Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

46 Capítulo XLV: Os Nove Círculos do Inferno


Notas iniciais
Perdão pela demora (de novo), capítulo dedicado à Jhiny Lesnar e Tayse san pelas lindas recomendações! Obrigada mesmo *-* ... Boa leitura!

Dead World Assembly

“Todos olham fixamente para um vulto humano no horizonte, longe demais para saber se é homem ou mulher, adulto ou criança, mas está lá... acenando para eles”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 115).

Capítulo XLV:

Os Nove Círculos do Inferno

Horas depois, o imenso veículo militar abandonou a autoestrada para seguir por uma via secundária, mais estreita e isolada, sacolejando abruptamente de tempos em tempos devido às más condições do asfalto.

O trajeto parecia interminável, especialmente para Sakura que já não suportava mais as cólicas infernais, muito menos o medo que pouco a pouco subjugava seu autocontrole. O biomédico ao seu lado não se encontrava em uma situação melhor, mas disfarçava ao máximo seu pânico.

Já Sasuke... Bem, Sasuke estava furioso. Ela o via nos seus olhos, lia no seu rosto. Ele nunca lhe pareceu tão selvagem quanto agora: seus olhos retinham uma verdadeira tempestade.

Seus dedos estavam gelados e dormentes havia horas, a pele dos pulsos havia esfolado em contato com as cordas que os amarravam; ardiam terrivelmente no ar gelado da manhã. Todo o seu corpo sofria com a exaustão, com a fome e com o frio.

Zaku, o homem que os vigiava, jamais deixara de apontar sua arma para as cabeças deles, fazendo questão de se manter ainda mais atento com Sasuke. Dos três, ele era o mais instável, certamente, e o que menos se importava em esconder sua raiva fervente. Sakura apenas rezava para que ele não tentasse algo no ápice da ira — seria suicídio àquela altura.

A manhã estava fria e nublada, o céu cinza-chumbo riscado por nuvens enquanto a neve da nevasca do dia anterior cobria todo o panorama até onde os olhos alcançavam: desde os topos dos pinheiros aos outeiros mais adiante e, por fim, as montanhas mais ao fundo. Agora, eles haviam acabado de adentrar a um trecho da via secundária que passava pelo meio da floresta de abetos. Cercada pelos galhos desnudos dos quais brotavam estalactites de gelo, Sakura se sentiu estranhamente claustrofóbica, sufocada.

Os pneus enormes envoltos nas correntes de neve raramente derrapavam no gelo fino que cobria o asfalto, mas os sacolejos abruptos persistiam ao passo que o motor do caminhão militar rugia roucamente para continuar o percurso numa velocidade contínua.

Quinze minutos depois, a estrada secundária levou-os até um imenso descampado, cerca de dois quilômetros, talvez três, floresta adentro. Sakura arquejou com os dentes dormentes cerrados assim que Zaku ordenou a todos os três que abaixassem as cabeças e nada tentassem.

Pela visão periférica, mantendo os olhos fixos na balaustrada da caçamba do caminhão militar, ela notou as toras imensas empilhadas em praticamente todos os cantos. Montes e mais montes de madeira já cortada em grandes pedaços. Mais adiante, ela avistou a gigantesca estrutura de um galpão de teto recurvo. Sem dúvida, tratava-se de uma antiga madeireira, abandonada certamente depois que o mundo terminou ou até mesmo antes deste evento.

O veículo freou abruptamente, os pneus, pela primeira vez, derraparam na neve que cobria todo o descampado. Assim que o rugido do motor cessou, Sakura captou o som de vozes soando à distância, indiscutivelmente masculinas, totalmente dispersas no ar congelante e invernal.

Zaku bateu com o punho cerrado na cabine do caminhão duas vezes e em seguida removeu do bolso da sua calça três pedaços de tecido. Ele pendurou o fuzil de assalto russo no ombro pela alça de couro e desdobrou rapidamente os quadrados de tecido, revelando-os como três sacos de estopa medianos.

