Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

44 Capítulo XLIII: O Altar dos Imolados


Notas iniciais
Quadragésimo terceiro capítulo dedicado à MeilingBriefs pela linda recomendação! Obrigada mesmo, eu amei! *-* ... Boa leitura!

Dead World Assembly

“Eles seguem num ritmo moderado, com Philip à frente, Brian capengando atrás dele e Nick fechando a retaguarda, passando por vitrines destruídas e petrificadas e pilhas de corpos humanos destroçados, queimados pelos poucos sobreviventes que restaram”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 113).

Capítulo XLIII:

O Altar dos Imolados

Gaara não sabia onde estava e nem quando havia chegado ali. O latejar doloroso em sua têmpora esquerda, resultado da coronhada que levara mais cedo, embaralhava seus poucos pensamentos congruentes.

Tudo o que sabia é que estava com medo — estava apavorado, na verdade. E a lembrança do irmão mais velho sufocando em uma poça do seu próprio sangue havia se fixado de tal maneira ao seu cérebro como uma queimadura por ferro em brasa.

Ele queria ter tido forças para chorar, mas surpreendentemente não teve. A dor se transformara em um nó apertado na sua garganta que o estrangulava lentamente. Era cedo demais para assimilar o sentimento de luto, de qualquer forma.

Estava escuro e o seu corpo estava encolhido de lado em uma posição extremamente desconfortável, no assoalho da cabine do caminhão. Mãos e pés atados por cordas que arranhavam e pinicavam sua pele e, apesar do frio enregelante, uma camada de suor começava a porejar seu pescoço e face.

Mesmo letárgico, quase sonolento, Gaara procurou se situar, isolando, pouco a pouco, a sensação da dor e forçando-se a prestar atenção nos ruídos externos dissonantes que seus ouvidos já haviam captado nos últimos minutos desde seu despertar, por cima do zumbido agudo que ecoava dentro da sua cabeça.

Primeiro, ele notou o rugido inclemente do vento do lado de fora, depois ouviu um grito estridente que reverberou em meio à tempestade, indiscutivelmente feminino. Então houve um estampido abrupto, seco, inconfundivelmente o som do disparo de uma arma de fogo, seguido de outro e mais outro.

Uma lembrança dolorosa caiu sobre ele, tão esmagadora quanto atroz: Kankuro e ele haviam sido torturados, espancados e agredidos por quase uma hora antes de um dos homens — Gaara não conseguiu se lembrar do rosto dele — apontar-lhe uma arma contra a cabeça, exigindo saber onde eles estavam instalados e como haviam conseguido os suprimentos e a munição.

Foi nesse momento, enquanto o homem (um mero borrão na memória de Gaara) ameaçava puxar o gatilho, que Kankuro contou tudo a eles: a fuga do centro de refugiados, a localização do acampamento, a busca pela cura da doença.

Eles mataram Kankuro como se imolassem um animal e abandonaram-no para sufocar com o próprio sangue para, depois, se reerguer como um morto-vivo. E eles arrastaram Gaara até o caminhão enquanto ele ainda implorava para ficar ao lado do irmão, para deixar-lhe, ao menos, pôr fim ao seu sofrimento; tudo lhe foi negado e aqui estava ele agora.

O que o levava de volta ao princípio de tudo: Gaara tinha de fugir e tinha de salvar Temari e Shikamaru; nada mais importava para ele.

Cerrando os dentes, ele se contorceu persistentemente, a bochecha pressionada contra o assoalho áspero. O cheiro de cigarros estava mesclado ao frescor dos pinhos dentro da cabine tortuosamente claustrofóbica, mas por baixo disso tudo, era o odor do sangue fresco que o atormentava.

Com um gemido, Gaara esfregou repetidamente os pulsos contra a corda, pouco se importando com a dor. Se ele apenas a afrouxasse um centímetro que fosse, se ele apenas conseguisse escapar dali e ajudar sua irmã e Shikamaru...

Se ele apenas conseguisse salvá-los.

* * *

Sasuke e Temari avançaram pela Via-expressa Meishin o tanto quanto a tempestade lhes permitira.

A visibilidade era quase nula devido à escuridão e à nevasca, de modo que tiveram que redobrar a atenção, para o caso de toparem com outra horda andando a esmo pela pista.

