Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
45 Capítulo XLIV: Aurora Apocalíptica
Notas iniciais
Dead World Assembly
“No frágil silêncio, eles escutam a onda de gemidos se modificar de repente, alterando o rumo como se fosse uma mudança de vento, as massas de zumbis atraídas pela explosão da espingarda”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 114)
Capítulo XLIV:
Aurora Apocalíptica
Temari perseguiu incansavelmente o som dos tiros que ecoavam na noite invernal por quase dez minutos, esgueirando-se o mais silenciosamente que podia sob o dossel de ramagens das árvores, antes de se deter esbaforida e se meter atrás do tronco de uma faia robusta.
Com o pulso acelerado, aguardou, mal respirando enquanto o som de passos na neve crescia e se acercava. Sua munição era limitada e ela estava obviamente em desvantagem, mas tinha o elemento surpresa a seu favor e dele ela se valeria para encontrar Shikamaru e Gaara e escapar.
Seu dedo dormente roçou no gatilho da Heckler & Koch MP5. Seus dentes se batiam devido ao frio e ela mal sentia os dedos dos pés, mas sabia que tinha uma única chance de salvar o irmão e o amante e ela não a desperdiçaria.
Ocultou-se sob a penumbra da noite e aguardou em silêncio. Vozes soavam à distância, incompreensíveis, enquanto retângulos de luz artificial permeavam a mata densa atrás de intrusos, rastejando sobre o breu absoluto. Ela tentou acalmar a própria pulsação e respiração, absorvendo os ruídos e estalidos com o máximo de atenção para determinar suas origens.
A nevasca se transformara em uma nevada serena e uma fatia fina da lua podia ser vislumbrada no céu negro agora; sua luz embaciada derramava-se sobre as copas das árvores mais frondosas, mas não permeava o dossel de ramagens que elas teciam sobre a relva congelada.
Não havia roedores ou aves noturnas perambulando pela mata, de modo que o silêncio imperava absoluto. Apenas os monstros espreitavam nas sombras.
Os fachos das lanternas passaram rente à sua figura estagnada, oculta sob a escuridão da faia coberta de neve, assim como as duas sombras que as portavam o fizeram, cochichando e sibilando entre si num tom viperino, procedendo por uma trilha estreita.
Temari suspirou baixinho, mas o dedo não abandonou o gatilho em instante algum.
Enrijeceu quando ouviu um estalido à sua direita. Rapidamente determinou sua origem, vinha de trás de um arbusto. Preparou a faca que carregava no cinto. Se fosse um errante, lidaria silenciosamente com ele, se fosse alguém vivo... Bem, o faria se arrepender de ter cruzado seu caminho.
Trincou os dentes e aguardou imóvel, a pulsação acelerada martelando seu ouvido. Ouviu uma sucessão de crepitações, sem intervalos, seguidas do som de passos pesados na neve.
No instante seguinte, Gaara emergia da vegetação rasteira, esbaforido, o rosto pálido marcado por hematomas que já começavam a se formar e leves escoriações. Temari largou a faca e venceu a distância que a separava do irmão caçula, envolvendo-o protetoramente nos braços e abafando um som agoniado na jaqueta dele.
— Temari — ele murmurou seu nome tomado em parte pelo choque de reaver a irmã, em parte pelo mesmo alívio que a suplantava.
Não a tomou nos braços, mas arquejou controladamente nos cabelos dela, aspirando seu cheiro reconfortante e familiar. Quando sussurrou o nome do outro irmão com um tom alquebrado, ela o apertou mais forte e murmurou fracamente que já sabia.
— Ele se sacrificou por mim. Fez isso para me salvar — dizia pausadamente num timbre estrangulado, sofrido.
— Eu sei — ela lhe devolvia no intuito de confortá-lo, de dividirem a dor que sentiam, de amenizarem a sensação da perda.
Afagou os cabelos do irmão e afastou-se, desprendendo-se dele e olhando-o nos olhos:
— Precisamos encontrar o Shikamaru.
