Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

43 Capítulo XLII: O Muro das Lamentações


Notas iniciais
Quadragésimo segundo capítulo. Boa leitura!

Dead World Assembly

“Philip encara um rosto morto depois do outro, todos passando num flash pela janela — num momento estão visíveis, no outro já se foram — e agora ele está em outra dimensão, outro lugar que não aquele utilitário, não atrás do volante, mas dentro da horda, dentro da cidade dos zumbis, abatendo fileiras deles, devorando aqueles filhos da puta. Philip é o pior monstro de todos, e vai atravessar aquele oceano de merda, mesmo que tenha que destruir o mundo inteiro”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 110).

Capítulo XLII:

O Muro das Lamentações

Sasuke despertou de sobressalto com o som de um baque úmido e abafado contra o capô destruído do Toyota Aqua; ele olhou para frente, assustado, e imediatamente percebeu o imenso errante espatifado sobre a lataria amassada.

Através do para-brisa trincado, enquanto uma névoa densa e letárgica ainda encobria a porção racional do seu cérebro, ele constatou que o errante do sexo masculino havia despencado do barranco logo acima ao tentar descê-lo com suas passadas bamboleantes e suas pernas desengonçadas, por isso, ao bater no capô metade do seu corpo havia explodido numa chuva de vísceras e sangue coagulado que batizou a frente já destruída do Toyota.

Os olhos sujos de tubarão do morto o fitavam através do vidro estilhaçado enquanto sua boca fétida abria e fechava, emitindo resmungos intermitentes e rosnados frustrados. Sua mão intacta se estendia para ele no ímpeto de agarrá-lo, mas era repelida pela barreira frágil de vidro trincado.

Com a cabeça latejando e a impressão persistente de ter sido atropelado por um caminhão, Sasuke desprendeu o fecho do cinto de segurança e, pela primeira vez, tombou a cabeça para o lado para encontrar uma Temari ainda semi-inconsciente que gemia baixinho por conta dos machucados — mas viva e, por isso, Sasuke considerou-se com sorte.

Estendendo a mão, ele, o mais delicado que podia ser na tensão e urgência do momento, chacoalhou o ombro de Temari a fim de despertá-la. Ela resmungou o nome de Shikamaru uma ou duas vezes com um desespero nítido antes de retomar completamente a consciência e ter a mesma reação de Sasuke ao errante estraçalhado sobre o capô que fitava ambos com uma fome predatória e feral.

A loura imediatamente levou a mão à lateral da cabeça, pressionando de leve o ferimento palpitante; sua visão ainda estava afetada pela perda dos sentidos mais cedo, mas exceto pelo corte superficial bem acima da têmpora e pelo sangue que secava e encrostava na ferida e no cabelo, ela estava bem.

— Merda, o que houve?! — ela gemeu quando um dedo esbarrou em um ponto extremamente sensível do ferimento.

Sasuke, com um corte no supercílio que vertia sangue sobre a lateral do rosto até o queixo, apanhou uma flanela no porta-luvas e ofereceu-a a ela para estancar seu sangramento. Temari a aceitou, grata, e a pressionou na têmpora esquerda, contorcendo a boca pela dor.

Fez questão de verificar os arredores e, especialmente, o pente em sua Ruger, antes de travar uma batalha árdua com a porta amassada do motorista. Sasuke a forçou até conseguir abri-la e em seguida escorregou para fora do veículo, ignorando o errante solitário esviscerado sobre o capô destruído.

Temari o seguiu um pouco depois, ainda estancando o sangue que fluía do corte na lateral da sua cabeça; sua H&K MP5 descansava rente ao seu quadril com a alça de fibra trespassada no ombro direito. Ela contornou a traseira do Toyota, manquejando levemente, a fim de se reunir com Sasuke.

A nevada crescia exponencialmente à medida que a noite se acercava, inexorável. No céu, já escuro, um aglomerado de nuvens anunciava terminantemente a temível e já aguardada chegada do inverno. Rajadas violentas de vento açoitavam os galhos do bordo raquítico no qual o Toyota havia arrebentado o para-choque dianteiro mais cedo, desfolhando seus galhos finos e quebradiços.

