Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
29 Capítulo XXVIII: A Ascensão do Império Draconiano
Notas iniciais
Dead World Assembly
“Na saída, cada um — com exceção de Philip — evita escrupulosamente olhar para os corpos caídos nas poças de horror, espalhados pelo armazém. Philip parece fissurado pela visão dos corpos iluminados pela luz do dia”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 83).
Capítulo XXVIII:
A Ascensão do Império Draconiano
O primeiro disparo atingiu a lataria de um automóvel consumido pelas chamas; o projétil crivou-se na carroceria chamuscada com um estampido metálico agudo.
Abaixo da ponte, as águas agora escuras do canal Akashi se revolveram, agitadas, o vento ainda gemia em torno do arcabouço oco da estrutura de aço e concreto da ponte Akashi Kaikyo, mas seus lamentos decresciam em face dos estampidos abruptos: a melodia desarmoniosa própria de uma guerra.
O odor acre da fumaça temperava o ar, conjuntamente com o cheiro rançoso de carne podre tostada dos errantes pegos pelo fogo.
Mais outros disparos procederam o primeiro, cada estampido aterrorizando Sakura como um choque de um milhão de volts, eletrocutando sua espinha. Um projétil atingiu o asfalto, a poucos centímetros dos seus pés, outro crivou-se no porta-malas do Impreza, ainda atolado no carpete de mortos-vivos, consumidos pelo fogo até que quase nada restasse.
Em horas como essas, era de se esperar que o borbotão de adrenalina, correndo livre por seu corpo, acelerasse a sucessão dos eventos traumáticos. Ao invés disso, o pavor nauseabundo que a envolveu desacelerou a sua percepção do ambiente externo. Seu cérebro enviava sinais de alerta, que reluziam rubros como sangue, para os seus músculos paralisados, ordenando que se movessem. Curvar. Correr. Proteger.
Por que o terror a impedia de se defender agora? Porque o mesmo terror, com a potência de um punho de ferro colidindo com a sua garganta, lembrou-a de que agora ela não estava mais por conta própria. O bebê!
E foi como se o mesmo punho de ferro, fortemente atolado na base de sua garganta, agora retorcesse as suas cordas vocais, esfolando-as para que não vocalizassem o vigor de seu medo. E num mero arquejar, Sakura se lembrou da razão pela qual precisava buscar proteção da saraivada de tiros.
Milésimos de segundos se passaram desde o primeiro disparo e agora Karin a fitava, os olhos assombrados e arregalados, emudecidos de pavor, molhados por lágrimas de desespero. Sasuke, no entanto, foi o primeiro a apartar os lábios e encrespar o rosto em tensão:
— Busquem abrigo! — rosnou ele, já se afastando, encurvado.
Sakura notou quando a mão dele viajou até o interior da jaqueta, os dedos apalpando para alcançar a Ruger no coldre axilar. Ela brilhava fracamente, cinza e prateada. O seu estampido regurgitou no vazio, trovejando de encontro aos tiros que ainda vinham na direção oposta — a direção deles.
O bebê!, seu cérebro a lembrou novamente, proteja o bebê! Karin rapidamente agarrou a sua mão ensopada de suor e a puxou em outra direção enquanto projéteis continuavam a viajar no espaço acima das suas cabeças, acertando outros automóveis, desaparecendo na cortina de fumaça que os envolvia.
Karin envergou as costas e continuou a puxar Sakura até um automóvel chamuscado. Mas cada passo parecia-lhe demasiadamente lento e a distância, ao invés de encurtar, apenas se alargava. Sakura se perguntou se isso teria qualquer relação com se estar próximo da morte.
Ela se deu ao luxo de olhar por cima do ombro apenas uma única vez, vendo que Sasuke lhes fornecia cobertura, tendo também se movido, na direção oposta, descarregando a Ruger contra a cortina de fumaça, atraindo para ele a maior parte da saraivada de tiros.
