Dear Alice,

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Perdoem os errinhos, se por acaso virem algum. Escrevi essa história nas pressas, e, portanto, ainda não tive tempo de revisá-la com mais atenção. Mesmo assim estou postando-a aqui.

Um dia.

Alice estava sentada na cama, com as pernas esticadas e as costas apoiadas em um travesseiro macio. Gostava do ambiente onde se encontrava, um quarto tipicamente feminino, adornado com estantes cor de rosa, ursinhos de pelúcia e, se olhasse bem, alguns estojos de maquiagem (praticamente intocados) e alguns livros didáticos.

As paredes brancas lhe proporcionavam uma sensação de paz e harmonia, o que ela raramente tinha o prazer de sentir. Com exceção, é claro, de quando alguém falava com ela. Adorava quando lhe davam atenção, quando olhavam fixamente para ela e lhe transmitiam palavras. Amáveis ou não, não ligava. Gostava de ouvir, não importava o que fosse.

Seus olhos moveram-se em direção ao relógio redondo e tosco na parede. Estava naquela casa a mais de vinte anos. Objetos antigos a intrigavam e a fascinavam. O relógio possuia um pêndulo que não parava de se mover de um lado para o outro. Ah, como a irritava, aquele pêndulo.

Leu as horas. Estava na hora. Daqui a alguns minutos ela chegaria. E, mais uma vez, Alice teria que ouvi-la.

Passaram-se dois minutos. Alice escutou as pisadas na escada. Era ela. Havia chegado, finalmente.

A maçaneta da porta moveu-se.

Isadora entrou no quarto, e seu rosto iluminou-se com um sorriso límpido e um tanto inocente quando pousou os olhos em sua amiga Alice. Largou a mochila em uma pequena cadeira e passou as mãos rapidamente por todo o cabelo, improvisando um pente com os dedos. Dirigiu-se até a cama.

– Querida Alice... Ah, Alice. Senti sua falta. – Sentou-se na cama e envolveu Alice em seus braços, enquanto acariciava os cabelos escuros e encaracolados de sua amiga. – Preciso conversar com você. Preciso tanto, tanto... Você nem imagina o quanto.

Sim. Alice sabia.

– Hoje, – Prosseguiu Isadora, ainda acariciando os cabelos da colega, de uma forma um tanto perturbadora e frenética, como se ela precisasse fazer aquilo para se manter sã – Hoje, sim, hoje, hoje foi um dia especial. Consegui apresentar um trabalho na escola. Passei cinco minutos falando, você acredita? Cinco minutos! E não gaguejei, não esqueci as falas e nem falei baixo demais. Todos me aplaudiram. Eu gostei.

Ah, grande coisa. Alice gostava de ouvir Isadora contar suas esplêndidas “vitórias” mas as vezes ela falava coisas sem o menor sentido. Pensou em lhe dizer algo, talvez um “Muito bem!” mas lembrou-se que não podia fazer isso.

– Querida Alice – Isadora continuou, ainda com os cabelos escuros entre os dedos – Aconteceu outra coisa. Essa foi mais importante do que meu adorável trabalho. Ah, sim. Muito mais importante. Encontrei isso no meu caderno hoje. – Isadora finalmente largou os cabelos de Alice e abriu sua mochila. Pegou seu caderno e o folheou, até que um pequeno pedaço de papel caiu. Pegou o papel e colocou nas mãos da amiga. – Leia, leia!

Alice baixou os olhos e observou o bilhete. A letra que estava ali era grande, irregular e inclinada para a direita, como se fosse em itálico. Letra de homem. Leu:

“Isadora,

Acho que eu deveria ser menos tímido, mas esse é o melhor jeito de dizer que eu gosto de você. Acho que alguém como você não iria gostar de mim, mas pelo menos eu disse (quer dizer, escrevi) o que sinto.

A.M”

Meu Deus. Que ridículo. Que homem se declararia para uma menina por meio de um bilhete horroroso e ainda por cima exageradamente cliché? Mas tudo bem, Alice sabia que, infelizmente isso era bastante comum, mesmo que não aprovasse a ação.

Sentiu pena de Isadora, mas é óbvio que ela havia ficado muito feliz com esse bilhete. Talvez essa tivesse sido a maior “vitória” da semana. Mais uma vez pensou em dizer algo, mas Isadora já havia tomado o bilhete de suas mãos e falou quase aos gritos:

– A.M é um verdadeiro amor! Nunca vi um garoto tão romântico e criativo. Às vezes, sinto que ele fica me olhando. Camila disse que já o viu olhando para mim, e contando algo para um amigo, rindo.