Gaara assentiu, engolindo em seco. Juntos, eles tornaram a se embrenhar na floresta, no rastro dos fachos de luz que varavam a madrugada.
Tiveram cuidado ao avançar, silenciando seus passos, prosseguindo apenas quando julgavam seguro e o mais importante: rezavam para não serem descobertos.
* * *
A madrugada chegara ao fim. Pálidos feixes de luz insinuavam-se sobre o céu violáceo, afastando a escuridão intermitente, mas não o frio sazonal.
O ar glacial solidificara logo no princípio da aurora charcos e pequenos regatos que corriam na floresta que margeava a Via-expressa Meishin. Alguns ramos de árvores ganharam pingentes de gelo que mais lembravam estalactites e envolviam seus pequenos frutos mirrados.
Uma neblina atípica cobriu a autoestrada logo nos primeiros minutos do novo dia, um véu úmido e denso que orvalhava a vegetação depois de uma nevasca violenta ter castigado a região por boa parte da noite, como unguento sobre uma ferida recente.
Na última madrugada, a tempestade de gelo deixara letárgica boa parte da horda de mortos-vivos que se moviam a esmo pela área.
As baixas temperaturas pareceram ter um efeito paliativo sobre o humor facilmente irritadiço dos errantes. Aqueles que haviam se saciado com os restos de suas vítimas nas últimas horas lentamente migravam do descampado destruído pelo fogo em busca de carne fresca.
Porém, aproximadamente no quilômetro 63 da Via-expressa Meishin — a principal via de acesso a Kyoto e que interligava Osaka à antiga capital japonesa —, o motor potente do caminhão militar coreano bravateava gravemente, quebrantando o silêncio sepulcral da autoestrada solitária.
Correntes de neve haviam sido estrategicamente instaladas nos pneus monstruosos do veículo a fim de evitarem um possível derrape na pista que se tornara escorregadia devido ao gelo que derretia.
Os dois ocupantes na cabine desfrutavam do aquecedor e dividiam uma garrafa térmica com café quente e amargo. O homem por trás do volante tinha horripilantes cicatrizes no rosto, a maior parte coberta por bandagens, provavelmente causadas pelo fogo, e a mulher jovem ao seu lado era conhecida por seu sorriso cínico.
Sakura ouvira seus nomes nas poucas horas que antecederam o amanhecer com uma frequência aterradora: eram seus captores, seus agressores, e agora também haviam conseguido domar Sasuke e fazê-lo seu refém.
O terceiro indivíduo — e ela evitava olhá-lo por temer vomitar sobre a caçamba do caminhão a qualquer momento — era o homem jovem e franzino que a apanhara na floresta cujo rosto ela jamais seria capaz de esquecer, mesmo nos seus piores pesadelos.
Eles eram Dosu, Kin e Zaku respectivamente e estavam no comando do pequeno grupo que atacara Sasuke, Temari e Kankuro em Kyoto, perseguindo-os pela estrada em seguida, e logo depois que tomaram conhecimento do acampamento não tiveram dúvidas quanto a invadi-lo, saqueá-lo e depois destruí-lo.
Haviam utilizado uma tática peculiar e isso a deixava mais apavorada: atraíram hordas de errante em ambas as emboscadas, usando-os como distração para que suas vítimas não tivessem a menor possibilidade de contra-atacar.
Eram espertos e inescrupulosos, quase desumanos e isso ela vira com os próprios olhos. Só de pensar em todas aquelas pessoas no acampamento sendo encurraladas entre os mortos e eles...
Seus pulsos se esfregaram contra a corda que os envolvia por reflexo. Havia mais em torno dos seus tornozelos, assim como nos pulsos e tornozelos de Sasuke à sua frente, e nos do biomédico de nome Kabuto, ao lado dela.
Zaku estava bem ao lado de Sasuke, a arma, nada menos do que um fuzil de assalto russo Abakan AN-94, empunhada ameaçadoramente sobre a cabeça dele por havê-lo julgado como o mais perigoso dos três e o que merecia vigilância constante.
— Para onde estão nos levando?
