Dean e May
17 Gincana - Parte 2
Notas iniciais
Pov. Dean
Mais uma prova e a gincana estaria definida. Eu não me considero um cara muito competitivo (apesar de dizerem que sou), eu só gosto de dar o meu melhor em qualquer competição que participo. Esse é um dos motivos pra eu gostar tanto de jogar basquete, a sensação da vitória depois dos meses de treino é muito boa, faz com que eu sinta que tudo valeu a pena. Eu sei que esse pensamento é um pouco problemático, afinal não tem como a gente ganhar sempre, mas não é como se eu não soubesse perder, eu só prefiro evitar ser derrotado.
Depois de alguns minutos de descanso, o diretor voltou à quadra pra anunciar que a caça ao tesouro estava prestes a começar. Eu e as outras duas pessoas da minha equipe que iriam participar da prova fomos até a saída da escola, pois lá seriam dadas as regras para todos os participantes. Percebi que a May também tinha sido escolhida pra participar, era legal ver que estavam dando valor as habilidades dela, nos outros anos ela quase não participava das provas (e quando eu sugeria que ela fosse, ela sempre acabava dizendo que outra pessoa seria melhor do que ela, então também era bom ver que ela estava enxergando o próprio potencial).
Até pensei por um momento que seria legal se ela ganhasse, mas isso estava fora de cogitação, eu não podia perder, minha equipe estava confiando em mim e depois de ter deixado a escola na mão no campeonato de basquete, eu não podia fazer isso de novo. Eu sei, não é minha culpa ter me machucado um dia antes do jogo, mas agora eu tinha a chance de me redimir com todos e eu não iria desperdiçá-la. A professora responsável por essa prova nos explicou como seria. Teríamos que procurar por pistas espalhadas pelos arredores da escola, que nos levariam a outras pistas e que no fim nos levariam ao "tesouro". Isso não seria tão fácil, já que em frente a escola havia uma praça enorme, então teríamos muito trabalho pela frente, mas eu estava preparado para me esforçar ao máximo e encontrar esse tesouro.
Em poucos minutos foi dada a largada. A professora nos deu a primeira pista que levou todos a correrem pra praça que parecia ser a única resposta possível para a charada que ela leu. Nossa equipe decidiu se separar, já que talvez assim fosse mais fácil encontrar um papel pequenininho no meio daquela praça enorme cheia de árvores e bancos. Corri para perto da estátua que ficava no meio da praça, pensei que como esse era um dos pontos mais importantes da praça, a outra pista poderia estar lá, mas quando cheguei, percebi que não era bem assim e eles, provavelmente, tinham escondido em um lugar muito menos óbvio.
Corri em direção às árvores, onde grande parte dos outros participantes estavam e, enquanto procurava, comecei a pensar em algum outro lugar onde a pista poderia estar. O sol esquentando minha cabeça não ajudava nem um pouco, fazia tempo que a cidade não tinha um verão tão quente, acho que a última vez tinha sido há uns 3 anos atrás, na época em que eu e a May costumávamos dar voltas de bicicleta ao redor da praça. Em um desses dias o sol estava tão quente que tivemos que parar no... CORETO! Como eu não tinha pensado nisso antes? Corri o mais rápido que pude em direção ao coreto, algo me dizia que a pista estava lá.
Em poucos minutos, cheguei e percebi que eu não tinha sido o único a ter essa ideia. De dentro do coreto pude ver a May olhando para todo canto, à procura do mesmo papel que tinha me trazido até ali. Engoli em seco, era impossível não ter um dejavú de todas as nossas brincadeiras naquele mesmo lugar, me senti mal por toda a situação em que estávamos. Ela levantou o olhar e levou um pequeno susto ao perceber que eu estava ali. Me segurei para não rir, ela conseguia ser fofa até nas situações mais aleatórias.
Lembrei do motivo de estar ali e comecei a procurar o papel, ela fez o mesmo. Senti que deveria falar algo, mas não sabia o quê, queria acabar com toda essa briga, mas não sabia como. Esses meses em que passamos separados foram os mais chatos da minha vida, tive que me segurar pra não compartilhar com ela cada pensamento aleatório que tinha como sempre fiz, sentia saudade até das lições de moral e brigas por comida. Meu cérebro voltou a esquentar, mas dessa vez não era por causa do calor, percebi que tinha que voltar meu foco para a prova ou então perderia feio.
