Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

49 Capítulo XLVIII: O Abisso dos Tolos e da Desesperança


Notas iniciais
Quadragésimo oitavo capítulo. Boa leitura!

Dead World Assembly

“As torres petrificadas da cidade se erguem em picos impassíveis e imaculados, estoicas à luz do sol e intocadas pelo Apocalipse. Lá embaixo, Philip vê uns poucos mortos-vivos saindo das sombras, como soldadinhos de chumbo quebrados que ganharam vida”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 130).

Capítulo XLVIII:

O Abisso dos Tolos e da Desesperança

Cerca de cinco quilômetros adiante, o comboio liderado pelo jipe militar Toyota Xingu invadiu o perímetro de Oyamazaki, ainda na Prefeitura de Kyoto.

Os quatro veículos seguiram enfileirados através das ruas estreitas da pequena cidade que antes do fim do mundo tinha uma população estimada em aproximadamente 15.000 habitantes. Hoje, tudo o que restava eram as casas de madeira abandonadas, ao estilo arquitetônico clássico, e as ladeiras estreitas entulhadas pelo lixo.

Eles não viram uma única alma viva — ou morta — enquanto avançaram pela região desconhecida numa velocidade contínua e cautelosa. Ao menos, Itachi foi cuidadoso ao guiar o jipe através das ruas desabitadas.

A nevasca dos dias anteriores deixou sua marca sobre Oyamazaki também: nos telhados cobertos de neve, até as árvores fustigadas pela tempestade e as ruas ainda parcialmente congeladas.

A jornada pela cidade interiorana acabou por despertar a jovem Hanabi do seu cochilo e esta passou a mirar a região central através da abertura na lona do jipe junto à irmã mais velha, Hinata. Naruto continuava acomodado no assento da frente e olhava desconfiadamente para o silêncio suspeito que imperava nas calçadas cobertas pelo lixo e pelo gelo fino.

A fim de ocupar as mãos inquietas, ele buscou no porta-luvas pelo mapa que Itachi mantinha guardado. Desenrolando-o, começou a traçar com os dedos o trajeto que fizeram até então. Itachi, ao volante, mantinha-se compenetrado no caminho, sério como de praxe.

— Como estamos de suprimentos?

Naruto decidiu perguntar depois de quase um minuto imersos no mais profundo silêncio; apenas o ronco lânguido dos motores em uníssono ecoava através das ruas esvaziadas e isso incomodava profundamente o jovem.

Após quase outro minuto sufocante e silente, Itachi manobrou o jipe, adentrando uma avenida larga, e, por fim, murmurou:

— Tem um supermercado logo à frente.

E, de fato, havia, Naruto constatou, cerca de cem metros adiante, mas o letreiro da rede de supermercados tinha várias letras faltando e as que sobreviveram ao abandono e ao fim do mundo estavam tão encardidas que mal podiam ser lidas. É um prédio imenso, que ocupa quase metade do quarteirão. É, na verdade, um supermercado varejista, o que implica a possibilidade de eles encontrarem preciosidades escondidas dentro daquelas paredes maciças.

Por via das dúvidas, Itachi decidiu estacionar o jipe um pouco mais à frente, não queria expor os veículos e, com isso, os outros três veículos, as duas micro vans e o caminhão militar, também desligaram seus motores, em sincronia.

Itachi foi o primeiro a descer, já em posse de um rifle de assalto SG 556 de fabricação suíça e com um mira acoplada. No coldre da coxa direita que usava, havia um revólver Cold Python .357 Magnum, sua arma favorita.

Depois de fechar a porta do jipe, ele inspecionou o perímetro e julgou-o seguro, uma vez que nada vivo ou morto se movia ao alcance dos seus olhos. Mas, por segurança, ele manteve um dedo preparado no gatilho do SG 556. Calmamente, Itachi deu a volta no jipe e se encaminhou para os outros veículos, para informar os próximos passos.

Ainda dentro do jipe, Hanabi e Hinata encararam Naruto, que carregava sua pistola Smith & Wesson .22 com um olhar taciturno. Hinata, a mais velha das irmãs, sabia o quanto ele detestava aquela coisa, e, ainda assim, ele a usava unicamente para proteção.

Ansiosa, ela apoiou a mão no encosto do banco dele e engoliu em seco. Hanabi deixou escapar um bufo quase imperceptível e se encolheu no canto oposto do banco enquanto as mãos fingiam se ocupar com o longo cabelo castanho.