A fumaça acre fazia seus olhos lacrimejarem e ela teve receio de pisar em falso ou tropeçar, e, no entanto, o aperto férreo de Karin em seu pulso, insistentemente doloroso, mantinha os seus músculos em movimento. O automóvel estava próximo. Mais alguns metros, mais algumas passadas.
Nós vamos conseguir, nós vamos conseguir, nós temos que conseguir, dizia para si própria num discurso conciso. Sua mão se cerrara, seus dedos se contorciam, queriam estar em volta da Glock, queriam tocá-la, segurá-la. Nós vamos conseguir. E por fim elas o alcançaram.
Não havia se passado nem mesmo um minuto desde o primeiro disparo, apenas alguns segundos os separaram da vida e da morte.
Sasuke também encontrou cobertura dos tiros no mesmo instante em que Karin e Sakura se lançaram para trás do automóvel chamuscado.
No exato momento em que um projétil, viajando a uma velocidade excepcional, raspou na lataria do carro inutilizável com um grasnido metálico.
No exato momento em que Karin atravessou a sua trajetória num capricho satírico do destino.
A bala, oriunda de um Heckler & Koch 416, entrou pela lateral esquerda do seu corpo, estilhaçando duas costelas antes de seguir um percurso diagonal através da caixa torácica, atingindo o baço e perfurando um dos pulmões antes de sair do corpo por debaixo da axila direita.
Sakura captou a mudança na garota à sua frente no instante em que a sentiu paralisar por um único átimo de segundo, o corpo enrijecido, travado, as costas levemente arqueadas. Isso antes que Karin vacilasse em suas passadas e tombasse no asfalto de bruços, efetivamente trazendo Sakura consigo.
Agora, protegidas dos tiros, ainda que com um segundo de atraso, a garota apoiou ambas as mãos no asfalto e tossiu, ofegando por ar, enquanto a ruiva permanecia estirada no concreto, imóvel, bem ao seu lado.
O zumbido em ambos os ouvidos de Sakura parecia abafar inteiramente os ruídos externos; dentro da sua cabeça, uma tempestade violenta ainda se desenrolava, seus pensamentos estrondeavam, caóticos.
Assim, gritando internamente pelo nome da outra garota, ela se apressou para acudi-la. Cada movimento para inspirar e expirar ar era incomumente doloroso.
— Karin! Karin, olhe para mim, me escute! Se concentre na minha voz... Karin! — suplicava, apressando-se para encaixar as mãos sobre as axilas da garota e virá-la de barriga para cima.
A visão a chocou: os óculos haviam trincado e quebrado na queda e agora pendiam tortos do rosto ensanguentado da garota. Seu rosto pálido e assustado fitou Sakura com uma súplica angustiada, um pedido de ajuda. Um borbotão de sangue tingiu seus lábios apartados.
— Karin! — Sakura gemeu e, contendo a náusea, desceu os olhos para o ferimento letal.
Rapidamente, ela tirou a jaqueta que vestia, tomou fôlego e pressionou as mãos no local por onde a bala entrou, mentalmente determinando quais órgãos vitais haviam sido atingidos no percurso do projétil e listando as consequências de um ferimento à bala em cada um deles.
Sakura sabia que, pelo fato de que Karin lutava para respirar e expelia sangue pela boca, um dos pulmões havia sido perfurado, o que caracterizava no mínimo pneumotórax e, na pior das probabilidades, um hemotórax, o que significava que agora, além da mudança abrupta de pressão na caixa torácica estar esmagando ambos os pulmões e o coração, o pulmão ferido também estava se enchendo de sangue. Uma drenagem torácica poderia salvá-la, Sakura mordeu o lábio com força, mas como?!, ela se perguntava; sem equipamentos necessários e no meio de um tiroteio não havia quase nada que ela pudesse fazer.
