Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
60 Epílogo: As Primícias de Uma Nova Jerusalém
Notas iniciais
Dead World Assembly
“Mesmo pelo vidro, pode-se ouvir o barulho inconfundível dos zumbis à distância, trazido pelo vento. Mas, de alguma maneira, eles agora parecem diferentes aos ouvidos de Brian. Segregados atrás das barricadas improvisadas, separados do teimoso grupo de sobreviventes por meras membranas de aço e ferro, a sinfonia baixa e onipresente de gemidos — feia e desafinada como gaitas feitas de ossos humanos — não anuncia mais a maldição. Agora, carrega oportunidade. Para Brian, o som parece o convite para um novo tipo de vida, um novo paradigma que só então se forma dentro dele, como o nascimento de uma nova religião”.
KIRMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 287).
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Epílogo:
As Primícias de Uma Nova Jerusalém
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Cinco anos depois.
O ronco baixo do motor do caminhão embalava a viagem de volta para casa. Recentemente, o asfalto das ruas tinha começado a se deteriorar. Agora, havia buracos e rachaduras por todas as partes. O motorista que conduzia o veículo era hábil o bastante para evitar a maior parte delas. Infelizmente, a parte que não era evitada provocava solavancos violentos nos passageiros que viajavam na sua carroceria, acomodados sob uma lona preta.
Era verão no Japão e o sol forte do meio-dia cozinhava todos os doze homens e mulheres abrigados sob a lona do caminhão. Suados, sujos e cansados, tentavam a todo custo pegar no sono, mas eram despertados a cada vez que o motorista não conseguia evitar um declínio da estrada.
Sasuke não era exceção à regra. Com o fuzil semiautomático apoiado no ombro, tombou a cabeça pesada contra a carroceria e tentou, sem sucesso, pegar no sono desde que subiram no caminhão. Mas, a cada vez que fechava os olhos, tinha o mesmo pesadelo que se habituara a ter nos últimos cinco anos. Então, decidiu que seria mais interessante olhar para fora, para a paisagem que deixavam para trás, uma paisagem incrivelmente verde e incrivelmente bela.
A natureza reclamara o seu território e o homem fora incapaz de contê-la nos últimos anos: árvores de todos os tamanhos e espécies se espalhavam por entre as ruínas de prédios e de casas dos bairros residenciais da cidade que, outrora, foi a magnífica e caótica Tóquio. A deterioração do império da humanidade era aparente em cada esquina. Além disso, as chuvas torrenciais das últimas semanas tinham criado charcos nas depressões do asfalto irregular. Um tapete de folhas secas cobria a rua, avultando-se assim que o caminhão passasse por elas.
Ainda havia algum resto de lixo nas ruas. Carrocerias de automóveis abandonados, vestígios deixados por algum humano há muito, muito tempo, numa outra era praticamente. Mas, fora isso, era a natureza quem dominava tudo. Plantas e arbustos forravam as calçadas e meios-fios, trepadeiras se enroscavam em postes de iluminação e samambaias cresciam a partir de paredes inteiras ou castigadas pelo tempo, pelo abandono e pelas intempéries. Mantas de musgo forravam as carrocerias de carros.
Tudo isso era encimado por um céu azul muito claro com nenhuma nuvem à vista, e por um sol dourado escaldante. Ondas de vapor erguiam-se do asfalto quente e, apesar do horizonte limpo, Sasuke podia jurar que farejava o cheiro de chuva no ar. Não havia problema, ele gostava de chuvas.
Suspirando, voltou a se recostar contra a carroceria e fechou os olhos, pensando em chegar logo em casa, tomar um banho, comer uma refeição preparada na hora e passar uma noite agradável com Sakura. Uma gota de suor deslizou pela sua nuca e desapareceu sob a gola da farda que usava. Inclinando-se para frente, colocou a cabeça entre os joelhos, esperançando que a ventilação refrescasse o seu pescoço.