A voz do biomédico fê-la olhá-lo de repente. Por trás das lentes embaçadas dos óculos, os olhos escuros estavam agitados, ao passo que o seu semblante demonstrava o oposto: uma calma friamente calculada e necessária.
— Tsc, você não precisa saber — Zaku debochou ao fitar o biomédico, assomando sobre ele como um lobo sobre uma lebre acuada. — E não me olhe assim! — esbravejou de repente, visivelmente alterado.
Sakura não compreendeu com quem ele discutia até vê-lo manejar o fuzil russo nas mãos hábeis, virá-lo entre os braços e acertar com a sua coronha na lateral da cabeça de Sasuke com força, lançando-o sobre a caçamba, bem diante das suas pernas.
— Sasuke! — ela arquejou assustada e sentiu outro espasmo doloroso quando seu abdome se contraiu e mais um borbotão de sangue escorreu por suas pernas, levando-a a cerrar os dentes e engolir o gemido de dor.
Com dificuldade, ela o viu se levantar, os dentes cerrados tais como os dela para impedir qualquer lamento de deixar sua boca. Os olhos escuros estavam desfocados devido ao atordoamento momentâneo causado pelo golpe, mas não demoraram a focalizar no seu rosto lívido.
— Achou-se mais esperto do que nós, não é? — Zaku prosseguiu, alheio à raiva que efervescia em Sasuke.
Sentindo-se humilhado, ele retomou a posição inicial. Os pulsos machucados esfregavam-se contra as cordas sem descanso, intentando afrouxá-las, mas os movimentos precisavam ser discretos ou Zaku os notaria e o puniria novamente.
O veículo ainda abria caminho pela autoestrada coberta de neve com uma velocidade contínua. A bruma da manhã paulatinamente desmanchava-se sob um sol pálido invernal. O amanhecer consolidava-se em tons de lilás e pêssego, um espetáculo que, por infortúnio, ninguém mais poderia apreciar.
Sakura ainda não ousara abrir a boca para se dirigir a qualquer um. Estava cansada, faminta, dolorida e assustada. Além disso, podia sentir o olhar atento de Zaku sobre o seu rosto, por isso evitava o contato visual a qualquer custo.
Sabia que Sasuke e o homem ao seu lado estavam nas mesmas condições desfavoráveis e que todos os três sofreriam as consequências por haverem cruzado o caminho daquele grupo.
Infelizmente, o pesadelo ainda não havia terminado.
* * *
Com o amanhecer, a floresta gradualmente cedeu o seu estado efêmero de torpor. A neve ainda cobria da relva aos ramos mais vigorosos, e até mesmo o canto das cotovias soava tímido ou melancólico naquele princípio de dia.
Os eventos da noite anterior que perduraram até a madrugada haviam deixado lacerações profundas que demorariam a cicatrizar: fossem estas físicas ou emocionais, e Temari estava plenamente ciente disso.
Nas últimas horas, ela e Gaara tiveram dificuldade de encontrar os rastros deixados pelo grupo misterioso. Por infortúnio, a maior parte das pegadas havia desaparecido assim que a neve começou a derreter, ao primeiro sinal de um sol descorado e macambúzio cuja luz e calor eram constantemente filtrados pelas nuvens.
As poucas pistas da passagem dos militantes se reduziam agora a alguns galhos pisoteados, um ou outro ramo pendendo partido e pendurado, algumas folhas amassadas e nada mais.
Em certo ponto, os rastros se tornaram confusos demais, outros haviam sido tão sobrepostos por outras pegadas que se tornaram marcas irreconhecíveis na neve que derretia.
— Podem ser de uma horda — Gaara observou plausivelmente, olhando de perto as várias pegadas que se espalhavam pela área, mas convergiam em uma única direção mais adiante.
— Não, eu saberia se fossem de uma horda — Temari discordou com certa delicadeza, observando os sulcos profundos na neve. — Vê o peso distribuído em cada passada? — ela apontou para uma e depois para outra pegada mais adiante: — Quem passou por aqui estava com pressa. Uma horda dificilmente atingiria esse ritmo.
