Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
32 Capítulo XXXI: A Quintessência Corruptível
Notas iniciais
Dead World Assembly
“Passam-se muitos segundos enquanto Brian luta contra as lágrimas e tenta esconder a tremedeira. Ele olha para os restos do policial pela janela. Sente vontade de dizer ‘sinto muito’, mas acaba não fazendo. Só fica olhando para o corpo desfalecido que o cinto mantém no lugar".
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 87).
Capítulo XXXI:
A Quintessência Corruptível
O ocaso recai sobre a estrada quando eles decidem parar para acampar. O horizonte avermelhado lhes dá a impressão de que as nuvens estão em chamas; o sol dourado paulatinamente desbota a oeste, sua luz decresce em questão de minutos.
Sasuke e Sakura embrenham-se na vegetação que costeia a margem esquerda da pista. A temperatura já decaiu vários degraus e o vento enregelante estremece as copas das gigantescas criptomérias. Eles caminham por pelo menos mais quinze minutos e cada passada no leito morto de folhas e galhos secos é excruciantemente doloroso. Sakura tem certeza de que seus pés estão cheios de bolhas, e acredita que apenas vestir um segundo par de meias resolverá a questão, amenizando a sensação de ardência. As costas e os ombros de Sasuke doem devido ao peso das mochilas.
No trajeto, ele para e observa a reentrância no tronco achavascado de uma sequoia centenária. Decide que ela será o abrigo perfeito para o vento, além de esconder suas posições de forma estratégica. Eles descansam por pouco tempo antes de começarem a montar a barraca e a preparar as achas para uma fogueira.
Sasuke mais que depressa apanha um rolo de arame de dentro de uma das mochilas e cerca um perímetro que julga seguro, envolvendo-o em algumas árvores menores e terminando atrás da gigantesca sequoia na qual se abrigam a uma altura razoável.
Em seguida, ele prende algumas latas de alumínio esvaziadas em alguns pontos estratégicos do arame esticado. Sakura compreende quase que instantaneamente; se qualquer coisa tentar se aproximar do perímetro, vai esbarrar no arame e consequentemente sacudir as latas, criando um alarido que lhes dará a oportunidade de se defender.
Antes que anoiteça, Sasuke ainda tem tempo de armar um armadilha a alguns metros dali. Sakura o observa com fascínio, a forma como as mãos trabalham em seu mecanismo engenhoso, cuidando de cada detalhe, escavando a quantidade certa de terra, remexendo a porção exata do leito de folhas secas.
Mais tarde, enquanto ele limpa e retira as vísceras de um coelho rechonchudo com uma faca apropriada, ela vê se incapaz de refrear a curiosidade.
— Com quem aprendeu a caçar assim?
As mãos dele continuam trabalhando no coelho, contudo, os olhos mal piscam, certificando-se de limpar a carne adequadamente. As achas já alimentam as primeiras chamas tímidas da fogueira. Sasuke para por um instante, parece encarar as mãos cobertas de sangue e, finalmente, dá de ombros.
— Meu pai me ensinou.
Sakura pondera sobre a hesitação na voz dele, no rosto dele. As fagulhas do fogo lançam sombras estranhas sobre ele, brilham maníacas no negrume dos seus olhos. Ele parece perdido no labirinto do próprio passado, parece, na verdade, ter a expressão de uma criança que busca consolo desesperadamente.
De repente, ele volta a limpar a carne do coelho como se nada houvesse acontecido e Sakura decide não pressioná-lo mais, aprendeu a decifrar as atitudes de Sasuke com relação ao seu passado há algumas semanas; sabe quando a ferida é profunda demais ou quando o segredo é doloroso demais para ser partilhado. Ela imagina que método Fugaku utilizou para ensinar o filho a caçar, cria diferentes cenários com diferentes possibilidades e se retrai internamente a cada um deles.