Sasuke levantou o olhar para a borda superior do barranco, trinta, trinta e três metros acima do ponto onde estavam, e amargurou antecipadamente o árduo percurso que teriam de fazer se quisessem retornar à estrada e, posteriormente, ao acampamento quinze quilômetros adiante.

Pela visão periférica, viu Temari tentar fazer contato com um dos irmãos, mas em vão. Na frequência do walkie-talkie, havia apenas um chiado desolador e ressentido.

— Vamos começar a subir — ele anunciou por cima do assobio primal do vento, estremecendo dentro da jaqueta de couro e do suéter de lã; seus dedos estavam dormentes mais uma vez devido ao frio devastador.

Temari anuiu a contragosto, roçou a mão na submetralhadora apoiada na curva do seu quadril e devolveu o walkie-talkie ao cinto, fazendo questão de manter o canal aberto, por via das dúvidas. Só para o caso de Kankuro ou Gaara tentarem fazer contato, eventualmente. Ela não vocalizava (recusava-se a fazê-lo), mas temia pela vida dos irmãos.

Com dificuldade, ambos se acercaram do aclive uliginoso, das pedras pontiagudas cobertas de limo e neve que se tornavam duplamente escorregadias e ameaçadoras. Sasuke foi à frente, firmando o solado dos seus coturnos na lama traiçoeira ao passo que estendia a mão para Temari, auxiliando-a no terreno íngreme e fatalmente instável.

Apoiando-se com as mãos nuas em fragas ásperas e raízes velhas expostas de vegetações rasteiras que esfolavam suas palmas e dedos, Sasuke e Temari progrediam lentamente, desviando-se de percalços impertinentes como um troco de árvore apodrecido ou um regato que tornava o terreno ainda mais inconstante, umedecendo a terra arenosa e tornando-a quase um charco malcheiroso.

A lama já se infiltrava nos seus coturnos e molhava suas meias, dificultando tanto a escalada quanto congelando seus pés e deixando os dedos dormentes, mas Sasuke persistiu, instigando Temari a acompanhar seu ritmo constante, mesmo com a dor em seus braços e pernas.

Quando enfim emergiram no acostamento da autoestrada, agarrando-se às barras de contenção e usando-as para içar o corpo para cima, ambos desabaram no asfalto parcialmente congelado, só então parando para reaver o fôlego e as forças perdidas. As palmas de ambos estavam esfoladas e sensíveis.

A autoestrada estava vazia e incomumente silenciosa; através do véu de gelo que se intensificava ao redor deles, via-se um errante desgarrado aqui e outro acolá, vagando a esmo pela pista deserta, mas exceto por eles, não havia mais ninguém.

— Vamos em frente — Sasuke declarou peremptório, não deixando espaço para quaisquer questionamentos.

Preparando suas armas, eles marcharam adiante, através da nevasca violenta que fustigava agora toda a região de Kansai. O vento mordiscava suas faces e suas vestimentas, testando a resistência de ambos enquanto soprava na direção oposta, retardando seus avanços passo por passo.

— Sasuke! — Temari o chamou em determinado ponto, forçando a voz a soar mais alta do que as rajadas furiosas de vento; seu cabelo chicoteava os olhos, diminuindo seu campo de visão já limitado. — Isso é suicídio! Temos que nos abrigar e esperar a tempestade passar!

— De jeito nenhum! — ele decretou com firmeza e raiva, cerrando os dentes que batiam violentamente.

— Não temos escolha! — devolveu, retraindo-se quando Sasuke, com um gesto inesperado, puxou sua Ruger do coldre axilar sob a jaqueta e a apontou para um ponto distante além da cabeça de Temari.

Ela até pensou em reagir, levando os dedos imediatamente à MP5 atrelada ao seu ombro, mas se encolheu ao ouvir o trovejar portentoso do disparo da arma, cerrando os olhos involuntariamente e reabrindo-os quando se descobriu intacta, incólume.