Gaara decidiu confiar nos instintos da irmã. Ela conhecia trilhas de caça como ninguém e tivera durante toda a vida um talento natural que ele e Kankuro haviam aprendido a reconhecer e respeitar, uma intuição que dificilmente falhava.
Temari se empertigou e bateu as palmas das mãos a fim de espanar a neve. Sua H&K MP5 jazia pendurada pela alça sobre o ombro esquerdo, seu peso confortavelmente descansava sobre a curva do seu quadril.
— Percebeu que há horas não ouvimos um único som? Não avistamos ninguém?
Ela fitou o irmão de sobrecenho franzido.
— Nada — ele enfatizou de forma grave. — Nem mesmo um errante perambulando a esmo pela floresta.
— Nós estamos na direção certa, só temos que prosseguir.
Gaara suspirou em resposta e recebeu um olhar incisivo da irmã por isso:
— Sabe que não estou pedindo a você para que venha comigo. Mas eu preciso encontrar o Shikamaru... Não vou descansar ou me render até lá.
Ela fez menção de seguir adiante, mas ele a deteve, segurando-a pelo cotovelo.
— Eu sei e estou contigo até o fim, você sabe disso.
Ela abriu um sorriso pequeno, grata pelo gesto do irmão. Apesar dos pesares, eles só tinham um ao outro agora e a família sempre deve permanecer unida, mesmo nos momentos de maiores tribulações.
Prosseguiram, reassumindo o ritmo ágil, mas cauteloso que Temari impunha na liderança. Seus cantis estavam quase vazios e nenhum dos dois havia se preocupado com comida ainda, embora seus estômagos começassem a doer devido às várias horas seguidas que se privaram da alimentação.
— Você não me contou exatamente como escapou, maninho.
O garoto ruivo ergueu ambas as sobrancelhas claras, pisando com cuidado a fim de evitar os charcos imensos naquela parte do terreno. Ao invés de neve, encontraram um lodaçal caudaloso e inconveniente que reduzira suas marchas a um arrastar de pés enervante. As meias de Gaara estavam úmidas novamente e seus pés, congelando.
— Tive um pouco de sorte — deu de ombros, esfregando um dos pulsos feridos onde a corda rompera a pele profundamente, criando feridas grossas com sangue seco nas bordas.
Temari saltou uma porção mais instável do solo encharcado, evitando uma imensa poça d´água logo em seguida. Ouvia atenta o relato do irmão:
— Eles não me bateram muito. Só me amarraram e me jogaram na cabine daquele caminhão. Durante todo o percurso até o acampamento me ameaçaram. Depois que chegamos lá, só me jogaram de lado, talvez acreditando que eu não pudesse ir a lugar algum.
“Não estava conseguindo me soltar, então rastejei até um dos bancos e icei o meu corpo para cima. Dobrei os joelhos e consegui passar os braços para frente. Uma vez feito isso, me contorci para alcançar e desfazer os nós nos meus tornozelos. Eu não tinha armas e minhas mãos ainda estavam atadas, mas decidi arriscar. Saí do caminhão, aproveitando que todos estavam distraídos ou ocupados demais...
Ele fez uma pausa e balançou a cabeça.
— Tinha acabado de saltar do caminhão quando um filho da puta fedorento pulou em cima de mim, vindo do nada... Consegui colocar minhas mãos no seu pescoço a fim de manter a mandíbula dele bem longe de mim. Mas com o susto, fiquei encurralado entre o monstro e a cabine.
Temari sentiu a cor sumir do seu rosto ao imaginar seu irmão caçula lutar com um errante com as mãos atadas.
— Agi depressa, mas fiz uma bagunça... — admitiu quase com remorso. — Inverti minha posição com a dele, empurrei sua cabeça na direção das dobradiças e fechei a porta com força para esmagar seu crânio.
— Graças a Deus você conseguiu — ela sussurrou, mais aliviada conforme o relato chegava ao fim.
— Em seguida, corri na direção da floresta. Não sei se procurava por você ou por Shikamaru exatamente... Eu só sabia que precisava encontrar alguém, isso era tudo com que eu me importava.
