Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
48 Capítulo XLVII: Um Novo Amanhã Flagelado
Notas iniciais
Dead World Assembly
— “Está tudo sob controle — responde Brian numa voz tensa e trêmula, mostrando claramente que nada está sob controle”.
KIRMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 126).
Capítulo XLVII:
Um Novo Amanhã Flagelado
Por volta das duas da madrugada, a antiga Madeireira, no interior da floresta que margeia a pista esquerda da Via-expressa Meishin sentido Tóquio, se tornou uma espécie de matadouro sanguinolento.
Enquanto o tiroteio se seguia e os homens de Dosu e Zaku falhavam em conter os mortos-vivos que se multiplicavam a cada minuto, atraídos pela comoção das armas sendo disparadas, Temari e Gaara ainda se valiam do elemento surpresa para matar a sangue frio aqueles que sobreviviam às investidas dos cadáveres andejos.
Poupando munição, os irmãos esgueiravam-se sob a cobertura da noite convenientemente escura e disparavam de tempos em tempos; eram sempre tiros certeiros, que atingiam as cabeças dos homens e de algumas poucas mulheres lançando borrifos de sangue arterial na neve, como tinta fresca respingando na tela branca de um pintor.
Alguns poucos errantes tentaram se aproximar deles, mas foram facilmente abatidos, já que a maior parte ainda se arrastava de todos os modos e vindos de todas as direções rumo ao gigantesco galpão da madeireira, agora mais exposto do que nunca.
Temari havia acabado de descartar o terceiro pente de munição do fuzil russo e substituiu-o por um novo. Gaara parecia bem à vontade com suas novas pistolas gêmeas. Se tivessem sorte, os irmãos planejavam furtar os cadáveres e pilhar o galpão assim que a alvorada os alcançasse.
— O que acha? — Gaara perguntou à irmã, mirando-a de soslaio enquanto mantinha um olhar vigilante sobre o campo de batalha a alguns bons metros dali.
— Eu estou cansada desse joguinho de pique-esconde — ela murmurou em resposta e puxou o cinto com a última granada restante, expondo suas intenções para o ruivo.
— Então vamos! — concordou a contragosto porque pressentiu que não a faria mudar de ideia e jamais a abandonaria em um momento como aquele.
Juntos, eles deixaram o abrigo do dossel de árvores e revelaram-se sob a lua ínfima da lua. Trabalharam em conjunto para eliminar tanto os últimos homens quanto os errantes que se aproximavam pelos flancos. Ainda se movendo no mesmo compasso, eles alcançaram o caminhão baú tombado uma hora antes e usaram-no como escudo.
Temari rapidamente desprendeu a última granada de mão de que dispunha. Puxou o pino, mas não soltou a manivela, mantendo-a na mão.
— Me dê cobertura! — ordenou para o caçula enquanto se inclinava para fora do caminhão, espiando o campo de batalha sangrento.
Gaara, munido de suas duas pistolas, vigiou a retaguarda para a irmã, abatendo um errante no momento em que ele tentou se aproximar de ambos. Um tiro atingiu a lataria do caminhão, bem sobre a sua cabeça, cravando-se ali mesmo com um estampido estridente.
— Merda! — praguejou, levantando-se a fim de vasculhar as imediações à procura de mais perigos.
Temari enfim localizou seu alvo. Mirou e recuou o braço, executando um movimento perfeito para lançar a granada. Em seguida, ela abaixou-se depressa e puxou o irmão consigo. Três segundos depois, uma explosão sacudiu o chão sob ambos, estrepitando no bosque ao redor e fazendo chover flocos de neve e grãos de terra sobre as suas cabeças.
Gaara destampou os ouvidos, mas percebeu que um deles tinha um zumbido característico e enervante.
— Porra, Temari, essa foi perto demais! — resmungou e recebeu como resposta um muxoxo da irmã.
Não teve tempo para repreendê-la novamente, pois no instante posterior a isso ela o puxava para cima e para longe do caminhão. Agora expostos ao olho nu, eles buscaram abrigo atrás de uma pilha de toras, trocando tiros com os poucos homens restantes. Temari disparou contra tudo o que se movia na escuridão e em certo momento percebeu ter atingido uma mulher de cabelo comprido e escuro, não na cabeça como objetivara, mas na garganta. Ela caiu sobre a neve, agarrando o próprio pescoço e sufocando com o sangue em sua boca.