— Você vai ficar bem? — Foi o que Naruto escutou Hinata indagar, sua voz melódica soando bem próxima ao seu ouvido.

Ele se virou para ela com um sorriso caloroso, como de costume. Era notável a mudança na atitude dela nos últimos meses; se antes, quando a conheceu, mostrava-se retraída e pouco responsiva aos seus gestos, mesmo à sua voz, agora ela, pouco a pouco, se libertava das amarras dos próprios medos desse mundo flagelado.

Hinata era intocável, mesmo ante à violência bruta do apocalipse. Ao contrário da irmã que havia facilmente se adaptado aos novos requisitos para a sobrevivência, ela permanecia pura e generosa. Pessoas como ela eram mais do que preciosidades no mundo atual.

E algo em sua pureza havia motivado Naruto a continuar, meses atrás, a não desistir de alimentar esperanças, por mais tolas que fossem.

Por isso, ele tocou o rosto dela com sua mão calejada. Os olhos dela eram tão claros como a neve que obliterava a paisagem do lado de fora e, de alguma forma, eram o lembrete de Naruto de que nem tudo ainda estava perdido.

— Fique dentro do jipe, tudo bem? — ele sugeriu, acariciando o canto dos lábios dela com seu polegar. — Está um frio dos diabos lá fora — acrescentou com outro sorriso caloroso e, a seguir, se afastou, abrindo a porta do jipe e deslizando do assento para o asfalto congelado.

Assim que a porta voltou a se fechar, bloqueando a corrente de ar glacial que entrou no jipe completamente vedado, Hanabi afundou no assento macio e revirou os olhos afiados para a irmã.

— Céus, vocês decididamente precisam transar logo! — comentou com malícia e ouviu o arquejo chocado da irmã antes que ela a censurasse com o olhar, mas não conseguisse ocultar dela o rubor nas maçãs do rosto.

Lá fora, Itachi estava parado ao lado do imenso caminhão militar Mercedes-Benz 1113. Da sua cabine, desceu uma figura curiosa: um homem de marcantes cabelos louros e compridos, parcialmente presos por um elástico, e vibrantes olhos azuis. Carregava um fuzil semiautomático Dragunov SVD de fabricação russa.

Ele saudou Itachi com uma contingência irônica, para a qual ele deu pouca atenção.

— Quero que encontre um bom ponto de observação, Deidara, e que fique de olho em tudo o que se mover — ordenou no seu típico tom plácido que, na maioria das vezes, irritava o homem. — Se avistar algo do qual não pode dar conta, dê o sinal que partimos imediatamente.

— Como quiser, seu cusão... Digo, como quiser, chefinho! — corrigiu-se com diversão.

Deidara concordou, embora não escondesse seu desprezo por ter de acatar ordens dele. Havia sido assim desde que foram colocados no mesmo esquadrão. Itachi, como seu superior, o havia repreendido por seu mau comportamento e eventual insubordinação desde aquele dia e nada havia mudado desde então.

Apesar disso, Itachi respeitava sua habilidade e precisão: Deidara era um excelente atirador de elite e isso não poderia ser mesmo negado. Era capaz de atingir qualquer coisa em movimento, por menor que fosse, a uma distância impressionante. Ainda atiraria apenas para ferir, se assim o fosse pedido. Sua perícia era famosa entre os seus companheiros de pelotão.

Infelizmente, seu pelotão agora se resumia apenas a Itachi, já que todos os outros haviam perecido em Yokohama.

Itachi havia conseguido escapar porque era um gênio na arte da estratégia e porque ele simplesmente parecia ter nascido para isso, para esse mundo. Era tão surreal quanto assombroso, na verdade, se parasse para pensar. Por isso, havia grudado nele desde que escaparam do centro de refugiados. Mesmo que o detestasse, sabia que Itachi era sua melhor chance de sobreviver ao fim dos dias.

Assim, fez o que ele lhe ordenou: procurou por um prédio nas imediações e, mesmo resmungando internamente, tratou de subir as escadas de incêndio até chegar ao terraço, chutando todo o lixo que se interpunha no seu caminho.