O silêncio caiu sobre eles depois disso. Não tinham nada mais a dizer um ao outro e talvez a perda recente de Kankuro ainda os impedisse de falar o que verdadeiramente queriam, mas estavam juntos, haviam se reencontrado. Por ora, poderiam ficar bem.
Entretanto, conforme avançavam na floresta sem se depararem com qualquer indício da passagem de alguém (fosse morto ou fosse vivo), mas a angústia dentro do peito de Temari crescia. O último gole de água havia sido dividido entre os dois irmãos há cerca de uma hora e eles já podiam sentir a garganta arranhar e a boca secar devido à sede.
Além disso, as temperaturas haviam subido pouco ou quase nada desde que o dia amanhecera de forma que o frio se tornou uma terceira e incômoda presença entre ambos.
— Talvez devêssemos voltar um pouco e tentar em outra direção — Gaara comentou sem fôlego, a respiração arquejante vaporizando diante do rosto corado.
— Não há tempo. Vamos em frente — a loura insistiu, tão exaurida quanto o irmão, mas não podia parar.
Ele franziu a boca, mas decidiu que seria melhor não contestá-la. De qualquer forma, ela estava certa: era tarde demais para voltarem agora, só podiam continuar seguindo em frente.
Mais alguns metros adiante, Temari enrijeceu e estagnou no meio do caminho. Um átimo de segundo depois, agarrou o casaco do irmão e puxou-o bruscamente consigo para que saíssem do meio da trilha estreita e lodosa e se escondessem atrás da vegetação densa.
Bastou Gaara olhá-la para entender o que estava se passando: alguém se aproximava. Ele se encolheu ao lado da irmã e aguçou a audição em busca do ruído que teria a alertado para a presença de um estranho.
Não demorou a captar o som úmido e abafado de passos no solo encharcado, assim como o murmúrio de vozes conversando entre si:
— Algum sinal do perneta?
Outra voz, um pouco mais grave, negou com um suspiro audível.
— Ainda não, mas estamos procurando. Ele não irá muito longe, de qualquer forma... Não ferido como está.
Gaara sentiu o corpo da irmã enrijecer ao lado do seu, ele próprio retesou os músculos assim que absorveu as palavras rudes do estranho. E anteviu o cataclismo muito antes que a ideia tivesse se fixado à mente de Temari e também soube que não conseguiria impedi-la.
Assistiu, inerte, a irmã puxar a trava de segurança da sua arma. Olhou seu rosto e não a encontrou na feição crispada devido à cólera, nos olhos tomados pela ira. Apartou os lábios, mas deles som algum veio. A única questão em sua cabeça era se a deixaria na mão ou se perpetraria aquela loucura junto dela.
Decidiu-se de última hora, cerrando os dentes num acesso de fúria. Temari havia lhe dado sua faca há algumas horas, ela teria de bastar.
Os dois se separaram, cada qual seguindo na direção oposta: ele tomou a direita, embrenhando-se nos arbustos o mais silenciosamente possível. Ela foi pela esquerda, rastejando por trás da vegetação alta até poder se esconder atrás de outra árvore.
Ambos se entreolharam, comunicando-se através de sinais com os punhos. Temari foi a primeira se mover, contornando o perímetro e cuidando para não pisar em nenhum galho ou folha seca, felizmente a maior porção do solo estava forrada de lodo ou de neve.
Gaara avançou pela direita, ciente de manter o mesmo ritmo da irmã. O cabo da faca parecia estar grudado à palma da sua mão dormente.
Relanceou por cima da linha da vegetação e por entre algumas frestas das plantas lenhosas: eram três homens, todos fortemente armados. Um deles fumava um cigarro despreocupadamente, outro abrira o botão da calça e urinava a alguns metros, alheio aos dois estranhos que os espreitavam.
Do outro lado do terreno, a mulher se esgueirou, tão silenciosa quanto letal. Gaara compreendeu o plano no momento em que ela se aproximou do primeiro homem, o único que parecera vigilante a eles.