Temari girou o corpo abruptamente para trás a tempo de ver o imenso errante desabar no asfalto sobre as pernas esquálidas como um prédio implodido, o projétil disparado por Sasuke alojado bem entre os seus olhos que luziam pouco mais do que duas moedas sujas.

Arfando, ela tentou vocalizar um agradecimento por ele haver salvado a sua vida, mas quando se virou para ele novamente, Sasuke já seguia adiante outra vez, as passadas apertadas e dificultosas devido à ventana incessante.

— Sasuke, espera! — ela bradou agudamente acima do rugido do vento, correndo a fim de alcançá-lo.

— Vamos achar um carro e tentar encontrá-los — ouviu-o conclamar contra o vento, o cabelo negro encobria-lhe os olhos, ocultava-lhe as feições; tornava-o um enigma.

— Certo — anuiu, mas não com certa parcela de relutância: seguir a pé através daquela nevasca ainda lhe parecia uma má ideia, especialmente porque a escuridão e toda aquela neve mal lhe permitia enxergar um palmo diante do rosto.

Eles vagaram às cegas pela pista por cerca de uma hora sem incidentes maiores antes de trombarem com um clarão inesperado que provinha de cerca de quinze, dezesseis metros adiante, no centro da pista. Decidiram aproximar-se cautelosamente, as armas carregadas e prontas para disparar.

O facho de luz âmbar ardia contra a escuridão densa do ocaso e havia atraído inúmeros errantes curiosos que gemiam e se arrastavam em torno do estranho foco de luminescência durante a nevasca violenta.

Sasuke, agachado atrás da carcaça chamuscada de um automóvel irreconhecível, sinalizou para Temari, cerrando o punho e mandando-a aguardar seu comando. Ele emergiu de trás da carroceria consumida pelo fogo e abateu o primeiro errante — o mais próximo dele, à sua esquerda — com um disparo que perfurou o lobo occipital do morto-vivo; o projétil saiu pela testa, lançando borrifos de sangue arterial no ar enregelante e invernal enquanto o errante apagava no mesmo instante.

Os demais, atraídos e atiçados pelo som do disparo solitário, viraram-se lentamente para a origem do som, abrindo e fechando suas bocas apodrecidas e emitindo um gemido uníssono que se assemelhava ao zumbido de um enxame enfurecido.

Sasuke abateu o segundo errante, uma mulher com cabelos de medusa, antes de sinalizar para que Temari se unisse a ele no confronto. Ela ergueu-se de trás da mesma carroceria, em posse da sua Heckler & Koch, e imediatamente disparou uma saraivada de tiros contra a pequena horda, com tiros perfeitos que explodiam seus crânios, criando uma chuva de sangue coagulado e material encefálico e enviando-os ao chão num silêncio opressor.

Eles se acercaram do misterioso foco de luz flamejante passo por passo, abatendo os mortos-vivos no percurso, trabalhando em equipe, um cobrindo a retaguarda do outro enquanto espirais de gelo rodopiavam em torno deles num vórtice negro e desesperador.

Quando o último deles foi ao chão, Temari mais que depressa substituiu o último pente disponível em sua submetralhadora, encaixando-o e liberando a trava de segurança. Sasuke conferiu sua Ruger também e lamentou no seu íntimo as últimas cinco balas.

Os dois se entreolharam e, juntos, avançaram rumo ao estranho clarão que iluminava mais da metade da autoestrada; conforme se aproximavam, sentiam ondas de calor intensas chocando-se contra a pele das suas faces enquanto as luzes douradas, pouco a pouco, denotavam também o alaranjado vibrante do fogo.

Com um choque, eles reconheceram o imenso veículo militar Army-M939 engolido pelas chamas de um incêndio implacável, ardendo sob línguas de fogo tão densas quanto colunas chamejantes.

Temari manteve os olhos bem abertos e a MP5 diante do corpo, embora dentro dela um desespero crescente começasse a tomar forma, um medo emudecedor que fraquejava suas pernas e retardava seus passos.

Sasuke cerrou os dentes quando, delineado pelas línguas de fogo, uma figura solitária emergiu de trás do caminhão: o último errante, o mais conservado de todos os que haviam sido abatidos apenas segundos antes, recém-chegado ao mundo dos mortos.