— Karin, me escute... Olhe para mim — sussurrou, apertando as mãos no ferimento para tentar conter o sangramento; suas palmas já estavam rubras e pegajosas de sangue. — Tudo vai ficar bem, só se concentre na minha voz, tudo bem? Tudo vai dar certo... Consegue me ouvir, Karin? Por favor, só... Só se concentre no som da minha voz...
Mas conforme a menina empalidecia e sufocava no êxito de respirar, Sakura se surpreendia pelas palavras mentirosas que continuavam escorregando de sua boca. Tudo ficará bem. Você não vai morrer. Só ouça a minha voz. Lágrimas vedaram os seus olhos enquanto mais tiros ecoavam ao seu redor e a vida escoava abaixo dos seus dedos.
— Eu sinto muito, eu sinto muito, eu sinto muito, eusintomuito, eusintomuito, eusintomuito — repetia sem cessar, se entregando ao choro, agora que a vida se esvaíra, apagando-se por trás dos olhos rubros entrecerrados, extinguida nos derradeiros e debilitados batimentos de seu coração.
Num frenesi irrequieto, as mãos de Sakura, empapadas de sangue, deixaram de pressionar a ferida e buscaram pela Glock em seu coldre. Seus dedos, embora escorregadios, abriram o fecho e envolveram a arma enquanto o jorro de pânico cedia espaço para uma ira disparatada.
Sakura desabou de encontro ao automóvel, mãos trêmulas, olhar vazio. Seu dedo indicador encontrou seu espaço no gatilho. Do outro lado, Sasuke ainda trocava tiros com seus agressores, alheio aos eventos traumáticos que ela acabara de experimentar.
O zumbido em seus ouvidos se acentuou até ter encoberto quase todos os outros ruídos. Sua boca estava seca, o seu coração acelerado. O corpo de Karin, estirado ao seu lado, já esfriava. Respirou fundo uma, duas, três vezes.
Moveu-se então; deslizou através do concreto, mas permaneceu abaixada. Segurou a Glock com ambas as mãos, encostou-a no rosto. O metal negro estava frio, mas não por muito tempo.
Um, dois, três, ela contou. Fechou os olhos e, por fim, deixou o abrigo. Pôs-se de joelhos no concreto, estirou os braços por cima do porta-malas do automóvel modelo sedan, a cabeça abaixada, então puxou o gatilho. Uma, duas, três vezes. Deslizou de volta para a cobertura, resfolegando.
Desta vez contou até cinco, estava prestes a irromper outra saraivada de tiros quando o último disparo soou, soçobrando em uma inquietude tão ou até mais assustadora do que a sinfonia das armas de fogo conjuntas.
Sakura tombou o rosto e olhou para Sasuke, que se ocupava em retirar o pente vazio de sua Ruger, e recarregá-la com um pente novo. Ele puxou a trava e esperou, suor escorria pelo seu rosto. Uma rajada bruta de vento soprou dedos de fumaça em torno dele.
Entreolharam-se, mesmo à distância. Estavam ofegantes e suados e sufocados pela quantidade de fumaça que os cercava, mas bastou que Sasuke batesse o olhar na figura solitária de Sakura, recostada à lataria de um carro completamente queimado, para que seu rosto se revelasse numa expressão atônita e parcialmente incrédula.
Como se respondesse ao seu questionamento, Sakura meneou a cabeça em negativa. Ele cerrou os dentes e se inclinou deliberadamente, espiando através da fumaça o principal acesso à ponte Akashi Kaikyo. Em seguida, gesticulou para Sakura com o punho cerrado; pediu que aguardasse.
Ao fundo, um novo zumbido detectava-se: baixo, melindroso, potente.
Sasuke levantou-se no mesmo instante em que compreendeu: um veículo em alta velocidade cruzou a ponte, envolto em anéis negros de fumaça. Reconheceu o modelo assim que colocou os olhos sobre ele: uma caminhonete prateada Mazda BT-50.