Olhei para o lado e percebi que a May já estava saindo do coreto, em um impulso, gritei:
— May! — ela se virou pra mim, surpresa. — Eu... queria falar com você — continuei, um pouco envergonhado. Na hora que ela ia falar alguma coisa, um dos integrantes da equipe dela veio correndo e a chamou, pois aparentemente uma pessoa de outra equipe tinha encontrado a segunda pista.
Droga! Fiquei tão preocupado com toda essa situação com a May que agora fiquei pra trás. Ela correu atrás do outro integrante e olhou pra mim por um instante, mas depois voltou a olhar pra frente. Percebi que era hora de eu procurar minha equipe também, pra ir pra onde a equipe que tinha encontrado a pista tinha ido. Essa conversa teria que ficar pra depois.
Não demorou muito para que eu encontrasse minha equipe, eles já sabiam pra onde o pessoal que tinha encontrado a pista tinha ido, então corremos para esse lugar. Mas quando chegamos lá, outra equipe tinha acabado de achar o papel e já estavam correndo em direção do local onde estaria a terceira e última pista. Para nossa surpresa, a charada escrita no papel, indicava que deveríamos voltar para a escola e assim fizemos. Já era final de tarde e todos os outros alunos estavam reunidos na frente da escola nos esperando, a euforia era grande e o nosso cansaço depois de tanta correria também.
Fui procurar em uma das salas, sem sucesso. Procurei na quadra, na sala dos professores e até na diretoria, mas não encontrei nada. Depois de alguns minutos, enquanto estava procurando na cantina, ouvi o diretor anunciando que já tinham a equipe vencedora. Corri para a quadra o mais rápido que pude, na esperança de que o time anunciado fosse o nosso, mas quando cheguei lá as pessoas que estavam comemorando não eram da minha equipe e nem mesmo da minha turma. No fim das contas, a equipe do Bomba tinha ganhado (sim, o pessoal do 9º ano que estava um ponto abaixo da gente) e pela primeira vez em três anos eu tinha perdido uma gincana.
Não pude fingir que não estava arrasado, isso era evidente. E não era só eu, ao olhar para o resto da minha equipe dava pra perceber que toda aquela união tinha se dissipado no momento em que foi anunciado o vencedor. Sentia como se tivesse decepcionado todo mundo de novo e alguns colegas faziam questão de reafirmar isso com um "Acho que você não se dá muito bem com finais" ou um "Valeu aí, Dom Cestinha" no tom mais irônico possível. Como se já não bastasse o tanto que eu mesmo me cobro.
Resolvi sair da quadra e ir na sala pegar minha mochila, já que agora seria a premiação dos vencedores e eu não estava nada a fim de ver. Subi as escadas em direção ao corredor onde minha sala ficava e quando cheguei no topo, vi a May caminhando rápido em minha direção (provavelmente saindo da sala, já que estava com a mochila). Pensei em aproveitar o momento para conversar com ela, mas percebi que ela estava aos prantos. Há muito tempo não a via chorar tanto, seus olhos estavam inchados e o rosto vermelho.
— May? O que aconteceu? — eu perguntei quando ela chegou mais perto. Ela passou direto e começou a descer as escadas, sem nem olhar pra mim. Tentava enxugar as inúmeras lágrimas que desciam pelo seu rosto, apesar de parecer uma tarefa impossível. Desci as escadas atrás dela e toquei em seu ombro. — Foi por causa da gincana? Eu também tô bem triste, mas ainda vamos ter outras e... — assim que chegamos no andar debaixo, ela parou e se virou pra mim.
— Dá pra você me deixar em paz?! — ela disse, parecendo com raiva, apesar de ainda estar chorando copiosamente. Eu dei um passo pra trás. — Você mesmo disse que não vamos ser mais amigos, eu aceitei! Então, por favor, para de me confundir sendo legal e depois fingindo que nem me conhece. — ela continuava a falar entre soluços e eu senti meu coração apertar. — Agora eu só... preciso ir pra casa e eu não quero que me siga — ela disse e rapidamente voltou a andar no mesmo ritmo acelerado de antes, como se estivesse atrasada pra alguma coisa.
