Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
35 Capítulo XXXIV: O Consílio do Tabernáculo
Notas iniciais
Dead World Assembly
“Eles exploram a oficina. O lugar é seguro e bem-conservado, frio, mas limpo, com o chão varrido, as prateleiras em ordem, o ar frio tomado pelo cheiro de borracha nova e a fragrância até que agradável de combustível e fluídos. Eles percebem que podem passar a noite ali [...]”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 92).
Capítulo XXXIV:
O Consílio do Tabernáculo
Shikamaru nunca se considerou um homem de muita sorte. Tendo nascido em uma família de classe média, no subúrbio de Nara, região de Kansai, seu pai trabalhou para a Jieitai durante quase trinta anos antes de garantir uma aposentadoria tranquila que envolvia chás e partidas consecutivas de shogi durante tardes ociosas.
Ele próprio serviu o exército, a exemplo do patriotismo do pai, durante alguns bons anos antes do mundo acabar. Como sempre se destacou por sua inteligência e estratégia em combate, não demorou a ser promovido a subtenente de sua brigada, apesar de possuir tão tenra idade.
Não recebera notícias do pai ou da mãe desde que seu esquadrão fora enviado à Yokohama para defender um centro de pesquisas e de refugiados onde, segundo os rumores, desenvolvia-se a cura para a moléstia mais mortífera do século XXI. Contudo, não tinha esperanças de que estivessem vivos.
É claro que tudo dera errado no fim, Shikamaru concluiu taciturno. O Governo não tinha meios eficazes para conter os infectados e soldados eram enviados diariamente para o que passaram a chamar de “matadouro”.
O crescimento desenfreado do número de infectados rapidamente superou e engoliu os combatentes, até que o campo de batalha tivesse se tornado em um lugar para carnificina.
Nos primeiros dias, Shikamaru ouviu falar, os soldados, sem ter ideia de como deter os mortos, atiravam em diversas partes do corpo no intuito de detê-los. Apenas no segundo dia, por volta do meio-dia, um “desgraçado filho de uma puta”, nas palavras de Shikamaru, acidentalmente descobriu que tiros na cabeça davam conta do recado.
A partir daí, o combate tomou uma proporção inesperada; as cercas, ainda em construção, sofriam ataques constantes dos mortos, ao passo que refugiados continuavam a chegar a Yokohama na mesma medida. Mas Shikamaru teve de admitir que, naqueles poucos dias prósperos, chegou a acreditar que eles realmente tinham alguma chance.
Foi nesse ponto que a situação dentro do centro sofreu uma nova guinada, e acabou por acarretar na perda de uma parte da sua perna esquerda.
Não que a lamentasse de todo, afinal este pequeno imprevisto trouxera Temari à sua vida. Mas se antes contava com sua inteligência e agilidade à disposição, agora tinha que se habituar a ser apenas o cérebro das operações.
Afinal, havia sido ele a traçar a rota mais segura em Takatsuki para que Temari e seus dois irmãos esquisitões trouxessem os tão preciosos suprimentos. Mas qual não foi a sua surpresa quando, junto com as caixas de papelão abarrotadas e os engradados, dois estranhos saltaram da caçamba?
Uma garota de cabelos cor-de-rosa e um homem jovem de semblante carrancudo. Logo Shikamaru descobriu que eles se chamavam Sakura e Sasuke e que haviam vindo da província de Tokushima.
Agora ele se acomodava próximo a uma fogueira sobre um velho caixote de madeira, auxiliado por Temari, enquanto seus dedos se agarravam à fotografia que o homem, Sasuke, lhe entregara minutos antes. O toco de sua perna descansou no gramado alto, umedecido pelo orvalho noturno. Havia momentos em que Shikamaru sofria com o súbito reflexo de tentar curvar os dedos de seu pé fantasma, apenas para se tocar — tarde demais — de que já não os tinha.
Sasuke e Sakura, ele observou, se sentaram sobre um velho tronco de salgueiro, do outro lado da fogueira, apreensivos.
Ele desdobrou a velha fotografia lentamente, deliberadamente. Podia sentir os olhos escuros de Sasuke cravados sobre o seu rosto então adotou uma expressão enigmática, ensimesmada. A fotografia havia sido dobrada e desdobrada inúmeras vezes a julgar pelos vincos que a deformavam. As cores já haviam começado a desbotar, mas ainda se via perfeitamente os rostos pálidos e os olhos escuros das quatro pessoas presentes na fotografia.
