Dean e May
7 Sorte
Notas iniciais
Pov. Dean
Fazia horas que eu estava dentro do quarto jogando uma bolinha na parede, o que mais eu poderia fazer? Estou aqui imobilizado feito inútil por causa desse tornozelo estúpido. Quase não consegui dormir à noite, tanto pelo jogo, quanto pela dor no tornozelo, eu deixei ele em cima de um travesseiro, com uma bolsa de gelo amarrada, o que aliviou a dor, mas ainda estou com raiva pelo jogo.
Claro que refleti melhor sobre minhas atitudes de ontem, eu fui idiota mesmo, até descontei na May que não tinha nada a ver com isso, mereci aquele tapa. E que tapa! Acho que em todos esses anos de convivência, ela nunca me deu um tapa com tanta vontade, acho que realmente passei dos limites. Já passava das 9:00 hrs da manhã, a casa estava silenciosa, resolvi ir até o quarto da May pra me desculpar, bati na porta várias vezes, mas nada dela atender, entrei, o quarto estava vazio. Na verdade, nem parecia que ela tinha dormido lá hoje. Fui então em direção as escadas, não tinha como eu descer, então apenas observei de cima se tinha alguém.
— Alguém?! – Perguntei lá de cima, sem resposta. É elas tinham saído, quando estava voltando para o meu quarto ouvi um barulho de carro, voltei pra escada.
— Dean? – Era o meu pai! Nossa, não tinha como ser melhor! Ele entrou e acenou pra mim
— Paaai! – Acenei de volta, tive vontade de correr para abraça-lo, mas não tinha como, então ele veio até mim.
— Como vai esse tornozelo, campeão? – Ele perguntou em meio a um abraço
— Já estou bem melhor – Disse mostrando o tornozelo – É uma torçãozinha, tenho certeza de que até conseguiria jogar e...
— Dean, será possível que depois de tudo o que aconteceu ontem, você ainda insiste nisso? Se pensa que não concordei com sua mãe, está muito errado, até acho que ela pegou leve demais com você, se bem te conheço você insistiu pra que o treinador te deixasse ficar mais tempo depois do fim do treino né? – Ele disse e eu assenti de cabeça baixa – Agora saiba que por causa de sua teimosia você vai ficar mais de uma semana em casa, pensando no que fez, até seu tornozelo se recuperar! – Ele continuou, um pouco zangado
— Sim, pai. – Eu concordei, parece que a May estava certa, meu pai não iria me deixar jogar. Ainda sério, ele me ajudou a descer as escadas, fomos para a cozinha e ele preparou meu café da manhã. – Pai, eu fui um babaca né?
— Tá falando de qual das várias vezes? – Ele debochou de mim, enquanto servia o café.
— Há há... Eu to falando sério! – Exclamei
— Acho que você já sabe a resposta – Ele disse, ficando sério. – Dean, você não é mais um garotinho de 5 anos, tá na hora de passar a arcar com as consequências dos seus atos e saber aceitar o que seus pais decidem! Tem que aprender a não agir por impulso, você pode magoar muita gente, assim como magoou sua mãe ontem. Você sabia que caso você jogasse hoje, poderia piorar a torção, virar uma fratura e talvez você nunca mais pudesse jogar? – Fiquei sem reação, eu nem tinha pensado nisso
— Olha, mas acima de tudo, você tem que aprender a recomeçar e se redimir com quem você magoa. Passado é passado, dos erros só deve ficar o aprendizado – Ele concluiu, bagunçando meu cabelo – Agora come, não vai se recuperar se não tiver forças — Pensei bem e agora acho que percebo quanta sorte tenho.
Pov. May
— Catarina! Você não imagina o quanto eu estava ansiosa pra te conhecer! – Segurei em suas mãos que rapidamente me puxaram para um abraço, ela tinha um abraço tão aconchegante, tipo abraço de vó. Foi tão nostálgico, me fez lembrar da minha avó que, infelizmente, não posso mais abraçar.