Sakura soltou um grito e se encolheu assim que a caminhonete bateu contra a traseira do Impreza, provocando um guincho metálico estrondoso enquanto o veículo menor e atolado era empurrado vários metros à frente devido à potência do motor da caminhonete e à velocidade absurda quando o choque aconteceu.
Foi o bastante para Sasuke que, já tendo se levantado, bradou para a garota:
— Sakura, corre!
Acatando-o, Sakura se levantou, contornou a traseira do veículo chamuscado e se abaixou novamente, desta vez abrigando-se do lado oposto. A caminhonete brilhante percorreu vários metros antes de virar abruptamente, fazendo uma curva fechada e perigosa e, então, voltar-se na direção de ambos mais uma vez.
Os faróis acesos afugentaram a escuridão da fumaça e os para-choques dianteiros exibiam envaidecidos o resultado da batida contra o Impreza, esquecido em um canto agora. O motorista, oculto pela densidade da fumaça, acelerou novamente e soltou a embreagem no instante em que um vulto se ergueu na carroceria da caminhonete.
Era alto e musculoso, com braços e pernas grossos e um tronco ainda mais grosso: um soldado preparado para a batalha. Os cabelos cinzentos e oleosos estavam penteados para trás e o rosto estava sujo, porém contorcido numa careta de desprezo. Os braços musculosos do homem logo sustentaram uma arma de fogo temível, o Heckler & Koch 416, tão preto como carvão.
Sasuke o reconheceu no momento em que notou o cabelo cinzento e penteado para trás.
— Merda — vociferou através dos dentes trincados.
De cima da carroceria da caminhonete que agora avançava em sua direção, Hidan abriu um sorriso amplo, cheio de dentes, e urrou um grito de guerra.
Sasuke afastou-se alguns passos, sem dar as costas à caminhonete e aos seus ocupantes, agora enxergando um segundo homem na carroceria, bem ao lado de Hidan, e armado com um taco de beisebol cuja base havia sido envolta em arame farpado.
— Sasuke! — ele ouviu Sakura gritar, atrás de si, enquanto a caminhonete acelerava ainda mais, aproximando-se velozmente.
Ele se jogou no último instante, batendo o corpo no concreto. O automóvel passou rasgando bem ao seu lado, prosseguindo através da fumaça até que desaparecesse do seu campo de visão, brecasse e desse a volta mais uma vez.
Sasuke se levantou com um palavrão na ponta da língua, correu até Sakura e a puxou para perto.
— Porra, é o Hidan! — ele exclamou, estupefato, conforme a caminhonete se aproximava em alta velocidade novamente.
— COMO PODE SER ELE?! — Sakura parecia à beira da histeria. — Merda, Sasuke, ele matou a Karin!
Sasuke cerrou os dentes em resposta e aguardou pelo ruído potente do motor outra vez. Hidan os havia seguido. Hidan estivera em seus encalços... Talvez desde o começo. E o que ele queria? Ora, e o que mais seria? Retaliação, obviamente. Vingança. Vingança contra ele. Sasuke.
Ele puxou Sakura consigo, contornou o mesmo automóvel e a colocou em segurança. A caminhonete vinha em alta velocidade mais uma vez. E, no entanto, ela parou, a cerca de vinte, vinte e cinco metros dos dois.
Hidan, ainda exibindo orgulhosamente o seu rifle de assalto, se inclinou sobre a carroceria da caminhonete e torceu os lábios grossos em um sorriso doentiamente macabro.
— APAREÇA, SEU FILHO DA PUTA! ANDE, NÃO SEJA UM COVARDE, SEU MERDINHA! — esbravejou, olhando em derredor, para a cortina de fumaça que ascendia do asfalto e envolvia os carros abandonados. — SEJA UM HOMEM, SEU DESGRAÇADO! — Hidan apontou o rifle de assalto para o alto e disparou uma saraivada de tiros.
— O que nós vamos fazer?! — Sakura sibilou entre os dentes cerrados, os olhos marejados, os dedos ensanguentados tremendo em torno da pistola.
