Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

28 Capítulo XXVII: Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse


Notas iniciais
Eu não pretendia voltar essa semana, mas depois da recomendação linda que eu recebi da Haruka sempai, resolvi adiantar esse capítulo para vocês. Então, meus sinceros agradecimentos a ela pela linda recomendação! *-* Obrigada mesmo! ... Vigésimo sétimo capítulo. Boa leitura!

Dead World Assembly

“Philip fica admirando a obra de arte — a tinta escarlate sobre a área de alvura celestial — por algum tempo, antes de voltar para os outros”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 81).

Capítulo XXVII:

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse

Eles partem um pouco antes do meio-dia, com o fulgor do sol resplandecendo sobre os espectros silentes do Distrito de Myozai.

Recolhendo os pertences no porta-malas, eles fazem uma última inspeção nos cômodos da casa à procura de comida ou munição, e quando não encontram nada, rendem-se à frustração e entram no carro.

Há uma tensão palpável entre Karin e Sakura, Sasuke sente, mas não se intromete, primeiro porque não lhe diz respeito, e segundo porque ele duvidava que pudesse se interessar por assuntos que só deviam dizer respeito a elas. Assim, ele aperta os dedos em torno do volante e se concentra na pista ampla e solitária da via-expressa.

O céu claro refulge na paisagem, completamente límpido. Um dia atípico de outono, reflete, curvando as sobrancelhas, mas seu consciente discorda; é uma pausa entre as tormentas, um intervalo. Durará pouco, pressente, e seu mal humor não arrefece depois disso.

Uma placa verde-musgo, quase que completamente encoberta pela vegetação que cresceu sem controle no acostamento, indica que eles estão se aproximando do canal Akashi: era oficial a partir daquele ponto, eles estavam deixando Tokushima e se dirigindo a Honshu, a maior e principal ilha do arquipélago. Eles finalmente estavam a caminho de Yokohama.

Karin se remexeu em seu assento, não por sentir desconforto, mas porque não conseguia mais segurar o segredo de Sakura para si mesma. Aquilo a roía por dentro, saber que Sakura estava grávida. Grávida! Ela nem mesmo conseguia digerir a palavra completamente. Não havia conseguido demover Sakura da decisão de levar os temíveis comprimidos, mas ao menos a fez garantir de que antes de tomar qualquer decisão sobre o bebê, ela contaria a Sasuke. Ele é pai dessa criança, Sakura, disse a ela, um pouco depois que os ombros da garota cessaram os tremores, Sasuke tem o direito de saber sobre o bebê que você está esperando.

Karin só esperava que a garota não se precipitasse ou se deixasse levar pelo desespero. Ao menos, era com isso que estava contando.

Ela jurou que ficaria de olho em Sakura, só para garantir que ela não tentaria nada sem antes informar Sasuke sobre a gravidez. Grávida em um mundo assim, Karin fungou baixinho. Ela se retraía só de pensar em como Sakura deveria estar se sentindo.

Para amenizar a tensão dentro do automóvel, a ruiva se inclinou sobre o assento e segurou no encosto do banco de Sasuke:

— Ei, Sasuke, você se lembra daquela vez em que fomos ao Festival Awa Odori?

Curvando o canto da boca, ele olhou de soslaio para Karin, e até mesmo viu Sakura virar o rosto na direção da ruiva.

— Aquele em Shikoku? — indagou e Karin assentiu, sorrindo. — Como poderia esquecer? Naruto nos meteu em uma confusão enorme.

— Você realmente já esteve no Festival Obon? Aquele que prestigia os espíritos dos entes queridos que já faleceram? — Sasuke girou o rosto para encarar Sakura e achou o ceticismo dela quase... ultrajante.

— Por que a surpresa? — ele respondeu, tornando a fitar a estrada. — Minha mãe pode ter se convertido ao cristianismo, mas as raízes na minha família estão todas no budismo. Além disso, eu fui porque o Naruto praticamente me arrastou até lá.

Karin inclinou-se mais contra o banco do motorista, trocando um sorriso cúmplice com Sakura.