Uma vez lá, deitou de bruços sobre a fina camada de gelo que o cobria, posicionou a Dragunov e tratou de ficar de olho em tudo o que se movesse — estivesse morto ou vivo — em seu campo de visão e, porra, para ele não fazia diferença alguma.

* * *

Perto do meio-dia, Sasuke e Sakura espreitaram uma cidadezinha chamada Settsu, na prefeitura de Osaka, à beira da Via-expressa Ashihara, perto do quilômetro 15. Não era uma cidade grande, mas todo cuidado ainda era pouco.

Mancando e, por vezes, apoiando-se um no outro, ambos conseguiram chegar até um ponto de observação seguro para se certificarem de que Settsu estava tão desabitada quanto sua quietude sombria sugeria.

Apesar do lixo nas ruas e dos carros abandonados no meio-fio, a cidade parecia ter sido pouco afetada pelo fim do mundo: sem incêndios, sem prédios depredados ou pichados, sem vestígios da passagem tanto de vivos quanto de mortos, como refeições inacabadas apodrecendo nas calçadas ou marcas de tiros nos muros dos edifícios.

— Acha que é seguro? — Sakura questionou enquanto seu corpo estremecia sob o vento glacial.

Sasuke, cuja respiração sofrida saía na forma de chiados e silvos, ponderou por um instante antes de decidir que deveriam seguir em frente.

— Vamos ter que verificar... Ou morreremos de fome e congelados aqui fora.

Mesmo que estivesse com medo, Sakura assentiu e se preparou para acompanhá-lo. Tornou a oferecer ajuda, pois ele havia voltado a arrastar a perna de novo devido à dormência que sentia em todo a lateral esquerda do corpo.

Ela altercava com sua própria consciência de tempos em tempos, que insistia que ambos estavam tão expostos como uma ferida desprotegida. Mas que opção lhes restava? Precisavam se arriscar, caso contrário morreriam de qualquer forma.

Por isso se arrastaram pelas ruas atulhadas de lixo do centro da cidade até que encontraram abrigo numa residência num bairro nobre, na parte mais alta de Settsu. O portão gradeado cinzento não estava trancado e a mansão antiga parecia intacta aos olhos de ambos, uma promessa silenciosa de calor, comida e proteção das rajadas de vento geladas que os afligiam.

Sasuke se armou com um pedaço de madeira que encontrou no gramado congelado no jardim frontal da mansão e Sakura girou a maçaneta da entrada principal, abaixo do frontão. Essa porta os antigos donos haviam se dado ao trabalho de trancar. Então, ela pediu a Sasuke que tomasse distância (já que ele estava visivelmente enfraquecido) e também se afastou.

Chutou a porta com o solado do seu coturno com toda a força que conseguiu reunir; na primeira tentativa, as dobradiças da porta estremeceram, mas ela não cedeu. Apenas no segundo chute, ela escancarou-se com o impacto, batendo na parede com um estrondo.

Com pressa, eles entraram na mansão que estava completamente às escuras. O facho de luz diurno que adentrou através da porta iluminou o carpete da entrada e tornou discerníveis os contornos da mobília da sala de estar, cobertos por lençóis que cheiravam a mofo.

Para Sakura, eles eram quase espectros, empilhados nos cantos do cômodo, receptáculos dos dias que já se foram e que jamais voltariam.

Sasuke avançou pela casa primeiro, em posse da lasca de tábua que improvisou como arma. Os ecos dos seus coturnos no assoalho empoeirado soavam como uma espécie de marcha dos mortos.

Havia um longo corredor, ao lado de uma escadaria com balaustrada de vime e degraus acarpetados, e foi para lá que ele se dirigiu.

Todas as grandes janelas da sala de estar estavam cobertas por pesadas cortinas de veludo azul-escuro e havia até mesmo uma lareira de pedras vulcânicas ao fundo. O pensamento de tê-la acesa e trazendo calor aos seus ossos gelados fez Sakura suspirar.

— Sakura, aqui! — Sasuke a chamou do fim do corredor e ela se apressou em segui-lo.

Encontrou-o em uma cozinha chique e moderna, atrás de uma bancada de mármore negro e encarando pasmo uma porta estreita de madeira. Assim que a viu, ela encarou seu parceiro, chocada.

— Isso é o que eu estou pensando que é?

— Talvez — ele admitiu. — Mas precisamos nos assegurar de que está limpa primeiro.