Hidan deu dois tapas no teto da caminhonete e em seguida o motorista deu a ré a toda a velocidade. Nesse momento, Sasuke deixou o abrigo do automóvel e disparou contra a cabine da caminhonete, mirando no motorista. Os tiros crivaram-se no capô e alguns acertaram o para-brisa, estilhaçando o vidro.
— Fique aqui! — Sasuke ordenou à Sakura enquanto a caminhonete desaparecia outra vez; ele aproveitou a deixa e se esgueirou rapidamente até o Impreza, abandonado vários metros à frente, o porta-malas completamente amassado.
Sakura empalideceu quando ouviu o ronco do motor outra vez.
— Sasuke, está voltando! — ela berrou acima do som ensurdecedor de pneus cantando no asfalto, mas ele já encontrara o que estava procurando.
Suando frio, Sasuke lutou para encaixar o rifle de caça nos ombros enquanto buscava alguma espécie de abrigo na porta escancarada do motorista. Seu olho encontrou a mira ao passo que seu dedo indicador encontrou o gatilho. Sakura se encolheu em seu esconderijo quando a caminhonete passou rasgando ao seu lado, acelerando em direção a Sasuke.
Tudo aconteceu muito rápido: em um instante, a caminhonete avançava contra o Impreza — e consequentemente contra Sasuke —, no outro, o som de um disparo se fizera ouvir, e um estalo alto também, um estouro agudo e penetrante: um pneu rebentou.
Sakura se protegeu quando notou que o motorista da caminhonete perdeu o controle e a virou para o lado abruptamente, tombando no concreto com um som estrondoso de metal destroçado e vidro estilhaçado. Hidan e o outro homem na carroceria foram lançados em direção ao asfalto, ao passo que os dois ocupantes na cabine sofriam com o capotamento.
Sasuke surgiu nem meio segundo depois, desta vez tinha a carabina em posse e não parecia receoso de usá-la, o rifle de caça pendia do seu ombro. Sakura preparou a sua Glock, mas um gemido enrouquecido, soando bem ao seu lado, a paralisou.
Olhando rapidamente, ela testemunhou enquanto o corpo de Karin ganhava vida mais uma vez; os dedos das mãos se remexiam, os membros se movimentavam com espasmos, a boca abria e fechava com sons impronunciáveis e baixos. Deus, não, lamentou-se, mordendo o lábio.
Ela se mexeu, incerta sobre como testar os membros primeiramente, a pele pálida já exalava um odor característico e mais sons rompiam sua garganta. A cabeça tombou para o lado, os óculos quebrados caíram no chão. Os olhos opacos focaram em Sakura.
— Me perdoe — ela sussurrou para a garota e estendeu o braço.
O cano da Glock recostou-se à testa pálida. Ali não era Karin, mas Ino. Sakura piscou, forçando-se a esquecer da visão perturbadora. Cerrando os olhos com força e rezando para que fosse perdoada, enquanto a errante recém-desperta avançava contra ela, esfomeada, Sakura puxou o gatilho e se recusou a abrir os olhos, mesmo quando o corpo tombou para trás com um baque abafado, desta vez de forma definitiva.
— Me perdoe — tornou a dizer, lacerada por dentro.
Sasuke assistiu à cena à distância, mas logo voltou a sua atenção para a caminhonete tombada. Ouviu um gemido masculino e se aproximou cautelosamente, mesclando-se à fumaça densa.
O primeiro deles saiu rastejando de dentro da cabine amassada, tossindo e arquejando. Ele notou Sasuke e paralisou; era um homem meio calvo, na casa dos quarenta anos, e estava terrivelmente sujo e suado. Havia uma faca de caça em seu cinto, mas não houve tempo para alcançá-la.
A carabina quando disparada não se comparava à outras armas de fogo. Enquanto pistolas e rifles de assalto produziam um estampido agudo e abrupto, a espingarda reverberava com a potência de um trovão. O som ecoava por cada tecido fibroso do corpo, por cada terminação nervosa. O ricochete poderoso aquecia os músculos com algum tipo de excitação.