— Eu estou começando a ficar sem munição — Gaara resmungou para ela enquanto trocava o pente da sua Magnum .44.
— Eu cubro você — ela garantiu, deixando o fuzil de lado, o Abakan AN-94, e puxou a Uzi Carbine do coldre em sua coxa.
Deixando o abrigo, mirou nos últimos errantes com a pistola-metralhadora e pressionou o gatilho, liberando uma saraivada de tiros que reverberou pela noite invernal, causando uma sucessão de estampidos abruptos e fortes. Com pulso firme, ela aguentou o ricochete da arma sem tremer, acertando as cabeças como alvos pintados, que explodiam num espetáculo de sangue coagulado e massa encefálica cinzenta.
— Vem comigo! — ela ordenou, avançando contra os errantes e derrubando-os um a um como um rolo compressor.
Gaara ajudou-a abatendo aqueles que se aproximavam pelos cantos e pela retaguarda, no intuito de cercá-los. Moveram-se rápido de novo, pois a Uzi Carbine de Temari causava uma comoção estrondosa ao ser disparada, o que atraía atenção tanto de vivos (se restasse algum) como de mortos.
A neve estava coberta com sangue, que sob a noite se tornara preto como piche.
Num instante, os dois se esgueiraram pela sombra imensa que o galpão projetava. Moveram-se com cautela, beirando as paredes altas em direção à única entrada: a porta de metal entreaberta.
Temari gesticulou para o irmão caçula, para que ele se movesse ao sinal dela. Quando contou até três, ela chutou a porta com força, escancarando-a e mirou a Uzi Carbine para o que quer que se movesse lá dentro. Mas sob as chamas dos latões dispostos ao longo do galpão, tudo o que encontrou foram duas silhuetas trôpegas avançando num passo arrastado na sua direção.
Ela notou que o primeiro tinha a cabeça pendida num ângulo estranho, decerto tivera o pescoço quebrado. Já o segundo estava com o rosto desfigurado e ensanguentado, um canivete ainda estava cravado na sua boca mutilada. Sem hesitar, ela mirou no errante de pescoço contundido e puxou o gatilho uma única vez.
Gaara apontou sua Desert Eagle para o segundo e repetiu seu gesto, abatendo-o. Depois de averiguar o silêncio suspeito no barracão, ambos optaram por entrar e revistá-lo de uma vez. Não se separaram em nenhum momento, cobrindo a retaguarda um do outro, e, assim, verificaram cada canto.
Ficaram surpresos com a quantidade de coisas que encontraram: comida estocada e durável, água potável, roupas, galões de gasolina, mas o mais impressionante sem dúvida foi o arsenal: dentre as armas recém-conquistadas, Gaara reconheceu a Ruger SRN1911 de Sasuke, e Temari, a Glock .19 de Sakura. No entanto, não havia sinal de nenhum deles ou mesmo de Kabuto.
— Eles não estão mais aqui. Certamente fugiram assim que iniciamos o ataque — Gaara palpitou enquanto verificava uma coleção de facas militares dispostas num estojo de couro.
Temari não o respondeu, mas andou de um lado a outro, visivelmente nervosa.
— O que foi? Conquistamos o lugar; aqueles que sobreviveram já estão a quilômetros daqui; é tudo nosso agora.
O irmão comentou para tentar apaziguar seu humor, mas ela foi categórica ao respondê-lo:
— Gaara, pegue tudo o que achar útil. Nós vamos atrás do Kabuto.
— Por quê?
— Precisamos da cura — alegou com azedume. — E para chegarmos à cura, precisamos do biomédico vivo.
— Você pretende tentar encontrá-lo agora? Está escuro lá fora e nós mal enxergamos um palmo diante do nariz.
