Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

41 Capítulo XL: Réquiem para um Sonho


Notas iniciais
Quadragésimo capítulo dedicado à Gissely pela linda recomendação. Obrigada mesmo! *-* ... Boa leitura!

Dead World Assembly

“Por um momento, tudo o que consegue divisar é o imenso desfiladeiro de arranha-céus e muitos quarteirões de asfalto cheios de lixo. Mas logo percebe que o que está vendo é o retrato da natureza-morta de uma cidade desolada que começa a se transformar rapidamente num organismo gigante, que reage à invasão de uma bactéria estrangeira. O que Brian vê pelo vidro escuro do carro é tão tenebroso que ele começa a mexer a boca sem dizer nada”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 107).

Capítulo XL:

Réquiem para um Sonho

Um silêncio sepulcral cai sobre o veio central de uma Kyoto agonizante, que sucumbira semanas atrás a um incêndio de proporções colossais. Os edifícios, templos e castelos agora não passam de esqueletos frágeis enegrecidos pelo fogo.

A nevada gradativamente transforma-se em uma nevasca violenta, deixa os poucos errantes — sobreviventes das chamas — que se arrastam pelas ruas ladeirentas e chamuscadas da cidade atiçados, irritadiços.

Imperceptivelmente, o padrão de comportamento — impossível de ser previsto — dos mortos-vivos altera-se uma vez mais. Os pulsos elétricos nos tecidos mortos de seus cérebros impulsionam os cadáveres rumo à parte mais baixa da cidade, atraindo-os como mariposas seduzidas pela promessa leviana de uma flâmula.

Em diferentes estados de decomposição, alguns apenas superficialmente afetados pelo fogo, já outros profundamente atingidos pelas chamas, eles marcham como um cortejo fúnebre macabro.

Seu coro de gemidos é suplantado pelo lamento do próprio vento glacial, que camufla sua chegada até que seja tarde demais.

Junto dos errantes, ainda mais imperceptível e perigoso, algo mais espreita, deslocando-se com cautela extrema.

Tanto a horda chamuscada quanto este outro inimigo, indefinidamente mais letal e ardiloso, esgueiram-se em direção ao Hotel Okura no mesmo compasso ordenado, motivados pela mesma paciência recompensadora. Ambos têm em mente um mesmo objetivo, de forma que se solidarizam uns com os outros.

Este mesmo escopo convergente fica claro à medida que a horda cresce em número e tamanho, arrastando-se feito um animal moribundo, pulsando como uma enorme ferida purulenta: a completa aniquilação de tudo o que estiver no seu caminho.

No terraço do Hotel Okura, os três homens entreolham-se fixamente: dois deles com desconfiança, o último com um cinismo enervante. Kabuto mantém uma postura relaxada e confiante, mesmo que tenha duas armas apontadas para a sua face, uma Ruger SR1911 9mm e uma Taurus .380.

— O quê? Não acreditam em mim? — Um falso desapontamento toma-lhe as compleições antes viperinas; o brilho sagaz de seus olhos escuros, ocultos pelas lentes grossas dos óculos não encobrem o orgulho ferido do gênio. — Eu realmente pesquisei e desenvolvi a cura, não sozinho, é claro. Tive o auxílio de um geneticista renomado, embora ele não esteja mais entre nós para reclamar os seus devidos créditos pelo nosso pequeno milagre.

Kabuto suspira no frio enregelante da nevasca que já toma forma. O vento ríspido fustiga seu cabelo, cobrindo-lhe os olhos cheios de malícia. Ele encara ambos os homens parados diante dele: um ruivo carrancudo de sobrancelhas tão claras que chegavam quase a ser invisíveis, mas vivem enviesadas, pesando-lhe o olhar verde-mar; já o outro é um moreno de postura arrogante e humor tão azedo quanto o do parceiro.

— Francamente, eu estou congelando até os ossos aqui em cima. Que tal se nós entrássemos e eu lhes mostrasse as minhas humildes instalações?

— Não se mova — Gaara ordena através de um muxoxo, aproximando-se a passos comedidos do biomédico suspeito, a mão firme em torno da Taurus.