Além das condições contrárias providas pelas intempéries, tinham de lidar com a exaustão e a fome, não diminuindo o ritmo das passadas em momento algum; não podiam se dar a esse luxo com a vida de pessoas preciosas pendendo por um fio.

Por isso, trataram de postergar as necessidades primárias — e urgentes — dos seus corpos a fim de seguir adiante e protegerem o acampamento, isso se não se chegassem tarde demais.

Sasuke estava ciente dos arquejos sofridos de Temari, um pouco mais atrás dele. Parecia que tudo o que mantinha aquela mulher em pé era sua vontade de proteger Shikamaru e Gaara.

Ambos estavam congelando até os ossos, expostos às rajadas quase cruéis de vento que fustigavam Kansai naquela noite negra e cruenta.

Àquela altura, a neve já começara a se acumular em ambas as pistas, dificultando ainda mais o percurso de ambos. Sasuke tinha flocos de neve presos ao cabelo e à gola da sua jaqueta e seus lábios beiravam a tonalidade roxa devido ao frio extremo. Ele desistira muito tempo atrás de tentar aquecer as pontas dos dedos, de modo que tivera de se habituar à sensação — agora dolorosamente insuportável — de dormência.

Temari não estava muito diferente dele: o rubor saudável de suas bochechas dera lugar à palidez insalubre e tremores violentos lhe tomavam o corpo, o que caracterizava um dos primeiros sintomas preocupantes de uma hipotermia iminente.

Ainda, ela cerrava a mandíbula e avançava sem proferir um único lamento. Sasuke tinha de reconhecer a determinação daquela mulher.

Em certo ponto, ele sinalizou que deveriam deixar a autoestrada e prosseguir pela floresta, pois podiam encontrar os homens que mataram Kankuro e capturaram Gaara no trajeto.

A floresta se fechou ao redor deles com seus pinheiros silenciosos e cobertos de neve. Uma nesga de céu transparecia por entre as ramagens das árvores, cuidadosamente costuradas como num dossel, mas esta era tão ou mais negra do que a escuridão que tomava a mata.

— Alguma ideia de quanto exatamente falta? — Sasuke questionou um pouco depois que eles deixaram a autoestrada para trás, a respiração dele era uma névoa densa no ar glacial da noite.

— Não muito — Temari murmurou entre arquejos, cada lufada de ar se tornava uma nuvem de fumaça diante do seu rosto descorado.

O primeiro errante com que cruzaram estava curiosamente chamuscado, os farrapos que haviam sido as roupas estavam grudadas ao corpo deformado devido às línguas de fogo que haviam tentado devorá-lo.

Foi Sasuke quem cuidou dele, encurralando-o contra uma árvore enquanto seu punho acertava em cheio a fronte do errante. Seus dedos dormentes de frio mal registraram a dor do impacto do golpe.

A coisa enegrecida e chamuscada, cheirando terrivelmente mal, cambaleou, o osso do nariz afundado devido à força do soco, e então despencou em meio à neve, grunhindo de leve.

Temari terminou o serviço ao afundar sua faca de lâmina serrilhada na têmpora do morto-vivo, silenciando seus protestos para sempre. Sasuke fitou a critura deformada sobre a neve só por um instante antes de balançar a cabeça e reassumir o ritmo das passadas.

Eles percorreram mais algumas centenas de metros antes de pressentir que havia algo de errado. Sentiram a mudança no ar gelado da tempestade um pouco antes de verem o que estava havendo: ondas de calor intensas chegavam até eles e um odor acre empestava a floresta, sobrepondo o cheiro do gelo e da morte eminente.

Sasuke franziu o nariz assim que detectou o cheiro acre e distinto. Teve um segundo para assimilar a gravidade da situação antes que seus olhos, até então acostumados à escuridão quase total da floresta imersa num vórtice de gelo, lacrimejassem devido à luminescência que emergia do descampado onde o acampamento estivera localizado.

As labaredas altas e esguias roçavam o céu anuviado, iluminando toda a região com seu tom alaranjado, rasgando-o em dois.

Eles não haviam diminuído o ritmo ou parado até então, mas paralisaram ante a visão medonha das nuvens tempestivas alumiadas pelo brilho âmbar de um incêndio de proporções colossais.

— SHIKAMARU! — Temari chamou pelo nome do amante antes de acelerar em direção à fonte macabra de luz e Sasuke mal conseguiu contê-la.