Temari bufou impaciente. Apanhou uma mochila e começou a enchê-la com comida enlatada e água, além de peças extras de roupas para conseguirem suportar o inverno. Gaara, de má vontade, passou a imitá-la. Enquanto estocava garrafas de água e enfiava o estojo com as facas no meio de uma muda de roupas ouviu-a murmurar:
— Eu não pretendo tentar encontrá-lo. Eu vou encontrá-lo custe o que custar.
Quando saíram para a noite fria, esgueiraram-se silenciosos para o local onde os veículos restantes estavam estacionados. Temari optou pelo caminhão militar coreano. Estavam prestes a dar a partida e ir embora, com tudo que empacotaram já embarcado, quando Gaara tocou seu ombro e a deteve.
Ele apontou para além da cabine do caminhão, para a neve platinada respingada de sangue. Ao longe, ela distinguiu um vulto arrastando-se sobre a neve com extrema dificuldade. Também notou que não se tratavam dos movimentos letárgicos de um dos errantes, mas talvez de um moribundo.
Calma, ela desceu da cabine e se aproximou da silhueta mortiça, reconhecendo-a como a mulher de cabelos longos e pretos que ela atingira no pescoço anteriormente. A mulher deteve-se assim que notou a aproximação de alguém, seu sangue empapava a neve sob o seu corpo.
Temari parou a poucos metros dela; a lua projetava sua sombra de uma forma medonha na neve. Tornava-a mais alta, mais esbelta, como um espectro vingador.
A moribunda olhou-a de cima, estremecendo com o sangue lhe enchendo a boca. O pensamento de abandonar a mulher ainda viva ali passou pela cabeça de Temari rapidamente, mas logo foi descartado. Daquele jeito que estava, ela provavelmente seria devorada de forma lenta e dolorosa pelos errantes que estavam a caminho.
Sem lhe dizer uma única palavra, Temari puxou a Uzi Carbine mais uma vez e disparou um único tiro seco e abrupto contra o crânio da mulher. A cabeça dela tombou para trás sobre a neve com o impacto. Os olhos vítreos e pretos focaram-se no céu vazio e um filete de saliva escorreu pelo canto da sua boca entreaberta.
Temari correu de volta para o caminhão depois disso, subiu na cabine e ocupou o banco do motorista. Fechou a porta com um baque e deu a partida no motor.
— Vamos embora — disse para o irmão enquanto manobrava o veículo militar para longe dali, deixando para trás os corpos inertes na neve, banhados no sangue negro.
Entrementes, errantes ainda chegavam de todas as direções com seus passos machucados e ébrios, famintos e irritadiços, mas o festim já havia terminado. Apenas os corvos banqueteariam agora.
* * *
O dia amanheceu gradativamente, mas Sakura mal o percebeu; a luz que se esgueirava sutil pela floresta, o canto das cotovias empoleiradas nos galhos desnudos dos bordos japoneses, tudo lhe passou despercebido. Não se atinha nem mesmo à dormência preocupante nos seus pés ou à fome e à exaustão — punições constantes e severas à sua carne — que ainda a atormentavam.
Tropeçava pelo caminho, tão moribunda quanto mortificada. Uma vez que a adrenalina da fuga evanesceu, um estado semi catatônico se mostrou quase inescapável ao seu subconsciente flagelado. Andava sem um rumo certo, à frente, com Sasuke um pouco mais atrás mancando num compasso tão ou mais trôpego do que o dela.
O orvalho da manhã havia deixado uma delgada camada úmida sobre a vegetação da floresta que, mais tarde, se tornou gelo. Agora, esse mesmo gelo derretia sob os primeiros vestígios do despertar do sol, serenando sobre o solo forrado pela neve. Para Sakura, o gotejar contínuo dava-lhe a impressão de que as árvores estavam chorando — como ela.
Na verdade, ela mais se sentia um dos cadáveres andejos que vagavam a esmo pela floresta numa peregrinação que jamais findava. Coberta de sangue, com olhos vítreos e vazios como os dela, boca apartada num ofegar baixo e movendo-se num compasso arrastado, ela deveria se tratar de uma visão medonha para qualquer um.