— O Sasuke nunca foi do tipo religioso mesmo, mas o festival em si era muito bonito. Todas aquelas danças e cores... Sinto falta daqueles dias — ela suspirou longamente. — Eu tinha acabado de me mudar para Komatsushima e ainda estava de luto pela minha família, mas o Naruto é uma pessoa incrível e conseguiu me afastar da tristeza em pouco tempo. Eu queria muito que você o conhecesse, Sakura — disse, fitando-a de chofre.

À frente, Sasuke estalou a língua no céu da boca num som depreciativo.

— Sakura mataria o Naruto antes do que você espera, Karin. Aquele estúpido tem o dom de tirar pessoas do sério.

— Não se atente ao que ele diz, Sakura — a ruiva desdenhou, desfazendo-se do comentário de Sasuke. — Ele só diz isso porque sabe que é mais fácil do que admitir que adorava a companhia do meu primo.

— Vocês me deram uma enorme dor de cabeça em Shikoku, especialmente o Naruto — ele reafirmou sem remorso, mas até mesmo Sakura se pegou sorrindo diante disso.

— E o que foi que o Naruto fez para traumatizar tanto o Sasuke?

Karin recostou-se ao banco e cruzou os braços sobre o peito, adotando uma expressão presunçosa.

— Ele se engraçou com uma das dançarinas. Sabe, aquelas mulheres bonitas vestidas com quimonos coloridos e que tocam shamisen? — Vendo que Sakura assentiu, Karin emendou entre risos: — Naruto a convidou para jantar e tudo o mais. O problema é que a dançarina não retribuía exatamente o interesse do meu primo... Se é que me entende — ela ergueu ambas as sobrancelhas sugestivamente. — No fim, ela armou um escândalo e Naruto quase terminou espancado pelo noivo da moça.

Sakura riu suavemente e Karin suspirou aliviada quando notou que a tensão a deixara um pouco.

— Mas foi uma noite muito especial — a ruiva complementou. — Apesar do Sasuke não se apegar a credos, minha família sempre foi muito religiosa. Nós sempre quisemos ir à Shikoku para assistir as danças. Se algum dia o mundo voltar a ser o que era, podemos ir todos juntos. Tenho certeza que você ia adorar conhecer o meu primo, Sakura, ao contrário do que o Sasuke diz.

Sasuke mais uma vez escarneceu e Karin mostrou-lhe a língua.

Se algum dia o mundo voltar a ser o que era — Sakura murmurou baixo, voltando a sua atenção para a janela.

Seu punho discretamente descansou cerrado sobre o seu ventre; seus dedos comichavam para acariciá-lo, mas ela resistiu ferreamente ao impulso.

Alguns quilômetros à frente, eles cruzaram com um errante sem rumo e desnorteado que, atiçado pelo ronco do motor do Impreza, contorceu a boca podre em uma careta para gemer, e tentou seguir o veículo com seus passos bamboleantes; perderam-no de vista um tempo depois.

Mais à frente, se depararam com um posto de gasolina de beira de estrada. À distância, parecia vazio, mas as aparências podiam enganar facilmente. Sentindo que poderiam encontrar algo de útil ali, como combustível, ou suprimentos na loja de conveniências, Sasuke manobrou o Impreza até a cobertura do posto e pôs o carro em ponto-morto.

Sentindo os olhares inquisidores de Sakura e Karin, ele assegurou que sua Ruger estava carregada e destravada antes de afirmar:

— Não vamos nos demorar; eu só quero dar uma olhada.

Dito isso, desceu do automóvel e, hesitantemente, relutantemente, Sakura e Karin fizeram o mesmo. O sol estava a pino e aquecia os cascalhos e a estrutura de ferro que sustentava a cobertura do posto. Um vapor quente ascendia do concreto. O cheiro da morte estava impregnado ali.

Sasuke foi à frente, com passadas largas e ruidosas. Sabia que se houvesse errantes ali, ele tinha de atraí-los de uma vez. Então, olhou em derredor e apanhou uma barra de ferro retorcida no chão. Parecia ter sido parte do para-choque de um carro, agora apenas um pedaço cortante de metal.