Camila era a única amiga (ou pelo menos o que mais se aproximava disso) de Isadora na escola.

Alice não gostava muito de Camila. Nunca havia visto essa garota, mas não gostava dela, e nem mesmo sabia o porquê.

Isadora ficou de pé, e Alice a encarou, embebida em pensamentos.

– Alice... Acho que vou falar com A.M.! Espero que ele não desista de mim – Deu um pequeno giro, como se estivesse usando um vestido rodado – Aah... Estou tão animada. Tudo está indo tão bem, Alice. Você não acha? Esperava que tudo fosse mais difícil, ah sim, esperava... Esperava....

E saiu do quarto dando pequenos giros, divertindo-se com seu vestido invisível.

Dois dias Depois.

– Querida Alice...

Isadora, dessa vez, havia chegado mais tarde, o que deixou Alice um pouco preocupada. Talvez estivesse ocupada na escola. Ou talvez tivesse alguma coisa a ver com A.M. Não que Alice se importasse com isso.

– Querida Alice... – Como de costume, Isadora alisava os cabelos negros de sua companheira – Faz dois dias que não vejo A.M. Ele faltou todas as aulas. Não sei o que aconteceu. Estou triste. Não tive nenhuma vitória esses dias. Seria essa uma recaída? Será que vai voltar tudo de novo? Tenho tanto medo. Você pode me salvar, não pode? Me ajudar, ao menos?

Ah, não há nada que eu possa fazer em relação às suas fraquezas, sua boba.

– Não me olhe desse jeito, Alice. Às vezes você me assusta.

É mesmo? E ainda vem aqui falar suas bobagens comigo, todos os dias. Mas espero que não se vá. Eu amo ouvir.

– De vez em quando sinto uma dor bem aqui – Pôs a mão no centro da testa – Mas quando falo com você, melhora. Desculpe estar falando esse tipo de coisa, mas é que eu realmente estou triste... E você é muito importante para mim. Acho que se um dia se for, sou capaz de morrer! Você entende? Nunca me deixe, nunca, nunca, nunca...

Alice encarou Isadora. Era uma garota estranha, sem dúvidas. Magra demais. Seu cabelo era curto e claro, e sua franja quase lhe cobria os olhos. E, com toda certeza, tinha sérios problemas.

– Fiquei até tarde na escola hoje, esperando A.M. Será que sou responsável pelas faltas dele? Camila me chamou de louca, disse que eu era muito exagerada. Acho que ela irá se afastar de mim, não quero perdê-la, Alice, não quero. Seria como perder você, seria como perder você... E se A.M tiver morrido? Nem seus amigos sabem o que aconteceu com ele, e se... E se por acaso o espírito dele aparecer, e...

Ótimo, além de louca é uma paranoica, essa Isadora.

– Oh, me perdoe, perdoe, Alice... Devo estar parecendo uma louca, hm?

Oh, você não imagina o quanto está parecendo.

Isadora levantou-se da cama saiu lentamente do quarto, dando aqueles pequenos giros. Estava com a calça que usava na escola, mas fingia que usava um belo vestido, e segurava a saia invisível com os dedos. Alice a encarava, séria

No fundo, Isadora sentia inveja de Alice. Era tão bela, e não precisava se importar com quase nada, aquela Alice sempre tão calada, pronta para ouvi-la sempre. Por que nunca falava? As duas não eram amigas? E se como Camila, Alice também tivesse medo dela e achasse que ela fosse exagerada ao extremo?

Isadora fechou a porta e Alice ficou sozinha no quarto. Sozinha com aquele pêndulo, que parecia estar ali unicamente para lhe irritar.

Ah, como odiava aquele pêndulo.

Passaram-se mais três dias.

– Querida Alice. – Isadora havia tirado a farda da escola e usava um vestido frouxo, branco com ramos de flores vermelhas. Pelo menos o vestido girará junto com ela dessa vez. – Hoje, eu tive minha grande vitória. Sim, eu tive. A.M veio para a escola. Ele está bem. Não está morto. Era só uma gripe, você acredita?

Uma gripe? Nossa, difícil de acreditar. Era mais provável que estivesse morto. Pobre Isadora.