Quando a carne está devidamente limpa e assando em espetos junto ao fogo, Sasuke se retira para se limpar e volta minutos depois. Sakura, por outro lado, continua sentada diante do fogo, abraçada aos joelhos e se sobressalta a cada ruído na floresta escura ao seu redor.
Ela reluta em comer quando o coelho fica pronto, teme que os enjoos a enfraqueçam novamente, mas Sasuke insiste que ela deve, não só por ela, mas também pelo bebê. Ela não come algo tão nutritivo e saciável como carne há tanto tempo que nem mesmo lembra mais o seu sabor. A primeira mordida não a deixa enjoada como pensava, na verdade o gosto gorduroso e a carne macia parecem despertar seu apetite.
Quando terminam a refeição, ele se propõe a montar guarda primeiro e recomenda que ela descanse. Sem desacatá-lo, Sakura se enfia dentro de barraca e se encolhe sob os cobertores. Cai em um sono agitado pela segunda noite.
Sasuke está recostado a uma saliência do tronco e observando o fogo quando ela desperta arquejando, algumas horas depois. A carabina descansa no colo dele, os dedos parecem estar travados em torno do cano.
Sem dizer uma só palavra, ela se aproxima, os ombros ainda envoltos no cobertor. Sasuke a olha, mas não diz uma só palavra conforme ela o abraça e o traz para dentro do abrigo do cobertor. A face dela, molhada de lágrimas, enterra-se em seu peito, ele as sente, quentes e frescas, mesmo através do tecido de sua camiseta.
— Sonhou com Ino? — ele questiona, fitando os tufos de cabelo cor-de-rosa debaixo do seu queixo; Sakura, entretanto, nega.
É o bastante para que ele saiba qual foi a razão que a levou a despertar arquejante e lacrimosa. Sakura teve outro pesadelo com o bebê. Ele a puxa para perto, afaga seu ombro e brinca com seu cabelo até que ela caia no sono outra vez. Pelo menos até que ela desperta e diz a ele que é sua vez de tentar descansar. Sasuke concorda e Sakura o solta para que ele possa se acomodar melhor, mas ainda estão abraçados, compartilhando calor humano na fria noite de outono.
O sol está nascendo no horizonte quando ele desperta, quase completamente descansado. O céu está clareando e as cotovias já cantam exuberantemente acima deles. Sakura chuta um punhado de terra com a ponta do coturno sobre a fogueira, que agora apenas exala uma tênue fumaça acre, e em seguida diz a Sasuke que vai se afastar um pouco.
— Não vá muito longe — ele recomenda taciturno e ela assente.
Sakura se distancia apenas alguns metros e decide cuidar o mais depressa possível das necessidades do seu corpo, pois não suporta os estalidos e os farfalhares das árvores ao seu redor.
A vegetação se fecha em volta dela à medida que seus pés a conduzem em uma direção que julga segura; ela para próximo a uma ravina, sombreada por uma tília velha e curvada. Os ramos estão tingidos pelas cores do outono: amarelo cítrico, vermelho queimado e laranja, mas algumas das árvores já perderam quase toda a sua folhagem, um prenúncio cruel da proximidade do inverno. O cheiro da terra úmida se mistura ao odor das folhas em estado de putrefação e dos líquens. Apenas pequenos roedores ziguezagueiam pelo leito de folhas mortas, o gorjeio das aves acalma Sakura.
Pouco tempo depois, ela ouve passadas apressadas vindo em sua direção e prepara a sua Glock antes de se dar conta de que é ninguém menos do que Sasuke. Ela torna a guardar a pistola no coldre e fita a expressão consternada que ele traz no semblante enquanto se acerca tempestivamente.
— Aconteceu alguma coisa? — ela pergunta com a voz fraca e não compreende a ira inflamada no olhar do parceiro até que avista o frasco que ele segura no punho cerrado.
Sasuke segue a direção de seu olhar e rapidamente estende o objeto para ela.
— Pode me explicar que porra é essa, Sakura?!