Dito isso, eles combinaram os movimentos; Sakura se posicionou próximo à maçaneta e Sasuke estava imediatamente ao seu lado, empunhando a tábua quebrada como se fosse uma espécie de taco. Ela sugou o ar através dos lábios secos e então contou até três.

Puxou a maçaneta de uma vez, escancarando a porta da despensa e no mesmo instante Sasuke invadiu o recinto estreito, pronto para bater na primeira coisa que aparecesse diante dele. Para sorte de ambos, estava vazio de errantes. Por outro lado, algumas prateleiras da despensa exibiam seus enlatados e comida em conserva. Quando as viu, Sakura quis chorar de alívio.

Retornando à cozinha com os enlatados, os dois se voltaram para as gavetas em busca de facas. Encontraram alguns talheres de prata e duas faca de cozinha, além de um cutelo. Decidiram mantê-los, uma vez que se encontravam completamente desarmados.

— Devemos verificar os quartos agora? — ela perguntou enquanto ambos tratavam de colocar os enlatados em uma velha toalha de mesa, dando um nó na ponta uma vez que se abasteceram.

— É necessário? — Sasuke questionou porque estava exausto e sentia que suas forças lhe faltariam a qualquer instante.

— Podemos encontrar roupas limpas e secas, além disso, preciso dar uma olhada no seu corte, limpá-lo e fazer um curativo antes que infeccione.

Diante de tais argumentos, tão razoáveis, ele viu-se concordando-se porque, de fato, seu ferimento precisava de um curativo e ele queria muito vestir uma camisa limpa. Assim, assentiu e em seguida ambos voltaram à sala de estar e pararam perto da escadaria.

Lá, Sasuke precisou se apoiar por um minuto no corrimão, curvando-se sobre o próprio corpo e pressionando a mão livre no ferimento que voltara a latejar.

— Sasuke? — Sakura o chamou com visível preocupação, mas ele lhe pediu um momento, arquejando através dos lábios apartados e cada silvo da sua respiração soava dolorosamente custoso.

— Eu estou bem — assegurou, mas ela não conseguiu acreditar nele. — Vamos continuar.

Devagar, subiram os degraus acarpetados, agradecendo por eles encobrirem os sons dos seus sapatos e não denunciarem suas presenças. Sakura não conseguiu deixar de notar que cada degrau assemelhava-se à ascensão ao calvário para Sasuke. Ele ainda respirava daquela forma estranha, ruidosa, mas, por ora, ela preferiu focar-se no seu dever, cuidaria dele — e ela jurou a si mesma que o faria — mais tarde.

Uma vez que alcançaram o segundo andar da casa, eles se depararam com dois amplos corredores, um de cada lado, porém um deles estava completamente bloqueado por móveis quebrados e entulho. Por ter acesso facilitado, eles escolheram o corredor da direita, livre dos empecilhos.

Sasuke foi à frente e Sakura vigiava a retaguarda pelos dois. A primeira porta de um total de três, todas brancas, reluzia como um convite irresistível ao paraíso. Apesar do silêncio que ainda imperava em toda a casa, Sasuke achou melhor que, se houvessem errantes ali, seria melhor atiçá-los primeiro para ter noção se o aposento estava livre ou não.

E foi isso o que ele fez: bateu a palma da mão com força contra a primeira porta, causando um estrondo que reverberou por todo o segundo andar.

Surpreendentemente, a resposta que imaginavam (e temiam) não veio da primeira porta, mas da segunda. Um baque seco e violento contra a madeira e rosnados caóticos abafados pela porta. Sakura sofreu um sobressalto assim que o errante se lançou contra a porta.

— É, não vamos abrir aquela... Por enquanto — Sasuke comentou num tom seco e em seguida envolveu a maçaneta da primeira porta, girando-a.

As dobradiças rangeram de leve até revelarem um quarto de solteiro luxuosamente mobiliado; uma cama de solteiro, um roupeiro embutido, uma grande janela balcão coberta por uma cortina de veludo negro e uma escrivaninha com um computador.

— Vamos dar uma olhada na última — ele sugeriu e Sakura assentiu, já o seguindo.

A última porta revelou-se um banheiro com piso e paredes de porcelanato e uma banheira esmaltada escondida atrás de uma cortina de plástico. Sakura entrou no banheiro e revirou o armário atrás de um kit de primeiros-socorros, mas encontrou apenas um rolo de gazes. Ela teria de ser um pouco mais criativa para cuidar do ferimento de Sasuke então.