O homem caiu de encontro a caminhonete tombada, as mãos em torno do abdome lacerado, sua regata encardida empapada de sangue. Sasuke propositalmente evitou atingi-lo na cabeça. Uma ideia começava a se formar na sua cabeça, e ele queria colocá-la em prática.
Então, deixou o homem ali, enquanto ele sufocava com o próprio sangue. Sasuke deu a volta na caminhonete, preparando a espingarda para um segundo disparo, descartando o invólucro com um tinido metálico. Ele se abaixou até a altura do vidro estilhaçado da janela do carona e sorriu ao constatar que o homem, atado ao cinto de segurança, estava inconsciente. Sangue gotejava de um ferimento em sua cabeça.
Levantou-se e seguiu para os dois homens estirados no asfalto, no meio da pista. A queda os esfolara a ambos, mas Hidan parecia particularmente mais ferido. Ele apresentava dificuldade para se levantar. O outro, jogado de bruços, permanecia inconsciente.
Sasuke se acercou do primeiro, ainda desacordado. Apontou o cano da puma .38 diretamente nas costas do homem e, sem hesitar, puxou o gatilho. O estrondo grave e poderoso ecoou novamente. Mais um invólucro era descartado no asfalto. Sangue respingou na camiseta e na bochecha do rapaz. De novo, ele evitou a cabeça.
Com um olhar sombrio mas satisfeito, ele se voltou para Hidan, que, àquela altura, virara de barriga para cima e se arrastara para longe do rapaz, sentando-se com dificuldade. Seu ombro deslocado doía terrivelmente. Seus dedos dormentes se fecharam em torno da H&K e ele tentou mirá-la em Sasuke.
Pressentindo isso, Sasuke atirou primeiro, mirando o cano da carabina no cotovelo do homem. O impacto violento do projétil explodiu o membro em pedaços do cotovelo para baixo, estilhaçando osso e rompendo músculos e nervos. O braço quase que completamente decepado caiu contra o asfalto, banhado em sangue, imprestável.
Hidan urrou de dor e agonia, os olhos violetas dançando nas órbitas.
Mas ele não desistiu; tentou se levantar outra vez e, urrando, investiu contra Sasuke. O rapaz esquivou do gancho de esquerda e aproveitou uma abertura para esmurrar o homem no queixo, enviando-o de volta ao chão.
— Co-como... — ele balbuciou, envolvendo o toco ensanguentado que era o seu cotovelo e cuspindo sangue no concreto. Sasuke descansou o cano da arma no ombro e abriu um sorriso presunçoso, assomando sobre o homem caído. — Co-como você...
— Como sei atirar assim? Como sei lutar assim? — presumiu, os olhos negros faiscando em diversão. — Meu pai me ensinou, seu pedaço de bosta ignorante. Meu pai, que trabalhava para o Governo, me ensinou como ser um sobrevivente, seu filho da puta miserável.
Hidan recuou, petrificado, sangue jorrava do ferimento em seu cotovelo.
— O que você...
— O que vou fazer com você?! — Mais uma vez ele se adiantou. Depois, arriou os ombros, como se estivesse relaxando. — Não vou te matar, se é o que está pensando. Pedaços de merda como você não merecem a morte. Não — ele garantiu com uma expressão sombria —, eu não vou te matar. Mas você merece uma lição por ter mexido com a pessoa errada.
Sasuke recarregou a carabina e a apontou para a perna esquerda de Hidan. Disparou sem hesitação e o urro de agonia do homem trouxe-lhe uma satisfação secreta e insólita. Em seguida, ao ver que o homem ainda se contorcia de dor pelo ferimento logo abaixo do seu joelho, Sasuke mirou na outra perna e puxou o gatilho. O último invólucro caiu no chão, tinindo. Hidan àquela altura esvaziara a sua bexiga devido à intensidade lancinante da dor.
