Deadly Speech
1 Capítulo Único
O vento dançava vagarosamente, carregando consigo algumas folhas que estavam soltas e sem destino. O prédio de três andares estava com as portas abertas para que os olhos cansados e mentes dispersas pudessem seguir o caminho de todos os dias úteis da semana.
Podia se ouvir os passos e zumbidos de vozes misturadas de maneira desorganizada. Os armários se abriam e fechavam, revelando o que havia dentro e o que deveria ser retirado. Um armário para cada aluno, fazia parte da estrutura da escola.
Entre todos aqueles passos, papeis amassados e chicletes jogados ao chão, algumas lágrimas se encontravam com o piso do primeiro andar. Havia um pequeno rastro desde os três degraus que se localizavam na porta do prédio, mas em poucotempoele foi se perdendo de vista.
- Como professor e como pai, acho que tenho o dever de falar algumas palavras antes de prosseguirmos com os procedimentos. Matthew era um bom filho e um aluno dedicado; nunca foi popular e nunca teve as maiores notas da turma. Não era o mais bonito, mas tinha um bom coração. Meu pai sempre me incentivou a ser forte, a ser homem e enfrentar as coisas de cabeça erguida, mas ele não havia se recuperado ainda da morte de sua mãe; que Deus a tenha.
Por mais que houvessem tantas pessoas em um largo corredor, ele não estava completamente cheio, não depois da noite passada. Por vários testes realizados e por visualização da cena do crime, foi comprovado que o garoto Matthew Bates cometeu suicídio na noite em que fariam três anos desde a morte de sua mãe. Nenhuma pessoa de toda a equipe de investigação soube dizer o que aconteceu para o garoto cometer tal ato. Conversaram com alguns alunos, professores e outros funcionários, mas tudo que diziam era sobre Matthew ser um garoto reservado, não tinha muitos amigos e seu pai era professor de História.
- Ele estava passando por uma fase complicada. Tínhamos algumas discussões, mas nada que realmente fosse muito sério. Estamos todos submissos à morte, mas eu nunca imaginaria que algo assim fosse acontecer com meu filho, meu querido e amado filho.
Era mais uma tarde como qualquer outra, tinha recebido o resultado de sua prova de história e infelizmente a nota não era das melhores. Estava com um olho roxo e alguns hematomas por causa de alguns garotos mais velhos que sempre implicavam com ele. Matthew nunca se importou muito com eles, eram apenas acéfalos querendo garantir superioridade, dignos de pena. Seu problema era seu pai, sempre foi ele e seus métodos de “educação”. Tinha um plano de ir correndo para o quarto e se trancar, mas sabia que não iria funcionar, seu pai tinha a chave do cômodo. Tentou a pensar em outras opções até seu corpo e mente congelarem totalmente ao ouvir o barulho da porta… Ele sabia bem o que estaria por vir.
- Seu inútil, vagabundo, como você tirou uma porcaria de nota dessas? – o pai de Matthew começou a gritar antes mesmo de trancar a porta da casa. – Você tem noção de quão isso é vergonhoso para mim? – terminou o questionamento, colocou sua pasta e casaco em cima do sofá e foi em direção ao filho. – O que são esses malditos hematomas? Eu já não te disse que se for para procurar briga, seja homem e lute. Se você continuar a ser uma mulherzinha, eu vou te tratar como uma mulherzinha. Vamos, vadia, além de ser um inútil, você ainda é um acéfalo? – O homem retirou seu cinto de couro da cintura e começou a bater no garoto. – Você gosta disso não é? Fraco, inútil, desperdício de espermatozoide. Seja homem, Matthew, seja homem.
- Não quero que o discurso fique muito grande, mas há tanto para se falar e tão pouco tempo para dizer. Em todo o caso, espero que Deus cuide de meu filho como sei que está cuidando de minha mulher. Obrigado pela presença de todos.
[...]
Todos os dias eram exatamente iguais, os insultos, as agressões verbais e físicas, as piadinhas de mal gosto feitas na sala de aula que fazia os alunos rirem somente para terem uma certa simpatia com o professor. Por mais que os atos de violência física e psicológica realizados pelos garotos do colégio fossem degradantes e nocivos, não eram nada comparados com os que recebia de seu pai.
Na noite anterior, um dos agressores de Matthew lhe entregou uma arma e simplesmente disse“Por quê não faz um favor para a sociedade e morre?”. Nunca entendeu bem o motivo de fazerem isso com ele, nunca havia feito mal a nenhuma pessoa; pena ele não poder dizer o mesmo em relação aos colegas. Chegou em casa e deu de encontro com um bilhete do pai dizendo que iria chegar tarde, ele sabia bem o que aquilo significava: voltaria para casa bêbado com alguma estranha e ensinaria ele a“ser um homem”. Mas não dessa vez, Matthew estava farto de tudo e não sabia o que fazer, até olhar para sua mochila e se lembrar do que havia dentro dela.
Subiu as escadas lentamente e foi para seu quarto. Abriu a mochila, pegou a arma com a mão direita e colocou na cabeça, alguns dedos acima da orelha. Olhou em volta de seu quarto e percebeu que não sentiria falta de nada, então apenas se preparou para suas últimas palavras.
- Estou farto das coisas serem como são. – levantou a cabeça na tentativa de fazerem as lágrimas recuarem. – Por mais que eu realmente odeie todos eles, vou perdoá-los antes de ir. São eles os desgraçados, amaldiçoados que terão que conviver com a culpa e um dia, provarão do mesmo veneno que tanto jogaram em mim sem nenhuma consideração.– Respirou profundamente, fechou os olhos e puxou o gatilho. Seu corpo pesado e sem vida caiu no chão do quarto que começou a ser pintado por um líquido escarlate.
[...]
O cemitério já estava vazio, as cadeiras já haviam sido recolhidas e o garoto estava enterrado em seu caixão de madeira. Não havia nada escrito em seu epitáfio, mas havia um homem chorando perto de seu túmulo.
- Ah, meu filho, me perdoe. Só agora eu vi o que eu fiz com você. Meu pai havia me educado desta maneira e só agora eu percebi que isso nunca fez bem a mim… Todavia, eu acabei cometendo o mesmo erro com você. Matthew, lembre-se do que sua mãe lhe dizia, você é perfeito do seu jeito. Apenas lhe peço que ouça o arrependimento de um velho e que aceite meu sincero pedido de desculpas, mesmo que seja tarde demais. Perdoe-me por tudo que fiz e diga para sua mãe que eu a amo, vocês eram tudo pra mim. Até nosso próximo encontro, prometo não desapontar.
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