Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
25 Capítulo XXIV: A Admoestação Divina
Notas iniciais
Dead World Assembly
“Eles partem com o sol se pondo, todos olhando para o utilitário atolado, que fica a distância, como um navio naufragado no esquecimento”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 77).
Capítulo XXIV:
A Admoestação Divina
Através da bruma densa, gemidos enrouquecidos ecoam. Dedos esbranquiçados e esqueléticos de vapor ascendem do asfalto atulhado de lixo; os prédios comerciais e suas vitrines empoeiradas são apenas contornos indistintos na imensidão brancacenta.
Sasuke sente os pulmões comprimirem-se e expandirem-se em busca de oxigênio. Os músculos portentosos de suas pernas queimam aquecidos pela corrida de minutos atrás. O ar frio ainda o envolve e o sufoca. A mochila pesa nas suas costas e nos seus ombros, mas ele não desiste. A faca de caça está em sua mão direita, desembainhada. A lâmina queima ainda mais fria contra sua pele.
Seus dentes estão cerrados e os olhos apertam-se para enxergar melhor. A cortina espectral veda sua visão, mas sua audição e olfato ainda trabalham perfeitamente. Pelos ruídos de passos arrastados e pelos grunhidos roucos, ele sabe que são pelo menos dois. O cheiro dos mortos surpreendentemente deixa seu estômago nauseado.
Sasuke então parou, permanecendo imóvel; apoiou a palma da mão esquerda contra a lateral de um Prius azul, abandonado no meio da viela estreita, cujas janelas encontravam-se estilhaçadas e cujo banco do passageiro continha uma enorme mancha avermelhada no assento encardido.
Lentamente, ele abaixou-se, nivelando junto ao solo enquanto removia silenciosamente as alças da mochila pesada e a depositava no chão.
Os ruídos expandiam-se dentro da névoa, tornando-se uma sinfonia lúgubre. Um corvo crocitou à distância enquanto se empoleirava em um poste de iluminação. Ele aguardou, em completo silêncio, cuidando para controlar até mesmo o ritmo da própria respiração enquanto uma silhueta bamboleante avançava pela bruma, suas roupas sujas e em farrapos tornando-o um andarilho putrefato.
Sasuke o assistiu arrastar seus passos desengonçados; o errante tombou sua cabeça para o rapaz, ajoelhado ao lado do automóvel, e grunhiu. Em um instante, estava no chão, tombando tal qual um edifício velho. Uma rasteira derrubara suas pernas enfraquecidas, enviando-o ao asfalto com um baque úmido e abafado.
Sua testa bateu no concreto e o osso do crânio cedeu sob o impacto, abrindo-se numa explosão de fluídos cinzentos e sangue arterial coagulado. O homem mal teve a chance de grunhir apropriadamente antes que Sasuke avançasse outra vez e, por via das dúvidas, cravasse a lâmina da faca em seu lobo parietal, enterrando-a na parte posterior da cabeça do morto, no tecido esponjoso e maleável do cérebro, silenciando-o para sempre.
Em seguida, o rapaz tornou ao seu esconderijo. O segundo errante fora atraído pela pequena comoção e agora se apressava na direção do corpo derribado. Era uma mulher esquálida de pele macilenta e compridos cabelos negros que se sacudiam a cada passada desajeitada. Os olhos mucosos faiscavam como se iluminados por faróis.
Sasuke ignorou a faca enquanto se levantava e com um cruzado de direita enviava a mulher morta de encontro ao Prius. Ela bateu a cabeça com força contra a lataria e protestou com um gemido. Antes que seus membros desajeitados, no entanto, tivessem a chance de içá-la do asfalto, ele investiu outra vez e com o solado do coturno pisou sobre a cabeça da mulher, aplicando o máximo de força e trincando os dentes quando o lobo frontal se abriu sob o seu pé; mais fluído cerebral escorreu pelo asfalto e grudou no couro macio do seu coturno com um odor nauseante.
Os ruídos cessaram imediatamente e o silêncio tornou a imperar.
Sasuke suspirou aliviado. Abaixou-se para pegar a mochila e em seguida já corria novamente pelas ruas pavimentadas, cada passada reverberando nos prédios e fachadas abandonados. Dedos de névoa ainda se agarravam aos seus tornozelos como mãos mirradas.