— Imagino, porque eu estava mais ansiosa ainda e isso é um problema. – Ela falou com um sorriso fofo — Já vou te contar um segredo, quando fico ansiosa não consigo parar de tricotar, acho que pela decoração da minha casa dá pra perceber que estive muito ansiosa. Se eu continuasse, ia fazer um cobertor pra proteger a casa inteira no inverno – Sussurrou pra mim, o que me fez gargalhar. O olhar dela transmitia tanta paz, era como se sorrisse com os olhos.
— Ah, mas que rude da minha parte, vocês aí em pé e eu fazendo piadinhas. Sentem-se, a casa é de vocês. – Ela continuou, logo eu e a tia Lucy sentamos no sofá ao lado da poltrona que a Catarina estava.
— Bom, vou deixar as miladys conversarem, enquanto isso, vou fazer um chá pra nós – Disse o Charles, com seu jeitinho sempre fofo, já se dirigindo a cozinha.
— Então, May, sinto muito por só poder te convidar pra vir aqui agora, passei por um período bem chato, uma daquelas doenças de velho. Mas isso não precisa ser comentado, porque hoje é dia de comemoração! O importante é que agora estou novinha em folha e pronta para mais aventuras. – Ela falou orgulhosa de si e nós rimos
— A casa de vocês é incrível! E o jardim! Nossa, nem tenho palavras pra definir tanta beleza! – Exclamei entusiasmada – O que faz pra deixar aquele jardim tão lindo? – Perguntei ansiosa pela resposta
— Um mágico não revela seus truques – Ela disse, então fiz uma cara tristonha – Brincadeirinhaaa.. – Ela adicionou, quem diria que a Catarina era tão brincalhona – Meu segredo é simplesmente amor! Sei que é uma resposta muito clichê, mas durante todos esses anos que cuido do meu jardim, esse tem sido o meu grande truque – Fiquei um pouco pensativa, sempre achei que eu colocava muito amor nas minhas flores, porque será que elas não ficavam desse jeito – Além disso, acho que são coisas que só posso mostrar na prática.
— May, durante todo esse tempo que o Charles tem me falado sobre você, não consigo não lembrar de mim mesma na sua idade. E acho que, modéstia parte, tenho muito a te ensinar, afinal compartilhamos do mesmo amor pelas flores, o que acha de ser minha aprendiz? – Ela perguntou, o que me surpreendeu e mais do que isso, me deixou muito feliz!
— Claro! Claro que quero! Quando começamos?! – Perguntei apressada
— Você decide, mas eu proponho que comecemos na segunda – Ela disse
— Certo, segunda então! – Respondi com um sorriso de orelha a orelha
— Pobre Sra. Williams, nos empolgamos tanto na história das flores que a deixamos de lado. O Charles também me fala muito sobre você, de como é uma mãe incrível – Catarina falou e a tia Lucy sorriu envergonhada
— Nada, eu tenho muito a aprender ainda, às vezes me vejo perdida, sem saber o que fazer – Tia Lucy respondeu
— Ah, mas isso é típico da vida, a gente nunca sabe o que fazer, por isso é tão emocionante, é como um jogo de tentativa e erro só que com consequências reais – Disse Catarina – Ainda bem que quase nunca jogamos sozinhos, quando temos quem nos apoie, fica bem mais fácil – Ela terminou com um sorriso leve
— Sim, é verdade – Tia Lucy respondeu, enquanto isso eu só observava, acho que ainda não tenho tanta experiência com a vida pra falar sobre isso.
