Dean e May
20 Oportunidade
Notas iniciais
Pov. Dean
Alguns meses se passaram e o que eu posso dizer é que eles não foram nada fáceis. Mas, ao mesmo tempo, sinto que há muito tempo não me sinto tão vivo. Como pode ser? Vou explicar. O dia posterior à festa da Susan foi realmente horrível (como eu já esperava), pude perceber naquele dia que diferente do que eu pensava, aqueles amigos da escola que eu achava que tinha, não eram verdadeiros. Bastou saberem o que tinha acontecido pra que começassem a rir da minha cara e, quem não riu, simplesmente se afastou de mim, pra não serem vistos ao lado do trouxa que tinha me tornado.
Eu sei, esse papo tá meio deprê, mas foi exatamente assim que me senti durante esse tempo, especialmente no primeiro mês que sucedeu o famigerado dia em que eu me tornei o grande corno da escola. Nas aulas aproveitavam qualquer oportunidade pra fazer piadas sobre mim, nos treinos de basquete, a mesma coisa e até quando eu andava nos corredores ouvia comentários e risadas nada discretas. Foi difícil de aguentar e ir para as aulas todos os dias foi um martírio, especialmente porque até as pessoas que não sabiam, olhavam pra minha cara cheia de machucados e perguntavam o que tinha acontecido. Ou seja, era um assunto que nunca se tornava velho.
Os únicos que se mantiveram sempre ao meu lado, foram aqueles que eu sempre soube que eram os meus amigos verdadeiros. May e Rich, os meus dois mosqueteiros que se irritavam e me protegiam todas as vezes que ouviam alguém zombar de mim. Eles foram o motivo de eu ter aguentado firme todo esse tempo e estar com eles sempre, me fez finalmente voltar a ser quem eu era: O Dean que não estava nem aí pra popularidade ou reputação, mas que só queria se divertir com seus amigos. Como eu disse antes, ao mesmo tempo que esses meses foram uns dos mais difíceis da minha vida, eu pude viver de verdade ao lado dos meus amigos, procurando não me preocupar com o que os outros falavam de mim.
Nós pudemos jogar muito video game, ver vários filmes, fazer esporte juntos e colocar o papo em dia. Me sentia com 7 anos novamente e sabia que com eles eu podia compartilhar tudo o que pensava e sentia, sem me preocupar com nada, pois sabia que eles me entendiam como ninguém. Quer dizer, não sei se posso dizer que compartilhei tudo o que sentia, pelo menos não com os dois...
— O QUE?! VOCÊ GOSTA DA MAY? — Rich grita, boquiaberto. Eu me desespero e faço um grande shhhhh, estávamos na quadra de basquete perto da minha casa. Acho que a May, provavelmente, não escutava nada de casa, mas era melhor não arriscar. Depois do momento de desespero, assenti com a cabeça para responder a pergunta que o Rich tinha feito. — Acho que eu sempre suspeitei que algum dia poderia acontecer, mas confesso que não percebi nada. Você é muito bom pra disfarçar, cara. Eu quando gosto de alguém, sempre é muito óbvio. — ele diz como se fosse uma grande revelação, Como se eu nunca tivesse visto a cara que ele sempre fazia quanto estava perto da Susan.
— É, eu imagino que eu seja mais discreto do que você — ri debochado, jogando a bola de basquete nele que estava sentado no chão da quadra. — Mas pra dizer a verdade, não tem tanto tempo que percebi também, acho que eu só me dei conta disso no dia do aniversário da Susan — falei, lembrando com um pouco de angústia daquele dia horrível, mas que me trouxe essa boa descoberta.
— Ahh, no dia em que você descobriu que era corn... quer dizer, naquele dia ruim que você teve hehe — fiz uma cara irritada pro Rich e dei um pequeno chute nele. — Ai, tá bem eu mereci. Mas, voltando ao assunto, o que você vai fazer em relação a isso? Contar pra ela? — Só de ouvir essa pergunta já senti minhas mãos suarem e o meu rosto esquentar.
— Não! Não agora, pelo menos... — eu disse, um pouco embaraçado. Rich me olhou com uma cara de interrogação — É que sei lá cara, não é só o fato de eu ter medo de ser rejeitado, mas ela é minha melhor amiga, se eu falar uma coisa desse tipo antes de ter certeza que ela sente o mesmo, eu posso acabar estragando tudo. E isso não é uma coisa nada simples, já que ela fez parte de ao menos 90% dos momentos da minha vida. Se ela resolver se afastar quando souber o que eu sinto, eu não vou saber o que fazer. — disse, talvez gesticulando excessivamente. Rich me olhava agora com uma feição mais compreensiva.