Apertou o polegar e os dedos anelar e médio contra as pálpebras cerradas. Sentiu uma mão tocar seu ombro e se empertigou no mesmo momento, encontrando um rosto solícito encarando-o:
— Ei, você ‘tá bem?
— Estou. — Foi a única palavra que conseguiu articular. — É só esse calor.
O rapaz, jovem e otimista, acenou e lhe sorriu. Sasuke não se lembrava do nome dele.
— Esse verão está sendo bem quente mesmo. Isso até me lembra... Sabe, a minha avó morava em Okinawa. E nos verões, a minha família sempre a visitava. Era uma beleza! Praias paradisíacas, mulheres gostosas de biquíni... Sinto falta de tudo isso — disse, esfregando a nuca.
Sasuke se limitou a assentir para o rapaz cujo nome ele sequer se dera ao trabalho de lembrar, não estava com humor para conversas, não com aquele calor todo e não com os solavancos do caminhão — e os pesadelos — impedindo-o de dormir.
— Talvez algum dia eu crie coragem e volte lá. Dizem que ergueram mais três centros de repovoamento no ano passado. Dois nas redondezas de Osaka, e um em Kyushu — ele prosseguiu, alheio ao desinteresse de Sasuke. — Acho que isso significa uma boa coisa. Nós estamos retomando mais territórios e os bolsões de sobreviventes estão se multiplicando.
Mal-humorado por constatar que o rapaz não percebera que ele não estava muito afim de conversas, Sasuke tombou a cabeça contra a carroceria e fechou os olhos, desligando-se da realidade por um minuto, ignorando até mesmo os solavancos que seu corpo ainda sofria.
Num momento, estava cercado por uma dúzia de pessoas, no outro, se viu sozinho na traseira do caminhão com um silêncio aterrador pairando sobre ele e estrangulando-o com mãos cadavéricas. Abriu os olhos num estalo e deu de cara com o irmão mais velho, sentado de frente para ele. Mas em vez dos olhos escuros como os seus, Itachi tinha os globos oculares pálidos e cobertos por muco. A pele estava doentiamente pálida com nuances azuladas e acinzentadas; a pele de um cadáver. Os lábios eram azuis e estavam entreabertos, deixando verter uma baba escura e gosmenta. Os dentes por trás desses lábios eram todos negros, apodrecidos, e enfileirados como lápides em um cemitério.
O irmão abriu mais a boca e o seu hálito fétido nauseou Sasuke. Ele gemeu, um gemido áspero e mais animalesco do que humano, um som feral e primitivo que causou arrepios em Sasuke. Itachi levantou num rompante e se atirou contra ele, erguendo as mãos pútridas com a intenção de agarrá-lo. A boca se escancarou para que os dentes podres pudessem se afundar na sua carne quente.
Sasuke despertou num sobressalto, arfando e suando frio desta vez. O rapaz de antes, cujo nome ele ainda não lembrava, voltara a tocar o seu ombro:
— Ei, chegamos — ele anunciou com um sorriso.
Sasuke suspirou de alívio em resposta, virando o rosto para a abertura na lona na parte de trás do caminhão. Tão logo reconheceu os portões do Centro de Repovoamento de Tóquio, ele agradeceu a qualquer deus que pudesse ouvi-lo. Só um pesadelo, disse a si mesmo, só mais outro pesadelo. Nada mais. Itachi não estava ali, jamais estivera.
O caminhão seguiu por uma rua ricamente arborizada. Mas ao contrário do caos e da imposição da natureza além daqueles sólidos portões, ali dentro tudo estava ordenado e harmonioso. Havia pouco ou quase nenhum lixo nas ruas, e as residências e edifícios estavam todos muito bem conservados. Tinham pintado algumas delas no mês passado e reformado outras mais, que em breve seriam ocupadas por novas famílias.
O caminhão estacionou em frente ao maior dos edifícios, que funcionava como Centro de Administração. Toda a fachada ainda cheirava à tinta branca que fora aplicada na semana passada e flores tinham sido plantadas nos canteiros. Sasuke esperou pela vez dele de descer e, ao fazê-lo, entregou sua arma como todos os outros, inspirando profundamente. Armas não eram permitidas lá dentro. Por sorte, uma brisa fresca começava a amainar a sensação térmica.