— Olhem, esses são meus filhos – Ela falou, enquanto nos mostrava um retrato que estava numa mesinha próxima à onde estávamos. – George, Louise e a minha caçula Anna, todos já têm suas próprias famílias e moram espalhados pelo mundo. Ainda bem que vivemos numa era tecnológica e quando a saudade aperta é só fazer uma ligação pelo Skype – Ela acrescentou rindo, a gente nunca espera que idosos saibam usar tecnologia tão bem hehehe – Mas às vezes, quero vê-los na minha frente, não através de uma câmera. Poder abraça-los, reclamar do quanto estão magros e perguntar se estão comendo direito. Infelizmente, nos reunimos poucas vezes ao ano e raramente consigo reunir todos, justamente pela distância e compromissos que cada um tem. – Ela deu uma breve pausa e uma lágrima escorreu por um de seus olhos, ela rapidamente a enxugou e voltou a sorrir – Ah, esses assuntos tristes de novo! Desculpem-me, queridas. Hoje não deve haver tristeza alguma! Vamos para o jardim – Ela disse já se levantando e pegando sua muleta
Seguimos ela e nos deslumbramos ainda mais com a beleza daquele jardim, além do aroma que exalava que não tem como explicar, era uma mistura de perfumes que acabou criando um novo e mais encantador ainda. Era tão bonito ver como a Catarina tratava cada uma de suas flores, não parecia haver uma mais importante, todas eram especiais. Ela passava pelo jardim sentindo o aroma de cada uma e às vezes até “trocando” umas palavrinhas, sempre achei que era a única que falava com elas.
O dia passou bem rápido, almoçamos por lá mesmo, o Charles é um cozinheiro exímio (palavra que aprendi depois que a tia Lucy elogiou o Charles)! Foi um dia bem emocionante e inesquecível. Mal podia esperar para ter outro como esse. O pior foi ter que ir embora. Nos despedimos com dor no coração, realmente não queria ir embora e só de lembrar quem encontraria em casa, a vontade de voltar se tornava menor ainda.
— Tchau Catarina, nos vemos na segunda! – Falei em meio a um abraço apertado.
— Tchau florzinha, mal posso esperar! Eu e minhas flores estaremos te esperando com alegria – Charles limpou a garganta insinuando que ela tinha esquecido de alguém – Ah, claro, você também querido – Ela deu um beijo na bochecha do Charles, que sorriu. Após isso voltamos para o carro, rumo a casa da tia Lucy.
Pov. Dean
Passei o resto do dia descansando e jogando vídeo-game com meu pai, fazia tempo que não passávamos tanto tempo juntos. Estávamos no meio de uma partida quando ouvi o motor do carro da minha mãe, paramos de jogar e logo minha mãe já estava na sala com uma expressão cansada, foi um dia cheio pra elas.
— Querida! – Meu pai foi ao encontro dela, a abraçou e deu um beijo – Como foi o passeio?
— Foi ótimo, o Sr. e a Sra. Gerstner são uns amores, só não foi melhor porque estou muito cansada, nem pude aproveitar tanto – Ela disse, enquanto colocava a bolsa no sofá. – E você Dean? Se sente melhor? – Me surpreendi por ela ainda demonstrar tanta preocupação com alguém que magoou ela.
— Sim, já não dói tanto – Respondi um pouco envergonhado pelo que tinha feito. – Mãe, eu... sinto muito por ter sido tão idiota ontem, você só não me deixou jogar porque queria meu bem, fui muito crianção em não aceitar e fazer todo aquele show. Se não quiser me perdoar tudo bem, eu mereço – Olhei pra ela e vi que a expressão dela era outra, seu sorriso tinha voltado.
— Claro que aceito suas desculpas, querido. Sou sua mãe, eu sempre vou te perdoar, mas isso não é motivo para agir mal viu? Fico feliz que tenha reconhecido seu erro e espero que toda vez que cometer um deslize, aprenda com ele. – Nos abraçamos e senti menos um peso nas costas e a alegria de poder fazê-la feliz.
— Mas mãe, cadê a May? – Perguntei, sendo que até agora ela não tinha aparecido.
— Ela preferiu ir pra casa, não disse o porquê, mas acho que ela tá bem magoada com você também.
— Poxa e nem quis me ver? Ela está realmente brava com você, garotão – Falou meu pai. Me levantei com a ajuda da muleta que meu pai trouxe e saí de casa em direção à casa da May, pra minha surpresa, a casa estava trancada e com as luzes apagadas. Então voltei pra minha casa, fui até o meu quintal e passei pela portinha que dava no quintal dela. Meu palpite estava certo, pois ela estava sentada no quintal, olhando para as estrelas, como sempre fizemos quando éramos mais novos.