— Tá bem, até que faz sentido. Mas como você vai saber se ela sente o mesmo? — Rich perguntou.
— Não sei, nunca tive que lidar com uma situação assim, geralmente as garotas que gostam de mim demonstram muito claramente o sentimento. — "A Susan em especial" pensei, mas preferindo não dizer em voz alta pra não voltar aquele assunto novamente — Mas eu acho que em algum momento a gente acaba sentindo, se a pessoa corresponde, acho que vou conseguir ver. Acho que não sou tão devagar assim, né? — comentei e Rich arqueou uma sobrancelha.
— Prefiro não comentar — ele diz, rindo. Fiquei sem entender, mas deixei pra lá. Era só o Rich aproveitando oportunidades pra me zoar como sempre.
No fim das contas, essa tarefa de descobrir se a May sentia o mesmo por mim, não foi nada fácil. Ela sempre foi legal comigo, como faço pra saber se ela sente algo a mais ou não? Era quase impossível. Fora que ela estava um pouco estranha nesses últimos tempos, vez ou outra encontrava ela um pouco pensativa ou até triste. Imaginava que ela ainda sentia o luto pela Catarina e também soube que o casamento dos pais dela não vai muito bem, então imagino que esteja preocupada. Quando eu perguntava, ela só dizia que estava bem, como sempre. Ela nunca gostou de preocupar os outros.
No nosso aniversário de 14 anos fomos ao parque de diversões, eu, a May, o Rich, a mamãe e o papai. E tenho que dizer, que mesmo com todo o caos que minha vida pública tinha se tornado, foi um dos melhores aniversários que já tive. Andamos em todos os brinquedos mais radicais, afinal finalmente tínhamos altura para eles (até o Rich que tinha 12 anos e sempre foi baixinho, mas tinha crescido bastante nos últimos meses). A May ainda não parecia 100%, mas nesse dia eu fiz de tudo pra que ela se divertisse ao máximo, acho que nunca fiz tantas piadas na minha vida e toda vez que eu conseguia fazer ela rir, sentia as "borboletas" no meu estômago. O sorriso dela conseguia fazer meu estômago embrulhar mais do que a montanha russa. É, eu estava completamente rendido haha
O dia inteiro foi repleto de diversão, comemos tudo que podíamos, jogamos em todas as barracas de jogos, até consegui pegar uma girafinha de pelúcia pra May (o que sei que é bem clichê, mas ela pareceu gostar, então talvez não seja o tipo de coisa que funciona só nos filmes). No fim do dia, sinto que estávamos todos muito felizes. Nos sentamos em um banco pra apreciar o pôr do sol.
— Gente, vou aproveitar que hoje é um dia especial pra mim, pra agradecer vocês de coração por todo apoio que sempre me deram, especialmente nesse período difícil que estou passando. — olhei pra eles, sorrindo um pouco timidamente. — Queria também pedir desculpas por ter sido um babaca nos últimos anos, vocês sempre estiveram comigo mesmo quando eu não dava o devido valor à vocês. Hoje, reconheço mais do que nunca que eu não seria nada sem vocês e que tenho os melhores amigos do mundo! — terminei o discurso e vi os olhos deles lacrimejarem, demos um abraço em grupo, todos sorrindo de orelha a orelha. Esse era um momento que ficaria na minha memória pra sempre.
— Dean, a gente que agradece, você não foi babaca — May disse e eu arqueei uma sobrancelha — Tá, talvez um pouco — ela riu, linda como sempre. — Mas, a verdade é que você sempre esteve ao nosso lado quando a gente precisou, né Rich — ela olhou pra ele e ele assentiu. — Agradeço à você por ser o melhor amigo do mundo. — Por mais que a palavra amigo na situação em que estamos, não seja sempre tão desejada, fiquei muito feliz de ouvir isso e agora os meus olhos que começaram a lacrimejar, acho que eles me passaram a sensibilidade deles. Passei uma mão nos olhos e eles fizeram "ownnnn". Eu fiz uma careta pra eles e assim, nós voltamos para encontrar o papai e a mamãe.
Outros meses se passaram, e logo já estávamos no final do ano. Era já período de provas e todos pareciam um pouco ocupados já que pra minha turma, seriam as últimas antes do ensino médio e não eram nada fáceis. Em pouco também teríamos o último jogo do ano e eu, estava animado pra finalmente estar indo bem em um campeonato e com grandes chances de jogar na final. Eu já não era mais o assunto da escola, o que não significa que as coisas no time eram fáceis, especialmente porque o Bomba era o capitão do nosso time agora. Então, digamos que tive que engolir muito o meu orgulho pra continuar a jogar o esporte que tanto amo.