— S-seu filho da puta... CACETE! — ele vociferou entre os dentes encerrados, cada músculo enrijecido pela dor.
O rapaz abaixou-se em seguida, ficando cara a cara com o homem:
— Está vendo os outros corpos? — ele indagou, indicando com o polegar para os corpos estirados. — Eu evitei atingi-los na cabeça de propósito. Diria que é uma questão de minutos para que eles despertem. Famintos, eu devo frisar — acrescentou sombriamente.
A face do homem empalideceu de horror. Desta vez, Sasuke gesticulou para as pernas feridas de Hidan.
— Se eu fosse você, já começaria a me arrastar. — E se levantou com outro sorriso sombrio desfigurando seus lábios pálidos. — Aliás, boa sorte com isso.
Sasuke se afastou com passadas rápidas, mas antes de se aproximar do Impreza para guardar suas armas, voltou até onde Hidan estava e apanhou o rifle de assalto, jogado no asfalto, pendurando-o no ombro livre.
Acercou-se da caminhonete tombada e fez questão de abrir o fecho do cinto de segurança que prendia o homem inconsciente ao banco do carona antes de se afastar completamente. Guardou as armas no banco de trás do Impreza e virou-se para encontrar Sakura, pálida e assustada, mortificada de pavor.
— O que você fez, Sasuke? — ela indagou, fios de cabelo escapavam do seu rabo de cavalo e esvoaçavam ao vento. Suas mãos continuavam sujas de sangue seco.
— Hn. Ensinei uma lição a eles — disse simplesmente e checou rapidamente o Impreza. — Anda, entra, vamos dar o fora daqui.
Mas ela não pareceu ouvi-lo, ou se o fez, o ignorou. Sakura continuou ali, parada ao lado do carro, olhando para Sasuke com um olhar vazio. Ele a olhou inquisitivamente. Então notou como os ombros dela tremiam.
— Karin está morta — ela sussurrou, os lábios mal se movendo.
Sasuke deslizou do banco do motorista e estacou diante dela.
— Ela se foi — reafirmou e os olhos vazios marejaram ante a lembrança.
— Eu sei — Sasuke murmurou e ela fungou. — Nós temos que ir, Sakura. Não há mais nada que possamos fazer.
Ele estendeu a mão e fez menção de tocá-la, mas Sakura recuou e o olhou como se ele tivesse acabado de esbofeteá-la.
— NÃO ME TOQUE! — ela esbravejou, afastando-se dele. — Fique longe de mim!
— Qual é o seu problema?! — inquiriu, subindo o tom de voz e encrespando o rosto.
Sakura sorriu acidamente.
— Qual é o meu problema?! — ela repetiu, incrédula. — Olhe ao seu redor, Sasuke! Acabou! Não vamos chegar à Yokohama! Você não vê?! É o fim! Karin está morta! MORTA! — frisou a última palavra e desatou a chorar, encolhendo os ombros. — O que você fez... O que você fez... Por quê... E-eu... — Sakura balbuciava sem cessar.
Sasuke fez menção de tocá-la outra vez, mas Sakura o repeliu.
— Fique longe de mim, Sasuke, eu já disse!
Ele não compreendeu por que subitamente ela envolvia o ventre com ambos os braços enquanto seus ombros continuavam a se sacudir com os soluços.
— Mas que porra está acontecendo com você? — ele inquiriu, fitando-a severamente, e foi neste instante que Sakura alcançou o seu limite e explodiu.
— A PORRA QUE ESTÁ ACONTECENDO COMIGO, SASUKE, É QUE EU ESTOU GRÁVIDA! — bradou a plenos pulmões e, por fim, encontrou o alívio que tanto buscara.
* * *
Chove sangue de um céu lacerado
Sangra o horror
Cria-se o meu arcabouço
Agora, eu devo reinar em sangue.
Slayer — Trecho de Raining Blood.
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