Kabuto nota o propósito de sua abordagem e torna a erguer ambas as mãos enluvadas, permitindo que o ruivo o revistasse devidamente. Ele sorri cinicamente para Sasuke que não treme sua mira em momento algum enquanto a mão livre do ruivo infiltra-se em suas vestimentas à procura de qualquer espécie de arma — de fogo ou branca.

Nesse mesmo instante, Kankuro e Temari irrompem no terraço do hotel, a porta de metal causa um clangor desconfortável e desnecessário quando se abre em um rompante, e suas dobradiças enferrujadas guincham como um animal agonizando. Kabuto olha os outros dois apenas de relance, desinteressado, antes de Gaara liberá-lo, empurrando-o para frente e apontando a Taurus carregada e destravada contra as costas do biomédico:

— Você vai à frente e é bom não testar a minha paciência.

O biomédico dá de ombros e toma a liberdade de guiar o pequeno grupo de volta para o interior do hotel. Sasuke é o último a deixar o terraço coberto de neve, encostando a velha porta de metal que tremula ao vento. Não demora a alcançar os outros que foram conduzidos até um dos quartos do hotel abandonado, ainda no último andar.

O carpete de veludo do corredor abafa as passadas de todos e as paredes grossas, poupadas pelas chamas insaciáveis do incêndio de dias atrás, protegem-nos das rajadas glaciais de vento. Eles espanam a neve do cabelo e dos casacos e invadem um antigo quarto de hotel que ainda conserva alguns requintes luxuosos.

— Bem-vindos ao meu não tão humilde lar dos últimos sete dias — Kabuto acena para algumas cadeiras estofadas com espaldas de mogno.

O quarto está suficientemente arejado, embora a mobília e as cortinas cheirem levemente a mofo. Afora alguns quadros dependurados nas paredes e um vaso de cristal com algumas peônias murchas à cabeceira da cama, o quarto carece de objetos decorativos.

Kabuto se encaminha até uma mesa de bebidas e de lá retira uma garrafa meio cheia de uísque; o líquido âmbar faísca quando ele a balança suavemente com um floreio do pulso.

— Aposto que estão curiosos a respeito da minha história e essa porra toda, não é?

Sem demais preâmbulos, o seu corpo desaba no colchão king size, coberto com lençóis de percais que de brancos passaram para amarelos. A julgar pela desordem, ele vem dormindo ali há várias noites.

Kabuto destampa a garrafa de vidro e cheira experimentalmente seu conteúdo.

— Nós saímos de uma base instalada no que restou da cidade de Fukuoka, em Kyushu, há aproximadamente duas semanas, com destino à última base militar remanescente na ilha Kunashir, a oeste de Hokkaido — começa ele e, em seguida, entorna o uísque sem quaisquer arrependimentos, enxugando a boca com as costas da mão.

— Kunashir? — Gaara ecoa o nome, aturdido. Ele permanece de pé, desconfortável demais para se acomodar em uma das cadeiras. — Kunashir é território dos russos desde o fim da guerra.

Kabuto sorri com malícia para o mais jovem dos homens.

— Não acho que os russos estejam em posição de nos recusar um pedido de abrigo, especialmente se considerarmos o quê eu estou carregando. — Kabuto pontua persuasivo, viperino. — Há uma base militar lá, equipada com suprimentos, armas, munição, medicamentos e toda a porra que você puder imaginar. Infelizmente, o helicóptero que me levaria até lá sofreu uma pane enquanto sobrevoávamos Kansai e tivemos de fazer um pouso forçado em Kyoto.

Ele suspira, quase como se lamentasse os eventos que ocorreram conseguintemente:

— Os membros da unidade responsável por me transportar e me proteger que não morreram durante o pouso pereceram nos dias seguintes pelos mortos-vivos. — Kabuto ajeita a armação dos óculos que escorrega do seu nariz.

Então, gesticula para si mesmo, para as roupas surradas e para os seus coturnos de cadarços desamarrados.

— Como podem ver, não posso exatamente chegar sozinho à base de Kunashir. Antes dos idiotas morrerem, eles contataram um esquadrão remanescente que se estabeleceu nas redondezas de Shizuoka, eles possuem um helicóptero que ainda pode voar e estão esperando por mim lá.