Caminhava com as mãos afastadas do corpo, os braços abertos num ângulo seguro; não queria correr o risco de esbarrá-las no próprio corpo. Estranhava-as, para si eram intrusos, ferramentas da morte. Antes estiveram pegajosas de sangue, agora estavam apenas manchadas com um tom avermelhado com uma crosta de sangue seco sob as unhas e cutículas. Como o resto de seu corpo, sofriam com o frio extremo, tão dormentes como seus pés contidos dentro das meias molhadas.
— Sakura... Mais devagar! — Sasuke murmurou um pouco mais atrás, esforçando-se para acompanhá-la, mas fracassando.
Seu olho esquerdo estava inchado e roxo, oculto sob sua franja. Caminhava a duras penas, apertando a mão no ferimento em seu abdome e contraindo o rosto de dor a cada vez que apoiava o peso do corpo naquela metade do corpo. O sangramento havia estancado algumas horas atrás, mas o corte havia sido profundo demais e ainda latejava e queimava.
— Sakura!
Sasuke a chamou novamente, mas sem sucesso, elevando o tom de voz o máximo que podia e julgava seguro para que não reverberasse por mais do que alguns poucos metros pela floresta. Perdeu a noção do quanto já haviam caminhado, ou melhor, tropeçado floresta adentro. Ao menos, ansiava auspicioso, que já houvessem se distanciado o bastante da madeireira.
Quando percebeu que ela não havia diminuído o passo, apertou ele próprio o compasso, gemendo devido à dor massacrante que irradiava por todo o lado esquerdo do seu tórax. Alcançou-a em três rápidas e compridas passadas, agarrando-a pelo pulso e fazendo-a parar. Virou-a para si num rompante de ira, mas travou assim que a olhou nos olhos:
— Por que está fingindo que não me escuta?!
Sasuke perdeu o fio da meada e Sakura desmontou-se, por fim, numa crise nervosa preocupante. Ele estava aflito com o estado frágil no qual ela se encontrava, não só debilitada fisicamente, como também com o emocional exposto como uma ferida purulenta.
Sem lhe dizer qualquer palavra, puxou-a para perto e a abraçou, apertando o rosto dela contra o seu peito. Conteve-a, pois os tremores em seu corpo passaram a sacudir a ambos, restringindo-a mais forte entre os seus braços. Fungou no cabelo dela porque ele próprio havia atingido o seu limite.
— Tudo bem. Está tudo bem.
Sussurrava-lhe como se embalasse um bebê e enfim obteve uma reação de Sakura. Ela enganchou os dedos na sua jaqueta e não o soltou até que, pouco a pouco, seus tremores foram diminuindo e voltou a si.
Desprendeu-se de Sasuke, porém não retomaram a caminhada imediatamente. Sakura se abaixou até uma poça d’água, fruto da neve que derretia, e afundou as mãos dormentes, esfregando a sujeira sob as suas unhas e as manchas avermelhadas que cobriam seu dorso e seus dedos.
Pela visão periférica, viu que Sasuke fizera o mesmo, entretanto para limpar o corte no lado esquerdo do seu abdome. Ele cerrou os dentes quando a sensação de ardência intensificou-se em contato com a água, mas aguentou a dor a fim de continuar limpando a ferida do sangue seco e da sujeira.
Uma vez que suas mãos encontravam-se decentes mais uma vez, Sakura as uniu em forma de concha para limpar seu rosto e pescoço; não havia nada que pudesse fazer quanto as suas roupas no momento, mas com sua pele limpa ela se sentiria melhor.
Com o céu clareando num tom puro de cerúleo e a luz do sol já vazando através das frestas do dossel intrincado de árvores, Sasuke e Sakura decidiram que era hora de planejar o que fariam a partir de agora, ao menos até que tivessem um objetivo mais concreto.
— Precisamos encontrar um abrigo para nos recuperarmos desses ferimentos — ele afirmou categórico e ela aquiesceu. — Água, comida, roupas limpas e secas... Depois nos preocupamos com o porvir.
Sasuke suspirou uma bruma delicada e esfumaçada no ar gélido matinal.
— Vem, vamos sair logo daqui — instigou-a a acompanhá-lo.
Sakura o seguiu resignada e em pouco tempo ambos haviam reassumido aquele compasso arrastado de antes, com a diferença de que agora andavam lado a lado, apoiando-se no outro sempre que um deles vacilava.