No outro corredor, depois de haverem o liberado dos móveis quebrados, eles repetiram o processo com as outras duas portas, que se revelaram outro quarto com suíte própria, mas dessa vez de casal, mobiliado com uma cama kingsize com dossel de brocado e um carpete felpudo que cobria todo o assoalho, e, por fim, um escritório modesto com uma estante abastecida por livros e uma escrivaninha.

Ao final, voltaram ao outro corredor para traçarem um plano para eliminar o hóspede indesejado. Sakura alegou para Sasuke que não conseguiria dormir sob o mesmo teto de um errante.

Os dois decidiram agir em conjunto: ele colou o ouvido na madeira e tentou determinar a distância do cadáver andejo em relação à porta. Mas foi Sakura quem se posicionou no meio do corredor, a faca de cozinha em posse e erguida até a altura do rosto para se defender. Achou melhor ela mesma lidar com a situação, uma vez que Sasuke só permanecia em pé agora por pura força de vontade.

Quando Sasuke girou a maçaneta e a porta se escancarou, o errante saltou sobre ela; era uma mulher com cabelos de medusa e olhos como moedas sujas. Ela se chocou contra Sakura rosnando rouca e batendo os dentes podres freneticamente uns nos outros.

Com o impacto inesperado, Sakura recuou, batendo a base das costas na balaustrada da escada e deixando cair sua faca. Seus braços se ocuparam imediatamente em impedir os avanços da mulher morta, evitando que ela cravasse seus dentes negros na sua carne macia.

Sakura protestou, usando toda a sua força para tentar afastá-la, mas por sorte Sasuke foi mais rápido. Ele surgiu de lugar nenhum e cravou sua própria faca na lateral do crânio podre da mulher.

Ela deixou de se mover no mesmo instante e desabou no assoalho acarpetado assim que Sasuke removeu sua faca do crânio dela com um som úmido e pegajoso. Sangue arterial manchou o carpete imaculado, esguichando da fenda no seu crânio.

Ofegando, Sakura fitou Sasuke.

— Obrigada por isso.

Uma vez que a casa estava limpa (depois de haverem se livrado do corpo fedorento da errante), eles voltaram ao primeiro andar e Sasuke usou um sofá para bloquear a porta cuja maçaneta havia sido quebrada por Sakura.

Depois, eles subiram de novo, por insistência de Sakura, e reviraram os roupeiros atrás de roupas limpas e secas. Tiraram os casacos e as blusas úmidas e sujas de sangue, substituindo-as pelas que encontraram.

Sasuke logo se viu sentado na cama kingsize, no quarto do casal, enquanto Sakura buscava por algo na suíte que pudesse usar para limpar o ferimento no abdome dele e lavava bem as mãos com um pouco de água. Um minuto depois, ela escusou-se, saindo do quarto e voltando ao primeiro andar — ele podia ouvir os passos dela pela casa. Então, ela voltou a surgir pela porta com uma garrafa de vinho em mãos, algodão e gaze.

— Confie em mim — disse em resposta à sobrancelha cética dele, soerguida sobre o olho intacto; o outro continuava inchado e roxo.

Atendendo seu pedido, ele retirou a blusa limpa que vestira apenas minutos atrás e deitou sobre o colchão macio enquanto ela fazia seu trabalho. Primeiro, ela inspecionou o ferimento, testando a elasticidade da pele em torno da ruptura. A tonalidade bem avermelhada em torno das bordas da ferida a preocupou.

— Isso deve causar um leve desconforto, tudo bem? — ela informou a Sasuke enquanto abria a garrafa de vinho e derramava um pouco da bebida fermentada sobre o ferimento.

Sasuke se retraiu um pouco e ela jurou que o ouviu cerrar os dentes na boca apertada. Sabia que era um procedimento rudimentar, até mesmo obsoleto, da época em que a medicina era perigosamente básica, mas o álcool da bebida limparia o ferimento e evitaria uma infecção — ou assim ela rezava para que acontecesse.

Seus dedos enxugaram o excesso da bebida sofre o ferimento com leves toques do algodão e logo em seguida ela já começava a fazer o curativo, cuidando para não apertar demais a gaze e causar desconforto desnecessário a Sasuke.