Quando enfim emergiram das árvores que circundavam o acampamento, galgaram as cercas de arame farpado destruídas que outrora mantiveram o perímetro seguro e os monstros, afastados.

A mulher avançou destemida pelo descampado, o rosto antes pálido agora corado devido ao calor intenso da coluna de fogo que consumia a lona de uma tenda, no centro do terreno. Cinzas eram sopradas pelo vento impetuoso.

— SHIKAMARU! — ela ecoou o nome com um tom crescente de desespero e angústia, os olhos escuros lacrimejando devido ao fogo e devido ao medo.

Sasuke emergiu um pouco atrás dela, os olhos atentos vasculhando o descampado atrás de inimigos, mas tudo o que havia era destruição e errantes vagando a esmo sendo lentamente consumidos pelo fogo. O cheiro de carne podre tostando era enjoativo e denso e enchia o ar de uma forma quase insuportável.

— Ela não está aqui — murmurou para si mesmo, cerrando os dentes enquanto seus olhos terminavam de vasculhar o terreno, mas não encontraram sinal de Sakura ou mesmo de Shikamaru. — Eles não estão aqui! — informou à Temari, puxando-a pelo braço para a floresta novamente, pois as línguas de fogo avançavam pela grama seca e os errantes que já os haviam notado se aproximavam com passos bamboleantes de lagartos.

Temari relutou apenas a princípio, os olhos marejados ainda buscando pelo amante, mas logo se deixou ser arrastada por Sasuke de volta para a proteção da floresta.

Eles haviam chegado tarde demais.

* * *

A tempestade ainda fustigava boa parte da região de Kansai quando a madrugada se consolidou, tão violenta e tirânica quanto a noite havia sido, embora tivesse diminuído de intensidade.

A neve ainda caía sobre a floresta densa que margeava a Via-expressa Meishin como pedaços descolados do firmamento, mas em menor quantidade ao passo que a ventania, paulatinamente, aquietava-se.

Sakura havia perdido a noção do tempo e do espaço horas atrás. Todas as árvores lhe pareciam idênticas, todas as trilhas estreitas na mata lhe davam a sensação de ser um roedor correndo numa roda de ferro.

Ela estava cansada, faminta e com dores. As cólicas ainda não haviam arrefecido e os dedos dos seus pés estavam dormentes há tempo demais, o par extra de meias que ela usava pouco efeito havia surtido.

Ainda, ela corria pela floresta; sua respiração era arquejante, ruidosa, os pulmões estavam a ponto de explodir e havia uma pulsação latejante e incômoda nos seus ouvidos.

Não bastasse ter de suportar o peso do próprio corpo, suas pernas trementes e rijas de dor ainda arrastavam Shikamaru, que perdera uma de suas muletas durante a fuga desesperada.

Ele manquejava, tão dolorido e esgotado quanto ela, mas se forçava a continuar, cerrando os dentes e apertando o passo. Seu braço se agarrava ao ombro de Sakura como um afogado se agarrava a um bote salva-vidas.

De repente, no entanto, ela enroscou a ponta do coturno numa raiz sobressalente, meio oculta pela neve, e a queda foi inevitável, ainda que amortecida pelo véu branco e gelado que cobria a floresta.

Sakura e Shikamaru caíram lado a lado e de bruços, ofegantes, exalando o ar gelado através dos lábios roxos de frio com força. Cada lufada se transformava numa baforada brancacenta no ar glacial da madrugada.

— E-eu... Eu não aguento mais — ela se queixou, incapaz de mover um único músculo enquanto seus pulmões queimavam no peito, demandando cada vez mais oxigênio, expandindo sua caixa torácica até o ponto da dor.

— Precisamos continuar.

Shikamaru afirmou resoluto, mas seu corpo não colaborava; tudo o que queria era permanecer deitado naquele leito de gelo e adormecer, fechar os olhos só por um instante e então...

Não!, ele cerrou o maxilar e a mão tateou cegamente em busca da muleta.

— Temos que ir ou vão nos alcançar.

Sakura choramingou baixinho e afundou os dedos dormentes na neve. Todo o seu corpo sofria de espasmos sofridos e violentos.