A May continuava um pouco estranha e distante, mas normalmente eram momentos, depois ela voltava a ser a May de sempre. A nossa relação continuou a melhorar sempre mais e eu sentia que meus sentimentos só continuavam a crescer, se tornava cada vez mais difícil omitir o que estava sentindo. Mas ao mesmo tempo, não tinha nenhum indício que ela sentia o mesmo, especialmente agora que os testes finais estavam chegando, ela nunca tinha tempo livre, pois precisava tirar ótimas notas. Mayllibel Flower, como sempre uma nerd. Mas a nerd mais bonita de todas.
Pov. Sue
— Não!! Não! Não! Não! Ele não sabe com quem estava mexendo, Elliot!!! Aquele ruivo imbecil! Você acredita que naquele dia ele estava me procurando pra terminar comigo?!! No meio da minha festa de aniversário!!! — eu andava para um lado e para o outro do meu quarto com o telefone nas mãos, que em seguida joguei com raiva na cama, onde Elliot, meu namorado, estava sentado. — Como ele ousa?!
— É um idiota mesmo, pelo menos ele não terminou, acabou encontrando uma surpresinha hehe — Elliot disse recordando de quando o ruivinho nos flagrou.
— Sim, mas tem noção que se isso não tivesse acontecido ele terminaria comigo e sairia dizendo pra todo mundo que tinha tido a audácia de terminar com Susan Valentine?! Ninguém nunca fez nem fará isso! Ninguém rejeita Susan Valentine! — eu disse sentindo a raiva tomar conta de todo o meu corpo. Precisava pensar em alguma coisa pra me vingar daquele garoto. E pensar que eu talvez nunca teria descoberto isso, mas por sorte, um dos populares escutou ele falando com a jardineirinha na biblioteca e, com muito atraso e em troca de uma divulgação do perfil dele no meu Instagram, me contou.
— E qual o seu plano? — Elliot me perguntou, enquanto olhava seus cabelos longos no espelho. Esse garoto as vezes conseguia ser mais vaidoso do que eu, cruzes.
— Ainda não sei, mas tem que ser algo que humilhe ele, agora que ninguém fala mais do que aconteceu naquele dia, temos que achar outra coisa. — eu falei, pensativa. Porém, não conseguia pensar em nada que fosse tão humilhante quanto a última situação.
— Ou então... — Elliot falou finalmente olhando pra mim com a cara de quem teve uma ideia.
— Ou então? — insisti já um pouco irritada com sua demora.
— Podemos fazer ele perder a última coisa que ele tem de importante — ele disse — sua vaga no time, ou melhor, sua chance de jogar na final. — ele conclui com um sorriso malvado, que de todos é o seu sorriso mais bonito.
— Hum, até que eu gostei dessa ideia. — falei sorrindo. — Conte-me mais.
— Tenho certeza que, ele não ainda aceita o fato de que ele não pôde jogar em nenhuma final e agora sei que ele está muito focado em conseguir isso, para provar que ele tem potencial. Se o fazemos não participar novamente, sei que vai ser bem triste pra ele. — ele disse com uma falsa cara de tristeza.
— E é exatamente isso que queremos — eu disse, sorrindo de orelha a orelha. — É por isso que você é meu namorado, Elliot. Tem sempre as melhores ideias. — O recompensei com um beijo. E na minha mente comecei a imaginar como seria satisfatório ver o ruivinho perder a chance de jogar a final de novo, mal podia esperar.
Pov. Dean
— Sabe, o Natal é minha época preferida do ano, acho que até mais do que meu aniversário. — eu disse, do alto da escada, enquanto recebia as decorações da árvore de Natal que eu e May estávamos montando juntos ao som de Last Christmas do Wham! (uma das minhas músicas natalinas preferidas).
— Como se eu não soubesse, você é o tipo de pessoa que começa a escutar música natalina em fevereiro. — ela disse rindo.
— É realmente difícil te dizer uma curiosidade sobre mim que você não saiba né, senhorita? — eu disse, enquanto pegava outro mini papai noel pra colocar na árvore. — Mas é um fato, as músicas são um dos motivos de eu gostar tanto. Mas sei lá, todo o clima de natal pra mim é legal, estar com a família, comer muito, trocar presentes, dizer pras pessoas quanto elas são... — pausei pra olhar pra ela, que no momento estava pegando outra decoração no sofá. Eu suspirei — especiais pra gente.