— Então, você quer que nós o levemos à Shizuoka? — Sasuke conjecturou, mirando o homem e seu sorriso irritantemente cínico. Tinha, ao menos, de admitir que ele era honesto.

— Esse é o plano. Se conseguirem me levar até lá, poderei salvar o que ainda resta da porra da humanidade. Cacete, eu posso até mesmo conseguir um passe livre para vocês em Kunashir! Pensem só: uma ilha ocupada em sua maioria por militares, banhada pelo mar de todos os lados, sem os malditos filhos da puta dos mortos-vivos para te fazerem borrar as calças à noite e chorarem como bebezinhos.

— Beleza, e onde está a cura? — Kankuro se manifestou pela primeira vez desde que entrara no recinto; seu rosto estava vermelho e levemente porejado de suor devido ao cômodo abafado.

Kabuto curvou a fronte a fim de gargalhar baixinho. Então, tomou outro gole do uísque faiscante e lambeu os lábios úmidos pela bebida num gesto lento.

— Acha mesmo que eu seria tolo de deixar algo tão valioso ao alcance de qualquer merdinha? É claro que eu escondi o pacote, e o escondi muito bem, modéstia à parte. Aliás, não estou reconhecendo entre vocês o homem com quem negociei pelo rádio — ele ergueu as sobrancelhas grisalhas de modo inquisitivo.

— Shikamaru não pôde vir conosco, mas está nos aguardando no acampamento. — O mais velho dos irmãos o respondeu impaciente.

— Certo — Kabuto murmurou com derrotismo e com um floreio do pulso atirou a garrafa de uísque contra a parede; ela se estilhaçou em um milhão de pedacinhos, o uísque escorreu pelo papel de parede com padrões florais.

— Podemos avançar para a parte que realmente interessa? — Temari os apressou, cerrando os dentes e mirando incisivamente o homem esparramado sobre o colchão king size. — Essa cidade me dá calafrios e o tempo lá fora está piorando.

— Vocês não podem ir a lugar algum com essa nevasca — o biomédico pontuou com uma calma insultante. — E eu ainda não decidi se devo confiar em vocês.

— Somos tudo o que você tem, doutor — Kankuro o rebateu, um pouco mais calmo do que a irmã, mas igualmente abespinhado pela atitude mesquinha do homem. — Somos a sua única chance de sair daqui com vida e, quem sabe, chegar à Kunashir.

— São mesmo? — Kabuto se levantou de súbito, empertigado, a espinha ereta como a de um predador atiçado, pronto para a caça. — Como posso ter certeza de que não me apunhalarão pelas costas na primeira oportunidade? Como vou saber se não tentarão colocar as mãos na cura assim que eu me virar ou me distrair?

Sasuke cerrou os dentes e dardejou olhares homicidas ao homenzinho petulante. No entanto, foi Temari quem diplomaciou toda a situação, retrogradando-a para uma negociação reverente.

— Você é a última chance da humanidade, não é? É o único que conhece e pode produzir a cura. Não seríamos imbecis a esse ponto — ela cuspiu a última sentença com um ultraje palpável. — Todos nós queremos a porra das coisas como elas eram e pode ter certeza de que daríamos as nossas vidas por isso.

Kabuto sorriu viperino para a mulher, ela parecia ser a mais sensata do grupo e a mais confiável, aparentemente.

— Já que você expõe os fatos a partir desse prisma, acho que não posso discordar.

— Então vamos cair fora daqui — ela demandou e apertou sua H&K MP5 contra o corpo, puxando a trava de segurança e pondo-a pronta para uma eventual necessidade de dispará-la. — Vamos logo pegar a cura, onde quer que você a tenha escondido e...

— AH, PORRA! — Kankuro exclamou de súbito, debruçado sobre uma das grandes janelas do quarto de hotel, a vidraça suja coberta de fuligem. — PORRA, PORRA, PORRA!

Todos os demais se colocaram em estado de alerta e fitaram-no enquanto o homem se afastava da janela com um sobressalto, o rosto lívido e os músculos do corpo tensionados.