Arrastou-o no chão, através dos cascalhos e do concreto, produzindo um guincho enervante. O sol forte esquentava sua nuca, suor já escorria pelo seu couro cabeludo. À distância, o canto das cigarras soava imperturbável, quase pacífico. A floresta de coníferas abria-se a cerca de cem, cento e cinquenta metros. O cheiro dos pinhos não ofuscava o odor rançoso dos mortos.

Sasuke adentrou à cobertura do posto, grato pela proteção do sol escaldante. As bombas jaziam abandonadas, a porta frontal da loja de conveniências estava intacta, contudo. Ele se acercou das portas de vidro, olhando em derredor pelo menos o dobro de vezes e, sustentando o pedaço de para-choque na mão esquerda, hesitou antes de batê-lo contra um cesto de lixo de metal que havia ali.

O efeito sonoro reverberou através do seu braço e se propagou no vazio. Sasuke contou até quinze antes de repetir o feito, desta vez causando um ruído metálico mais prolongado, mais agudo. Quando não houve resposta, pressionou o rosto contra o vidro sujo da porta da loja e espiou o interior; parecia limpo e organizado ainda. Talvez o dono do posto e os funcionários tenham lacrado tudo e fugido antes de as coisas piorarem.

Mas como não queria abusar da sorte, Sasuke se afastou um pouco, ergueu o pedaço de para-choque e bateu com força contra o vidro, trincando-o a princípio, depois estilhaçando-o em um milhão de pedaços. Ele chutou os pedaços salientes e cortantes com os coturnos e enfim adentrou; largou o pedaço de ferro e buscou pela Ruger sob a jaqueta.

As paredes amarelo-claras absorviam muito da luz diurna e refletiam-na nas estantes ainda de pé e meticulosamente organizadas. Os freezers estavam vazios, mas alguns pacotes de biscoitos e salgados permaneciam espalhados entre as estantes. Sasuke apanhou uma cesta e começou a recolher os poucos alimentos que encontrou, durariam no máximo cinco ou seis dias se fossem racionados.

Quando saiu, encontrou Karin e Sakura a postos; elas o olhavam intrigadas.

— A loja de conveniências está vazia — informou prestativamente e estendeu a cesta para ambas. Foi Karin que a apanhou, verificando seu conteúdo. — Não sobrou muita coisa, mas é melhor do que nada.

Karin apanhou um pacote de salgado e franziu o rosto. Era uma combinação de amendoins com uma cobertura esquisita, ervilhas e gergelim temperados com molho shoyu.

— Poxa, comida não saudável e gordurosa. Não vejo um desses há meses!

— Hn. Eu vou dar uma olhada nos fundos. Não devo demorar — informou apático.

Quando viu que Sasuke se afastara o suficiente, Karin devolveu o pacote à cesta e fitou Sakura com uma expressão suave.

— Você está bem? Como estão os enjoos?

Sakura quis rir, mas temeu que o gesto apenas agravasse a inquietação na boca de seu estômago. O cheiro de errantes estava impregnado ali e seu estado atual apenas acentuava o odor característico. Em suas palavras, se pudesse defini-lo, seria algo entre fezes secando ao sol e carne podre secando ao sol, ou talvez as duas coisas.

Abalada pelo rumo de seus pensamentos, ela cobriu a boca com as costas da mão e cerrou os olhos fortemente, aguardando que o mal-estar cedesse. Mal tocara no desjejum e ainda assim sentia uma vontade desesperadora de colocar tudo para fora.

— Droga, eu já ouvi dizer que algumas mulheres enjoam com mais frequência durante a gravidez do que outras, mas isso, sinceramente, é ridículo.

— Dizem que ficar com o estômago vazio apenas piora a sensação. Quer comer alguma coisa? — ela indicou os pacotes lacrados na cesta e Sakura revirou os olhos.

— Como posso tentar me alimentar com esse cheiro horroroso bem debaixo do meu nariz?!

— Super sentidos de grávida! — Karin sorriu com acidez e em resposta Sakura lhe mostrou o dedo do meio. — Seja bem-vinda ao maravilhoso mundo das mamães, Sakura!