Eu continuei parado, ainda sem entender o motivo de ela estar chorando tanto, mas ao mesmo tempo arrasado por não poder ter ajudado e por saber que fazia sentido ela não querer compartilhar comigo, afinal quando ela mais precisou do meu apoio, eu preferi acreditar em outra pessoa. Agora eu entendia que estava errado, mas isso não parecia adiantar, já que depois tudo, ela que não confiava mais em mim. Subi as escadas para pegar minha mochila e ouvi o diretor chamar a todos para a entrega das medalhas do segundo e terceiro lugar. Eu podia não gostar de perder, mas não podia deixar de receber a medalha, afinal ainda era uma conquista e depois desse dia maluco, uma recompensa não fazia mal.
Continuei pensando no motivo pra May estar tão arrasada, a única possibilidade que vinha na minha cabeça era a derrota, mas ela é muito mais madura do que eu, não era a cara dela chorar por perder. Perguntei ao Rich se ele sabia de algo, mas ele só negou. Logo fomos liberados e eu voltei pra casa. Quando entrei minha mãe estava sentada no sofá com expressão preocupada.
— Dean! Ainda bem que você chegou. Preciso sair urgentemente, mas como tinha pedido ao mercado para entregar as compras aqui em casa, tinha que esperar você chegar para sair. Você pode ficar esperando pra mim? — minha mãe disse, enquanto se levantava, pegando a bolsa e a chave do carro. Ela parecia nervosa e até mesmo triste.
— Posso sim, mas pra onde você vai? Você parece preocupada — eu disse e ela suspirou, parecendo mais melancólica só de lembrar o motivo de sua saída.
— Eu vou ao hospital, Dean. — ela disse e senti minhas mãos suarem frio. — Parece que a Catarina, a senhora que é amiga da May, estava tratando um câncer que até então estava controlado, mas nos últimos meses acabou piorando. Nesses meses ela dizia estar viajando, por isso a May não estava indo estagiar com ela como fazia todos os dias. Hoje o estado dela piorou ainda mais e os médicos acreditam que ela tem poucas horas de vida.. — ela disse com os olhos cheios de lágrimas. Eu não sabia o que dizer, apenas fiquei calado sentindo um nó se formar na minha garganta.
— Hoje a tarde, quando o Charlie ficou sabendo da piora, ele foi ao hospital e me ligou. Na ligação ele me explicou tudo e disse que antes da Catarina piorar, ela tinha dito que estava pensando em finalmente contar para a May sobre a doença, pois ela sentia que não teria muito tempo e queria vê-la pelo menos uma última vez. Então ele perguntou se eu não teria como levá-la ao hospital para que elas pudessem se ver, eu fui ao seu colégio, expliquei a situação à May que ficou desolada, mas que correu o mais rápido possível para que chegasse a tempo de ver a Catarina. Eu tive que voltar pra casa por causa desse pedido e também para te encontrar e dizer para não ficar preocupado se demorarmos pra chegar hoje, pois não sabemos até que horas vamos ficar no hospital. — ela suspirou novamente e agora eu me sentia horrível. Então era por isso que a May estava chorando tanto, mal podia imaginar como ela estava se sentindo. Perguntei à minha mãe se eu não podia ir junto, ela disse que achava melhor não, que precisava que eu recebesse as compras e etc.
Após isso, ela voltou a caminhar em direção à porta, até que recebeu uma ligação. Ela procurou o celular na bolsa, olhou o nome na tela e deu mais um suspiro triste, provavelmente já sabendo o que significava aquela ligação.
— May? — ela atendeu e automaticamente seus olhos voltaram a se encher de lágrimas. — Calma, e-eu já estou chegando aí, certo? — ela ficou em silêncio por um momento, ouvindo o que May estava dizendo. — Já estou a caminho, estou aí em minutos, aguente firme. — ela disse já abrindo a porta e saindo apressada. Fui até a janela para observá-la ir até o carro, assim que ela entrou a vi desabar e senti meus próprios olhos encherem de lágrimas também. Em poucos segundos ela saiu e eu continuei ali, pensando em toda essa situação e sentindo meu coração apertar só de pensar em como a May estava se sentindo.
Fale com o autor