O coração de Sakura martelou de súbito suas costelas, a pulsação violenta reverberou na garganta seca, esmagando-se na sua traqueia. Ela mal podia ouvir por cima do zumbido agudo nos seus ouvidos. Zaku não pareceu prestar atenção ao seu surto de pânico repentino, e se o fez preferiu ignorá-la. Ele simplesmente se aproximou do biomédico primeiro, abriu o primeiro saco e, puxando-o pelo rabo de cavalo, vestiu-o na sua cabeça.

Kabuto protestou baixinho, seus gemidos abafados soavam contra o tecido. Sua respiração alterada sugava e expelia o pano para dentro da boca apartada.

Logo chegou a vez dela. Sakura não lutou contra o puxão do homem na sua nuca. Ele apenas vestiu o saco na sua cabeça e passou adiante para Sasuke. O tecido pinicava suas bochechas e a ponta do seu nariz. Além disso, limitou sua visão: tudo o que via agora não passavam de vultos, sombras agitadas contra a luz alva da manhã.

A julgar pelo protesto entrecortado que ouviu a seguir, soube que a vez de Sasuke também houvera chegado. Com os rostos cobertos, todos os três foram forçados a seguir para a ponta da caçamba do caminhão. Um a um, eles desceram, puxados com brusquidão por mãos estranhas e intransigentes.

Foram carregados, cada um deles, por dois ou mais pares de mãos, arrastados pela neve por vários metros até que a luz da manhã esmorecesse por trás dos sacos que lhes cobriam as cabeças. Sakura não enxergava, mas seus ouvidos estavam afiados e sensíveis a quaisquer ruídos exteriores.

Assim que seus pés tocaram o chão de cimento, ela soube que estavam dentro do galpão; o cheiro forte de serragem, souvenir dos dias em que a madeireira ainda operava, tampouco mentia; impregnava o ar parado e congelante e dava-lhe calafrios violentos.

Ela ouviu o som de portas de metal se abrindo e se fechando, focou-se nas passadas dos homens, nos solados das botas contra o cimento, o ritmo pesado das suas respirações, até mesmo os pequenos resmungos que deixavam escapar por estarem arrastando seus pesos mortos e relutantes sem descanso.

Uma última porta, cujas dobradiças enferrujadas rugiram em protesto, foi aberta; Sakura aspirou o ar com mais vontade e de imediato reparou na mudança de odor: ali, o ar era mais úmido, fedia a mofo e pastilhas de naftalina. A alteração brusca da iluminação do ambiente também não passou despercebida por seus olhos. Ali era indiscutivelmente mais escuro, talvez não houvesse nem mesmo uma única janela para a entrada de luz e ventilação — o que também explicava a presença do odor acre de bolor.

Uma vez lá dentro, ela foi bruscamente atirada ao chão, de bruços. A estopa arranhou sua bochecha direita quando Sakura caiu por cima desta, os braços inúteis ainda atados às costas pelas cordas ásperas. Ela choramingou baixinho antes de receber uma advertência para não se mover.

Era Zaku ainda, sabia, intuía: o calafrio na base da espinha a havia alertado para a proximidade dele.

Ele se colocou por cima do seu corpo, cada perna de cada lado do seu tronco. Tocou nos seus pulsos esfolados e Sakura gelou tão logo notou uma lâmina de faca encostar-se à sua pele ferida. Ela retesou todo o corpo e ouviu o risinho do homem quando este, com apenas um gesto, cortou as cordas que lhe prendiam os pulsos, liberando seus braços.

Mesmo com os membros superiores livres, ela não fez menção de movê-los, deixando-os imóveis no chão de cimento. Cerrou um dos punhos quando sentiu mãos apalparem as partes internas das suas coxas por cima da calça jeans, em seguida das dos joelhos e, por fim, suas panturrilhas. Logo, as cordas que restringiam seus tornozelos também foram cortadas.