Todos estavam posicionados naquele instante como peças em um tabuleiro de xadrez: os dois homens mais próximos de sua irmã, um que rondava o perímetro, tão alerta quanto um cão de caça, munido de uma submetralhadora Taurus 9mm — e Gaara estava louco para pôr as mãos naquela arma —, o outro ainda urinando despreocupadamente, de costas para a posição dela.
O que deixava o último para Gaara, o cara de rosto marcado que fumava um cigarro, expirando pela boca murcha uma nuvem de fumaça.
Temari se aproximou ainda mais dos dois homens e Gaara a seguiu, era quase como se ambos estivessem interligados por um fio invisível: cada vez que ela se movia, ele a acompanhava sem receios.
Por fim, ela empunhou a H&K MP5 e um olho escuro desapareceu por trás da lente da mira acoplada. Gaara avançou um pouco mais, os dedos dormentes fechados com força em torno do cabo da faca. Porém, foi descuidado e acabou pisando sem querer em um galho seco escondido sob o lamaçal.
Ele travou assim que o estalido estrugiu no silêncio denso. Os três homens mal tiveram tempo de se indagar qual era a sua origem, contudo; um microssegundo depois, ele ouviu o estampido seco e abrupto da MP5 de Temari.
O primeiro homem caiu no chão, um tiro certeiro e fatal na sua nuca. O segundo fez apenas menção de estender a mão e alcançar seu rifle de assalto, mas seu corpo sofreu um tranco violento e caiu de encontro a uma árvore logo em seguida, uma bala alojada no seu pescoço.
Então era a vez dele.
Gaara aproveitou-se do único instante em que seu oponente virou-lhe as costas, atraído pelos estampidos seguidos da Heckler & Koch e pela queda de seus parceiros, e lançou-se como um leão sobre as suas costas, a lâmina em punho.
O homem se contorceu e deixou o cigarro pender dos lábios conforme murmurava alguns palavrões. Gaara não se deixou intimidar, fechou os braços com força em torno do pescoço do homenzarrão e chutou a parte interna dos joelhos dele, forçando-os a se dobrar.
Ele tentou sem sucesso posicionar a lâmina abaixo do queixo do homem, mas não conseguia devido aos seus movimentos bruscos. Seu oponente rosnou e acertou-lhe um tapa na mão que segurava a faca.
Gaara segurou um xingamento na ponta da língua quando a lâmina escapou do seu agarre e caiu no solo lamacento. Nesse meio tempo, Temari abandonou seu esconderijo atrás da vegetação e tentou mirar na cabeça do homem, mas desistiu. Corria o risco de acertar o irmão se apertasse o gatilho.
O homem, em posse de um fuzil de assalto Heckler & Koch 416, mirou-o cegamente e apertou o gatilho. Uma saraivada de tiros reverberou por toda a área, cada estalido mais agudo e mais seco do que o anterior.
Felizmente, Temari rolou para longe da mira desajeitada do homem, escondendo-se atrás de outra árvore a fim de se proteger da chuva de projéteis. Gaara rosnou furiosamente e acertou novamente com o pé a dobra interna do joelho dele.
O homem gemeu pela dor e em seguida despencou no solo lamacento como um prédio implodido. A H&K 416 caiu longe do seu alcance para a sorte de Gaara, e foi assim que ele se encontrou, segundos depois, em cima do torso do homem, desferindo um soco na lateral da sua cabeça a fim de desnorteá-lo.
As mãos carnudas do homem escalaram os braços de Gaara até se enrolarem na sua garganta no intuito de asfixiá-lo. O ruivo o imitou, pressionando os dedos no seu pescoço grosso até que as unhas curtas se fincassem na pele e a rompessem.
A disputa só se encerrou quando Temari apareceu do nada e bateu na cabeça do homem com a coronha da sua própria arma com tamanha violência que ele perdeu a consciência no mesmo instante.
Arquejando e massageando a garganta, Gaara se afastou do homem inconsciente. Estava prestes a alcançar sua faca e terminar o serviço quando Temari o deteve:
— Não, não o mate ainda. Podemos precisar dele vivo.