Shikamaru os olhou durante um bom tempo, a família aparentemente perfeita e feliz retratada naquele simples pedaço de papel-cartão.
Seus olhos se detiveram, por um instante, no rosto de um homem jovem, entretanto marcado por uma tristeza e um pesar perscrutáveis. Um rosto de traços finos e aristocráticos com olhos fundos e negros. Então aquele era o irmão de Sasuke?, Shikamaru se perguntou e em seguida estendeu a fotografia de volta para o seu dono, uma expressão apologética no rosto.
— Desculpa... Sasuke, certo? Mas eu não estou certo se vi o seu irmão lá no centro.
— Você tem certeza? — Sasuke indagou, soerguendo uma única sobrancelha. — É importante para mim.
Shikamaru lentamente meneou a cabeça em um gesto negativo, insistindo em lhe devolver a fotografia.
— Havia muita gente lá — ele se explicou calmamente. — Não apenas civis e militares, mas também cientistas e pesquisadores de quase todos os cantos do mundo. Mesmo que eu o tivesse visto uma ou duas vezes circulando por lá, seria impossível que eu me lembrasse do rosto dele.
Ele discretamente notou quando a garota afagou o braço de Sasuke no intuito de consolá-lo ou acalmá-lo, quem sabe? Em seguida, e vendo que ele não se movera, ela mesma se levantou e apanhou a fotografia que Shikamaru oferecia.
O fogo ainda queimava suave, consumindo as achas e exalando o seu odor característico. Fagulhas estalavam contra a mortalha escura que envolvia a noite. O ar frio e cortante chicoteava os galhos das grandes árvores que os rodeavam. O número de pessoas que transitavam pela clareira havia diminuído consideravelmente, mas aqui e acolá ainda se avistava um homem ou uma mulher sondando o perímetro das cercas com armas em punho.
— O que exatamente aconteceu lá no centro? — Shikamaru voltou a sua atenção para a garota, olhando-a por cima do calor e da luz do fogo.
Agora ela tinha os olhos grandes e assustados de uma corça.
Shikamaru expirou o ar lentamente através dos lábios apartados e inclinou-se para trás, em busca de uma posição mais confortável. O calor do fogo era seu único conforto em noites escuras e gélidas como aquela.
— Quer mesmo saber o que aconteceu lá?
Ele a viu engolir em seco, mas ela não recuou.
— Foi algum tipo de cataclismo? — ela indagou de forma receosa, remexendo-se em seu assento.
— De certa forma — Shikamaru concordou num resmungo conciso.
Ele abriu um meio sorriso quando sentiu Temari tocar seu ombro num afago terno.
— Heh, a Mãe Natureza é uma puta vingativa, sabia? — ele soltou uma estranha risada nasalada e alisou os fiapos curtos da barba que cobria seu queixo. — Quando as cercas ficaram finalmente prontas, todos achávamos que estaríamos seguros. Mal imaginávamos que a ameaça maior viria de dentro dos cercados.
— Como assim? — Sakura perguntou, pouco compreendendo. Foi quando Temari pigarreou ao seu lado, tomando a iniciativa de explicar.
— Houve uma epidemia violenta de gripe dentro do centro. Na realidade, era uma variante completamente nova do vírus — ela discorreu concisamente, a luz do fogo mal chegava aos seus olhos escuros que, perdidos no tempo, ainda demonstravam reviver a tenebrosidade daqueles dias.
— Bastante agressivo e altamente contagioso — Shikamaru pontuou sombriamente. — As pessoas tinham febre alta, vômitos, dores musculares, fadiga excessiva e expectoravam muco e sangue. Não levou muito tempo para que ao menos metade do centro estivesse infectado pelo patógeno. Nós simplesmente não sabíamos o que fazer; estávamos encurralados entre os mortos que pressionavam as cercas do lado de fora, e a doença cujos sintomas a cada dia evoluíam e se tornavam mais violentos do lado de dentro do cercado.
— Não havia médicos suficientes, medicamentos suficientes, nem mesmo catres suficientes — Temari acrescentou com um pesar que era tangível.
Sakura umedeceu os lábios secos, alternando o olhar de um rosto a outro. Sasuke permanecia em silêncio ao seu lado, atento ao desespero embatucado do relato.
— E vocês não sabem quem foi o primeiro hospedeiro desse vírus?
