Em questão de vida ou morte, você vai poder parar para fazer um lanchinho e descansar? Se um dia resolver fazer isso, com certeza será apunhalada pelas costas. — bufou.

— Só que isso é apenas um treino! — retrucou rapidamente. — Não é como se eu fosse sair por aí caçando inimigos para minha lista negra. Caso não me alimente, nem levantar-me vou conseguir. — foi sua vez de bufar.

Desistindo de convencê-la, resolveu fazer algo para comerem. Pediu que ela relaxasse nesse meio tempo e Tracey apenas assentiu.

Dirigiu-se ao quarto que dividiam e foi em busca da sua toalha na mala. Ela era simples, na cor azul-clara e tinha algumas flores cinza bordadas, também era bem macia. Contudo, depois de levantar-se, seus olhos bateram de encontro com a estante de roupas ao fundo do cômodo. Sobre ela havia uma moldura bonita. Aproximou-se da mesma, ao mesmo compasso em que sua reação se tornou de surpresa.

Ela conhecia muito bem a pessoa da foto. Os cachos castanhos em forma de tubinhos, os olhos esmeraldas que brilhavam intensamente, as bochechas gordinhas e a pele pálida. Tocou o vidro como se pudesse tocar seu rosto. Não tinha reparado nesse detalhe quando vira Gadreel pela primeira vez.

Qual era o sobrenome de Ruby mesmo? Aurich?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.