Sasuke enxugou o suor da testa, cobrindo os olhos a fim de protegê-los da luminosidade excessiva e se encaminhou até a entrada do Centro de Administração. Uma vez lá dentro, agradeceu por ser poupado do sol forte. Seguiu por um corredor com paredes brancas, também recém-pintadas, e subiu por um lance de escadas até o último piso. Ao final de outro corredor, havia uma porta. Não bateu nem fez a sua presença ser anunciada antes de abri-la e de entrar no cômodo, um modesto porém bem organizado escritório com uma escrivaninha de mogno sob a grande vidraça da janela.
Naruto estava sentado à escrivaninha, debruçado sobre uma pilha de papéis. Ao erguer os olhos e se deparar com Sasuke na sua sala, abriu um sorriso de boas-vindas. Há um ano, tinha sido eleito o líder do Centro de Repovoamento de Tóquio logo na primeira assembleia realizada e era fácil entende por quê: era otimista, corajoso e altruísta, o tipo de homem que não se encontrava com facilidade numa sociedade doente como aquela.
— Ei, Sasuke! As pessoas não costumam bater antes de entrar?
Sasuke deu de ombros, avançou alguns passos e largou-se numa das cadeiras de frente para Naruto. O sorriso de Naruto não esmoreceu mesmo ante ao mau humor aparente do outro.
— Estou falando sério, qualquer dia desses você pode me surpreender numa situação embaraçosa, cara...
— Me poupe de ter qualquer visão embaraçosa então — ele devolveu com uma carranca de desgosto.
— E como foi? — Naruto afastou a pilha de papéis e cruzou os braços sobre o peito, reclinando-se no encosto na cadeira.
— O mesmo de sempre. Só tivemos de ir até quase o triplo de distância do que estamos acostumados para encontrá-los. Era um grupo menor dessa vez. Nunca pensei que diria isso, mas eles estão se tornando uma visão rara. Quase consigo andar pelas ruas fora das cercas sem me preocupar em trombar com um deles num beco cheio de lixo.
— Então isso é uma coisa boa — Naruto suspirou, arrastando uma mão pelas mechas claras do cabelo. — E é como os outros Centros nos reportaram: os mortos estão desaparecendo, finalmente. O último que encontramos rondando as nossas cercas foi há quase três meses.
Temari havia enviado notícias que deixaram Naruto otimista no mês passado, relatando que a área ao redor do Centro de Repovoamento de Nara estava completamente limpa. Há um ano, ela também tinha sido eleita em assembleia a líder de lá, e o filho que tivera com Shikamaru, um menino chamado Shikadai, crescia forte e saudável a cada dia. Gaara continuava ao seu lado, apoiando-a.
— Isso quer dizer que nós vencemos? — Sasuke conjecturou num tom apreensivo. — Nós vencemos a guerra contra os mortos, Naruto?
Naruto se inclinou mais na sua cadeira, tombando o rosto para fitar o teto do cômodo e fixar o olhar no vazio. Demorou um tempo para responder a pergunta de Sasuke.
— Talvez nós a tenhamos vencido há muito tempo, Sasuke. Desde o momento em que pousamos naquela ilha dos russos, ou talvez desde o momento em que o Kabuto criou o soro que nos tornou imunes a eles. Ou talvez nós a tenhamos vencido quando simplesmente decidimos que deveríamos resistir, que deveríamos lutar contra eles. Quem sabe? — ele deu de ombros.
Naruto ofereceu um último sorriso a Sasuke.
— Ei, já que está de volta por que não aproveita uns dias de folga? Vá para casa e descanse. Aposto que aquelas duas devem estar morrendo de saudades suas.
Depois disso, Sasuke sorriu pela primeira vez desde que pisou naquele cômodo. Levantou-se num movimento repentino e se dirigiu até a porta.