Ele se aproximou cambaleante, com passadas arrastadas e trôpegas, como se a porção pequena e ativa do seu cérebro morto ainda tivesse dificuldades em coordenar seus membros que já haviam iniciado o processo de decomposição.

Temari soltou um grito quando reconheceu os trajes do errante, sua compleição ainda aparente no rosto macilento e drenado de vigor; os olhos outrora castanhos agora eram pálidos, envoltos em uma camada mucosa, mas por trás deles uma estranha luz resplandecia: o instinto da fome, insaciável naquelas criaturas.

— KANKURO!

Sasuke anteviu o desastre e se lançou sobre a mulher a tempo de detê-la: passou os braços em torno da cintura dela, agarrando-a e parando-a antes que ela pudesse correr até o morto-vivo que até poucas horas atrás havia sido seu irmão mais velho boca suja e atrevido.

— NÃO! — ela bradou, debatendo-se contra o agarre de Sasuke no ímpeto insano de se libertar e correr até o irmão, mas ele apertou seu enlace e a manteve sob o seu domínio. — ME SOLTA, SASUKE! PORRA!

— Será pior para você se fizer isso — advertiu-a com um tom áspero, rouco. — Acredite em mim, eu sei como é, sei como é sentir isso na pele... E será muito pior se você for até ele.

Ao fim de seu discurso, ela rendeu-se, parou de se debater e perdeu as forças para permanecer em pé, desabando no asfalto e escondendo o rosto de Sasuke. Logo, os soluços e gemidos dela fizeram-se audíveis.

— Me deixa cuidar disso — Sasuke sussurrou e a empatia em sua voz era notória, mas, infelizmente, só fez Temari se sentir ainda mais incapacitada.

Sasuke se aproximou do errante familiar com passadas lentas, cadenciadas. A coisa que até agora pouco havia sido Kankuro abriu a boca para rosnar baixinho para ele; não houve o menor traço de reconhecimento em seu rosto macilento.

Resfolegando em meio à tempestade implacável de gelo, Sasuke puxou sua Ruger e a apontou diretamente para o centro da testa da criatura. Seu dedo pressionou levemente o gatilho, como uma carícia íntima, antes de puxá-lo de vez.

O trovejar da arma sobressaltou Temari, que se encolheu em seguida ao som úmido do corpo desabando na pista. Ela passou os braços em torno das pernas e se balançou para frente e para trás de leve, cingida pelo seu luto.

Sasuke deu a volta no caminhão em chamas em buscas de pistas, mas não havia mais nada que delatasse o paradeiro de Gaara, do biomédico Kabuto ou dos outros homens que o haviam sequestrado. Ele voltou ao corpo caído de Kankuro no asfalto e o analisou clinicamente para levantar as hipóteses da sua morte.

Abaixou-se e tocou o corpo com a palma da mão: ainda estava morno, isso significava que a transformação havia acontecido não tinha muito tempo. Não havia marcas de mordidas nem lacerações, o que significava que ele não havia sido morto por outro errante, mas sim por outra pessoa.

Ele correu os olhos pelas roupas de Kankuro, afastou a jaqueta e lá encontrou uma imensa mancha de sangue na camiseta branca, na lateral do abdome. Sasuke levantou a camisa e descobriu a perfuração profunda, o sangue que secara e encrostara nas bordas grossas do ferimento e concluiu sua perícia: ele havia sido esfaqueado e sangrou até a morte antes de despertar como um morto.

Mas agora, observando seu rosto mais cuidadosamente, Sasuke também notou pequenas deformações nos lábios do cadáver, um olho estava mais inchado do que o outro e equimoses decoravam a pele macilenta aqui e acolá.

Ele havia sido espancado e torturado antes de ser descartado, concluiu com um nó na garganta.

— Temos que voltar ao acampamento — declarou com urgência, levantando-se e indo até Temari que ainda pranteava o irmão mais velho.

— Por quê? — ela inquiriu entre um soluço sofrido e outro, estremecendo sob o vento.