— Não teria importado — Shikamaru apressou-se em explicar, exasperado —, não com a forma como a epidemia se alastrou entre os refugiados. Acho que o fim da linha foi quando recebemos ordens de nossos superiores para enfileirar os adoentados e exterminá-los com um único tiro na cabeça para que não voltassem mais tarde, se é que me entende. Muitos soldados, como eu, se recusaram a cumprir essas ordens.
— Eu entendo — ela aquiesceu visivelmente perturbada pela revelação.
— De qualquer forma, não teria funcionado. Então, começamos a cavar covas para enterrar os corpos, mas elas não foram o suficiente. Então passamos a empilhar os corpos e a queimá-los. Nesse ponto as coisas já estavam escapando do nosso controle. As pessoas começaram a se desesperar, reuniam as suas coisas e saltavam os cercados. Aqueles que conseguiam passar despercebidos pelas hordas nunca mais eram vistos. Foi uma questão de tempo até que grupos menores começassem a se rebelar contra nós.
— Eles tentaram tomar o controle do centro — Temari interrompeu-o bruscamente, a expressão em seu rosto era desoladora. — Quando enfim conseguiram... Bem, já não havia sobrado muito, de qualquer forma.
— E foi aí que decidimos cair fora de lá — concluiu Shikamaru. — Não antes de um desgraçado tentar arrancar um pedaço da minha perna, é claro.
— Estamos na estrada desde então. Algumas das pessoas que vocês viram também escaparam de lá, outras nos encontraram e decidiram se juntar a nós — Temari abriu um pequeno e agradável sorriso. — Temos suprimentos, combustível e munição suficientes para sobrevivermos por mais um tempo, além disso, cercamos todo esse perímetro há algumas semanas e estamos bem mais seguros aqui.
— Vocês parecem, de fato, bastante confiantes — Sakura emendou com um otimismo que custava a disfarçar. Por outro lado, Sasuke ainda não havia se pronunciado desde a resposta de Shikamaru.
— Por que não ficam alguns dias conosco? — Temari fez o convite enquanto abria um sorriso docemente persuasivo. — Pelo menos até que decidam que caminho vão tomar.
Sakura fitou Sasuke com receio, expectando encontrá-lo carrancudo, enredado numa negativa irredutível. No entanto, a expressão dele permanecia indecifrável, impassível. Os olhos escuros focavam as chamas e apenas elas.
— Sasuke...? — ela sussurrou, pressentindo que Shikamaru e Temari estavam atentos ao menor gesto dele. — O que acha? Podemos passar a noite aqui, talvez alguns dias, e depois decidir para onde vamos.
— Presumo pelas mochilas que carregam que vocês têm meios de se acomodar, não é? — Shikamaru inquiriu e Sakura notou uma contração mínima da boca do Sasuke.
No instante posterior, ele se levantara; os olhos estavam pregados em seus anfitriões.
— Aceitamos a oferta — declarou sem o menor traço de dúvida enquanto se abaixava para apanhar as mochilas que trouxeram e se afastava da fogueira com passadas largas e apressadas.
Sakura se levantou também, embaraçada, secando as palmas das mãos úmidas de suor no jeans de sua calça. Esboçou um sorriso trêmulo e murmurou um agradecimento antes de seguir Sasuke em direção a um ponto mais afastado do acampamento, longe do fulgor das fogueiras e das rodas de conversa em torno delas.
Agora que se encontravam sozinhos junto ao fogo, Shikamaru e Temari visivelmente haviam relaxado suas posturas.
Quando ela o olhou, soçobrando no silêncio da noite outonal, Temari notou que os olhos dele ainda não haviam se movido do ponto onde os dois estranhos outrora estiveram.
* * *
Sasuke terminou de armar a barraca quase meia hora depois, em um ponto afastado das demais acomodações. Enquanto fixava a última base na grama, tomando cuidado para abafar o ruído metálico, olhava de canto para as fogueiras distantes, para as árvores silentes em derredor.
Sakura havia esvaziado uma das mochilas atrás de comida e água. Ainda seguiam à risca o racionamento de suprimentos, mas agora que estavam dentro de um perímetro supostamente seguro, ela não encontrou razões para manter a postura exacerbadamente sisuda, então retirou o coldre de sua coxa e estendeu uma pequena manta sobre o leito úmido de grama verde.
Espalhou os pentes de munição que ainda lhe restavam de um lado e depositou sua pistola de outro, iniciando o complicado processo de desmontá-la para poder limpá-la adequadamente. Alternou sua atenção entre polir o cano com esmero com o auxílio de uma velha flanela e mordiscar a contragosto uma barra de granola.