— Certo — concordou e saiu pela porta, deixando que Naruto retornasse aos seus papéis.
Lá fora, e sob o sol forte, o calor se tornou intolerável outra vez. Sasuke caminhou pelos bairros sossegados do Centro, passando por residências de todas as idades e estilos, mas em vez de ir para casa, decidiu mudar o caminho, e subiu por uma ladeira. Algumas crianças brincavam ali por perto, usando um pequeno terreno gramado com espaço livre para jogar beisebol. Um casal de namorados passeava pela calçada ali por perto, e uma idosa plantava flores no jardim da sua casa.
Sasuke jamais imaginou que o mundo poderia voltar a ser como era há cinco anos, mas os Centros de Repovoamento, construídos com a ajuda de todos, tinham tornado isso possível. Não era perfeito, mas se existia um paraíso por que ele não se pareceria com aquilo? As pessoas estavam seguras, cada uma contribuía como podia para a subsistência dos centros e todos ali haviam sido imunizados pelo soro criado por Kabuto. Nenhum deles jamais conheceria o horror de se transformar num monstro. Nenhum deles precisaria mais temer os mortos.
Os primeiros a serem imunizados com o soro de Kabuto foram Sasuke e o grupo que escapou com ele para a ilha de Kunashir. Lá, ficaram instalados numa base militar russa por quase um ano e meio. Esse foi o tempo necessário para que Kabuto produzisse doses suficientes do soro para imunizar outras células de sobreviventes que foram encontradas por todo o Japão.
Foi nesse mesmo interim que os primeiros Centros de Repovoamento começaram a ser construídos, surgindo timidamente primeiro. Cidades eram limpas e então cercadas, e as pessoas vinham de todas as partes para ocupá-los. Quando se enchiam, mais centros eram construídos e as pessoas eram redistribuídas de acordo com as necessidades de cada um deles.
O Centro de Repovoamento de Tóquio foi o primeiro, mas logo vieram outros, e mais outros. Os militares japoneses se apressavam para limpar novas áreas e para cercá-las para que, assim, os civis conseguissem ocupá-las. Mas, há cerca de um ano, os mortos começaram a se tornar uma raridade. Foi mais ou menos nessa época que Sasuke se voluntariou para participar das missões por detestar se sentir ocioso. Precisava contribuir de alguma maneira com aquele novo mundo que estava sendo erguido. E com Naruto assumindo a posição de líder daquele centro, passou a detestar a sensação de que estava ficando para trás.
No fim da ladeira e de outra rua sossegada, Sasuke se dirigiu para um prédio de três andares pintado inteiramente de branco e com uma fachada bem conservada. Era o prédio utilizado como clínica onde os doentes eram tratados e onde pessoas em geral se consultavam. E era ali que Sakura desempenhava a função que nasceu para exercer: ser médica.
Na recepção, a mobília, embora não combinasse, conferia um ar de organização e seriedade para o recinto. Sasuke não se deu ao trabalho de anunciar sua presença, apenas parando ao lado de uma jovem que carregava uma caixa pesada e esperando que ela o notasse.
Era Moegi, e ela tomou um susto ao fazê-lo.
— Ah, Sasuke! Me assustou! — Sorriu-lhe gentilmente. — Já está de volta? Presumo que acabou de chegar.
— Minha esposa? — Sasuke indagou, com pressa e impaciente.
Moegi lhe informou a sala onde Sakura estava. Sasuke não esperou mais e seguiu em direção às escadas. Estava subindo-as quando ouviu a voz fina dela soar uma última vez:
— Mas ela está com a Hinata e o pequeno Boruto!
Foi desnecessário informá-lo a respeito disso, pois quando terminou de subir as escadas, deparou-se com Hinata vindo na direção contrária com um menino pequeno louro como o pai, e com olhos-azuis ainda mais claros, de mãos dadas a ela. Hinata também começava a exibir a barriga de cinco meses da segunda gestação. Deveria ter vindo para mais uma consulta de pré-natal com Sakura.