— Porque acho que eles levaram seu irmão mais novo como refém.

— Gaara? — Seu tom de voz fraquejou à menção do nome do irmão caçula e uma esperança diminuta se acendeu em seu peito ante a possibilidade de ele estar vivo. — Por que você acha que eles o levaram?

Sasuke expirou o ar lentamente, seu próprio cerne estremecia com a mera possibilidade das suas suspeitas terem uma mínima parcela de fundamento e não se tratarem, no fim, de mais do que suas próprias especulações.

— Fora o fato de ele não estar aqui? — ele indagou com retórica. — Kankuro foi espancado e torturado antes de morrer para fornecer informações valiosas.

— Que tipo de informações valiosas?

Temari se sentia zonza, nauseada. O luto lhe pesava os ombros tanto quanto a atordoava, física e emocionalmente.

— A localização do nosso acampamento.

Ao ouvir isso, ela se pôs de pé num salto; as pupilas escuras estavam dilatadas, mas a cor fugira do seu rosto.

— Shikamaru — ela sussurrou o nome do amante antes de entrar em uma espécie de frenesi violento de adrenalina. — Então o que estamos esperando, porra?!

Sem aguardar por uma réplica de Sasuke, ela se lançou adiante, adentrando o olho da tempestade. Ele desacreditou só por um instante na mudança abrupta de postura dela, mas, movido por um desespero latejante que atormentava seu ser e envolvia seu propósito de manter Sakura e o bebê a salvo, a seguiu sem mais contestações.

Juntos, eles desbravaram a estrada tomada pela neve e pelo gelo. Tinham em mente apenas um objetivo claro: manter aqueles que amavam fora de perigo.

* * *

Quando voltaram ao acampamento, a nevada já havia progredido para uma nevasca violenta e todos os militantes haviam tomado providências para sobreviverem à intempérie invernal.

Uma imensa tenda foi armada no centro do descampado, com alicerces firmes de toras bem fixas ao chão e uma lona bem reforçada. Lá dentro, fogueiras foram acesas e as pessoas se encolhiam em volta delas para suportarem o frio.

As cólicas de Sakura haviam piorado na última hora e evoluído para uma dor constante e crescente que lhe provocava espasmos. Ela ocultou seu real estado de saúde de Shikamaru, embora suspeitasse que ele ao menos intuísse que havia algo errado com ela.

Assim que ela estacionou o jipe militar no gramado, alegou precisar pegar algo em sua barraca antes de se reunir aos demais na tenda armada no centro do acampamento. Uma desculpa esdruxula, na verdade, mas ela precisava de um tempo sozinha.

Ela se enfiou na barraca que dividia com Sasuke, que estava sendo cruelmente castigada pelo vento e subiu o zíper. Uma vez lá dentro, vasculhou sua mochila em busca de um absorvente e o colocou mesmo na escuridão parcial para conter seu sangramento. Não havia nada que pudesse fazer, disse a si mesma, lutando contra a umidade incômoda nos olhos e enxugando o nariz. Reuniu coragem para se juntar aos demais antes que Shikamaru começasse a estranhar sua demora.

Atravessou o gramado que se cobria sob uma manta úmida de neve e adentrou a tenda sem cerimônias, colocando um sorriso tão quebradiço no rosto quanto o granizo que caía lá fora, um que mal lhe chegava aos olhos.

Lá dentro, as pessoas compartilhavam tigelas com um ensopado ralo, feito à base de alguns enlatados estocados e restos da caça que Temari e ela haviam trazido no dia anterior.

Sakura não recusou a refeição porque, embora estivesse sendo castigada pelas cólicas, sabia que precisaria de forças para sobreviver aos próximos dias — isso se o fizesse. Se ela realmente estivesse abortando, então teria de torcer para que o seu corpo expurgasse todo o tecido do feto, caso contrário ela teria graves complicações à frente como uma possível infecção.

Ela nem percebeu quando sua perna direita começou a se agitar em um velho tique nervoso; as mãos que seguravam a tigela com o ensopado tremiam levemente e isso certamente passaria despercebido a outros olhos, mas não a Shikamaru.