— Concordo sabe, também é uma época bem legal pra mim, mas é um pouco triste também. Porque sempre foi uma época que vi as pessoas com as famílias nas jantas de natal e o máximo que meus pais fazem é mandar um cartão de Natal pra mim. — ela disse, com um olhar triste. Ai, o que foi que eu fiz. Me abaixei na escada pra ficar mais perto.
— Ei, não fica assim, você sabe que a gente é sua família também. — eu disse, segurando sua mão.
— Eu sei, mas não é a mesma coisa, você sabe. — Ela disse me olhando, ainda com um olhar tristonho. De repente, começa a tocar a versão mais baixo-astral possível de I'll be home for Christmas, péssimo momento pra tocar música triste, levantei a cabeça um pouco.
— Alexa! Próxima música — eu gritei pra o aparelho que tínhamos. E no mesmo momento começa a tocar "All i want for Christmas is you". Eu voltei a olhar pra May e percebi que ainda segurava sua mão e com essa música, não pude não ficar com a cara toda vermelha, soltei sua mão e me levantei rapidamente.
— Cuidado, Dean! Você tá em cima de uma escada, pode cair — ela disse preocupada, segurando rapidamente a escada que balançava um pouco, aparentemente sem perceber nada de estranho na situação.
— Desculpa, me lembrei que temos que continuar ao trabalho, porque daqui a pouco temos que almoçar. — dei uma desculpa esfarrapada que ela pareceu ter aceitado. Realmente, estava cada vez mais difícil esconder esse sentimento, talvez eu devesse começar a pensar em uma maneira ou um momento pra ser sincero com ela.
Os dias se passaram e finalmente chegou o dia do jogo da semifinal. E eu não poderia estar mais feliz. Tinha me preparado muito bem pra esse jogo e sentia que o time estava focado, além de que nunca tinha nos visto jogar com tanta sincronia. Talvez dessa vez conseguiríamos o título e eu poderia finalmente contribuir para isso. Já estávamos nos nossos lugares, só aguardando o início. Olhei pra arquibancada vi a May, o Rich e minha mãe que sorriam pra mim e faziam sinais de encorajamento. Finalmente tinha a oportunidade de orgulhá-los com alguma coisa, depois de tanto tempo só dando trabalho. Me lembrei da última vez em que jogaria uma final e como tinha sido um idiota com todos naquela época, quando não pude jogar por negligência comigo mesmo e meus limites. Mas dessa vez seria diferente.
O jogo começa. Nosso time ganha vantagem, o nosso placar começa a aumentar. Tudo está correndo bem, até que em certo momento tem a oportunidade perfeita, estou próximo da cesta e sem tanta marcação, corro me esquivando dos oponentes e salto para fazer a cesta. Parecia tudo perfeito, até que sinto um forte empurrão, enquanto ainda estava no alto. Por sorte consigo cair bem e não me machuco. Procuro ver quem tinha me empurrado e para minha surpresa, ou não, era ele, o Bomba. Senti meu sangue subir pra cabeça, mas tentei me controlar. Qual o sentido dele fazer isso sendo do mesmo time que eu?! Ele fez um sinal que devia significar "foi mal" e o jogo continuou.
Essa não foi a única vez que o Bomba fez isso, me empurrou ou atrapalhou pelo menos umas outras duas vezes no jogo e eu já estava a ponto de explodir. Até que na terceira vez, quando tive a melhor chance do jogo, ele fez de novo e eu não consegui me controlar. Me levantei rápido enfurecido e dei um soco bem no meio da sua cara, no meio da quadra e do jogo. Os outros jogadores vieram rapidamente nos separar, mas o Bomba conseguiu se desvencilhar e me atingiu também. Eu não iria ser saco de pancadas dele novamente e essa era a minha chance de revidar, por hoje e por tudo. Então também consegui me soltar e o acertei novamente, dessa vez na sua mandíbula e depois no seu queixo. A luta continuou até o juiz chegar e nos expulsar da partida. Eu não podia acreditar no que tinha acontecido. Ao menos levaram o Bomba pra longe de mim, porque eu não queria ver a cara daquele idiota na minha frente.