Ela havia passado quase o dia inteiro sem se alimentar e para ser honesta não tinha apetite algum no momento, por outro lado sabia que seu jejum forçado prejudicaria o bebê. Mas em meio a tantos problemas e perigos, era difícil arranjar tempo e oportunidade para cuidar da saúde da pequena vida que crescia em seu ventre.
Sasuke, por sua vez, ainda se concentrava em terminar de armar a barraca, o rosto perfilado pela escuridão da noite, as mãos habilidosas trabalhando com afinco nos nós e nas hastes.
Era uma noite ventosa, mas calma, com o canto das cigarras como trilha sonora e, vez por outra, o estalido de galhos e folhas secas ao se partir floresta adentro.
Sakura engoliu o último pedaço da barra e rapidamente tomou um longo gole de água para ajudar a engolir. Depois voltou sua atenção para as peças de sua Glock, espalhadas sobre a manta. Suas mãos agora trabalhavam nos pentes, dando início ao laborioso processo manual de encaixar bala por bala.
Sasuke se aconchegou ao seu lado, mansamente, enquanto mastigava distraidamente alguns amendoins. Ela passou para ele a garrafa d’água e voltou a ocupar suas mãos com as balas e o pente.
— Você podia dar uma chance a eles, sabia? — ela murmurou baixo o suficiente para que suas palavras misturassem-se ao vento, e alto o bastante para que apenas ele a ouvisse.
Sasuke crispou a boca antes de descartar o comentário com um bufar discreto.
— Não me diga que já está confiando neles, Sakura? — ele retrucou e fez questão de não tentar disfarçar o seu tom debochado. — Logo você, de todas as pessoas, que passou por tantos maus bocados no passado.
— Eles me pareceram bastante decentes — ela estufou o peito ao rebatê-lo, sentindo suas bochechas queimarem e seus olhos arderem conforme registrava o golpe em seu orgulho. — Além disso, vi crianças e idosos aqui, isso já é o suficiente para me deixar mais calma.
— Eu ainda não estou convencido — ele murmurou de modo apático, para o que Sakura soltou uma risada nervosa e sufocada.
— Você é naturalmente arisco e desconfiado com tudo.
Então, o sorriso em seus lábios paulatinamente esmoreceu enquanto a porção racional dentro dela ordenava que deixasse a sua raiva arrefecer; discutir com Sasuke àquela altura seria desperdício de tempo, pois ela tinha uma vaga ideia de como ele estava se sentindo agora e do quão desesperado ele devia se encontrar para despejar a sua frustração em algo ou alguém.
Com um suspiro, Sakura cedeu, sentindo-se completamente exaurida, tanto física quanto emocionalmente.
— Sasuke, precisamos decidir o que vamos fazer agora. Agora que sabemos que já não há mais um centro, temos que tomar decisões e...
— Eu não quero tomar nenhuma decisão por enquanto — ele declarou, interrompendo-a de supetão, o rosto virado para o lado oposto do dela, oculto em meio às sombras que se alongavam na noite desoladora.
— Bom — disse ela, o desânimo pesando sobre os ombros —, avise-me então quando estiver disposto a conversar.
E dizendo isso, levantou-se e andou até a barraca, entrando e subindo o zíper em seguida. Sasuke podia dizer facilmente por sua postura e tom de voz que Sakura estava furiosa. Não que a culpasse pelo ataque de raiva, ele mesmo não compreendia por que não sentia a menor vontade em planejar seu próximo passo agora.
Talvez soubesse sim, ele refletiu, pensando nas palavras de Shikamaru mais cedo e em como ele negou ter sequer visto o rosto de seu irmão no centro de refugiados. Sasuke não o culpava na verdade, ele próprio teria dificuldade em memorar um semblante em meio a tantos outros, ainda assim a negativa do soldado o inquietou.
Onde estaria Itachi agora?, ele se perguntava sem conseguir encontrar qualquer resposta ou alento.
Sasuke calmamente se deitou na manta estendida sobre o gramado, cruzando os braços atrás de sua cabeça para que lhe servissem de apoio. Soergueu o olhar entrecerrado até o céu escuro, pontilhado aqui e acolá por estrelas solitárias.
Se o centro de refugiados realmente passou por tudo o que Shikamaru relatou, ele concluiu com resignação, então Itachi certamente teria saído de lá antes que a situação se tornasse irremediável. Seu irmão era inteligente, teria previsto a queda do refúgio antes que qualquer um pudesse fazê-lo.