— Sasuke! — ela o saudou, surpresa, assim que o reconheceu.
Sasuke aquiesceu e murmurou um “olá” em resposta. O pequeno Boruto fitou-o com olhos grandes e curiosos, seguindo-o com o olhar mesmo quando a mãe o levou pelas escadas. Sasuke virou-se para a porta e encontrou Sakura encostada ao batente com um semblante leve.
Ela o recebeu com um beijo nos lábios, enlaçando-o pelo pescoço para trazê-lo para mais perto e colar seus corpos.
— Voltou antes do previsto — observou ao se afastar dele, girando e andando pelo recinto que era a sala onde os residentes do Centro eram atendidos e medicados.
Sakura não havia mudado muito em cinco anos. Continuava linda aos olhos dele, com grandes e expressivos olhos verdes, um rosto oval com feições harmoniosas e elegantes e um sorriso que ainda era capaz de desarmá-lo mesmo depois de tantos anos.
Sasuke entrou no cômodo e seus olhos foram imediatamente atraídos para a menina que brincava com alguns brinquedos num colchonete. Tinha cabelos e olhos negros como os dele, embora as feições do rosto representassem uma mescla sua e da mãe.
Sarada havia nascido há quase três anos e foi a melhor coisa a acontecer na vida de Sasuke. A menina, que usava um vestido fresco e colorido, e um par de tênis que já dava sinais de que estava ficando pequeno para os seus pés, ergueu os olhos escuros para ele e se levantou para correr na sua direção, chamando-o de “papai” numa voz aguda.
Erguendo-a nos braços, apertou-a contra si, inspirando seu cheiro. Seus dedos alisaram os espessos cabelos negros. Sakura tinha voltado a prender a franja da filha para que não lhe caísse nos olhos. Talvez fosse impressão sua, mas achou que Sarada estivesse maior e mais pesada. Teria crescido naquelas três semanas e meia que ficara fora de casa? Seria possível?
— Ela sentiu demais a sua falta — Sakura murmurou, tirando-o do seu pequeno momento com a filha. — Não parou de perguntar sobre você desde que partiu.
Sarada apoiou os braços pequenos nos seus ombros e ergueu a cabeça para fitá-lo com um sorriso doce e completamente inocente, próprio de uma criança. Sasuke encaixou-a nos seus braços para que pudesse abraçá-la de novo. Era somente quando se reunia com Sakura e com Sarada que ele se sentia completo outra vez.
— Também senti — admitiu num murmúrio. — A cada dia.
— Vamos para casa. Vou encerrar mais cedo por aqui, e se alguém aparecer vou pedir para a Moegi me avisar — Sakura disse no momento em que os três deixaram o recinto, ainda com Sarada no colo do pai.
Sasuke olhou a mulher de viés enquanto caminhavam lado a lado, ela tinha tirado o jaleco branco e o havia pendurado num braço. O sonho de Sakura de se tornar uma médica só tinha sido possível graças a uma médica veterana chamada Chiyo. Ela tinha chegado ao Centro meses depois deles, uma sobrevivente como todos os outros, mas fizeram amizade depressa e Chiyo, já muito idosa, ofereceu-se para tutelar Sakura e ensinar a ela tudo o que sabia, acrescentando ao conhecimento que já possuía. As duas trabalharam juntas por aquela clínica, e orgulhavam-se muito dela.
Chiyo tinha falecido há quase meio ano e agora Sakura assumira todas as suas funções, e estava se saindo muito bem. Era querida e muito respeitada por todos no centro, e isso o deixava imensamente orgulhoso.
Os três desceram algumas ruas tranquilas e chegaram à residência que ocupavam. Sakura tinha cultivado um jardim modesto na frente da casa, e uma pequena horta nos fundos. Felizmente, o Centro fornecia tudo o que precisavam. Os alimentos eram cultivados, e mesmo os animais eram criados ali. Nada era desperdiçado, e quase tudo era reaproveitado de alguma forma.