Fui até ela e me sentei ao seu lado sem falar nada. Olhei para o céu que estava especialmente estrelado nessa noite. – Olha só, se não é a constelação da gravata borboleta – Falei, relembrando nossa brincadeira favorita: Nomear constelações. Ela continuou um pouco séria, mas logo esboçou um sorriso tímido. – E aquela ali é a da frigideira. – Continuei
— Panela – Ela finalmente falou
— Que? – Perguntei
— Aquela é a constelação da panela – Ela me olhou com cara de sabe-tudo (nesse caso de lembra-tudo)
— Ah, e-eu sabia! Só errei porque eu sabia que você iria querer me corrigir e ia começar a falar – Respondi bem, apesar de ela não acreditar e começar a rir da minha cara. Pelo menos ela riu, nem tudo deu errado.
— Ah, mas aquela não tem como esquecer, é a constelação Dean, May e Rich, também conhecida como a constelação dos três mosqueteiros. Lembro que a gente escolheu esse nome pra aquela porque essas três estrelas sempre estavam juntas, assim como a gente. – Falei e sorri ao me lembrar do passado.
— A gente sempre disse que essa constelação representaria nossa união, que sempre estaríamos juntos independente de quanto tempo passasse. – Ela falou agora olhando para mim, o que me fez repensar nas minhas atitudes nos últimos tempos.
— Dean, não pense que o tapa que te dei ontem foi apenas pelo que você me disse, eu estou magoada porque você não é mais o mesmo. A gente prometeu que sempre estaríamos juntos, independente do que acontecesse e agora eu já não sei se você ainda está realmente disposto a cumprir essa promessa. – Ela falou o que parecia ter sido guardado por muito tempo. – E-eu não sei se você está disposto a colocar em risco sua popularidade pra andar com uma estranha como eu, não sei se está disposto a ouvir um pouco sobre como me sinto ao invés de simplesmente falar sobre você, eu realmente não sei se ainda quer manter essa amizade.
Fiquei sem palavras, não imaginava que ela se sentia assim, talvez isso só demonstre mais como acabei me afastando dela – May, eu... me desculpa, eu realmente não imaginava que eu estava sendo tão idiota, fui tão egoísta que não percebi. Você é e sempre será minha melhor amiga, não tem ninguém em que eu confie mais e de maneira alguma eu quero correr o risco de te perder, muito menos de te fazer mal como eu tenho feito. – Abracei ela que começou a chorar – Como eu não sou tão bom com promessas, eu juro que vou ser um amigo melhor
— Um juramento é um tipo de promessa, Dean – Ela disse ainda em meio ao abraço já parando de chorar.
— Ah é? Então eu não vou dizer nada, eu vou apenas ser – Falei bagunçando seu cabelo, o que a fez rir e beliscar meu braço – Ai! Porque fez isso?
— Porque não gosto que baguncem meu cabelo e porque você merece – Ela falou dando um sorrisinho
— Tá bom, eu mereci mesmo, mas de agora em diante não vou
— Ownn – Ouvimos vindo de lá do meu quintal, seguimos o som que foi substituído pelo som de pessoas correndo até a sala, tive uma “leve” impressão de que eram meus pais, até porque eles estavam agindo bem estranhamente quando chegamos na sala, meu pai deitado no sofá usando os chinelos, lendo um livro e minha mãe na bancada da cozinha olhando pro nada com a mão apoiando o queixo.
— Err.. vocês estavam nos espionando? – Perguntei
— Nãaaao – Responderam em uníssono, o que só aumentou nossas suspeitas. Eu e May nos entreolhamos.
— Mas vocês são muito fofos! – Minha mãe disse se entregando e vindo apertar nossas bochechas. Saímos correndo e gargalhando. Realmente, eu tenho muita sorte.
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