— Então o que fazemos com ele?
— Amarre-o em uma árvore, corte os seus pés e mãos... Estou pouco me fodendo. Só se certifique que ele não irá a lugar algum quando acordar.
Ela recarregou sua MP5 com o último pente e lhe pareceu pensativa.
— Eu vou procurar o Shikamaru — declarou peremptória e ignorou a expressão complacente no rosto do irmão caçula.
— Temari, escuta... Esse lugar estará cheio de errantes em no máximo uma hora. Os tiros devem ter atraído todos os desgraçados num raio de dois, talvez três quilômetros. O mais sensato seria deixarmos essa área o mais depressa possível.
— Não sem o Shikamaru — ela teimou e ele compreendeu que não haveria mais discussões, portanto suspirou em resignação. — Não vou demorar — acrescentou, por fim, com um certo toque de amargura e desapareceu por trás da vegetação em pouco tempo.
Gaara olhou o homem desacordado e franziu o cenho, logo começando a procurar por algo que pudesse usar para amarrá-lo em uma árvore ou coisa parecida.
Mais à frente, alarmada e atenta a qualquer ruído, Temari procurava por qualquer pista que pudesse levá-la até Shikamaru. Aqueles três homens poderiam ser ignorantes quanto a trilhas, mas ela não era.
Não demorou a encontrar vestígios da passagem de alguém — e vestígios visíveis aos olhos de qualquer um que fosse mais observador. Encontrou galhos quebrados, folhas amassadas, sulcos profundos na lama e em alguns trechos em que a neve ainda não havia derretido.
Mas o mais pertubador foram as manchas de sangue em um arbusto e alguns respingos na neve. Sangue fresco, ainda não coagulado. Isso só podia significar uma coisa...
— SHIKAMARU! — ela deixou de lado o bom senso para se embrenhar com pressa na mata, afastando as plantas com ambas as mãos e vasculhando a área. — SHIKAMARU!
Secou os olhos já úmidos com raiva, usando as mangas do casaco, e tornou a chamá-lo, mas sem sucesso. Deu a volta depois de perceber que havia perdido os rastros e se detestou por deixar que suas emoções levassem a melhor sobre ela.
Percorreu o perímetro por pelo menos quinze minutos antes de reencontrar o último rastro da passagem de alguém. Temari ainda não tinha certeza, a julgar pela quantidade de sangue que maculava a vegetação, se rezava para que fosse ou não quem procurava tão desesperadamente.
Estava tão distraída pela avalanche de medos e angústias que corroborava no seu peito que o grasnado alto de um corvo empoleirado no alto de um ramo fê-la sobressaltar-se e dar pulo para trás. Ela mirou a ave solitária com desprezo e avançou mais alguns passos antes de encontrá-lo.
— Shikamaru! — chamou-o e correu na direção do homem ferido, escorado contra o tronco de uma árvore velha e esparramado sobre a relva congelada.
Ela olhou em volta nervosamente em busca de perigo assim que se ajoelhou diante do homem que amava; ele tinha o semblante crispado de dor e sua palidez não lhe pareceu um bom sinal.
Shikamaru gemeu baixinho, reagindo ao som da voz dela e suas pálpebras se mexeram um pouco, revelando os olhos que no passado sempre lhe pareceram preguiçosos, quando na verdade haviam sido apenas astutos demais.
— Ei, não esperava te ver por aqui...
— Não diga bobagens! — ela protestou, procurando pelo ferimento que o fizera perder tanto sangue.
Notou que as muletas não estavam por perto, então concluiu que ele teria, no mínimo, se arrastado por uma longa distância e durante muito tempo. Ele apanhou sua mão e levou-a até o abdome onde ela imediatamente sentiu a umidade por baixo do casaco grosso.
— É tarde demais — ele murmurou, olhando-a nos olhos com tamanha calma que Temari desejou esbofeteá-lo.