— Você mexeu nas minhas coisas! — ela acusa de modo defensivo, estendendo a mão para apanhar o frasco de pílulas, mas Sasuke recolhe a mão rapidamente, tirando-o do alcance dela.
Ela está pálida agora, e zonza, mas a raiva dele não arrefece.
— Anda, Sakura, me diz que porra é essa e por que isso estava escondido na sua mochila?! — volta a vociferar, a voz erguendo-se várias oitavas e escoando através dos troncos ocos das tílias.
— Fale mais baixo! — ela sibila de volta, custando a se controlar. Sasuke, no entanto, cerra os dentes.
— Foda-se o barulho, Sakura, eu quero saber o que é isso!
Finalmente, ela solta o ar lentamente através dos lábios apartados. Seu rosto assume uma fachada apática, distante, enquanto sua voz, ainda mais indiferente, flui de sua boca seca.
— É uma precaução, Sasuke. Só isso.
Se antes ele lhe parecera furioso, agora ele estava prestes a perder as estribeiras. Os olhos arregalaram-se e os lábios crisparam-se em uma linha pálida e firme. Ele rapidamente abriu a tampa do frasco e o sacudiu, atirando as pílulas no leito de folhas secas, para indignação de Sakura.
— Você não tinha o direito de decidir isso sozinha — ele declara ressentido, e ela o encara, mortificada.
— Eu não tinha o direito, Sasuke?! VOCÊ NÃO TINHA O DIREITO DE MEXER NAS MINHAS COISAS!
— Foda-se — ele reitera, cada músculo do rosto está travado, endurecido. — Esse bebê é tão meu quanto seu, Sakura, e você não podia ter feito isso.
— Mas eu não fiz absolutamente nada! — ela rebateu com exasperação, sacudindo os braços em gestos raivosos. — Eu te disse que isso era só uma precaução!
— UMA PRECAUÇÃO PARA O QUÊ, PORRA?! — ele estava berrando outra vez, a discussão já afastara os animais silvestres; Sakura se perguntava quanto tempo levaria para que atraísse outro tipo de coisa.
Então, decidindo ser racional e circunspecta, ela abaixou o tom de voz para um murmúrio:
— Para o caso de eu ser mordida, Sasuke. — Os olhos marejaram, o rosto encrespou em uma expressão dolorosa. — Eu juro que só peguei esses comprimidos para isso. Eu só os tomaria se... Se eu fosse... infectada. Se eu os tomasse logo em seguida de ter sido... — ela mordeu o lábio, hesitando — mordida, isso pouparia o bebê, Sasuke.
Ele calmamente tampou o frasco e se livrou dele. No instante posterior a isso, Sakura estava nos braços de Sasuke e sua boca estava grudada na dele. Mãos quentes e firmes estavam no seu rosto, retendo-a delicadamente, girando-o em busca de um ângulo melhor. O beijo era calmo, contido, até mesmo carinhoso; ela fechou os olhos e se entregou.
— Você não precisa desses comprimidos — ele sussurrou, a boca custando a se afastar, beijando-a de novo e de novo. — Você não precisa deles, Sakura, porque nada vai acontecer a você ou ao bebê. Eu não vou permitir — prometeu e ela assentiu.
Eles saíram dali e rapidamente voltaram ao acampamento, recolhendo tudo, desmontando a barraca e preparando-se para seguir viagem. Partilharam os últimos pedaços frios do coelho, hidrataram o corpo com água e em seguida voltaram para a estrada. O sol se firmava lentamente acima deles, mas as temperaturas permaneciam baixas.
Quase uma hora e meia depois, uma placa os recepcionou à margem da pista: eles estavam se aproximando da cidade de Takatsuki. Sasuke parou para observar o mapa por alguns minutos, estudando a rota mais adequada para se tomar.
— Vamos ter que atravessar Takatsuki também? — Sakura indagou hesitantemente; a perspectiva de atravessar outra cidade a deixava enjoada, e agora eles não dispunham mais do Impreza.