— TEMOS COMPANHIA, CARALHO! — acrescentou ele com um tom de voz alquebrado, os olhos castanhos pregados à vidraça da janela que mostrava a horda numerosa que descia uma ladeira ao norte da edificação.

Eles se espremeram perto das janelas acortinadas e observaram tensos enquanto a manada desengonçada descia o aclive num gingado que seria cômico, não fosse o terror embatucado que os subjugou.

Kabuto se afastou de uma das janelas mal disfarçando seu risinho dissimulado.

— Bem, eis as suas chances de protegerem o futuro da humanidade.

* * *

Sakura mal pôde acreditar no que via. Quando eles entraram na pequena cidade de Fujiidera, no perímetro da prefeitura de Osaka, mal imaginava qual era o propósito de Shikamaru ao levá-la até lá.

As ruas estreitas estavam surpreendentemente vazias, apesar do lixo que as atulhava. Os edifícios modernos e charmosos assemelhavam-se a colossos derrotados, espectros de uma era anterior a esta onde a humanidade ainda exercia a sua hegemonia — hoje, papel dos mortos.

O rio Yamatogawa fluía estreito, seu leito comprimido no canal orlado por algumas árvores mortas. O céu riscado por nuvens começava a escurecer e a nevada tomava a proporção de uma tempestade gradualmente.

O ronronar do motor do jipe parecia uma invitação aos mortos ou vivos que perambulassem pelas imediações, mas não havia ninguém para respondê-la. Fujiidera estava abandonada, percebeu para o seu alívio.

— Vire naquela rua — Shikamaru a instruiu e Sakura fez o que lhe foi pedido sem questionamentos.

Eles seguiram por uma avenida atulhada de lixo, mas os mortos ainda não haviam se pronunciado. Os edifícios comerciais e os canteiros arborizados e floridos deviam ter trazido charme ao veio central da cidadezinha um dia, mas agora estavam vazios e sem vida, o que lhe trouxe ao peito um sentimento de perda, de desolação irreparável.

— Pode estacionar ali — Shikamaru indicou o meio-fio da pista à sua esquerda, defronte para um moderno Shopping Center.

— Viemos fazer compras? — ela perguntou com humor, colocando o jipe em ponto morto e Shikamaru revirou os olhos discretamente.

— Só venha comigo.

Ela riu baixinho, mas saiu do jipe, estremecendo quando a primeira rajada de vento a atingiu, transpassando seu casaco. Verificou sua Glock e não resistiu ao impulso de envolvê-la no coldre em sua coxa direita e tê-la ao alcance das mãos.

Encontrou Shikamaru já de pé na calçada, apoiado sobre as duas muletas. Sakura olhou para cima, para o imenso letreiro que decorava a fachada monumental do edifício retangular. Lia-se Q’s Mall em letras garrafais, infelizmente a entrada havia sido quase completamente depredada e um “L” pendia do frontispício maltratado.

Subindo os poucos degraus — Shikamaru com pouca dificuldade acompanhou as passadas de Sakura —, eles irromperam no acesso principal do Shopping Center, passando pelas portas de vidro estilhaçadas.

Sakura apanhou sua Glock e puxou a trava de segurança, engolindo a seco. Os três pisos do edifício estavam igualmente depredados, e algumas poucas lojas haviam sobrevivido ao apocalipse. Por outro lado, não se via mortos em parte alguma.

Shikamaru tomou a dianteira e conduziu a garota para o segundo piso, e desta vez ele precisou do auxílio dela para subir os degraus de mármore da escadaria. Uma vez que o alcançaram, ele tratou de conduzi-la até uma única loja que vendia produtos específicos.

— Ah, eu não acredito nisso — ela deixou escapar com um suspiro e, abalada pela mera visão dos produtos expostos nas vitrines sujas, guardou sua pistola no coldre.

O homem lhe sorriu e a instigou a entrar na lojinha que permaneceu intacta aos sinais brutais do fim do mundo. Era uma loja de produtos para bebês e tinha de tudo, desde acessórios indispensáveis a roupinhas e brinquedos.