— Puta merda, Karin, um pouco de apoio emocional seria incrivelmente bem-vindo! — ela se queixou, sibilando as palavras através dos dentes trincados, pois não queria arriscar enjoar de novo.

Karin gargalhou da expressão engraçada de Sakura, ela parecia prestes a vomitar e ainda assim tentava manter uma fachada durona. Assim, a ruiva apertou a cesta contra o peito, apanhou a garota pelo cotovelo e a guiou até o outro lado, onde uma corrente de ar soprava desimpedida. O vento fresco amainou o mal-estar de Sakura gradualmente. A sensação era agradabilíssima contra a sua pele porejada de um suor frio.

— Bem — a ruiva prosseguiu, cutucando uma das costelas de Sakura —, para ser honesta eu sou péssima em confortar os outros. Mas se serve de consolo, eu sinto muita inveja de você.

Sakura parou de apreciar o vento gelado em seu rosto por um instante e espiou a expressão maliciosa da ruiva com um olho.

— Como isso supostamente pode me confortar? Você sente inveja do fato de que eu me sinto como uma bomba-relógio? Deus, eu podia correr até a primeira moita e vomitar as minhas tripas nesse exato momento.

Karin deu de ombros e vasculhou o conteúdo da cesta até encontrar o que procurava, um pacote de biscoitos leves de trigo. Gentilmente, ela estendeu o pacote para Sakura. O sorriso malicioso em seus lábios apenas se acentuou com o comentário seguinte.

— Eu sinto inveja de como esse bebê foi feito — Sakura corou violentamente. — Há anos eu vinha tentando fisgar o Sasuke, mas ele sempre foi muito esquivo e arredio. Naruto até tinha algumas suspeitas a respeito das predileções dele. Adoraria ver a cara daquele loiro quando dissesse que, na verdade, o Sasuke só estava esperando pela pessoa certa.

O riso delicado de Sakura a surpreendeu, apesar de tudo.

— Espera... Vocês achavam que o Sasuke era homossexual, é isso?

Karin inflou as bochechas e soltou todo o ar lentamente.

— Você também acreditaria se visse o quão diferente ele era no passado. Bom, é claro que o relacionamento dele com o pai sempre deve ter sido um empecilho que o impedia de se envolver emocionalmente com alguém. Acho que o Sasuke meio que cresceu traumatizado com tudo o que ele teve que aturar ao longo dos anos... Naruto era a única pessoa em quem ele verdadeiramente confiava. E Itachi, é claro. Mas conforme o irmão foi se afastando da família devido aos deveres com o país, Sasuke só teve Naruto para contar. Os dois eram inseparáveis. Como irmãos, sabe? Mas, afora o meu primo, nós raramente o víamos tentar interagir com alguém, ou mesmo tentar desenvolver algum tipo de laço.

Sakura meneou a cabeça em descrença.

— É difícil de acreditar; se você soubesse o quão... persuasivo ele foi para tentar me convencer a dormir com ele.

Karin bufou e mais uma vez ofereceu o pacote de biscoitos à Sakura.

— E depois você me diz que eu não devo sentir inveja de você.

— Você, supostamente, devia me odiar, não devia? — Sakura indagou, as sobrancelhas claras arqueadas, os lábios curvados para cima em sarcasmo.

Karin mais uma vez deu de ombros e sorriu.

— É difícil detestar uma garota legal como você.

Finalmente, ela apanhou o pacote de biscoitos. Abriu-o e mordiscou o primeiro, mastigando vagarosamente, sentindo a textura e o sabor enquanto o biscoito se desfazia em sua boca; testou as águas, certificando-se de que seu estômago firmara-se o bastante para receber a segunda dentada. Ela não percebeu que estava com tanta fome até que estivesse, de fato, se alimentando.

— Mas e então... — Sakura lançou à Karin um olhar sugestivo e provocante e a ruiva piscou. — Me diga se alguma vez já viu a tatuagem dele?

Karin encrespou o rosto numa expressão de desgosto.

— Oh, droga, eu sempre quis ver a tatuagem dele!

— Você é uma boa amiga, Karin — Sakura disse, sóbria desta vez, sem o menor traço de divertimento em sua voz.