Sasuke, no entanto, franziu a boca para o mapa antes de dobrá-lo e guardá-lo em sua mochila.
— Vamos em frente — confirmou, mas ela podia dizer que ele também não estava contente com a situação.
Conforme se aproximavam da cidade que no passado teve pouco mais de 300.000 habitantes, os vestígios do apocalipse, como era consueto, começaram a transbordar da pista larga. O primeiro automóvel, um Toyota Spade vermelho, estava abandonado no acostamento, todas as quatro portas abertas; parecia que seus antigos donos fugiram às pressas.
Sasuke se aproximou para verificar o carro. As chaves estavam na ignição, intactas, mas uma olhada mais atenta no painel revelou que o tanque estava vazio.
— Não tem combustível — ele murmurou de mau-humor e em seguida se esgueirou para o banco do motorista, passando a verificar o porta-luvas e os outros compartimentos em busca de qualquer coisa que viesse a ser útil.
Sakura, seguindo o exemplo, se curvou até o banco de trás e verificou embaixo dos assentos da frente e nos vãos do estofado. Por último, eles verificaram o porta-malas, mas exceto por algumas barras de cereal mofadas e uma vara de pescar de carbono, não havia mais nada.
A entrada de Takatsuki aos poucos se tornou perceptível. Dois prédios gêmeos se erguiam contra o horizonte límpido, de fronte para uma plataforma de cimento; era a estação de Takatsuki, famosa entre os turistas que viajavam de Osaka à Kyoto. Agora ela estava abandonada, suja de fuligem e pichada com frases que anunciavam o fim do mundo. Ao fundo, as montanhas tornavam-se borrões cinzentos envoltos em véus alvos de nuvens.
A vista panorâmica da cidade tirou-lhes o fôlego. Entre os prédios charmosos e as residências comuns, ruas estreitas e avenidas largas se multiplicavam, todas atulhadas de lixo e automóveis abandonados, como já era esperado. Apesar disso, apenas um ou outro errante era visto à distância, arrastando-se a esmo.
— O que acha? — Sakura perguntou a Sasuke, o olhar vidrado na cidade logo abaixo, nos outdoors que descascavam expostos às intempéries, no cinza do aço e no cinza do concreto.
— Calmo demais — ele respondeu soturno, mas prosseguiu ainda assim, descendo o declive e Sakura o seguiu sem questionamentos.
Havia desde pequenos automóveis até ônibus e caminhões 4x4 largados nas ruas ladeirentas, o cenário desolador era o mesmo que haviam visto em Osaka, era o mesmo que se repetia em cada cidade, interiorana ou não. As fachadas de alguns prédios exibiam faixas com pedidos de ajuda, outras estampavam mensagens de desesperança e nomes de entes queridos mortos. Árvores e flores plantadas em canteiros apodreciam lentamente. O lixo se espalhava pelo asfalto, lembranças de um mundo de outrora, capitalista e ambicioso.
O sol, gradualmente, desapareceu por trás da estrutura de um prédio comercial. Nuvens cinzentas obscureceram o céu antes límpido. Rajadas de vento traziam o uivo dissonante dos mortos e faziam Sakura tremer em sua jaqueta. Alguns poucos errantes surgiram à vista: um estava preso embaixo da roda de um automóvel e agitava os braços continuamente, outro estava seguro pelo cinto de segurança, ainda dentro do carro, e olhou os visitantes com olhos mucosos e famintos.
A fila de automóveis abandonados se estendia pelo menos até o fim da rua. Os elegantes prédios comerciais passaram a dar lugar a restaurantes temáticos e lojas de grifes famosas. A maior parte das vitrines estava destruída ou crivada de tiros.
Sasuke observava cada automóvel ali, mas a maior parte ou não tinha combustível ou as chaves não estavam na ignição e ele não sabia se valia a pena parar para tentar uma ligação direta, não com o coro dos mortos crescendo exponencialmente atrás deles. Portanto, cerrou o punho e apertou o passo. Pelo menos até que o som de uma lata vazia rolando no asfalto o fez parar.