O homem subiu novamente pelo seu corpo para puxar o saco da sua cabeça. Então, ele recuou e Sakura ouviu o som da porta se fechando antes que houvesse tempo o bastante para assimilar tudo o que havia acontecido. Arquejando, ela decidiu que ficaria imóvel por mais um tempo, com medo de que eles retornassem a qualquer instante para agredi-la novamente.

Sua visão estava desfocada, manchas brancas e negras arrebentavam diante dos seus olhos. Conforme elas diminuíam, Sakura passou a observar melhor o entorno, o cômodo escuro no qual havia sido trancafiada. O chão de cimento cutucava a pele ferida da sua bochecha, mechas de cabelo caíam sobre o seu rosto; ela aspirava grãos de poeira a cada inspiração, eles ardiam na sua garganta seca e arranhada.

— Sakura? — ela ouviu uma voz chamá-la e imediatamente sua vista embaçou. — Sakura, você está bem? Eles te machucaram?

Como tudo o que fez foi permanecer imóvel e em silêncio, ela ouviu o som de um corpo se arrastar pelo chão sujo. Não demorou a sentir mãos no seu corpo, mas estas não eram maliciosas, muito menos invasivas. Sasuke a ergueu devagar do chão até tê-la posto sentada, a face virada para ele.

— Sakura, me responde. Eles te fizeram mal?

Outro corpo se arrastou pelo chão, afastando-se do dela. Ela olhou do biomédico, encostado na parede, a Sasuke cujos olhos delatavam toda a preocupação que o afligia.

Engolindo em seco, ela tentou escapar do estupor que a acometia. A insensibilidade a protegia da veemência do próprio pânico, mas estava com Sasuke agora: ela estava bem, mesmo que as circunstâncias atuais apontassem o oposto, só em tê-lo ao seu lado outra vez, ela se sentia segura.

Uma pontada em seu abdome lembrou-a da sua condição, entretanto. Por isso, ainda com os olhos marejados e a boca trêmula, disse-lhe as primeiras palavras que lhe vieram à cabeça, as mais urgentes e prioritárias na sua mente bagunçada:

— Eu perdi o bebê.

Sua voz falha soou estranhamente aguda no silêncio expectante. Engolindo em seco, ignorando a ardência na sua garganta, ela envolveu as mãos de Sasuke que cobriam seu rosto. Deste toque reconfortante tirou forças para reafirmar o que havia dito.

— Eu perdi o bebê, Sasuke. Perdi nosso bebê... Eu sinto muito. Sinto muito, muito mesmo!

Não percebeu que chorava até ter as lágrimas enxugadas pelos dedos dele. Não percebeu que seus ombros tremiam com soluços até que o mais violento deles irrompeu da sua garganta e foi contido pelos seus dentes cerrados. Para o seu alívio, ele não lhe fez perguntas, não tocou no assunto. Apenas afagou sua face molhada pelas lágrimas que não cessavam e, mais tarde, puxou-a para mais perto, talvez por haver percebido que ela tremia tanto pela dor da perda quanto pelo frio.

Rearranjou a ambos, recuando até ter a parede contra as costas. Apoiou a cabeça de Sakura no peito e deixou-a chorar baixinho, deixou-a, enfim, encontrar o seu pesar e a sua dor no luto.

Ela adormeceu pouco tempo depois de haver se acalmado.

* * *

Gaara estava preocupado com o comportamento de Temari.

Ela vinha agindo estranho nas últimas horas e ele não conseguia silenciar a voz dentro da sua cabeça que lhe dizia que a irmã, em algum momento, precisaria conversar sobre o assunto. O problema é que ele jamais saberia como trazer o tópico à pauta adequadamente ou sem cutucar uma ferida recente que, ele intuía, ainda era dolorosa demais para a irmã.

