Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

1 Prólogo: O Sol Negro Através da Névoa


Notas iniciais
Konichiwa, minna! o/ ... Como havia adiantado, estou com um projeto novo (que está em fase de testes atualmente). Não é segredo para ninguém que eu sou doida por zumbis, e a franquia com essa temática que conquistou meu coração recentemente foi The Walking Dead. ... Muito embora o foco da série não sejam os chamados "walkers" (quem assiste a série entende), e sim a sobrevivência da raça humana tendo como pano de fundo o apocalipse zumbi, eu simplesmente AMO a forma como a série explora os personagens dentro desse contexto. ... Será algo diferente do habitual, para mim, que não está acostumada a escrever cenas de violência brutal e com palavreados de baixo calão, mas depois de me aventurar pelo mundo de Westeros em A Guerra dos Tronos, e Woodbury em TWD, digamos que quis experimentar novos terrenos. rs A classificação dessa Fanfic pode ser alterada no futuro, dependendo do quão intensas essas cenas podem se tornar, ok? ... Dead World Assembly é uma música da banda sueca Draconian. Recomendo para quem curte um rock gótico bastante denso, mas com um toque de romantismo nas letras. http://www.youtube.com/watch?v=EJpo7rK5Sdk ... Boa leitura!

Dead World Assembly

Disclaimer: Naruto e seus personagens não são de minha autoria. Todos os seus direitos estão reservados ao seu autor, Masashi Kishimoto.

“Vou lhe dizer um segredo, meu caro: Não espere pelo juízo final. Ele realiza-se todos os dias”.

Albert Camus.

* * *

“Na calada da noite, eles parecem insetos zumbindo monotonamente em uma colmeia”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pág. 23).

Prólogo:

O Sol Negro Através da Névoa

* * *

Sakura manobrou o velho Toyota Prius através da rodovia paralela; de um lado, há uma densa área arborizada, uma floresta de eucaliptos e algumas plantas arbustivas e rasteiras. O frescor dos pinhos é revigorante e a tenta a abrir mais do que a pequena fresta na janela do motorista. Mas se contem e mantém os dedos entumecidos em torno do volante.

Os faróis estão ligados no mínimo e o ronco do motor é menos do que um langoroso ronronar. Acertou ao escolher um carro popular e econômico há alguns dias. Mas dentro dela, há uma parte que ainda se retrai e que tem calafrios a cada som trazido pelo vento. Seja lamento ou gemido.

Ela em vão tenta se manter calma e equilibrada. Há dias vem tentando reconstruir o lado ferido da sua sanidade. Sente-se exposta e vulnerável, revirada do avesso. O pensamento a deixa perturbada, ainda assim, ela mantém o velocímetro abaixo dos 60 km/h. Não quer chamar atenção ou forçar o motor além do necessário.

Uma placa verde-musgo com letras brancas lhe indica o caminho. Quilômetro 57. Há mais três até a cidade mais próxima, um lugarejo chamado Komatsushima. O último distrito pelo qual passou, Myozai, estava incomumente desabitado. Tanto de vivos como de mortos, e foi esse fator a fazê-la recuar e partir.

Mais assustador do que as cidades provincianas infestadas de mortos-vivos, eram aquelas em que não se tinha o menor indício da presença deles. Mas os sinais de suas passagens estiveram lá, faiscando contra o asfalto cinzento; desde secreções fedorentas e pútridas que escorriam pelo calçamento e empoçavam no meio-fio, ao que restara de suas últimas refeições, uns poucos desafortunados do qual não sobrara muito além de ossos protuberantes e carne exposta.

Ela tivera receio de relaxar demais naquele distrito, de se acomodar pela primeira vez em semanas, para então, às pressas, e a qualquer momento, ter de partir — isso se conseguisse partir.

Seguir caminho foi mais fácil do que imaginou. Por volta do quilômetro 24, encontrou um posto de gasolina abandonado, e munida de sua única arma, uma Glock 17.9 mm, desceu do carro depois de observar o lugar por vários minutos. Era difícil segurar a arma com o suor nas palmas de suas mãos, mas por sorte seu agarre era firme. Também pudera, aquela era a sua única defesa contra os mordedores.

Uma pontada de dor atingiu-lhe fundo quando lembrou que o apelido “Mordedores” foi ideia de sua colega de faculdade, Yamanaka Ino, morta há exatas quatro semanas. Ela ficou lá, consolando a loura com olhos lacrimosos o tempo todo. A ferida macabra no ombro dela exalava um fedor horrível e secretava um líquido amarelado, como pus.