— Está tudo bem com você? — ele se achegou para mais perto, ainda assim respeitando seu espaço pessoal, e por isso Sakura o agradeceu.

— S-sim — ela balbuciou sem um pingo de convicção e se seu comportamento instável ainda não a havia delatado para Shikamaru, seu sorriso frágil havia acabado de fazê-lo.

O homem suspirou e passou a mão no cabelo. Distraindo-se, Sakura passou a observar uma mulher de meia idade alimentar seu bebê com o ensopado. Nesse mesmo instante, seu abdome se contraiu novamente, levando-a a se encolher para disfarçar outro espasmo sofrido.

— Olha — Shikamaru voltou o corpo completamente para ela, demandando sua atenção, tirando-a da mulher e seu bebê (para o seu alívio). — Se não quiser me contar o que está havendo, eu vou entender... É sério — ele a fitou com uma franqueza constrangedora. — Mas eu preciso que me diga com convicção se vai ficar bem.

— Eu vou — ela respondeu mecanicamente, anuindo frenética.

Shikamaru soergueu uma única sobrancelha para demonstrar certa incredulidade, mas, no fim, suspirou e decidiu parar de pressioná-la. Ele não havia deixado de reparar, como bom observador que era, na postura frágil que Sakura havia adotado desde que saíram do Shopping Center abandonado em Fujiidera.

Mas ele também sabia que pressioná-la não a faria lhe contar o que estava havendo; teria de acreditar na palavra de Sakura de que ficaria bem, eventualmente.

Então, ele lhe deu o espaço necessário e decidiu respeitar a decisão dela. Por isso, não se manifestou quando ela lhe disse que precisava ficar sozinha um pouco para pensar.

A nevasca agora cobria toda a região de Kansai e avançava impiedosamente em direção ao centro-oeste de Honshu, preparando-se para colidir a qualquer momento com a costa japonesa devastada.

As rajadas de vento vergastavam a imensa lona da tenda implacavelmente, chicoteando as amarras bem apertadas, uivando feito um coiote faminto à espreita na escuridão vertente da noite.

Os militantes acreditavam com convicção estarem a salvo da intempérie inclemente, e de fato estavam. Mas não estavam a salvo do inimigo que rastejava a surdina, sob a tempestade de gelo brutal, em silêncio.

Devido à visibilidade nula, eles não foram capazes de vê-los, os cadáveres ambulantes em diferentes estágios de decomposição que marchavam floresta adentro em direção ao perímetro do acampamento, até que estes já tivessem se infiltrado no território fortificado.

Nenhum deles foi capaz de antever a chegada dos mortos até que fosse tarde demais.

A primeira vítima, um homem corpulento que vigiava o perímetro ao norte do acampamento, cuidando das cercas com sua AK74, foi abatida em cerca de segundos quando um imenso errante do sexo masculino vestindo trajes militares saltou da escuridão e caiu com os dentes apodrecidos sobre a sua jugular, rasgando a sua garganta com a dedicação de um cão selvagem esfomeado; ele engoliu cada grito do homem enquanto este sufocava com o próprio sangue que lhe brotava da boca e, em seguida, mais errantes se uniram ao primeiro para o frenesi gastronômico.

Os mortos avançaram sobre as cercas como gafanhotos sobre uma plantação; amontoaram-se e em questão de segundos ultrapassaram a barreira frágil de arame farpado. Alguns perderam partes podres de seus corpos nelas, mas não se ativeram a isso, levantando-se do solo coberto de neve e marchando em direção à tenda, ocultos sob uma cortina densa de gelo e negror.

Dentro da tenda, protegidos da nevasca, os militantes ainda não haviam se dado conta da marcha lenta da Morte — e não o fariam até que fosse tarde demais.

O primeiro errante a invadir a tenda foi uma mulher mirrada de feições carcomidas e cabelos oleosos e ralos rareando seu couro cabeludo esfolado; ela tropeçou e foi ao chão, gemendo roucamente, os olhos pregados nas pessoas que ainda não haviam notado a sua presença.