Mas a questão principal e mais importante ainda para Sasuke era o fato de que agora o irmão poderia estar em qualquer lugar do país. Essa linha de raciocínio silenciou seus demais pensamentos.
Apenas um pensamento passara a lhe fazer sentido: ele encontraria Itachi, mesmo que tivesse que revirar cada polegada do Japão, mesmo que tivesse que olhar embaixo de cada rocha. Disso Sasuke estava convicto. Reunir-se com seu irmão era uma de suas principais prioridades agora.
E nada o demoveria dessa decisão.
Não muito longe dali, em outra barraca, armada próxima a uma fogueira, Temari e Shikamaru trocavam sussurros, quase alheios às questões e aos dilemas que ainda precisavam conciliar. Entretanto, naquele instante, ambos buscavam esquecer-se dos problemas e das tarefas que ainda os aguardavam.
O que se tornou verídico, Shikamaru constatou extasiado, quando a mulher montou sobre os seus quadris e puxou-o para um beijo longo apaixonado, matando toda a saudade que sentira ao enroscar seus dedos nos seus cabelos, puxando o elástico para soltá-los do seu rabo de cavalo.
Ela descolou a boca da dele, abrindo um sorriso travesso enquanto suas mãos inquietas vagavam até os botões da camisa que ele usava. Shikamaru deixou que ela os desabotoasse um por um, pois sabia que nada a deteria agora.
— Me lembre de nunca mais sair em incursão com os idiotas dos meus irmãos — ela sussurrou com os lábios ainda tentadoramente perto dos dele; seu hálito quente o fazia perder os sentidos, assim como a leve fragrância de lavanda das roupas dela e do inconfundível cheiro de suor feminino da sua pele.
— Você sabe que eu não posso confiar em mais ninguém para trazer aqueles dois imbecis sãos e salvos — ele rebateu, as mãos por fim envolvendo-a pelos quadris. — Gaara é teimoso e cabeça quente e Kankuro é imaturo e imprudente, eles certamente se matariam se fossem deixados sozinhos.
Temari riu em anuência e em seguida espalmou ambas as mãos sobre o peito do homem, empurrando-o de encontro ao saco de dormir. Inclinou-se até ele, até que a sua boca roçasse a dele.
— O que achou daqueles dois? — ela sussurrou, movendo o rosto até poder encaixá-lo na curvatura do pescoço dele, espalhando beijos sobre a pele quente, sobre a pulsação acelerada e sobre a garganta que engolia em seco.
Shikamaru levou mais tempo do que o habitual para formular uma frase coerente.
— Gosto da garota, mas detestei o tal Sasuke.
— O Mister Simpatia? — ela abriu um sorriso malicioso, apoiando-se sobre os cotovelos para olhá-lo na parca iluminação. — Ele é gostoso, mas não me pareceu uma pessoa muito sociável.
— A prepotência dele me irrita — Shikamaru encrespou o rosto diante de seu próprio comentário, o que levou Temari a rir novamente.
A essa altura, ela, de alguma forma, conseguira desabotoar até mesmo a sua calça jeans. Agora ela acariciava seu abdome e sussurrava palavreados obscenos ao pé do seu ouvido. Quando ela se afastou para fitá-lo e encontrou-o abismado balançou a cabeça e tomou a iniciativa de tirar a própria camiseta.
— Nem mesmo ouse me recriminar — ela pontuou espaçadamente, abaixando-se até ele outra vez. — Tive que aturar as piadinhas e as indiretas do Kankuro por um dia inteiro.
Seus lábios se encontraram novamente e Shikamaru a abraçou, correndo as palmas de suas mãos pela pele macia de suas costas, os dedos aproximando-se perigosamente do fecho de seu sutiã.
— Eu não sonharia em fazer isso — ele lhe respondeu, a voz rouca de desejo, a respiração curta, alterada.
Quando ele enfim a puxou para mais perto, não houve mais espaço para conversações ou procrastinações.
Eram apenas os dois, seus corpos unidos, seus murmúrios fugidios que se esforçavam para conter, um dialeto que apenas dois amantes conheceriam enquanto saciavam seus desejos mais recônditos e redescobriam um novo mundo distante do que viviam.
Um mundo distante do real.
* * *
Se eu sou o último homem vivo
Ou se apenas ascendi antes da hora
Que eu seja o último homem vivo
Do que uma alma renegada.
Demon Hunter — Trecho de The Last One Alive.
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