Ela alcançara o seu limite, levara o corpo a todos os seus extremos e, não bastasse as condições externas contrárias à sua sobrevivência, ela ainda estava enfraquecida por conta do sangramento que não cessava.

Podia senti-lo agora mesmo: a vida perdida que lhe escorria pelas pernas, encharcando o absorvente que colocara e transformando aquela verdade truculenta na sua mais cruel realidade, no seu inferno pessoal.

— Não consigo — ela sussurrou através dos lábios trêmulos e arroxeados. — Não vou conseguir.

— Vai sim — ele a encorajou enquanto se esforçava para se erguer. — Você precisa lutar, Sakura. Se não puder fazer isso por si mesma, faça pelo Sasuke... Ele ainda precisa de você.

Sakura gemeu baixinho e conteve as lágrimas de frustração que ameaçavam molhar suas faces. Ergueu-se de uma vez só e em seguida ajudou Shikamaru a ficar completamente em pé. Por Sasuke, ela sussurrou para si mesma, no conforto dos próprios pensamentos.

Estavam prestes a sair dali quando ouviram passos pesados, vários deles, e urros e brados masculinos. Ela empalideceu antes de empurrar Shikamaru contra uma árvore, forçando-o a se sentar, ocultando-o atrás de uma grossa raiz sobressalente e um arbusto.

Então secou os olhos úmidos e escondeu-se atrás de outra árvore, a poucos metros dali. Suas mãos dormentes tremiam quando alcançaram sua Glock. Respirou fundo, uma lufada de cada vez para uniformizar o ritmo da própria respiração e apoiou a cabeça contra o tronco achavascado da imensa tília na qual se escondera.

Os passos na neve se tornaram mais pesados, mais altos, eles não tinham qualquer intenção de ocultar sua presença ou seus rastros, queriam tornar suas presenças anunciadas como uma manada. Ela espiou a direção de onde vinham os sons e não demorou a reconhecer o brilho de fachos de lanternas varrendo a escuridão da madrugada.

Devagar, ela soltou a trava de sua segurança de sua Glock, seu coração estava na boca.

— ...por aqui! — uma voz distante ecoou, indiscutivelmente masculina. — Encontrei mais rastros!

Ela espiou novamente, com cuidado, e conteve um arquejo quando percebeu que eram no mínimo três pessoas, todas vestidos com fardas militares e portando armamento pesado. As lanternas que ela vira anteriormente estavam acopladas a rifles de assalto.

— Como sabe que não se trata de porra de um errante?! — um homem perguntou impacientemente e o outro, em resposta, escarneceu.

— Cala a porra da boca! Errantes não deixam trilhas assim... Seus passos são lentos, desajeitados... Não, quem passou por aqui estava com pressa, muita pressa, e com certeza não era nenhum desengonçado!

— Se você diz, Dosu.

Sakura tapou a boca quanto notou, com um pavor esmagador, que conhecia aquele tom de voz áspero, bruto e inesquecivelmente debochado. Um calafrio se instalou na base da sua espinha quando memórias de uma noite tão pavorosa quanto aquela tomaram seus pensamentos.

— Vocês realmente precisam discutir quem é a porra do macha alfa toda vez?! — Uma voz feminina e estridente se juntou às outras duas.

— Posso provar o meu ponto para você, vadia, a qualquer hora e em qualquer lugar. — Aquela mesma voz, que a assombrou por tanto tempo, murmurou e a mulher, Sakura não conseguiu deixar de perceber, deixou escapar um muxoxo.

— Já provei e nem vi nada de tão espetacular.

Ela zombou e o homem ficou em silêncio por um instante, então ele retrucou:

— Nem eu vi nada de mais na sua boceta, vagabunda.

— Calem a merda da boca! — O que pareceu a Sakura ser o líder dos três os silenciou com um rosnado.

Sakura ousou olhar para Shikamaru, a alguns metros dela, escondido atrás de um arbusto e tão assustado quanto ela. Não ter ideia do que fazer ou para onde fugir era assustador. Eles estavam encurralados, bastaria um soluço e suas presenças seriam notadas.

A pressão do medo começava a suplantar todos os pensamentos racionais de Sakura e ela sentia um nó familiar apertando-lhe a base da garganta. O pavor agora se assemelhava a dedos grossos estrangulando-a, era tão sufocante que ela nem mesmo conseguia respirar.