E era justamente por conhecê-la tão bem que ele também sabia que mais cedo ou mais tarde ela precisaria do apoio dele, pois desabaria. Mas não agora, não nesse momento. Talvez a adrenalina estivesse funcionando como uma espécie de narcótico agora, anuviando seus pensamentos, direcionando o foco da sua mente para um único objetivo. Uma hora ela acabaria, contudo.

Desde que ouvira aquele único tiro, desde que Temari voltara desacompanhada da busca que fizera por Shikamaru, ele soubera, vira nos olhos vazios dela. Mas com um gesto da mão, ela lhe pediu que ele não fizesse nenhum comentário ou questionamento, na verdade a expressão dela a houvera delatado desde o primeiro instante.

Agora, eles se preparavam para partir em busca de Sasuke, Sakura e do biomédico. Haviam extraído a informação do único militante deixado vivo e o fizeram isso rapidamente, ameaçando amputar as pernas do homem e deixá-lo ali, amarrado naquela árvore, para que os mortos sentissem o odor do seu sangue e medo e viessem devorá-lo.

Temari foi quem elaborou a maior parte das ameaças, chegando ao ponto, inclusive, de perfurar a coxa direita do homem com sua faca de caça para conferir veracidade às advertências. Em algum momento entre despejar uma série de palavrões e xingamentos e urinar na calça, o homem vomitou tudo o que sabia, todas as informações de que ambos precisavam.

A cerca de oito quilômetros e meio seguindo pela Via-expressa Meishin, eles cruzariam com uma estrada secundária que se bifurcava mais adiante: a pista da esquerda os conduziria por um trecho dentro da floresta até uma antiga madeireira. Ali, os ratos se escondiam, Temari concluiu com um tom que preocupou Gaara. Ela extraiu mais informações do homem, é claro, questionando quantas pessoas haviam e de quanto armamento e munição eles dispunham.

Isso, ele não soube ao certo informar. Gaguejou, afirmou um dígito sem qualquer convicção aparente, mas logo em seguida voltou atrás. Elevou e decresceu o numeral que lhes houvera dado anteriormente. Isso foi um pouco antes de Temari cortar sua garganta e deixá-lo para sufocar com o próprio sangue, convulsionando contra as cordas que o retinham.

— Vamos começar os preparativos — ela enunciou, uma vez tendo se levantado, limpando a lâmina da faca numa flanela com uma expressão impassível. — O imbecil nos deu a localização precisa da madeireira, além disso, nos disse que tem um jipe estacionado no acostamento, a um quilômetro daqui.

— Mas e se ele tiver mentido? — Gaara sentiu a necessidade de questioná-la, levantando-se também e encarando a irmã.

— Não mentiu — ela afirmou peremptoriamente, os olhos cortantes fixados nos dele. — E vamos logo, não temos muito tempo.

— Você ao menos tem um bom plano?

Temari o ignorou por algum tempo. Circulou a clareira e recolheu o armamento dos corpos dos homens. Apalpou os bolsos internos dos seus casacos e calças em busca de munição e itens úteis. Encaixou o pente numa submetralhadora Uzi Carbine, semiautomática e puxou a trava de segurança, testando o peso da arma na mão.

Sua H&K MP5 estava descarregada, mas eles haviam conquistado um arsenal interessante com aqueles homens. Gaara agora dispunha de um par de pistolas semiautomáticas Desert Eagle .44 Magnum, além de um fuzil russo de assalto Abakan AN-94 com quatro pentes cheios de munição.

Afora isso, haviam ganhado mais uma faca de combate e um canivete tático. Um isqueiro, um maço velho de cigarros quase vazio e um pacote com gomas de mascar ela havia considerado como souvenires interessantes.

Cinco minutos depois, Temari e Gaara abandonaram a clareira juntamente com os corpos e seguiram pelo norte por quase oitocentos metros antes de desviarem para o oeste a fim de encontrarem a estrada novamente. Passava do meio-dia quando eles enfim voltaram à Via-expressa e encontraram o jipe militar estacionado no acostamento, como lhe disseram que ele estaria.