Sakura gostaria de ter linha e agulha para suturá-lo, mas precisou se virar com o que tinha em mãos, pelo menos o sangramento já havia estancado.

Ela ainda limpou o olho inchado dele, escondido atrás da franja e, ao final, acariciou a região lesionada, mal roçando-a com as pontas dos seus dedos delicados. Quando notou que um olho negro seguia seus movimentos, ela sorriu para si mesma e se afastou.

— Vamos comer alguma coisa; estou faminta — chamou-o, por fim, para quebrar a tensão expectante que chegou a sentir por um único instante.

Eles optaram por comer no quarto mesmo, então abriram a trouxa que haviam feito com tudo o que encontraram na despensa. Apesar de fria, a comida nunca pareceu tão saborosa à Sakura como agora.

Ela nem mesmo se lembrava mais da sensação de estar com o estômago desconfortavelmente cheio, mas tinha uma vaga impressão de que se assemelhava a essa.

Mais cedo, ela havia apanhado um punhado de neve e a colocado em uma garrafa de plástico para derreter; eram toda a água de que dispunham agora e mais nada. Então, uma vez saciados, eles decidiram se enfiar embaixo dos cobertores e tentar dormir algumas poucas horas.

Sasuke deitou sobre o lado bom do seu corpo e puxou Sakura para mais perto para que aquecessem um ao outro. Adormeceram depressa, vencidos pelo cansaço e embalados pela quietude insuspeita da casa.

* * *

Naruto havia se distraído numa seção de massas do supermercado e examinava as prateleiras atrás do que mais gostava. Também empurrava um carrinho de supermercado abastecido até a metade de comida durável cujas rodinhas degastadas guinchavam ao atritar com o piso de linóleo.

Por um momento, ele considerou, enquanto vasculhava as prateleiras bagunçadas, que era fácil esquecer-se do fim do mundo, esquecer-se de tudo e se concentrar em algo tão trivial quanto encher um carrinho de supermercado.

E para uma pessoa otimista como ele, isso se tornava ainda menos desafiador.

Naruto era conhecido por seus sorrisos fáceis e por seus discursos de encorajamento. Ainda que alguns o rotulassem como um tolo, ele não se importava. Gostava de levar a vida como levava, mesmo com os pedaços do mundo se descolando um a um.

Quando perdeu seus pais em Yokohama, tudo o que lhe restou foi seu otimismo. De certa forma, ele o manteve vivo até que se reencontrasse no reflexo dos olhos de uma garota boa. Só mais tarde, viria a se reunir com Itachi, o irmão mais velho daquele que foi seu melhor amigo por toda a vida.

Foi não, ele corrigiu-se com um balançar da cabeça, ainda é. Porque Naruto tinha certeza de que Sasuke estava vivo e Itachi também acreditava nisso, caso contrário não teria forças para continuar seguindo em frente.

Mais de uma vez, ele se questionou sobre a razão de Itachi ainda não haver retornado à Komatsushima para procurar pelo seu irmão e seus pais.

Mas Itachi sempre havia descartado a possibilidade dizendo que era provável que Sasuke e seus pais não estivessem mais lá, mas ele nunca o enganou, não Naruto: sabia que a razão pela qual Itachi jamais retornou à sua cidade natal era devido ao seu medo; medo de descobrir algo desagradável quanto ao destino de sua família, especialmente seu irmãozinho.

Há algumas semanas, ele decidiu que o melhor seria abandonar o tópico e não mais insistir com Itachi, que parecia mais introvertido e soturno a cada dia. Naruto sabia que a angústia por notícias do irmão o estava consumindo pouco a pouco.

Voltando a balançar a cabeça, ele considerou que o melhor era deixar esse assunto de lado, por ora. Por isso, retornou à empreitada da qual, com certeza, não desistiria: encontrar entre aquelas prateleiras gigantes um copo de macarrão instantâneo. Ah, Naruto sentia que daria qualquer coisa em troca de um daqueles. Era o seu favorito desde que se podia se lembrar.

Passando os olhos pelas embalagens e rótulos na prateleira, sorriu abertamente quando encontrou o que procurava e se sentiu sortudo, pois parecia ser o último.

Naruto estendeu a mão para alcançá-lo, mas se deteve a caminho da embalagem quando, por uma fresta na prateleira que mostrava uma outra seção do supermercado, seus olhos capitaram um movimento na escuridão parcial: um vulto se deslocando languidamente pelo piso de linóleo.