A visão dos muros altos do condomínio o inundou com uma imensa sensação de alegria. Sasuke se apressou pela rua estreita, cruzando quintais atulhados de lixo e pulando muros pequenos. Uma vez que cruzou o portão dos fundos, foi recepcionado por uma Sakura aliviada e uma Karin sorridente.
Sakura o abraçou, envolvendo os braços em torno do seu pescoço; ele fechou os olhos e relaxou. Era bom sentir o cheiro dela outra vez. Quando ela se afastou, Sasuke lentamente retirou as alças da mochila.
— Temos tudo o que precisamos — anunciou, por fim, com um meio sorriso.
* * *
Mais tarde, terminaram de carregar o Impreza com os últimos pertences e suprimentos.
Sasuke mais uma vez checou o motor e encheu o tanque com um dos galões de gasolina enquanto as garotas cuidavam de empacotar os alimentos que ele trouxera, assim como encaixar no porta-malas as barracas, os sacos de dormir e as mantas extras.
A visita à antiga loja de equipamentos esportivos realmente havia valido a pena. Agora possuíam um par de lanternas à pilha, um lampião de querosene, alguns cantis, uma pederneira e um isolante térmico.
Em um momento de distração, enquanto Karin e Sasuke acertavam os últimos detalhes da viagem, Sakura surrupiou uma lata de salsichas da caixa de papelão e a escondeu sob o casaco. Disse a ambos que havia esquecido algo lá embaixo e apressou-se para o outro edifício, ignorando seus olhares questionadores.
Cruzou o saguão, subiu as escadas e bateu timidamente à porta do apartamento 28B. Tazuna atendeu-a com uma expressão ressabiada e um segundo depois a invitou a entrar.
Sakura tentou não encarar as paredes rabiscadas e os pombos mortos. Na outra extremidade do cômodo, o menino morto se sacudia impaciente.
— Eu não posso me demorar — disse ela com um olhar apologético. — Nós estamos nos preparando para partir.
— Eu espero que façam uma boa viagem — disse Tazuna com um pequeno sorriso. A juba cinzenta que era o seu cabelo encontrava-se mais embaraçada do que mais cedo.
Sakura enfiou a mão dentro do casaco e revelou a lata de salsichas. Timidamente, ofereceu-a ao homem grisalho.
— Tome. Pegue-a. Eu não me sentiria bem se não soubesse que ao menos tentei ajudá-lo de alguma forma.
Tazuna assentiu e pegou a lata com um olhar agradecido.
— Tem certeza de que não quer vis conosco? — ela perguntou e mordeu o lábio ao notar a expressão vazia do homem, seus olhos tristes e tempestuosos. — Eu poderia convencer o Sasuke.
— Eu teria que abandonar Inari e honestamente temo que não possa fazer isso — alegou, abanando a cabeça e se afastando de Sakura. — Já estou conformado, menina. Você, por outro lado... Ainda há esperança para você — assentiu consigo mesmo, fitando-a de soslaio.
— Você tem certeza? — Precisava se certificar de que tentara convencê-lo até o último instante. Mas ele aquiesceu, sorrindo novamente. — Tudo bem. — Suspirou pesadamente e seus ombros arriaram. Já não está mais em minhas mãos, pensou como uma espécie de conforto. — De qualquer forma — ela recomeçou calmamente, engolindo em seco —, espero que você fique bem.
— Eu ficarei. Não perca seu tempo com um velho como eu, menina.
Sakura abraçou-se para conter um calafrio. Estava terrivelmente gelado ali dentro.
— Eu não contei ao Sasuke sobre você ainda e sinceramente acho que nem o farei — disparou de repente, perguntando-se por que dissera aquilo.
— E por quê? — ele questionou, sentando-se sobre o colchão e apoiando as costas cansadas na parede.
— Ele não entenderia os seus motivos — Sakura afirmou simplesmente, dando de ombros.
O silêncio então a tornou cônscia da situação precária em que Tazuna vivia. Sozinho e cercado pelos demônios que haviam em seu passado, a insanidade lentamente o arrastava para o fundo do poço. Ele tinha razão quando disse que não resistiria até o fim do inverno.