Então, Ino partiu, para o desconsolo no coração dela, e depois de contados dois minutos inteiros, ela voltou, mas não viva. Ainda se lembrava na inexpressividade de seus olhos mucosos, antes de um azul cerúleo perfeito, agora embaçados e cobertos por uma membrana esponjosa. Os lábios ensanguentados abriram-se — não para sorver o ar — para gemer. Um choramingo ofegante e rouco, de quem já ultrapassou o limite do outro lado da vida, e um hálito mortiço chocou-se contra o rosto pasmo da moça.

Os dedos gélidos abriram e se fecharam, como as mãozinhas de uma criança que procurava as mãos da mãe, e, por um instante, ela permitiu que Ino a tocasse. Sua pele ainda quente, sua pulsação ainda existente e cálida. Os dentes da coisa cerraram-se com força quando captou o cheiro do sangue ainda quentinho correndo nas veias de Sakura. Sussurrou um “desculpe-me, Ino” e com a garganta inchada encostou o cano de sua Glock na têmpora da coisa que um dia foi a sua melhor amiga.

Puxou o gatilho e se assustou com o ricochete. Com o estampido agudo e em como o som se propagou alto nas paredes daquele cubículo mal cheiroso. Limpou as lágrimas, enxugou o nariz e partiu. Deixou o cadáver ali mesmo, porque sabia que era uma questão de tempo até que os mordedores reagissem ao som do disparo e encontrassem-na.

A última lembrança de Ino era um cadáver decrépito, encostado num reservado em um banheiro sujo com um buraco negro na têmpora esquerda enquanto sangue infectado manchava os ladrilhos do assoalho. Desde então, estava sozinha; a busca por suprimentos tornava-se cada vez mais dificultosa e perigosa, e ela não tinha uma boa noite de sono há dias.

Seus reflexos estavam mais lentos, a sua cabeça zumbindo como um vespeiro, e o cansaço já pesava sobre ela. Manter os olhos pregados na pista escura e fantasmagórica custava toda a sua energia.

Estava com medo, mas não podia admiti-lo para si própria. Tentava sufocar aquela sensação de pânico latente com jorros de pensamentos desconexos. Ainda não se sentia pronta para contabilizar os seus mortos, mas em algum plano distante estava cônscia de que os números cresceram mais do que esperado nas últimas semanas.

Já não havia mais estações de rádio disponíveis; o chiado estático e o eco do vazio eram a sua mórbida trilha sonora. Deixara-o sintonizado em sua rádio favorita, esperando, aguardando, apegando-se energicamente a qualquer fio de voz ou intromissão inesperada. Mas não se ouvia uma única voz humana há quase treze dias. As últimas transmissões datavam de uma quinta-feira nebulosa e fria, uma transmissão de emergência das autoridades que ainda persistiam em alegar que o Governo tinha tudo sob controle.

Havia boatos de um campo de refugiados em Yokohama, mas Sakura sabia que seria impossível atravessar de balsa até a ilha Honshu. Ela não alimentava mais esperanças. Desistira delas há muito tempo. Agora tentava apenas sobreviver à doença, ao juízo final. A humanidade agora pagaria pelos seus pecados.

Os dedos já entumecidos agarraram-se com um vigor ainda maior ao volante; os nós tornaram-se brancos e o maxilar cerrou-se com um trincar dolorosamente audível.

Dane-se a droga da humanidade! — silvou através dos dentes fortemente cerrados.

O vento ganiu e chicoteou os eucaliptos e as tílias que margeavam a rodovia. Outra placa verde-musgo materializou no canto extremo à direita. Quilômetro 60 e mais à frente um outdoor publicitário que visava expor o paraíso turístico que era a cidade de Komatushima. Ela estava finalmente chegando.

Sakura ajustou os faróis para que pudesse enxergar em meio ao breu. Esticou a mão para tentar alcançar o botão que desligava o rádio mas desistiu no último instante e afundou o pé no acelerador, permitindo-se exacerbar os próprios limites só daquela vez. Ainda assim, lançou um olhar atento sobre o ponteiro do velocímetro, mantendo-o abaixo dos 100 km/h.

Quase sorriu quando a rodovia, antes margeada apenas pelas árvores inquietas, desdobrou-se para tomar a forma de uma rua de paralelepípedos, com casinhas solitárias e chalés empoleirados nos seus dois cantos extremos. Uma placa maior e mais chamativa dizia cordialmente “Bem-vindo à Komatsushima”.