– E eu consegui falar com ele. Ele deu um beijo na minha bochecha, você acredita? Eu não estou namorando com ele, não ainda. Tem um problema, ah, um problema. Ele tem muitas amigas, muitas amigas para um garoto tímido, como disse no bilhete. Isso me perturba um pouco. As amigas o abraçam, e ele também beija as bochechas delas, na minha frente, como se eu não existisse. E se a minha bochecha for só mais uma bochecha? E se ele estiver escrito um bilhete como aquele para cada uma delas?

Sem dúvidas a sua bochecha é só mais uma. E o seu bilhete também. É só mais um bilhete para ele, boboca.

– Pelo menos eu senti os lábios dele. Essa foi a vitória do dia. A grande vitória do dia. Mas... Mas... Hoje, não houve só uma vitória. Houve uma coisa ruim também. Camila não é mais minha amiga.

Bom, isso já era esperado.

– Eu comecei a chorar no meio da aula de novo. Não consegui me conter. Aquela vontade de chorar me invadiu novamente e, fraca como sou... Isso assustou Camila e ela nem olha mais para a minha cara. Eu até entendo, é estranho uma pessoa começar a chorar sem motivo. Minha tia Roberta veio me buscar no meio da aula por causa da minha choradeira. Ela me comprou ummilk-shake de morango, meu favorito. Ah, você sabe, Alice, sabe que não gosto de chocolate. Bem... O milk-shake conseguiu parar as lágrimas, mas elas logo voltaram quando olhei o rosto de tia Roberta com atenção, ela estava com aquelas marcas de novo. Tio Adam deve ter batido nela, mais uma vez. – Fez uma pausa, como se tivesse lembrado de algo importante, mas logo retornou a falar — Tantos problemas, Alice. E você não tem nenhum, sua desgraçada. Talvez seu único problema tenha ser que ouvir os meus.

Isadora levantou-se abruptamente da cama, e saiu rodopiando do quarto, murmurando: “Ele me beijou, beijou, senti os lábios dele, senti...”

E, como Alice havia previsto, o vestido a acompanhou em sua dança.

E mais uma vez, ela ficou sozinha no quarto, apenas com aquele pêndulo.

Uma semana se passou.

– Querida Alice... Alice... Onde está você?

Isadora não conseguia encontrá-la. Queria conversar com ela. Queria lhe dizer que sentiu os lábios de A.M em sua boca, que sua tia Roberta havia perdido um olho por causa das surras, que Camila havia arranhado o joelho na aula de educação física, porque tropeçou em uma pedra que não deveria estar naquele local.

Mas Alice não estava ali para ouvir.

Havia procurado em todos os lugares. Alice não estava na cama, seu lugar favorito. Também não estava na sala, nem na cozinha, nem no quintal. Até nos cestos de lixo Isadora procurou, mas Alice parecia ter evaporado.

Aquela maldita vontade de chorar. Ia chorar de novo. De novo?

Uma mulher saiu de um dos quartos da casa. Era magra como Isadora e era bastante parecida com ela, mas seus cabelos já estavam grisalhos e seus olhos eram castanhos, embora os de Isadora fossem verdes. Sua mãe.

– Mãe... Mãe – Choramingou Isadora – O que aconteceu...

– Eu a joguei fora. – Disse a mulher. – Você estava passando tempo demais conversando com ela. Talvez faça mal para você. Era só uma boneca, Isadora.

***

Alice estava em uma caixa. Sentiu-se surpresa quando a mãe de sua dona entrou no quarto sem aviso, a pegou pela cintura e colocou-a dentro de uma caixa de papelão, sem dizer uma palavra sequer. No fundo, Alice sabia que a mãe só queria o bem da filha, mas achou que ela não precisava jogá-la fora. Quem iria ouvir agora? A caixa estava lacrada e, pelos sons de veículos, estava abandonada em uma estrada ou em uma rua movimentada. Os sons dos carros não eram uma voz muito agradável de se ouvir. Esperava que alguém a encontrasse e lhe desse atenção. Precisava de atenção.

Alice gostaria de ter levado na memória uma boa lembrança da casa que fora seu lar por tantos anos. Lá, ela foi relativamente feliz. Porém, a única coisa que viu antes de ser colocada na caixa escura fora o pêndulo.

Ah, como odiava aquele pêndulo.

Fim.

Notas finais
Obrigada por terem lido.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!