— Bom, eu... — ela girou o corpo, voltando-se para a porta, mas se deteve ao notar que os lábios finos do homem se moviam sob o bigode grisalho.
Ele balbuciava palavras ininteligíveis, mas que mais tarde ela veio a compreender, era o Salmo 121:
— ...O meu socorro vem do Senhor que fez o céu a terra. Não deixará vacilar o teu pé; aquele que te guarda não tosquenejará. Eis que não tosquenejará o guarda de Israel. O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua Sombra à tua direita. O sol não te molestará de dia... — ele suspirou profundamente — E nem a lua te molestará de noite. O Senhor te guardará de todo mal; guardará a tua alma. O Senhor guardará a tua entrada e guardará a tua saída, desde agora e para sempre. — Tazuna cerrou os olhos calmamente ao fim, meditando, e uma única lágrima deslizou pela bochecha de Sakura.
Depois de um tempo, ele tornou a fitá-la. Parecia particularmente fascinado por sua expressão melancólica, abatida. Pela lágrima solitária que escorrera até o seu queixo.
— Fique bem, menina — disse ele suavemente. O saco de lona do outro lado do cômodo se remexeu comodamente. — E não se esqueça de ser humana. Os mortos não são as únicas feras à solta por aí agora.
— Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles — ela citou Nietzsche com a sombra de um sorriso no olhar. — E se contemplas o abismo...
— A ti o abismo também contempla — Tazuna completou com certa reverência. — Não se esqueça.
Calmamente, ela secou os cílios úmidos, imaginando por que chorava por um estranho que conhecera há poucas horas. Encaminhou-se para a porta e hesitou antes de puxar a maçaneta, sabia que se protelasse Sasuke ou Karin poderiam ficar preocupados e vir procurá-la.
E ainda a ideia de deixar o ancião sozinho partia seu coração. Tazuna, entretanto, a encorajou com um aceno de cabeça e logo ela voltava para o apartamento com os nervos em frangalhos, ordenando a si mesma a não olhar para trás.
A tarde caíra e os últimos preparativos para a partida na manhã seguinte foram concluídos. Assim, com a noite se aproximando, eles compartilharam uma última refeição na cozinha, sob a chama trêmula de uma vela.
Por alguma razão, não comentaram a partida no dia subsequente. O silêncio pesado e incômodo era um convite tácito para que os fantasmas do passado assombrassem-nos. Para Sasuke, especialmente.
Agora, olhando para o teto do quarto que um dia pertenceu aos seus pais e esparramado sobre a cama de casal, sob os cobertores, ele imaginava se sentiria alívio ou tristeza por deixar aquelas paredes para trás.
Tantas lembranças perscrutavam sua mente embotada, procurando por uma brecha para atormentá-lo. Mas ele não queria ceder e não entendia por que. Doeria tanto assim relembrar o passado?
Sakura silenciosamente deslizou ao lado dele, enrolando a si própria no casulo de cobertas e puxando-as até o seu queixo. Ele estendeu um braço e a puxou para perto, deixando que a cabeça dela repousasse no seu ombro. Ela suspirou, grata.
— Esta é provavelmente a última noite em que teremos um teto sobre a nossa cabeça — ela comentou de chofre com um tom soturno, os olhos vagavam pelas sombras que empoçavam no teto.
Sasuke a acomodou melhor contra o seu corpo e a envolveu pela cintura com o outro braço, virando o rosto para observá-la. Os olhos verdes brilhavam mesmo no mais absoluto negrume.
— Você está com medo? — ele indagou depois de certo tempo e o peito dela subiu e desceu com o súbito movimento de puxar o ar.
— Estar com medo agora é natural, eu acho — disse, escondendo o rosto no ombro dele para que seu olhar tremente não a traísse.
A verdade é que a ansiedade a deixara horrivelmente nauseada. Sakura mal segurou o jantar no estômago; havia vomitado violentamente minutos atrás e admitir que estava apavorada só pioraria a situação — para ela e para Sasuke.
Estremecendo pelo frio, ela procurou pelo calor do corpo dele. Sob o cobertor, a mão de Sasuke deslizava suavemente pela sua cintura.