Seu dedo tateou a pequena perfuração e ele se retraiu pela dor. Sem dúvida havia sido um tiro e pelo local que a bala o perfurou, certamente atravessara no mínimo um de seus rins e talvez o baço. Ela fez pressão na área de qualquer forma, cerrando os dentes quando Shikamaru soltou outro silvo de dor.
— Eu não vou deixar que você desista assim! — ela bradou, irritada consigo mesma por estar chorando ao mesmo tempo em que tudo o que mais queria fazer era expelir toda aquela tristeza do peito.
— Escuta... — Shikamaru recomeçou naquele tom pragmático que ela tanto detestava em circunstâncias como essa. — Sakura está nessa floresta ainda, talvez até tenha sido apanhada por aqueles caras...
— Eles também estão com o biomédico, o tal Kabuto — admitiu com raiva. — Talvez até consigam colocar as mãos na cura antes de nós...
— Você precisa evitar que isso aconteça — ele praticamente demandou, franzindo o cenho.
Quando ele estendeu a mão e a tocou no rosto carinhosamente, ela estagnou.
— Eu sei que você consegue fazer isso, Temari. Precisa fazer isso por você, por mim...
Quando a mão dele escorregou e pousou no seu ventre coberto, ela estremeceu.
— E também por ele.
— Como você soube? — ela soluçou, pressionando um pouco mais o ferimento dele, mas o sangramento simplesmente não estancava.
Shikamaru abriu um sorriso presunçoso para ela. Era o tipo de sorriso que ele lhe havia mostrado nos momentos mais íntimos que viveram, nas noites mais cálidas e apaixonantes, quando trocavam carícias ou confissões e segredos.
— Achou mesmo que conseguiria esconder algo assim de mim?
Ela soltou um riso engasgado e olhou-o através do véu de lágrimas que lhe cascateava dos olhos.
— Construa um mundo melhor para nosso filho, Temari — continuou. — Um mundo seguro em que ele possa crescer. Eu sei que você pode fazer isso.
A mão dele afagou o seu ventre ainda coberto, ela fungou e desistiu de tentar pressionar o ferimento. Apanhou a mão que se aventurava pela sua barriga e levou-a para debaixo da sua camiseta, para que a tocasse sem restrições, pele contra pele. O calor do toque a fez sorrir.
— Prometa-me que fará isso — pediu e ela pressionou a mão dele no seu ventre em resposta; ele tinha a sua palavra.
Temari levou ambas as mãos ao rosto fatigado e inclinou-se para que sua boca encontrasse a dele uma última vez. O toque doce a fez se esquecer das circunstâncias, da dor que consumia seu peito, da despedida que se consolidava agora em tal gesto de ternura e amor.
— Nunca pensei que pudesse me apaixonar por uma mulher tão problemática... — ele fez troça e ela riu baixinho, já sentindo falta do calor nos lábios dele. — Mas ter te conhecido foi a melhor coisa que já aconteceu comigo...
Depois de um tempo em silêncio, apenas olhando para o seu rosto, para as lágrimas que ainda molhavam a sua face, ele acrescentou com seriedade e cada palavra seria lembrada para sempre por ela:
— Eu te amo... Você já sabe o que deve ser feito.
Ela encostou a testa à dele, roçou a boca na pele quente e choramingou conforme sentia a vida se esvair do corpo do homem que amava. Sim, ela sabia o que teria de ser feito. Mas sabê-lo não diminuía a dor, não tornava mais fácil, muito pelo contrário.
Abraçou-o até que a vida o deixasse por completo, recusando-se a soltá-lo. Mas ele estava certo, ela tinha pelo que lutar e a criança que crescia no seu ventre era a razão pela qual tinha de colocar as mãos na cura e ajudar a reconstruir o mundo.
Não muito longe dali, Gaara estava terminando de prender o homem ainda inconsciente a uma árvore, certificando-se de amarrá-lo devidamente, quando ouviu um único e solitário disparo ecoar distantemente.
Estava feito.
* * *
Onde está a minha mente?
Onde está a minha mente?
Onde está a minha mente?
Yoav feat. Emily Browning – Trecho de Where Is My Mind.
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