Suando frio, ele aproximou o rosto da fenda e apertou os olhos para enxergá-lo melhor. Os passos arrastados e machucados e os membros superiores pouco responsivos e coordenados o fizeram ter certeza do que se tratava.

Merda, merda, merda... — sussurrou na escuridão quando avistou mais um vulto deslocar-se atrás do primeiro, e então mais outro.

Preciso avisar o Itachi!, concluiu ao voltar-se para o carrinho e empurrá-lo o mais depressa possível para longe dali, deixando o copo de macarrão instantâneo intocado na prateleira. Porém, foi rapidamente interceptado pelo primeiro errante que emergiu de detrás de uma prateleira abarrotada de produtos de limpeza, rosnando para ele enquanto seus olhos faiscavam.

Naruto cerrou os dentes e pegou mais impulso com o carrinho de supermercado. Mais um errante surgiu junto ao primeiro, depois mais dois. Ele sorriu consigo mesmo antes de soltar o carrinho que, desgovernado, chocou-se contra o pequeno grupo, derrubando-os todos.

Em seguida, ele correu para longe dali, disparando por outro corredor rodeado por altas prateleiras enquanto ponderava entre tocar na arma presa no cós da sua calça ou não. Naruto a detestava, para ser honesto, mas em certas ocasiões via-se sem saída quanto a usá-la.

A caminho da seção de bebidas, ele cruzou com Itachi e tratou de alertá-lo:

— Itachi... Temos que dar o fora daqui!

Toda a postura de Itachi mudou num piscar de olhos. Ele pegou seu rifle de assalto SG 556 e o empunhou no mesmo instante em que os errantes chegaram, vindos de todos os lugares e cantos, vestidos com trapos sujos e emitindo em coro seus típicos rosnados famintos.

Numa única saraivada, Itachi atingiu os topos das cabeças de pelo menos três deles, derrubando-os no chão.

Sem alternativas, e vendo que eles paravam se surgir em meio às sombras, Naruto tirou sua pistola Smith & Wesson e mirou-a no primeiro errante que entrou no seu campo de visão. Puxou o gatilho e assistiu a cabeça de uma mulher explodir num espetáculo de sangue coagulado e membrana cerebral, enviando-a de encontro a uma prateleira cheia de bebidas energéticas.

— Vem! — Itachi logo o chamou para que saíssem dali e voltassem aos veículos.

Naruto o seguiu sem pestanejar, abatendo os mortos que se colocavam em seu caminho com tiros precisos. Era surreal a forma como eles continuavam a brotar dos recantos mais escuros, emergindo e rastejando dos seus esconderijos como parasitas e pestilências famintas por morte e destruição.

Uma vez lá fora, eles se surpreenderam com os errantes que também brotavam dos becos atulhados de lixo e das janelas quebradas de edifícios, certamente atraídos pelos tiros. Eram dezenas já e Itachi abateu todos os que se aproximavam demais ou que se interpunham entre ambos e os veículos, estacionados a algumas dezenas de metros dali.

No alto de um edifício, Deidara chiava a cada sombra que recuava de um beco ou de uma janela, acertando suas cabeças com sua Dragunov sem errar um único tiro:

— Ah, porra! Isso está ficando sério! — resmungava, procurando por todos aqueles que deveria abater.

Lá embaixo, na calçada, Itachi disparou sua SG de novo contra uma pequena horda que se aproximava pela esquerda, derrubando-os todos. Cada disparo de sua arma causava uma comoção na rua cheia de mortos.

Naruto olhou rapidamente para os veículos e notou que alguns errantes começavam a se deslocar para lá. Ele precisou se controlar para não entrar em pânico, então se voltou para o homem mais velho e pediu por ajuda, apontando para o jipe e para os mortos-vivos que se moviam para lá:

— Itachi, me dê cobertura!

Assentindo para o loiro, Itachi abateu mais um errante do sexo masculino vestido com um conjunto encardido de moletom antes de se voltar para Naruto e cobri-lo enquanto ele abria caminho pela multidão de cadáveres, atirando em todos que se aproximassem demais.

Fluídos cinzentos e avermelhados choviam sobre o asfalto a cada vez que um deles era alvejado pela perícia de Itachi.