— Eu prometo que vou cuidar de você — ele sussurrou e virou-se de lado, de forma que pudesse fitá-la no rosto. A expressão quebrantada dela não mentia. — Nós ficaremos bem, não importa o que aconteça, Sakura.
— Tenho medo de alimentar esperanças — confidenciou, apoiando a mão no peito dele, sobre a camiseta.
Sasuke franziu o cenho em resposta, mas continuou a acariciá-la, desta vez abaixando a mão até a curva do quadril. Ela relaxou um pouco e pressionou o corpo de encontro ao dele em busca de mais calor e de conforto. Conteve o riso quando ele gemeu.
— Ugh. Seus pés estão gelados. — E, no entanto, ele atirou o braço sobre a cintura dela e a puxou para o seu peito, enterrando a face nos cabelos cor-de-rosa.
— Se nós não conseguirmos... — ela murmurou, a voz abafada contra a camiseta dele, mas Sasuke a impediu de continuar.
Puxou-a para cima e de encontro a sua boca, silenciando-a. Ela tinha lábios macios e rosados e seus beijos eram surpreendentemente doces. Sakura gemeu baixinho, mas não fez menção de se afastar. Muito pelo contrário, ele sorriu de canto quando a sentiu enroscar os dedos na sua camisa.
— Nós vamos conseguir — respondeu tão logo se afastou e, ao ver o menor indício de dúvida nos olhos dela, tornou a beijá-la.
Reacomodou-se sobre ela, deitando-a sobre as costas e grunhiu na boca dela. Suas mãos já corriam pelas formas delicadamente femininas, desprezando a barreira que as roupas criavam. Ele tinha que senti-la. Agora.
Assim, moveu a boca faminta para o pescoço dela e ignorou quando ela protestou e tentou afastá-lo.
— Nós não...
Mordiscou a pele sensível e Sakura estremeceu, mas ela logo abriu um sorriso com seus lábios inchados e avermelhados, os olhos claros haviam rapidamente escurecido pelo desejo.
— Você é impossível, Sasuke.
— Hn — ele grunhiu contra a pele dela e aproveitou a deixa para mover as suas mãos para o cós da calça de moletom que ela usava, puxando-a para baixo impacientemente.
Espalmou as mãos sobre as coxas nuas e macias e acariciou-as, ouvindo os sons de aprovação que ela emitia. Ajudou Sakura a despir a camiseta antes de ele próprio tomar a iniciativa e remover as roupas também. Puxou os cobertores sobre ambos porque sabia que a pele de Sakura já se arrepiava por conta do frio, ou talvez fosse apenas a excitação dos seus toques.
Satisfeito por constatar que ela não mais se opunha, ele se concentrou em terminar de despi-la e afundar-se no corpo macio e quente dela — e em esquecer os fantasmas do seu passado no processo. Sakura havia decidido abafar os gemidos no seu ombro enquanto corria as unhas curtas pelas suas costas, demandando cada vez mais.
Sasuke permitiu que o prazer cortinasse a amarga perspectiva de que esta seria a última noite entre aquelas paredes, naquele apartamento, naquela cidade. Ele não conhecia mais nada, pois Komatsushima sempre havia sido todo o seu mundo, mas agora ele estava pronto para partir, para deixar tudo para trás.
Apoiando as mãos sobre o travesseiro sob a cabeça de Sakura e erguendo-se, ele contemplou a visão da garota abaixo de si; o rosto corado, os lábios partidos e tentados a deixar escapar os gemidos tímidos, os olhos nublados de paixão. Sim, ele estava pronto. Decididamente pronto.
Abaixou-se para recapturar a boca dela. O calor entre seus corpos àquela altura tornara-se insuportável e os músculos dele enrijeciam perante a expectativa. Sasuke pressentia que o êxtase estava a caminho e não tardaria a atingi-lo com uma doce intensidade.
Então, resumiu seu mundo à Sakura e ao entrelace sufocante de seus corpos. Sentia o cheiro dela; sentia os seios dela espremidos contra o seu peito, as coxas macias apertando o seu quadril, ouvia-a sussurrar palavras incoerentes na sua boca e não queria nada mais do que ficar ali para sempre, se ao menos pudesse.