A mulher se arrastou pelo chão com uma determinação mortífera e agarrou a sua primeira vítima, um adolescente que estava de costas para a entrada da tenda e, portanto, alheio à invasão dos mortos. Ele notou a presença da mulher tarde demais quando as mãos delas, ossudas e mirradas, agarraram seu tornozelo esquerdo em um aperto férreo; meio segundo depois os dentes podres da criatura se afundavam na sua panturrilha, penetrando o brim de sua calça e causando uma dor excruciante enquanto a mulher retraía o maxilar para arrancar um pedaço da musculatura.

O grito de dor do garoto cessou as conversações e durante um microssegundo um silêncio sepulcral recaiu sobre a tenda, logo dando lugar a exclamações de perplexidade e gritos de pavor.

Um homem de meia idade, meio calvo, puxou sua pistola do paletó surrado e acertou a cabeça da criatura certeiramente, pondo fim ao suplício do garoto que tombou no chão devido à dor, agarrado à perna ferida.

Nesse mesmo instante, cerca de meia dúzia de errantes irromperam pela entrada da tenda em fila única e caíram sobre as pessoas mais próximas a ela, cravando seus dentes podres em qualquer pedaço de pele exposto ou não.

Mais gritos soaram na noite tempestuosa enquanto Sakura e Shikamaru, mais ao fundo da tenda, se levantaram, ela com sua Glock preparada, ele apoiado em suas muletas e atento ao que estava havendo.

Outros errantes se juntaram ao morticínio enquanto isso, lançando-se contra a lona da tenda, agarrando o tecido e procurando rompê-lo com as mãos ossudas feito garras. Como não obtinham êxito, lançavam-se ao chão, rastejando sob a borda da tenda.

— VEM COMIGO! — Sakura berrou para Shikamaru acima do coro de gritos estridentes e dos gemidos de pavor.

Ela retirou a faca de caça de Sasuke da bainha em sua cintura e usou-a para abrir um rasgo na lona. Também estourou o crânio do primeiro errante bem ali quando ele surgiu da escuridão uivadora da noite bem na sua frente.

O vento a atingiu no mesmo instante em que ela abandonou a tenda, vergastando seu cabelo nos olhos e quase detendo os seus avanços, já retardados pela neve que cobria o chão.

Sakura abateu mais dois errantes com uma precisão infalível, mesmo em meio ao vórtice de gelo que ameaçava engoli-la por inteiro.

— SAKURA, AQUI! — Shikamaru berrou às suas costas e ela se virou a tempo de apanhar a pistola que ele retirara do coldre axilar que usava e lhe lançara: uma impressionante Magnum Research Desert Eagle prateada.

Sua mão esquerda se fechou em torno da arma com uma espécie de sentimento de conforto, segurança, seu punho direito ainda se ocupava com a Glock, mirando e disparando, acertando cabeça atrás de cabeça como se alvos estivessem pintados nos topos dos seus crânios podres.

Os errantes surgiam tanto pela direita como pela esquerda, flanqueando-os numa velocidade assustadora, mas Sakura também era rápida em abatê-los e, com isso, abrir espaço para que ela e Shikamaru atravessassem o descampado coberto de neve.

Mais tiros ecoavam noite adentro, reverberando ao fundo da sinfonia macabra de uma tempestade furiosa que rugia para eles, por pouco não debochando dos seus esforços débeis para sobreviverem.

— TEMOS QUE CHEGAR ATÉ O JIPE... E RÁPIDO! — Sakura gritou por cima do uivo do vento e dos sons de tiros enquanto um Shikamaru já cansado avançava com dificuldades atrás dela, ofegando devido à neve estar retardando seu progresso com as muletas.

Sakura mirou a Desert Eagle no crânio de uma errante estorricada com cabelos que serpenteavam em torno do seu rosto morto como tentáculos e puxou o gatilho, sentindo no tutano dos seus ossos o ricochete portentoso, o som da trovoada que ecoou além da tempestade, suplantando, por um tempo, o vento gemebundo. A cabeça da mulher explodiu numa chuva de sangue arterial e massa encefálica que sacramentou a neve alva, tingindo-a de uma tonalidade opaca de carmesim e preto.