* * *
Na Via-expressa Meishin, perto do quilômetro oitenta e cinco, sentido Osaka, um comboio seguia viagem sem quaisquer incidentes.
Eram em torno de quatro veículos enfileirados, dentre eles, duas micro vans: um Mitsubishi eK de cor preta e um Daihatsu Move; logo após eles, um imenso caminhão militar Mercedes-Benz 1113, cuja caçamba estava forrada por uma lona verde-escuro. O veículo da ponta era um jipe militar Toyota Xingu verde-escuro forrado por uma lona de mesma cor.
Atrás do volante do jipe, liderando o comboio com segurança, havia um homem de traços marcantes num rosto apaticamente sereno: olhos pretos e indiferentes, focados apenas na pista, boca apertada numa linha severa, queixo pontudo e cabelo comprido e preto, preso num rabo de cavalo baixo por um elástico. Duas linhas de expressão vincavam seu rosto, desde os cantos dos seus olhos até a boca comprimida.
Apesar do assento ao seu lado estar desocupado, três pessoas se espremiam no banco traseiro, estando uma delas adormecida. Eram duas garotas e um rapaz, todos muito bem agasalhados com blusas de colarinho alto e jaquetas acolchoadas.
As duas garotas eram as irmãs Hinata e Hanabi; a primeira, a mais velha, tinha cabelos longos e escuros numa tonalidade preto-azulada e olhos tão alvos quanto sua pele, emoldurados por uma franja espessa. Já a mais nova, que dormitava recostada ao ombro da irmã, tinha madeixas longas e acastanhadas e olhos no mesmo tom pálido dos da irmã.
Hinata era costumeiramente a mais quieta das duas, conhecida por sua personalidade gentil e por sua timidez descomedida. Falava pouco e baixo, sempre prestativa e ajudar o grupo no que precisassem. Agora, ela olhava pela janela a paisagem velada sob a neve. Hanabi, por outro lado, era o seu oposto em tudo, de certa forma: enérgica e expressiva, não demonstrava medo mesmo nas situações mais extremas. Era conhecida por seu otimismo.
O rapaz na outra ponta tinha cabelos dourados espetados, pele bronzeada e marcantes olhos azul-celeste. Aquele era Naruto, um rapaz cheio de esperanças e sonhos cujo brilho esse atual mundo mortiço ainda não havia conseguido extinguir.
Por fim, o homem ao volante se chamava Itachi: um ex-militar e, atualmente, um soldado desertor que fez o que pôde pelo seus país, mas que abandonou seu posto e o perfunctório sentimento de patriotismo quando se deu conta de que já era tarde demais.
Meses atrás, ele foi separado de sua família e enviado junto com o seu esquadrão para o centro de refugiados em Yokohama com ordens para proteger o local e os pesquisadores que trabalhavam no local.
Quando tudo caiu, ele não hesitou em reunir o maior número de sobreviventes e fugir. No meio do caminho, reencontrou Naruto, cujos pais (que ele conhecia de longa data) haviam perecido devido a uma enfermidade patológica que assolou o centro.
No entanto, Naruto já não estava mais sozinho, como quando abandonou Yokohama: trazia consigo as duas garotas órfãs.
Itachi não se aprofundara muito na história contada pelos três e de certo modo não se importava. Eles estavam vivos, haviam sobrevivido ao caos e à morte, isso era o mais valioso para ele. Cada membro do seu grupo carregava um passado, um tipo de perda e cada um trazia consigo um demônio particular.
O demônio de Itachi tinha face e nome: seu irmão caçula, Sasuke.
Itachi não conseguia tirá-lo dos pensamentos. É claro que se importava com o bem-estar de sua mãe e de seu pai, Mikoto e Fugaku. Mas Sasuke sempre seria o seu irmãozinho e não ter notícias dele desde que os meios de comunicação colapsaram o atormentava a cada dia.
Todas as noites antes de dormir, ele se perguntava como estaria o seu irmãozinho agora?
Nunca duvidou de que Sasuke ainda estivesse vivo. Assim como ele próprio, seu irmão era um sobrevivente. Desde crianças, Fugaku, um membro aposentado das forças especiais de defesa à nação, a Jietai, os ensinou através dos métodos mais questionáveis e perturbadores a sobreviverem.