Minutos se passaram até que um tão conhecido embevecimento os preenchesse sublimemente. Sakura derramou todos os seus anseios mais secretos para Sasuke e ele, em troca, compartilhou alguns de seus medos mais íntimos.
Os pós-efeitos devastadores do ato os induziram pacificamente ao sono não muito tempo depois.
* * *
O sol rompeu o firmamento ainda nas primeiras horas do dia, dourado e cheio de promessas. Sakura se vestiu em silêncio, passando as mangas do suéter de cashmere pelos braços e subindo a calça jeans sobre os quadris.
Sasuke se levantara mais cedo com o pretexto de aquecer o motor do Impreza, mas ela sabia que ele passaria no túmulo dos pais para se despedir. Ela jurou para si mesma que o deixaria em paz com seus próprios demônios desta vez.
Saindo do quarto, cruzou com Karin e ambas cuidaram de vasculhar os cômodos do apartamento para garantir que não estavam deixando nada para trás. Sasuke, na noite anterior, tirara todas as armas e munições do armário e os guardara em uma bolsa tiracolo de couro. Sakura já prendera o coldre com a Glock em sua coxa direita.
Depois, Karin desceu e Sasuke reapareceu na sala de estar; seus olhos escuros não mentiam, olhavam para as paredes com uma saudade já visível e um sentimento de luto que Sakura sabia que devia respeitar. Ainda assim, não conseguiu evitar se aproximar e tocá-lo no ombro.
— Você está bem?
Ele suspirou e abanou a cabeça para clarear os pensamentos.
— É difícil dizer adeus a tudo isso.
— Eu sei que é — Sakura concordou e em seguida apertou os dedos na jaqueta dele. — Mas nós precisamos ir, Sasuke.
Relutantemente, ele a seguiu, hesitando no vestíbulo uma última vez. Sua mão custosamente envolveu a maçaneta e fechou a porta com um som suave, mas definitivo. O silêncio ainda imperava ali e sombras alongavam-se nas paredes claras.
O último vislumbre que Sasuke se lembra de ter daquela sala de estar, no entanto, é de um espaço tumultuado, retentor de segredos e coberto com uma aura soturna, pesada. Em todos aqueles anos atribulados, dificilmente ele se referira àquele lugar como um verdadeiro lar, mas ir embora o matava lentamente da mesma forma.
Lá embaixo, Karin entrou no carro e sentou-se no banco traseiro, ao lado dos sacos de dormir enrolados e das barracas desmontadas. Seu olhar perdia-se além do vidro sujo da janela. Sasuke logo tomou o seu lugar no banco do motorista e deu a partida no motor, guiando o automóvel para fora do estacionamento coberto e em direção ao imenso portão frontal.
Sakura aguardou até que o automóvel estivesse próximo o suficiente antes de digitar o código no painel logo ao lado. O imenso portão estremeceu com um chiado estático, um zumbido enfraquecido e, então, finalmente começou a se mover, resvalando para o lado.
O Impreza negro cruzou a entrada, o motor ronronando languidamente, e deteve-se na calçada. Com um suspiro, ela digitou o código novamente e se apressou para entrar no carro, no banco do passageiro. Atrás deles, o portão começou a deslizar novamente, fechando-se com um ruído metálico pesado.
Os três ocupantes se entreolharam; à frente, a bruma do dia anterior começava a se dispersar. O sol brilhava, coroando o cerúleo do céu limpo com um calor vigoroso.
Karin recostou-se no banco, aliviada, quando Sasuke manobrou o automóvel para a espaçosa rua. A sombra dos prédios foi diminuindo conforme eles avançavam, até ter ficado tão distante que não era mais visível.
Sakura tombou a cabeça na janela e viu a desolação através do vidro sujo. Alguns errantes já reagiam ao ronco do motor e saíam de seus esconderijos: becos escuros e fachadas de lojas destruídas.
No horizonte, o sol ainda brilhava, despertando os fantasmas de Komatsushima uma última vez.
* * *
Arrume todas as suas coisas
Vá embora de alguma forma
A canção do pássaro negro terminou agora.
Lee Dewyze — Trecho de Blackbird’s Song.
Fale com o autor