A ruiva aquiesceu, grata, mas depois emendou:

— Não esconda dele, Sakura. O Sasuke merece saber. Nossa situação pode não ser a melhor no momento, mas também não estamos tão ruins assim.

A garota parou de mordiscar o biscoito e baixou o olhar, contrita. Vendo seu silêncio resoluto, Karin continuou.

— Logo estaremos no centro de refugiados e o seu bebê terá toda a assistência e proteção de que precisa. Você vai ver como tudo vai se ajeitar.

Sakura balançou a cabeça lentamente. Ela ainda não queria se dar ao luxo de alimentar falsas esperanças. Assim, umedeceu os lábios secos e devolveu o pacote de biscoitos à Karin.

— Quando estivermos em Yokohama, eu direi a ele — prometeu e isso pareceu aquietar Karin. O que Sakura não revelou, contudo, era que uma pequenina parte dela desacreditava que o centro de refugiados ainda estivesse operante e apto a receber novos sobreviventes.

Sasuke voltou em seguida, carregando um galão de gasolina pela metade que ele alegou ter encontrado no porta-malas de um carro, nos fundos do posto. Certamente o dono não voltaria para reclamá-lo.

Então, eles tornaram ao Impreza e seguiram viagem, através da costa montanhosa de Tokushima. O cheiro do oceano já temperava o ar; a floresta de abetos rareou a cada quilômetro, até que a enseada afinal os saudou.

O azul anil do mar era um complemento elísio para o cerúleo do céu. A água revolta cintilava encosta abaixo, lançando jatos de espuma contra as rochas. O sol dourado revelou-se na paisagem gradualmente, como na tela de um pintor.

A cerca de dois, três quilômetros, por fim, a silhueta majestosa da ponte Akashi Kaikyo ascendeu, sólida sobre as águas volumosas do canal, sua estrutura de aço pairando sobre o mar, suas fundações de concreto ondulando em torno do fluxo das correntes calmas.

Era gigantesca, Sasuke lembrou-se tardiamente, uma das maiores pontes já construídas no mundo, e erguia-se em meio às águas como uma besta ruidosa. Toneladas e mais toneladas de aço e concreto, nivelando em uma pista dupla que cruzava todo o canal e conduzia até a costa de Honshu.

Tinha dois pilares principais, estruturas enormes de aço, interligadas por gigantescos cabos. Era uma vista impressionantemente inquietante, e agora mais do que nunca pelo fato de jazer abandonada, silenciosa, com o vento rugindo em torno do seu arcabouço.

Sasuke sempre se recordaria dela assim: iluminada pelo sol da tarde, sombreada por dedos descarnados de escuridão que se moviam junto às águas em torno de suas bases indefesas, delineada para todo o sempre no horizonte claro e refúlgido.

— Eu não me lembrava que ela era tão grande assim — Sakura murmurou baixo, tão fascinada pela visão quanto Sasuke.

Ela ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha e suspirou.

— Da última vez, atravessei o canal de balsa, quando ainda haviam balseiros para operá-las... Ela ainda me parece tão assustadora quanto antes.

— Será que é segura? — Karin indagou, inclinando-se em direção ao banco da frente para melhor contemplá-la.

Sasuke não respondeu, mas manobrou o Impreza através do acesso à ponte, virando em uma curva sinuosa da pista. Eles só notaram que havia algo errado quando um odor rançoso e forte de carne queimada os atingiu em cheio.

— Ugh, que cheiro horrível é esse? — Karin tapou a respiração enquanto Sakura tentava inspirar e expirar lentamente através da boca.

Gradativamente, uma densa cortina de fumaça os envolveu, forçando-os a fechar as janelas do carro. Sasuke reduziu a velocidade e ligou os faróis apenas por precaução. A cortina de fumaça os envolvia de tal forma àquela altura que pouco se conseguia ver da pista.

— Parece ter sido um incêndio — Sakura observou, subitamente receosa.

— E a julgar pela densidade da fumaça, é recente; talvez de dois ou três dias atrás — Sasuke complementou, guiando o carro cegamente através da pista encoberta pela fumaça.