Ele estendeu o braço e bloqueou o caminho de Sakura, pedindo para que aguardasse. Um suor frio e característico porejou sua nuca quando, no fim da rua, uma silhueta bamboleante e gemebunda surgiu. Mais que depressa, ele agarrou o braço dela e a puxou para trás de uma caminhonete, abandonada transversalmente na calçada.
Sakura compreendeu e não fez qualquer ruído. Viu quando Sasuke se abaixou para olhar por baixo da caminhonete. Ele cerrou os dentes e rapidamente mostrou os cinco dedos da mão esquerda para ela. Cinco errantes, ela pensou, assustada. Sasuke se ajeitou em sua posição, plantou as palmas das mãos e os joelhos no asfalto sujo e abaixou-se para observar novamente, acompanhando o trajeto desleixado dos errantes, suas passadas trôpegas e arrastadas conforme se aproximavam, gemendo baixinho.
Então ele agiu; puxou Sakura pelo braço novamente e, ainda abaixados, eles contornaram a caminhonete cuidadosamente pela parte de trás. O pequeno grupo não pareceu notá-los, de forma que continuou seu caminho. Os dois se esgueiraram silenciosamente através das fachadas e das vitrines destruídas, sob marquises que pareciam prestes a ruir.
Alcançaram uma esquina, e Sasuke deliberadamente esticou o pescoço para olhar para a rua seguinte. Sakura percebeu que ele ficou pálido de repente, suor escorria pelo seu rosto. Rapidamente, ele voltou o olhar para ela e sacudiu a cabeça, exasperado. Pelos ruídos que ouvia, ela imaginava que o pequeno grupo que deixaram para trás era apenas uma amostra da real horda que os aguardava naquela rua.
Sasuke escorregou a mão que a retinha pelo cotovelo para a própria mão dela, segurando-a firmemente. Sakura engoliu em seco, entendendo o que ele ia fazer; eles precisavam atravessar Takatsuki, essa era a única forma de continuarem a viagem e alcançarem Yokohama.
De súbito, ele começou a correr, os músculos esguios e portentosos levando-o adiante, e trazendo Sakura consigo. Ela arriscou um único olhar por sobre o ombro e estremeceu; eram dezenas de errantes que logo os notaram e gemeram roucamente em uníssono, o som da fome. Um rosnado intimidador que rapidamente encheu as ruas atulhadas de lixo e logo se transformou no som de um vespeiro enfurecido.
Sasuke não se importou com isso, é claro, apenas aumentou o ritmo das passadas, suas pernas longas e fortes o impulsionando para frente velozmente, enquanto rebocava Sakura consigo. Apesar de não estar em sua melhor forma física, ela fez o que pôde para acompanhá-lo, até que os músculos de suas pernas começassem a queimar.
Ela também não precisou olhar para trás para saber que os errantes estavam em seus encalços, podia senti-los. As mãos cobiçosas estendendo-se para eles, seus odores intoxicando o ar frio, suas vozes roucas preenchendo as lacunas silentes. E a pulsação de Sakura reverberava dentro dela, cada batida de seu coração era desesperada, ensurdecedora. Seus olhos lacrimejavam, ardiam, sua boca estava apartada tentando sorver o máximo de oxigênio que seus pulmões doridos já demandavam.
— SASUKE! — ela gritou por cima do som devastador de sua própria palpitação e de sua respiração ruidosa.
Ele a ignorou e a puxou para dentro de um prédio retangular com uma fachada inteiramente feita de vidro, um amplo estacionamento e diversas vitrines. Era um Shopping Center, compreendeu assim que eles irromperam no saguão principal, através de uma larga porta de vidro, seus passos apressados estrepitando no piso de mármore rosado.