Depois de averiguar que não havia ninguém por perto — estivesse morto ou vivo —, ambos conferiram o interior do automóvel e descobriram mais itens interessantes. Três galões cheios de gasolina, água e comida para alguns dias, mantas e um kit de primeiros-socorros.

A chave do jipe havia sido encontrada em um dos bolsos de um dos homens mortos na clareira. Tão logo se acomodaram nos bancos do motorista e do passageiro — com Temari obviamente atrás do volante —, Gaara enfim decidiu confrontar a irmã novamente.

— Será que você pode me contar agora a porra do seu plano?!

A loura encaixou a chave na ignição e deu a partida no motor. Fechou a porta e pediu ao irmão que colocasse o cinto com uma piscadela. Gaara bufou e resistiu à vontade de mandá-la “ir de foder”. Ao invés de respondê-lo devidamente, entretanto, ela afundou o pé no acelerador e trocou a marcha com agilidade, disparando para a autoestrada com os pneus cantando no asfalto congelado.

— Tudo a seu tempo, maninho — garantiu-o como uma espécie de conforto. — Tudo a seu tempo.

* * *

Sakura acordou horas mais tarde com um senso de desorientação e desnorteio que rapidamente a empurrou para a beirada do precipício do pânico. Ela só relaxou porque sentiu o toque familiar de Sasuke no seu ombro e ouviu sua voz murmurando para se acalmar.

Devagar, ela assimilou o entorno, o calor do corpo de Sasuke tão próximo ao seu próprio, aquecendo-a enquanto o ocaso se findava e a noite se consolidava por trás daquelas paredes frias e sujas. Ela afundou a face no couro macio da jaqueta que ele usava, fechou o punho na lã do suéter que ele vestia; isso a acalmou mais depressa.

Por um instante, havia se esquecido de onde estava, com quem estava. Chegou a esquecer, por um segundo apenas, a condição atual e lastimável do mundo.

— Por quanto tempo eu dormi? — questionou baixinho e seu suspiro condensou no ar glacial do fim de tarde.

Seus pés estavam dormentes mais uma vez dentro das meias molhadas. Suas costas doíam terrivelmente e os esfolados nos seus pulsos ainda ardiam.

— Só por algumas horas — Sasuke a respondeu com um exalar e a respiração dele também se transformou numa névoa gelada perante o seu rosto perfilado pelo crepúsculo cobalto de inverno.

Seu estômago, àquela altura, doía devido à fome. Sua garganta continuava seca e, ela percebeu, agora sua boca e língua também lidavam com a secura desagradável. Sakura sabia que se tentasse ficar em pé, suas pernas vacilariam. Na verdade, mesmo deitada ela se sentia tonta e enfraquecida. O fato de seu corpo estar passando por um aborto espontâneo apenas agravava a situação.

— Como está se sentindo? — ele lhe perguntou de repente com um timbre que não escondia sua preocupação.

Sakura fungou baixinho antes de respondê-lo, achegando-se mais a ele.

— Exausta, faminta, com sede e ainda com dores. Você disse que dormi por algumas horas, mas é como se eu não houvesse descansado nem por um minuto.

— Quer me contar o que houve?

Ela piscou, incerta sobre o sentido das palavras que ele dissera. Por um instante, ponderou abrir-se com Sasuke, contar como se sentiu quando percebeu que seu próprio corpo decidira interromper a gravidez, independente da sua vontade e opinião.

As dores no seu abdome ainda não haviam arrefecido, mas ao menos agora tinham certos intervalos regulares. Ela ainda sentia o sangue espesso escorrendo por entre as suas pernas, a pequena vida perdida, derramada tão prematuramente sobre a violência crua desse novo mundo implacável.

— Não, eu... — respondeu, por fim, exausta novamente e emocionalmente esgotada; de repente, parecia que ela vomitaria as próprias entranhas. — Eu só... Eu só não sei ao certo como me sentir a respeito disso tudo.