A garota também se certificava de verificar a cada minuto se Shikamaru continuava atrás dela, ainda que cansado — tudo o que o mantinha em pé aquela altura, prosseguindo em meio à tempestade voraz, era seu desejo ardente de se reunir a Temari, mantê-la a salvo.

Eles estavam a cerca de vinte metros do Jipe Land Cruiser quando um som característico deteve tanto Sakura quanto Shikamaru, um som impossível de ser ignorado, mesmo em meio à tempestade de gelo: o ronco potente do motor de um caminhão.

Sakura já havia abatido a maior parte dos errantes que se colocara no caminho dos dois e os demais se dispersavam em busca de outras vítimas, atordoados pelo som do caminhão que se aproximava em alta velocidade.

Quando eles avistaram os fachos de luz dos faróis do caminhão já era tarde demais e ele irrompia no descampado, arrebentando o portão de ferro vermelho do acampamento com seus imensos para-choques dianteiros, provocando um estrondo tão ensurdecedor que até mesmo os mortos foram atraídos pela comoção.

Sakura viu o imenso caminhão militar coreano KM500 invadir o acampamento um pouco antes de o motorista estacioná-lo no meio do descampado, os faróis ainda acesos; homens vestindo fardas militares e portando armamentos pesados desceram da caçamba então, pousando na neve coberta de fluídos dos errantes, e de imediato abriram fogo contra tudo o que se movia na escuridão.

Estivesse morto ou estivesse vivo.

* * *

Na sua cabeça eles ainda lutam

Com seus tanques e bombas

E seus ossos e armas.

Na sua cabeça...

Na sua cabeça eles morrem.

The Cranberries — Trecho de Zombie.

Notas finais
Me indicaram essa música faz um tempinho, mas eu não consigo lembrar quem (Hahaha), então, obrigada pela indicação =) ... RIP Kankuro =( Tenham a certeza que ele morreu para manter o Gaara vivo, é só isso que eu posso garantir. E sim, nós teremos mais mortes por aqui. Eu só não tô pior que o Kirkman porque esse aí matou Tyreese no episódio 09 e matou o Noah no episódio 14 e eu chorei horrores na morte dos dois T-T ... Enfim, dessa vez minha demora tem justificativa. Para quem curtiu minha página sabe que eu comecei a trabalhar mês passado e minha vida virou de ponta cabeça HAHAHAHA Eu vou continuar por aqui, mas vou aparecer com menos frequência D: ... Souberam das novidades da Novel da Sakura? *-* Já viram a capa e leram a sinopse e o prólogo? *-* E eu achando que a minha Deusa Sakura Haruno UCHIHA não podia me dar mais orgulho e mais motivos pra admirá-la. Chorem, Haters :3 Minha musa abriu um hospital infantil em Konoha pra cuidar das crianças que ficaram órfãs na guerra! E ela sambou no prólogo, mostrando que sabe a importância dos "Obrigados" do Sasuke e ela totalmente considerou o poke na testa como um gesto afetivo/romântico. Só Haters com suas imbecilidades pra negar o óbvio mesmo XD Até porque quem conhece a personalidade do Sasuke no mangá sabe que o obrigado dele = Eu te amo e somado ao poke = Expressão máxima do amor.... Preciso dizer mais alguma coisa??? ... Só lamento pela burrice desses Haters em continuar negando que o Sasuke sempre amou e ama SOMENTE a Sakura HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA ... Enfim, domingo teremos o season finale de TWD e eu tô apreensiva. Já apostei minhas fichas e acho que podemos nos despedir de dois personagens. E vocês, o que acham que vai rolar no último episódio DE NOVENTA MINUTOS domingo? T-T ... Obrigada a todos que comentaram. Alguns leitores sumiram e eu acabei desanimando um pouco, mas espero que eles retornem nos próximos capítulos com os acontecimentos que nos aguardam aqui. NÃO DEIXEM DE COMENTAR, ok? ;D ... Até o próximo.