Do alto da ladeira, ela contemplou através do para-brisa meio sujo um lugarejo ocultado e abandonado pelo resto do mundo. Não havia energia elétrica, como imaginou, mas ela estava atrás mesmo de suprimentos e um abrigo temporário para que pudesse descansar.

A mera visão da cidadezinha esparramada nas depressões e elevações do terreno ladeira abaixo encheu seus olhos com lágrimas. Tudo o que queria agora era relaxar por algum tempo; não estava pedindo muito. Talvez umas poucas horas longe daquele inferno já lhe fossem o bastante.

O facho dos faróis captou alguma coisa cruzando o seu caminho com passos que se arrastavam e mancavam, e, assustada e desprevenida, Sakura não teve tempo de agir adequadamente. Pisou no freio com força enquanto o para-choque do Toyota prius batia com força em algo, derrubando-o e mantendo-o abaixo do automóvel.

Ela captou o ruído de um baque molhado e não precisou sair para conferir no que havia batido. Trêmula e desorientada pelo susto, não pensou duas vezes antes de engatar a ré e voltar alguns poucos metros, deixando o carro em ponto-morto. Os faróis brilharam sobre o cadáver que ainda se mexia, de barriga para cima, gemendo e rosnando como a coisa estúpida e nojenta que era.

Com um sorriso macabro, ela engatou a marcha novamente e afundou o solado do seu coturno no acelerador, deixando que os pneus cantassem no asfalto antes de poder saborear o prazer medonho que a assaltava enquanto atropelava a coisa de novo. Sentiu o solavanco que o veículo sofreu quando achatou a coisa contra o asfalto e quase podia ter gargalhado pelo que acabara de fazer.

Isso é por Ino, seu monstrengo desgraçado!, ela recitou em seus pensamentos ainda tomada por uma esfuzia doentia que não lhe dizia respeito. E pelos meus pais, e por todos os meus amigos, seu mordedor idiota!

Depois, a gargalhada doentia tornou-se uma quente e salgada umidade que escorreu pelos seus olhos cristalinamente verdes, descendo por suas bochechas e queixo. Mais uma vez sozinha, e ainda com o som da estática que provinha da rádio, Sakura desatou a chorar, diminuindo a velocidade do automóvel por precaução.

Estava no limite. Desgastada e esfolada até o último centímetro de pele.

Onde estava a sua humanidade?, ela se questionava ao saborear aquele amargor insólito e insalubre. Onde estava a compaixão? E a empatia? Onde estava o sentido extrassensível que a tornava humanamente compreensível e perdoável?

A resposta não atenuou o sabor amargo em sua boca; muito pelo contrário.

Sakura sabia que, assim como aquelas coisas fedorentas e podres, a sua humanidade estava morta. Substituída pelos instintos mais primordiais e substanciais, os instintos que tornavam o homem selvagem e insociável, e o fazia esquecer-se de toda a sua ética, e, principalmente, de toda a moral: os instintos da sobrevivência.

A humanidade estava mais uma vez trilhando o caminho da decadência e da autodestruição. A única diferença é que desta vez não haveria salvação, não haveria evolução. Não haveria cura.

Eram todos réus no mesmo juízo agora, e a penitência seria paga ali, dentro da barriga da besta.

* * *

Olhe para todos nós; nossos olhos estão mortos...

Draconian Trecho de Deadlight.

Notas finais
Alguém aqui é obcecada pelo Governador, assim como eu? Porque, caramba, quando você lê A Ascensão do Governador, não importa o que ele faça de errado, você não consegue detestá-lo! Fora aquele desfecho de cair o queixo... OMG, alguém já chegou a ler esse livro, pelo amor de Deus? ... Estou meio deprê hoje por causa da estreia de Em Chamas, e aí eu lembro que não vou assistir no cinema porque sou a única que gosta dessa série aqui em casa. :( ... Dependendo do feedback, trago o primeiro capítulo em breve ou não......Outra novidade que gostaria de compartilhar com vocês é que a primeira parte do meu livro, Noites de Tormento, já foi concluída, e eu agora estou na etapa de revisão dos textos. Estou procurando leitores betas, então quem se interessar, manifeste-se e deixe o e-mail no review ou por MP. :D ... Não se esqueçam dos reviews, ok? Até o/