— Os rastros terminam aqui — o líder, o tal Dosu, observou com uma aparente consternação e Sakura congelou em seu esconderijo, tão imóvel quanto uma escultura de gelo.

Ela ouviu quando eles se aproximaram ainda mais, suas botas esmagando a neve com um som úmido e pegajoso. Os fachos das lanternas já começavam a vasculhar a mata atrás dela e se arrastavam rapidamente na sua direção.

Suas costas tencionaram deslizar sobre a superfície áspera do tronco, o brilho da lanterna chegava cada vez mais próximo e a Glock tremia na sua mão — ela não sabia se era devido ao medo ou ao frio. Sabia que não podia arriscar revelar sua posição para tentar abater um deles e mesmo que o fizesse, seria fuzilada por qualquer um dos outros dois logo em seguida

Antes que o retângulo de luz branca pudesse alcançá-la, no entanto, Sakura ouviu um baque abafado, uma rocha sendo arremessada a poucos metros dali, e a atenção do trio foi imediatamente desviada...

...Para o esconderijo de Shikamaru.

— SAKURA, CORRE! — ele gritou, já de pé, munido de sua pistola enquanto apertava o gatilho e disparava às cegas, visando afugentá-los.

Apoiado em uma das suas muletas, preparou-se para fugir na direção contrária.

Ela mal teve tempo de registrar os eventos que aconteceram a seguir. Seu corpo entrou em uma espécie de modo automático e suas pernas que antes não a obedeciam, fracas e trementes, colocaram-se uma à frente da outra, tencionando levá-la para longe dali.

Abaixou-se quando uma saraivada de tiros preencheu a frágil quietude da madrugada e gritou quando uma bala se crivou no tronco de um bordo velho e desfolhado, a poucos centímetros da sua cabeça.

Mais tiros vieram depois daqueles, dos primeiros, e cada estalo seco e abrupto fazia o coração de Sakura falhar uma batida.

Ela olhou para trás uma única vez, a tempo de ver que Dosu e a mulher haviam ido atrás de Shikamaru que ainda disparava sua pistola, enquanto o terceiro indivíduo a perseguia, embrenhando-se na mata com a fúria destrutiva de um touro, praticamente resfolegando no ar invernal.

Suas pernas continuaram a impulsioná-la para frente, os músculos tornando a se aquecer devido ao esforço, mas ela sabia que naquele ritmo seria pega em questão de minutos. Precisava despistá-lo, encontrar um esconderijo seguro o bastante e esperar pelo amanhecer, quando as condições não estariam todas contra ela.

Sakura continuou correndo por longos e excruciantes minutos, apesar da exaustão, apesar da fome e apesar das dores que jamais a abandonavam. Em certo ponto, porém, reduziu a velocidade ao perceber que não havia mais ninguém no seu encalço.

Parou completamente e se enfiou atrás de um carvalho onde uma coruja piava solitária. Lá, tentou reaver o fôlego perdido durante a corrida; encolheu-se quando percebeu que suas cólicas haviam piorado ainda mais, tal como seu sangramento.

Sozinha e se sentindo exposta como nunca até então, ela tapou os lábios a fim de abafar os soluços do seu choro. Queria voltar e procurar por Shikamaru, mas tinha medo de encontrar aquele homem novamente ou os outros dois.

A nevasca havia arrefecido àquela altura, tornando-se uma nevada serena e por trás dos galhos do carvalho velho, uma nesga de céu transpareceu, preto como breu.

Sakura se sobressaltou quando ouviu o estalido de um galho se partindo, mas mal teve tempo de reagir antes que um imenso errante emergisse da mata, gemendo e babando uma saliva preta que lhe escorria pelo queixo e manchava sua camiseta surrada.

Ela agiu por impulso, sem pensar nas consequências: mirou sua Glock no centro da testa da criatura e a disparou uma única vez, o estampido agudo ecoou além da floresta e o errante do sexo masculino desabou no chão numa poça de sangue arterial.

O silêncio tornou a imperar e Sakura apoiou a cabeça no tronco do carvalho, os olhos marejados e embaçados mal viam um palmo diante do rosto.

Ela não notou uma nova ameaça até que fosse tarde demais: uma mão calejada cobriu sua boca, apertando seu rosto dolorosamente ao passo que uma sombra cruel assomou diante dela. Uma lâmina gelada encostou-se à pele do seu pescoço, pressionando até o ponto de quase romper a primeira camada da epiderme, e manteve-a imóvel.