Eles passaram pelo portão gradeado baixo e pela porta da frente. Sasuke depositou Sarada no chão, que recebeu ordens da mãe de ir brincar enquanto os pais cuidavam do preparo do almoço.
Comeram ao redor de uma mesa farta e Sarada adormeceu depois disso. Sasuke a pegou nos braços e a levou até o quarto onde dormia, colocando-a na cama. A filha rapidamente se acomodou na posição mais confortável, ressonando. Sasuke se inclinou para pressionar um beijo no alto da sua cabeça e saiu do quarto.
Passou o resto do dia com Sakura, ajudando-a nos afazeres e conversando. Sarada acordou no fim da tarde, e Sasuke passou algumas horas na companhia da filha. Segundo o que Sakura lhe dissera, Naruto tinha planos de usar um dos edifícios desocupados como escola, e até já tinham encontrado alguém para lecionar todas as crianças do Centro. Era importante que o conhecimento e a cultura continuassem a ser transmitidos, a humanidade já havia sofrido perdas demais, se perdessem sua história e seu legado também retrocederiam na cadeia evolutiva e em poucas gerações estariam reduzidos a não mais do que animais.
— Além disso, Sarada não irá sozinha — Sakura disse enquanto olhava com ternura para a filha. — Boruto estará com ela, e muitas outras crianças também.
Ao anoitecer, Sasuke deu banho na filha e ela, mais uma vez saciada, foi posta para dormir cedo. Sakura acendeu uma vela para cada cômodo da casa e foi tomar banho logo em seguida. Ele resistiu a tentação de se juntar a ela, tinha a cabeça cheia e estava cansado. Tinham sido três semanas e meia bastante exaustivas. E a cada vez que cruzava os portões do Centro, sabia que encontraria praticamente outro mundo existindo além daquelas cercas.
Lá fora, o perigo poderia espreitar cada sombra, cada esquina. Não era um mundo que o homem pudesse reclamar como seu domínio, pelo menos não ainda. A humanidade não estava pronta para retornar ao topo da cadeia alimentar, e talvez fosse melhor dessa forma. Olhando para o estilo de vida que tinham no Centro de Repovoamento, para a ordem e para a solidariedade que imperavam, Sasuke refletia e comparava com o único mundo que conhecera durante a maior parte da vida, um mundo que era pautado em ódio, egoísmo e mesquinharia. Não valia a pena trazê-lo de volta.
Mas a humanidade parecia ter aprendido com os seus erros, talvez por que estivesse mais humilde e generosa aos seus olhos. Ele não tinha ideia de onde a raça humana estaria dali a uma geração ou no próximo século. Inquietava-o pensar num mundo que não fosse seguro para sua filha, e para a descendência que ela geraria. Era uma das razões pelas quais se voluntariou para se unir às incursões ao mundo exterior. Isso e o fato de que desprezava a ideia de ficar ocioso, sem contribuir com a comunidade com o que ele sabia fazer de melhor: matar e destruir aquelas coisas.
Quando entrou no chuveiro, sozinho, com a água fria caindo sobre toda a extensão da sua cabeça e costas e lavando todo o suor e sujeira, Sasuke ponderou a respeito da opinião de Itachi. Será que o irmão teria orgulho do que ele tornara? Um marido, um pai, e um soldado a serviço da humanidade e do futuro?
Itachi tinha se sacrificado para que ele estivesse ali, para que ele tivesse aquele futuro. Por vezes, Sasuke ainda sentia remorso por estar vivo ao passo que o irmão mais velho não estava mais. Nas primeiras semanas, depois que despertou naquele helicóptero a caminho de Kunashir, a raiva foi tudo o que ele sentiu. Uma ira tão potente quanto destrutiva que o teria feito incendiar todo o mundo.
Então, veio a tristeza. Uma dor tão profunda e tão visceral que ele acreditou que jamais pudesse se recuperar. Naruto e Sakura foram aqueles que impediram que afundasse num poço de escuridão e se enveredasse por um caminho sem volta. Ele seguiu em frente, da melhor maneira que encontrou, mas só voltou a se sentir vivo outra vez depois que Sarada nasceu. Jamais se esqueceria do momento em que a pegou nos braços pela primeira vez, de como enxergou a esperança tão claramente no pequeno rosto dela.