Sakura suspirou quando percebeu que o que havia dito não fazia muito sentido, então tentou se explicar sucintamente, fazendo uso de poucas palavras que poderia descrever seu estado emocional.

— Ontem pela manhã, eu estava mais do que conformada com a ideia de ser mãe, estava até me habituando. — Ela pausou para fungar mais uma vez, a ardência nos olhos lhe incomodava, mas ela não fez qualquer movimento para enxugar os cantos úmidos ou os cílios. — Agora, já não há mais nada. Eu me sinto oca por dentro, até um pouco entorpecida. Não sei se devo chorar pela perda do nosso bebê ou se devo agradecer pelo fato de que ele jamais verá esse mundo horrível. Eu sou uma pessoa detestável por cogitar isso, Sasuke?

— Não — ele lhe disse com convicção, sem rodeios. — Você não é.

— Queria me convencer disso também — murmurou, abafando a voz e o choro (resultado de uma fraqueza momentânea) na jaqueta dele.

Do outro lado do cômodo estreito, Kabuto também tentava descansar o corpo exaurido. Prestava pouca atenção ao diálogo de Sasuke e Sakura, mas era impossível ignorá-los completamente. Um suspiro seu, no entanto, trouxe a atenção de ambos sobre si, lembrando-os de que não estavam sozinhos ali.

Todos os três se entreolharam num silêncio denso e áspero até que o biomédico pigarreou de leve no intuito de quebrar a tensão.

— Parece que estamos todos atolados na mesma merda, não?

Sasuke apertou os olhos e, de sobrecenho franzido, fulminou a silhueta de Kabuto.

— Contou a eles sobre a cura?

O biomédico abriu um sorriso cínico em resposta.

— Precisei contar, caso contrário eles teriam cortado minha garganta na primeira oportunidade. Por que acha que todos fomos mantidos vivos? Caridade? Certamente não.

Ele fez uma pausa curta, suficiente para um suspiro resignado.

— Mas não lhes dei a localização da cura, é claro. Não sou idiota a esse ponto. O que pessoas como eles fariam caso colocassem as mãos na única saída para essa porra toda? Eu poderia achar engraçado se toda essa situação não estivesse tão malditamente fodida.

— Devia ter nos dito a localização logo — Sasuke resmungou afrontado e Kabuto soltou um risinho em resposta.

— Talvez. Quem sabe onde estaríamos agora? Mas o fato é que esses caras estavam de olho nos nossos movimentos faz tempo. Eles não teriam arquitetado algo tão grande em tão pouco tempo, não... Esses caras — Kabuto meneou a cabeça alva de um lado a outro, convencendo a si mesmo do que dizia —, eles sabem muito bem o que estão fazendo. Sobrevivem dessa forma: atacando e pilhando outros grupos. São como parasitas, entende?

— Eu conheço um ou dois deles. — A voz de Sakura atraiu a atenção de ambos os homens para ela, que engoliu em seco e prosseguiu: — Não tenho certeza quanto aos outros, mas o tal Zaku... Eu o reconheceria em qualquer lugar. Ele integrava o grupo que persuadiu tanto a mim quanto a Ino para nos juntarmos a eles.

Ela cerrou os dentes de súbito e o ar deixou os seus lábios apartados num silvo.

— Também foi ele que tentou violentar a Ino.

Nesse instante, o som de passos pesados soou por trás da porta de metal trancada. Sasuke se levantou e puxou Sakura para trás do seu corpo numa tentativa vã de escondê-la. Kabuto fez o mesmo, deslizado para perto da parede dos fundos. As dobradiças enferrujadas guincharam quando a porta foi escancarada e três homens armados invadiram o recinto, ameaçando os três e rendendo-os facilmente.