— Temari me contou sobre o seu bebê na noite passada — ele admitiu com certa relutância, olhando o nada. — Achei que seria útil trazê-la aqui, para... É, você sabe...

— Obrigada — ela agradeceu e sem mais delongas entrou na loja, encantando-se com as prateleiras abarrotadas, com as cores suaves, os padrões infantis.

Debruçou sobre um berço de madeira branca, tocou o dossel delicado que o envolvia na cabeceira e sentiu a textura dos lençóis macios decorados com estampas sortidas. Nesse momento, Shikamaru, parado sob a entrada da loja, a despertou de seu transe momentâneo:

— Eu preciso pegar uma coisa no andar de cima, acha que ficará bem sozinha por uns minutos?

Sakura deixou uma manta cor-de-rosa de lado e o olhou com divertimento:

— Você ficará bem sozinho por uns minutos?

Shikamaru deixou escapar um muxoxo e lhe deu as costas, afastando-se sobre as suas muletas em seguida. Ela se voltou para o interior da loja novamente e mal conteve outro suspiro. Sem pressa, se aproximou de uma sessão abastecida com roupinhas de todas as cores e para quase todos os tamanhos. Sem conseguir se conter, desdobrou uma a uma, retirando-as dos sacos plásticos.

Esqueceu-se até mesmo do desconforto constante de suas cólicas enquanto sentia a textura e o mimo das peças com as pontas dos dedos. Aproximou uma peça da face no intuito de sentir o odor delicado, mas percebeu que devido ao fato de ter permanecido um longo período fechada e sem manuseio, adquiriu um cheiro inconveniente de mofo.

Continuou a revirá-las até que se deparou com um par de sapatinhos de tricô. Sorriu para si mesma e para o bebê em seu ventre e, sem pensar nas consequências, guardou-os no bolso traseiro de seu jeans.

— Ei, Sakura — Shikamaru lhe chamou de repente e ela o fitou a tempo de vê-lo lhe arremessar um frasco de comprimidos.

Ela o apanhou mesmo sem saber o que era, e girou-o entre os dedos. Leu as inscrições no rótulo e sorriu em sinal de gratidão ao homem. Eram vitaminas pré-natais, essenciais no começo de qualquer gestação e, no caso de Sakura que não tivera tempo ou oportunidade de zelar do modo que devia pelo bem-estar e saúde do seu feto, tal gesto vindo de um quase estranho deixou-a com os olhos úmidos e sensíveis.

— Obrigada — murmurou rouca, apertando o frasco entre os dedos.

— Vamos cuidar melhor desse bebê a partir de agora, não? — ele lhe sorriu e Sakura anuiu freneticamente, piscando a fim de afastar aquela sensação incômoda de ardência.

Parecia que sua sorte estava mudando, afinal.

* * *

O primeiro deles a cair é uma mulher entrajada em trapos chamuscados, os cabelos ralos e longos dependuram-se do couro oleoso de sua cabeça podre como as serpentes da Medusa. Ela cambaleia em direção ao hotel, bamboleando sobre as pernas descarnadas até que um estampido é ouvido e o crânio dela estoura, enviando-a em direção ao asfalto.

O som do disparo do Fuzil T-65 de Kankuro deixa os demais irritados e eles gemem em uníssono, apertando as passadas desengonçadas enquanto descem a imensa ladeira com flocos de neve rodopiando aos seus redores.

Gaara e Temari juntam-se ao irmão mais velho sob a fachada chamuscada do Hotel Okura, ela posiciona a Heckler & Koch MP5, ele segura a Taurus com ambas as mãos; em conjunto, os três puxam os gatilhos e derrubam mais errantes da horda furibunda que marcha sob a nevasca em direção à entrada frontal do edifício.

Os errantes tombam como construções implodidas, seus crânios explodem sucessivamente em meio a uma chuva de sangue arterial e massa encefálica que batiza o asfalto logo abaixo deles. Os demais rosnam, cerram os dentes, estendem os braços e dedos carcomidos, arrastam os pés com um clangor desesperado.

Uma fome instintiva e completamente irracional os compele e os atrai, seus gemidos unissonantes assemelham-se ao zumbido de uma colmeia enfurecida.