Saiu do chuveiro um tempo depois e se vestiu no quarto que compartilhava com a mulher. Colocou a toalha sobre a cabeça e enxugou o cabelo molhado. Sakura entrou no quarto minutos depois e deitou-se na cama de casal. Sasuke se uniu a ela, deitando com a barriga para cima.
Sakura se virou no colchão para ficar de lado e de frente para ele, as mãos unidas sob a bochecha.
— Como foi dessa vez? — perguntou a ele num sussurro.
— Fomos mais longe para encontrá-los — murmurou em resposta. — Um grupo menor. Já faz meses que não defrontamos uma horda grande ou que cruzamos com um grupo de sobreviventes.
— Então tudo está se ajeitando, como eu disse que aconteceria. Recebi notícias do Kabuto na semana passada, sobre os testes com o sangue da Sarada e do Boruto. A tese dele está comprovada, Sasuke. Mães que receberam o soro transmitem a imunidade naturalmente para os filhos durante a gestação.
— Hmm, onde ele está agora? — Sasuke indagou, de olhos fechados, o corpo todo relaxado.
— Coréia do Sul. Pelo que me disse, o primeiro Centro de Repovoamento terminou de ser construído lá. Mas há outras nações no leste da Ásia começando a se reerguer também. Talvez no ocidente seja o mesmo, talvez o mundo todo esteja se reconstruindo.
Ela estendeu um braço entre eles e cobriu a mão dele com a sua, afagando seu dorso.
— Houve uma época em que duvidei, mas... Estávamos certos em sentir esperança, em não desistir de lutar.
Sasuke se virou de repente no colchão, colocou o braço ao redor da cintura de Sakura e a trouxe para perto. Esfregou a ponta do nariz no dela, sorvendo o cheiro de sabonete na pele ainda um pouco úmida do banho. Seus olhos escuros sondaram os dela na semiescuridão; uma chama trêmula consumia o que restava de cera da vela sob a cômoda.
— Você pensa no futuro? Em que tipo de novo mundo nós vamos construir a partir das ruínas do antigo? — perguntou-a.
— O tempo todo.
Assentindo, ela enlaçou-o pelo pescoço e afundou o rosto no peito forte. Sim, ela pensava no mundo que eles estavam construindo, afinal, quando terminasse de se transformar aquele mundo seria o lugar onde a sua filha viveria e cresceria. Como mãe, Sakura era constantemente atormentada por dúvidas e receios. Alguns, ela nem mesmo se atreveria a compartilhar com Sasuke por temer perturbá-lo.
O que realmente importava era que estavam juntos. Estiveram juntos desde o momento em que se conheceram e descobriram que eram muito mais fortes assim. Tinham sobrevivido a tanto, e continuavam ali. Vez após outra aquele mundo havia tentado separá-los e destruí-los, mas Sasuke e Sakura conseguiram vencê-lo.
Fé, obstinação, coragem, amor, seja o que for que os tenha mantido de pé também os tinha trazido até ali, até aquele momento, até aquele futuro. E, agora, tinham tido até mesmo uma filha, criado uma nova vida a partir da desolação e da dor. A esperança que não os deixou desistir também viveria através de Sarada.
Não seriam ambiciosos ou ousados de pedir por mais nada. E que os céus permitissem que eles continuassem daquela forma até o último dia de suas vidas, vivendo seus dias em paz. De qualquer modo, estavam sempre preparados para lutar.
Aquele novo mundo lhes ensinara isso.
* * *
Nós voamos por sobre essas terras
E quebramos as nossas asas durante o voo
[...]
Nós choramos, nós sofremos, nós morremos
Nós nos privamos de sentir esperanças e sonhos.
Draconian – Trecho de The Dying
* * *
Fim.
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