Quando um deles, entretanto, tentou arrastar Sakura pelo braço, Sasuke se rebelou e recebeu uma pancada na nuca com a coronha do fuzil de assalto russo. Ainda desnorteado, ele, Sakura e Kabuto foram arrastados para fora do cômodo, em todo o tempo recebendo ameaças e sendo cutucados pelos homens com suas armas para continuarem.

O imenso galpão estava parcamente iluminado por grandes latões estrategicamente espalhados em cujo interior lenha era queimada. As labaredas alaranjadas criavam sombras nas paredes agigantadas compostas por placas de aço pregadas umas sobre as outras; sombras que se estendiam até o teto côncavo, sustentado por imensos alicerces de ferro. Apesar disso, ali dentro estava tão gelado quanto uma tumba.

Todo o equipamento dos dias em que a madeireira ainda operava haviam sido conservados e algumas áreas do galpão foram inteligentemente modificadas para abrigar o grupo e atender suas necessidades mais básicas: algumas placas de madeira e pedaços de tecido amarrados às paredes faziam as vezes de divisórias para alguns cômodos. Catres estavam enfileirados num canto, certamente o lugar onde a maioria do grupo dormia. Pelo pouco que Sakura percebeu antes de ser forçada a continuar, eles até mesmo haviam improvisado uma cozinha com um fogão a lenha antiquado.

Por fim, eles foram conduzidos um pouco mais adiante e em seguida foram colocados um ao lado do outro, de joelhos sobre o chão frio de cimento. Armas ainda pairavam apontadas e prontas para disparar sobre as suas cabeças, apesar de nenhum dos homens ter feito qualquer menção de amarrá-los outra vez.

Zaku estava no meio do grupo, Sakura percebeu, ao lado do homem cujo rosto carregava profundas cicatrizes de fogo e de uma mulher esbelta de longos cabelos escuros e sorriso frio.

Seus rostos eram parcialmente iluminados pelas chamas suaves do fogo nos latões, a outra parte estava encoberta por sombras criadas pelo mesmo fogo dualizado. Afora os três perante eles, mais dois homens asseguravam-se que eles não iriam a lugar algum. Eles sabiam que havia mais homens lá fora, guardando o perímetro de qualquer ameaça.

Então, no silêncio que se seguiu, cada segundo se tornou uma eternidade arrastada até que Dosu, o homem das cicatrizes cujo único olho visível continha um brilho maníaco, repuxou a boca fina em um sorriso letal, acentuando os vincos profundos na sua pele manchada. A cabeça, certamente marcada também pelas cicatrizes, estava escondida embaixo de um gorro preto de lã.

— Acredito que já podemos começar, não é mesmo?

Ele não se dirigiu a ninguém em particular, mas claramente ameava a todos os três.

Estavam em perigo e nenhum deles fazia ideia de como escapariam da situação ou do agarre dos seus opressores. Dosu e os outros não tinham pressa, aparentemente.

Uma única questão assombrava-os agora: como sobreviveriam a mais essa noite se mal haviam se recuperado dos eventos da anterior? Jamais encontraram a resposta.

* * *

Eu não quero fechar os meus olhos

Não posso dizer se estou cego ou adormecido

[...]

Mãe, não chore

Porque o inferno não precisa de mim.

Demon Hunter — Trecho de Hell Don’t Need Me.

Notas finais
Yeah, Temari e Gaara ao resgate! Hahaha Já aviso que o próximo capítulo será mega tenso D: E quanto ao grupo do Itachi, a aparição deles já está marcadinha, não se preocupem! ... Preparados para o trailer da 6ª temporada de TWD amanhã? *-* E o que acharam da season finale de GOT? Eu achei a temporada fraca num geral, só alguns poucos episódios se salvaram. Muitas mudanças e Wtf's para quem leu os livros AHUAHUAHUA ... SasuSakuSara arrasou no Gaiden, não? Só de lembrar dos momentos que tivemos entre esses três eu sinto vontade de surtar tudo de novo XD ... Enfim, obrigada a todos pelos reviews! Responderei todos amanhã ;) Até o próximo!