Vagamente, viam-se carcaças de automóveis abandonados no acostamento, alguns queimados até a carroceria, outros apenas parcialmente chamuscados. Sasuke desviou de um carro largado no meio da pista no último instante, contornando-o rapidamente.

Quando enfim alcançaram o acesso à ponte, ele reduziu ainda mais a velocidade e apagou os faróis. A fumaça diminuíra um pouco, mas de branca tornara-se negra. Ainda havia focos de incêndio em alguns automóveis e os gemidos de errantes ecoavam além da bruma escura. Isso ao menos explicava o mau cheiro, os mortos-vivos também tinham sido pegos pelo fogo implacável.

— Acha que podemos atravessá-la? — Sakura indagou de súbito, encarando a pista envolta em fumaça com uma descrença aguda e danosa.

— Só descobriremos se tentarmos. — Foi a resposta de Sasuke enquanto pesava o pé sobre o acelerador e trocava de marcha, dirigindo às cegas entre as carcaças de automóveis.

De repente sentiram um tranco no automóvel que os sobressaltou. Depois disso, o Impreza simplesmente se recusou a sair do lugar, não importava o quanto Sasuke tentasse retirá-lo.

— O que foi isso? — Karin encarou pálida a janela enquanto Sasuke grunhia de raiva.

— Porra, eu acho que passei por cima de um ou dois deles! — E bateu o punho cerrado contra o volante. — Estamos atolados na porra de uma pilha de errantes!

Depois de quase um minuto, contudo, mais recomposto, mas ainda irritado, acrescentou:

— Vamos ter que descer e empurrar.

Sasuke foi o primeiro a fazê-lo, no entanto, enquanto Sakura e Karin seguiam-no mais atrás. De fato, um dos pneus traseiros estava preso em uma pilha de cadáveres chamuscados, ocultos pelo vapor que ascendia do asfalto. Algumas das bocas, apesar de pretejadas, ainda gemiam e rosnavam.

— Os filhos da puta queimaram quase até as cinzas e ainda continuam vivos — Sasuke comentou com azedume enquanto se posicionava atrás do Impreza e tentava empurrá-lo; sem sucesso.

Karin juntou-se a ele e quando Sakura tentou se unir à dupla, recebeu um olhar de advertência da ruiva. Resignada, ela se afastou, observando-os gemer devido ao esforço enquanto tentavam desatolar a roda traseira.

Quando viram que o pneu ainda não havia se mexido, Sasuke chutou o para-choque traseiro e grunhiu mais alguns palavrões. Karin estava prestes a sugerir que eles tentassem novamente quando o ronco de um motor os paralisou.

Entreolharam-se confusos, escutando o zumbido típico de um motor potente propagar-se em um silêncio sufocante; vinha de trás deles e rápido. Esperaram e esperaram, contando até mesmo seus batimentos cardíacos.

Até que o primeiro estampido ecoou através da fumaça densa, o ruído agudo estilhaçando as barreiras do som e se perdendo nas ondulações suaves do silêncio que se seguiu.

Era o som do disparo de uma arma de fogo. E precedeu uma saraivada violenta e paralisante.

Sasuke levou meio segundo para compreender a razão da sinfonia desajeitada e ensurdecedora.

Estavam atirando neles.

* * *

As trevas me aprisionam

Tudo o que eu vejo é horror absoluto

Não posso viver, não posso morrer

Estou aprisionado dentro de mim mesmo

O meu corpo é o meu cárcere.

Metallica — Trecho de One.

Notas finais
Cliffhanger pra vocês! XD Algum palpite de quem seja?! Se preparem porque o próximo capítulo... É sangrento. Não consigo defini-lo de outra forma Hahahaha ... E lembrem-se: essa é uma Fanfic baseada em TWD, especialmente nos livros, então, terá cenas beeeeeeem violentas e fortes mesmo. ... Obrigada a todos que comentam. São bem poucos em comparação ao número de marcações, favoritamentos e acessos, mas mesmo assim, obrigada a vocês que comentam e recomendam pela dedicação e carinho =) Isso deixa qualquer autor muito feliz e se eu continuo postando é unicamente por vocês. ... Até o próximo (e sangrento) capítulo! lol