Dentro do jipe, Hinata e Hanabi se encolheram no assento de trás quando uma horda se reuniu no flanco esquerdo do jipe, rosnando para ambas e abrindo e fechando aquelas mandíbulas podres e deformadas, cheias de dentes negros.

A mais velha das irmãs, ao notar o pânico da mais nova, mordeu o lábio e decidiu agir. Nos outros veículos, estacionados mais atrás, outras pessoas buscavam proteção do levante dos mortos. Por isso, Hinata deslizou até o assento do motorista, sobressaltando-se quando um dos cadáveres se jogou contra a janela do motorista, arranhando o vidro e intentando alcançá-la.

Ignorando a sensação sufocante do medo, ela girou a chave na ignição, dando partida no motor e manobrou o jipe para longe do meio-fio e da horda crescente, consequentemente.

— O que você vai fazer?! — Hanabi a questionou apavorada, agarrando-se ao banco quando um tranco no veículo a jogou para frente. — Mana, você sabe dirigir?!

Sem respondê-la, Hinata mudou a marcha como vira Itachi e Naruto fazer inúmeras vezes e pisou fundo no acelerador, fazendo os pneus cantarem no asfalto. Com outro tranco, o jipe avançou pela rua, beirando a calçada pela qual Naruto se aproximava, com Itachi mais atrás o cobrindo.

Os outros dois veículos também deram partida, seguindo o jipe enquanto Deidara descia as escadas de incêndio do edifício e abatia cada cadáver que se colocava entre ele e seu caminhão. Quando enfim subiu na cabine, ele balançou a cabeça e se perguntou como em tão poucos minutos a cidade havia sido tomada pelos mortos.

Mais à frente, Hinata conseguiu parar o veículo para que Naruto e Itachi entrassem. Um pouco assustada, mas inegavelmente aliviada de que todos estavam bem, ela deslizou de volta para o banco de trás e deixou que Itachi assumisse o volante.

Naruto rapidamente deslizou para o assento ao lado dele e logo em seguida eles partiram a toda velocidade, deslocando-se pelas ladeiras estreitas enquanto o número de mortos nas ruas crescia a cada segundo.

Sem olhar para trás, seguiram viagem sem mais interrupções e não demoraram a deixar a cidade de Oyamazaki e sua multidão de mortos andejos para trás. A parte ruim é que haviam abandonado todos os suprimentos.

Olhando-o de soslaio, completamente compenetrado na pista da autoestrada, Naruto imaginou o motivo pelo qual Itachi não notara a aproximação dos errantes antes dele, afinal isso nunca havia acontecido antes e o instinto de sobrevivência de Itachi sempre os havia protegido de lidarem com situações como a que acabou de acontecer.

Porém, parando para pensar no comportamento introspectivo dele nas últimas semanas, Naruto facilmente poderia imaginar a resposta: Sasuke, que era a origem e o desenlace de todas as suas aflições.

E nisso, Naruto era capaz de compreendê-lo, afinal isso também o vinha consumindo mais recentemente. Por isso, ao olhar para a paisagem cinzenta que se desdobrava do lado de fora, ele só podia rezar para que, onde quer que estivesse, Sasuke estivesse bem, são e salvo.

Mas, no estado atual do mundo, talvez alimentar tantas esperanças se provasse uma tolice, mesmo para alguém como ele, tolamente otimista.

* * *

E os demônios ao seu redor...

Todos eles esperam

Que você venda a sua alma.

Kari Kimmel — Trecho de Black.

Notas finais
Prometi que tentaria voltar em duas semanas e só estourei um pouquinho desse prazo... Só um pouquinho, viu? :B ... Próximo capítulo tem a volta do Kabuto! Quem vocês acham que ele vai encontrar? Como a maioria pareceu concordar com o Spin-off, decidi investir nele. Acredito que é legal poder visualizar diversos pontos de vista a respeito de um mesmo acontecimento. Lembrando que o foco do Spin-off é o Naruto! ... Eu estou com altas expectativas para o season finale de Fear TWD e para o retorno de TWD. O Nick e o Daniel Salazar são meus personagens favoritos até agora de Fear. Tomara que não morram :v ... Enfim, não deixem de comentar, ok? Assim posso tentar voltar em duas semanas (ou, como dessa vez, em dezenove dias) de novo X'D Até o próximo!