Sakura nunca se esqueceria daqueles olhos e nunca se esqueceria daquele sorriso macabro, nem mesmo por uma noite sequer.

— Ora, vejam só — ele sussurrou, a boca se movendo enquanto proferia palavra por palavra, roçando a orelha dela. — Se não é a amiguinha daquela vadia.

* * *

— Ouviu isso?! — Temari questionou e Sasuke não a respondeu, mais concentrado em examinar minuciosamente a floresta em derredor, calma demais na sua opinião. — Tiros! E não foram poucos!

Ele segurou o braço dela, contendo-a quando ela deu o menor indício de seguir na direção dos disparos.

— Não podemos avançar às cegas; estamos quase sem munição e não temos ideia do que está havendo.

Irritada, Temari puxou o braço do agarre dele, libertando-se.

— Você pode ficar sentado aqui, mas eu vou até lá. Pode ser o Shikamaru ou o Gaara! Pode até mesmo ser a Sakura!

O apelo dela surtiu o efeito necessário após a menção do nome da garota, ainda assim Temari soube que não havia ganhado a discussão no instante em que o semblante de Sasuke, antes rijo de tensão, amenizou um pouco devido à preocupação.

— Precisamos averiguar com calma, sem chamar atenção — ele insistiu com bom senso, mas travou assim que novos disparos ecoaram na madrugada silenciosa, desta vez mais próximos.

— Shikamaru... — Temari sussurrou, aflita, e lançou um olhar desafiador a Sasuke antes de avançar na direção em que os disparos partiram, embrenhando-se na mata e, em poucos segundos, desaparecendo do campo de visão dele.

— Foda-se! — ele exclamou num silvo através dos dentes cerrados antes de seguir na direção contrária a dela.

Mal avançou cem metros na floresta negra feito piche antes de apontar sua Ruger na direção de um ponto obscuro; tudo estava tomado por sombras e por poças de escuridão. Sabia que estava sendo seguido e observado.

— É melhor se mostrar ou eu estouro seus miolos — ele ameaçou e em resposta ouviu um risinho abafado.

— Faça como quiser — um homem o respondeu e Sasuke trincou os dentes ao ouvir o som dos passos dele quando saiu do seu esconderijo e se revelou na parca luz da madrugada.

Ele congelou quando o viu recuar das sombras e congelou quando viu quem ele mantinha como refém, uma faca pressionada contra a garganta da sua vítima, espetando a pele fina. O homem de pequenos, mas sagazes olhos, sorriso frio e cabelos escuros e revoltos soltou um som de satisfação quando notou o terror no rosto de Sasuke.

— Mas fique ciente que ao sinal de qualquer movimento brusco que você fizer, eu abro a garganta dela!

Sakura o fitou com os olhos marejados, a boca trêmula, a face molhada pelas lágrimas que já caíam.

Lentamente, ele abaixou sua pistola e largou-a no chão. Levantou as mãos em sinal de rendição e percebeu que com isso o sorriso do homem cresceu e se tornou ainda mais frio.

Mais frio do que a própria neve que ainda despencava na madrugada.

* * *

Quando eu desperto

Algo dentro de mim se quebra.

Nos seus olhos

Eu assisto a algo morrer.

Draconian — Trecho de When I Wake.

Notas finais
Sasuke e Sakura se reuniram, mas agora as coisas vão ficar ainda piores. Não me matem pelos próximos capítulos, por favor XD E os vilões se revelaram, ao menos uma parte deles. ... A partir de agora, os capítulos se dividirão em dois núcleos com dois grupos, mas eu não vou contar quem para vocês HAHAHAHAHA E o grupo do Itachi deve fazer a sua aparição por aqui logo, logo! ... O que acharam do season finale de TWD? Eu sinceramente achei insano do começo ao fim e o retorno do Morgan no finalzinho + o confronto com os Wolves na próxima temporada só me deixou ainda mais ansiosa por Outubro! *-* ... Sem TWD, eu voltei a assistir GOT, embora não tenha aprovado todas as mudanças da série nessa quinta temporada. Poxa, HBO... T-T ... Enfim, obrigada a todos que comentaram. Espero vê-los nesse capítulo também! ^^ Até o próximo.