Fui pro vestiário e me olhei no espelho. Estava com uma cara horrível, de novo. Mais uma vez que eu tinha levado socos daquele imbecil, pelo menos dessa vez eu pude revidar. Não demorou muito pra que o treinador chegasse pra falar comigo e me desse o maior sermão. Tentei me explicar, mas ele não quis ouvir, disse que graças a nossa falta de controle, eu e o Bomba estávamos expulsos da próxima partida (já que muito provavelmente ganharíamos essa). Meu mundo caiu, de novo. Não podia acreditar que não jogaria novamente na final, estava tão perto. Sentia muita raiva ainda, mas isso nem adiantava agora. Ganhar e jogar a final de um campeonato agora pareciam sonhos distantes e com essa cena na frente de todos, era bem possível que nenhum time quisesse me contratar no futuro.
Resolvi sair dali, logo o jogo acabaria e eu não estava a fim de encontrar nenhum dos meus companheiros de time agora. Sentia meus olhos arderem e as lágrimas começarem a encher meus olhos. Corri para um lugar onde ninguém me encontraria, o pequeno campo de beisebol onde costumava jogar antes que eu começasse o basquete. Era um esporte que eu gostava bastante, até o momento que eu vi uma partida de basquete pela primeira vez e meus olhos brilharam. Imediatamente disse ao meu pai que queria trocar de esporte. E cá estou eu, ainda hoje, quer dizer, pelo menos estava.
O campo estava um pouco escuro, corri para trás das arquibancadas e me sentei, ali ninguém me encontraria. Já passei por humilhação demais pra ainda por cima ser encontrado chorando, todos pensariam que estou chorando porque levei uma surra do Bomba. Só de pensar em seu nome já me vinha a raiva novamente.
Eu realmente pensei que quando a gente se tornava adolescente não chorava tanto quanto quando criança, mas parece que eu estava enganado, acho que eu era menos chorão. Quer dizer, eu nunca fui de chorar tanto na frente das pessoas, mas a verdade é que no meu quarto as vezes sim, na maioria das vezes por saudade do meu pai quando ele ficava fora por muito tempo. Mas hoje eu não conseguia segurar, mesmo que não estivesse no meu quarto, chorei tanto que me senti um molenga. Até que ouvi um barulho perto, barulho de passos. Congelei e quase prendi a respiração, torcendo pra que quem quer que fosse não me encontrasse naquela situação.
Alguns segundos depois, vi uma sombra encontrar onde eu estava, essa sombra se aproximou. Era isso, ou seria alguém pra tirar sarro da minha cara ou um serial killer pronto pra me matar. Alguns passos a mais, até que eu percebi que essa pessoa não parecia tão grande assim e nem ameaçadora, muito pelo contrário. Toda a minha tensão se dissipou quando percebi que, na verdade, quem estava na minha frente era a única pessoa que eu queria ver naquele momento: a May.
— Dean? — ela me perguntou, com a voz baixa e olhar preocupado. — Tá tudo bem? — eu neguei com a cabeça e as lágrimas vieram com força novamente. Pronto, era só o que faltava, me acabar de chorar na frente da menina que eu gosto. Mas o que posso fazer se essa menina também é a minha melhor amiga.
Ela, rapidamente, me envolveu em um abraço forte e tentou me consolar com um afago nas costas. Enquanto eu, continuava a soluçar como nunca tinha feito na sua frente (e talvez na frente de ninguém). Ela me abraçava cada vez mais forte, como se quisesse tirar todo o sofrimento de mim.
— May... — eu disse com a voz falha — Eu estraguei tudo de novo — continuo a chorar. Ela se desvencilha do abraço pra me olhar, segurou meu rosto e me olhou firmemente.
— Não ouse nem pensar nisso! Dean, você não teve culpa nenhuma. Aquele... estúpido do Bomba que continuava a te atacar, todo mundo viu. — ela continuou a me olhar, a poucos centímetros da minha face, que me fizeram ter um pouco de dificuldade de me concentrar no que ela estava falando. — E ninguém pensa que você é um perdedor ou nada do tipo, o treinador te deu a punição porque é o que se faz nesses casos, mas tenho certeza que até ele tá do seu lado. — ela disse e eu comecei a me acalmar, apesar do meu coração acelerado — Inclusive, o Bomba foi vaiado por todos, quando entrou novamente na quadra pra sentar na arquibancada.
Pouco a pouco, senti que o nó na minha garganta se desfazia. Minha respiração ainda estava um pouco fora do controle, mas agora era por outro motivo. Depois que a May parou de falar, continuamos a nos olhar e eu nunca tinha me sentido tão nervoso na vida. Minhas mãos tremiam e mesmo que fosse de noite, não estava nem um pouco frio. Apesar de todo meu corpo parecer que iria entrar em colapso, começando pelas altas temperaturas que sentia na minha face, pensei que essa era a oportunidade que eu estava esperando.
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