Mas Itachi ainda se questionava se ele permanecia na província de Tokushima ou se já havia migrado com seus pais para outra região do país, quem sabe para um lugar mais seguro. Não que houvesse um lugar seguro em todo o Japão àquela altura
Sem que percebesse, suspirou. Pensar em Sasuke ou em sua família, em geral, deixava-o angustiado, tirava-lhe toda a concentração, como agora em que era trazido de volta à realidade pelo som da voz de Naruto, chamando-o pela terceira ou quarta vez a julgar por seu tom:
— Ei, Itachi! Você está me ouvindo?
— O que foi? — perguntou com exasperação, mantendo as mãos firmes no volante; as pistas estavam um pouco escorregadias devido à neve, apesar das correntes colocadas em todos os pneus no dia anterior.
Naruto apoiou as mãos no encosto do seu banco e do banco do passageiro e se levantou, passando uma das longas pernas por cima da marcha e deslizando sem dificuldades para o assento vazio do carona.
— Você está bem? Parece mais quieto do que o normal hoje — ele comentou soerguendo ambas as sobrancelhas claras inquisitivamente.
— Só estou com a cabeça cheia.
Itachi respondeu-o com indiferença, não pretendendo se prolongar no assunto porque não queria preocupar Naruto com seus pensamentos a respeito de Sasuke.
Para Naruto, Sasuke era tão seu irmão quanto era de Itachi. Ambos haviam crescido juntos e eram melhores amigos inseparáveis desde que podia se lembrar.
— Está pensando na cura, não está? — o outro conjeturou equivocadamente, mas Itachi se pegou assentindo porque mentir era sempre mais fácil do que admitir a verdade angustiante. — Ahh, eu também estou confuso com essa história toda... Quero dizer, não faz muito sentido, faz? Se o Governo estava trabalhando em uma cura esse tempo todo como foi que chegamos a esse ponto?
— Eu não tenho muita certeza da veracidade da história que ouvimos o tal biomédico relatar — Itachi interpôs pragmático. — Embora os nomes e datas que ele mencionou concedam credibilidade ao que ele nos contou — explicou-se. — Orochimaru era um grande neurocientista e eu ouvi seu nome ser citado diversas vezes pelos meus superiores no centro de refugiados. Se ele está realmente morto e esse tal Kabuto Yakushi é o único capaz de reproduzir a cura, então precisamos encontrá-lo.
Naruto mirou o rádio do jipe, estava completamente silencioso fazia dias.
— Há quanto tempo ele não entra em contato?
— Quase três dias — respondeu com ar soturno, entrecerrando os olhos negros para a pista vazia. — Vamos torcer para que esse silêncio não seja nada e para que o pior não tenha acontecido.
Naruto suspirou inconscientemente, mas não desviou o olhar do rádio ainda ligado, ansiando que o tal biomédico fizesse contato outra vez.
Se a cura realmente existisse, então eles estariam um passo mais próximos de reconstruir a sociedade. E ele tinha grandes responsabilidades e uma promessa a cumprir: cuidar de Hinata e Hanabi.
Havia sido assim desde o dia em que as encontrou, assustadas e sem mais ninguém no mundo com quem pudessem contar.
Ter reencontrado Itachi depois disso foi um imenso golpe de sorte. Eles estavam sempre mais seguros em grupos, mais defensáveis tanto contra os mortos como contra os vivos.
Naruto ainda estava decidindo se temia mais os cadáveres apodrecidos e famintos ou a fera humana desalmada.
Subitamente irritado, ele sugou o ar com força através dos lábios e desistiu de mirar o rádio. Talvez esperar que o tal Kabuto fizesse contato novamente, revelando sua posição, fosse demais.
Naruto se considerava alguém sortudo, mas nem tanto assim, afinal.
* * *
Dois tons mais cinza
O dia mais negro se aproxima
Não tão perdido, não tão salvo
[...]
Garota tão livre, garoto tão cativo.
Hearts of Black Science Feat. Heike Langhans — Trecho de Wolves at the Border.
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