Sasuke continuou puxando-a consigo, empurrou com força uma porta de metal nos fundos no primeiro piso (possivelmente uma entrada usada apenas por funcionários no passado), e guiou-a escadaria acima. No segundo andar, Sakura se viu dentro de uma loja de artigos esportivos, escondida atrás de um balcão enquanto tentava recuperar o fôlego. Sasuke passou os braços em torno dela, ele próprio arquejando loucamente, e, juntos, eles aguardaram em completo silêncio.
Estava escuro ali dentro, as lâmpadas de led acopladas ao teto há muito já não funcionavam. A mercadoria estava espalhada por todos os recantos, revirada e atirada como se um furacão tivesse passado por ali, desde conjuntos de moletom a agasalhos de plush, de bolas de couro a raquetes de fibras de carbono entre outros acessórios.
Sakura se apertou contra Sasuke e tentou isolar os ruídos que repercutiam à distância.
— Acho que... — ele sussurrou, ainda sem fôlego, o olhar vago. — Acho que eles se foram.
Ela soltou uma exclamação de alívio, ainda arquejando, e enganchou os dedos na camiseta dele. Até que Sasuke enrijeceu ao seu lado, tendo ouvido um clique familiar e um calor intenso atingir as suas costas. Uma voz grave murmurou em seguida:
— Levantem os dois e coloquem as mãos onde eu possa ver.
Sasuke trincou os dentes com força, mas fez como lhe foi dito. Apartou-se de Sakura e levantou as mãos, virando-se lentamente para olhar o intruso. Sakura fez o mesmo, tremendo ligeiramente enquanto focalizava o cano da Taurus .380 apontada tanto para ela quanto para Sasuke.
Por trás da arma, um garoto jovem, pele pálida, lábios finos, olhos que brilhavam mesmo na escuridão, da cor das águas-marinhas ela distinguiu o matiz, e cabelos vermelhos como fogo, curtos e revoltos. Ele estreitou o olhar, suas sobrancelhas eram tão claras que quase não se podiam vê-las, ainda que sugerissem irritação pela forma como se enviesavam. Vestia um moletom com capuz surrado e jeans velhos, mas os tênis eram novos e confortáveis.
— Quem são vocês? — ele demandou; o tom de voz era baixo, cauteloso.
— Nós não estamos procurando problemas — Sasuke respondeu pelos dois, forçando-se a manter a voz estável. — Nós só estamos de passagem por aqui.
— Bem — o ruivo murmurou, o cano da Taurus brilhando a centímetros do rosto crispado de Sasuke —, parece que vocês encontraram problemas mesmo assim.
— Por favor — Sakura sussurrou de forma contida, as mãos tremiam, erguidas no ar. — Nós realmente só estamos de passagem por aqui.
O garoto a olhou por um instante, mas ainda não havia abaixado sua pistola, nem mesmo fizera menção de ter tal intenção. Sasuke estava tenso ao seu lado, ela podia senti-lo, e se perguntava quanto tempo levaria para que ele perdesse a cabeça e perpetrasse uma besteira. No entanto, ao olhar para o rosto de Sakura, fragilizado e assustado, algo pareceu ter arrefecido a resolução do garoto ruivo.
Subitamente, ele abaixou a pistola prateada brilhante.
— Meu nome é Gaara — ele disse e Sakura abriu um pequeno sorriso, abaixando as mãos lentamente.
— Eu sou a Sakura... E esse é o Sasuke — ela também o apresentou, gesticulando para o rapaz ao seu lado, visto que ele mesmo não demonstrava ter a menor intenção de fazê-lo e se limitava a fuzilar o ruivo com o olhar.
Gaara guardou sua pistola em um coldre em sua coxa esquerda e murmurou apático:
— Bem, Sakura e Sasuke, eu vou simplificar as coisas para vocês: se quiserem sair daqui com vida, é bom que venham comigo.
* * *
Nós caminhamos por essa terra
Com fogo em nossas mãos
É olho por olho
Nós somos os Nêmeses.
Arch Enemy — Trecho de Nemesis.
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