— Merda! — pragueja Temari, pressionando o gatilho com intervalos espaçados enquanto mais errantes ocupam o cruzamento, vindos do leste e do oeste, atraídos pela comoção dos tiros e de seus conterrâneos abatidos.

Os disparos de Sasuke rareiam a cada minuto, ele sabe que não conseguirão contê-los, por isso poupa sua munição para abater apenas os que se aproximam demais da entrada do hotel.

Kankuro recua ao recarregar seu T-65 com um novo pente, as mãos trabalham nervosas e trêmulas sob o peso da tensão e do medo.

— Não dá para tentar chegar ao caminhão, não com esses filhos da puta se amontoando assim!

— Cala a porra da boca e continua atirando! — Gaara sibila enquanto puxa o gatilho de sua Taurus sequencialmente, acertando o pescoço e posteriormente o topo do crânio de um errante crestado.

— AH, CARALHO, ELES SÃO MUITOS! — O mais velho dos irmãos resmunga abatido.

Sasuke mantém um olho vigilante sobre Kabuto, paralisado à sua esquerda enquanto assiste os mortos-vivos irem ao chão como pinos de boliche. Pela primeira vez, ele nota, o cinismo havia desaparecido do rosto do biomédico e o horror parece tê-lo dominado.

— Eles não deviam... Não podiam ter chegado até aqui! — ele murmurava para si mesmo ao recuar alguns passos, incônscio.

Quando fez menção de irromper de volta para o hotel, Sasuke estendeu a mão e o agarrou pelo casaco, atirando-o contra a parede coberta de fuligem do edifício. O biomédico arquejou com o impacto, em protesto, e Sasuke o pressionou contra ela, agarrando-o pela gola do casaco.

— AONDE PENSA QUE VAI, PORRA?! — ele vociferou através dos dentes cerrados, mas recuou quando notou o olhar desorientado do homem.

— Não deveriam se comportar dessa forma... É-é impossível! É ilógico...

Irado, Sasuke ergue o homem pelo casaco e o sacude na tentativa de despertá-lo do seu estado de transe. Ele arqueja em resposta e parece recuperar o domínio de algumas de suas faculdades.

— Sasuke, mas que merda você está fazendo?! — Temari berra a cerca de cinco metros da sua posição, as mãos ocupadas em abater mais alguns errantes que se aproximam do hotel.

A partir disso, o confronto entre o grupo e a horda toma uma nova proporção, dando uma guinada abrupta e violenta que selaria a sucessão de eventos cataclísmicos que se iniciaram naquela tarde fria, em Kyoto.

Em um momento, Sasuke contém um Kabuto aterrorizado contra a parede enquanto Temari retira o dedo do gatilho e suplica para que Sasuke o deixe ir. Ela olha para cima apenas por um instante, um segundo que faria toda a diferença dali para frente.

Ela olha para o céu escuro, para a nevasca violenta que circunvalava a região central de Kyoto e, apenas por um momento, nota uma movimentação suspeita no terraço de um prédio a cerca de cento e cinquenta metros de sua posição, um edifício comercial de vidraças imensas.

Temari vê uma sombra entrajada em preto se inclinar perto da borda do prédio e todos os alarmes disparam ao mesmo tempo em seu cérebro. Ela só tem tempo de se virar para Sasuke e apartar os lábios para gritar uma única palavra, um único aviso:

— CUIDADO!

Graças ao brado inesperado de Temari, Sasuke inclina-se ligeiramente para a direita no mesmo instante em que uma bala de ponta oca, oriunda de um rifle de alta precisão Stoner Rifle 25, popularmente conhecida como SR25, crava-se na parede bem ao lado da cabeça de Kabuto, explodindo o concreto e o cimento e lançando uma diminuta nuvem de pó sobre ambos.

Por reflexo, Sasuke puxa a ambos para baixo, nivelando-os com o chão e arrasta o biomédico pela gola do casaco para trás de um canteiro de bordos mortos.

— BUSQUEM ABRIGO! — Temari instrui ambos os irmãos enquanto ela própria busca proteção do atirador posicionado no terraço do edifício, a nordeste deles.

— Fica abaixado — Sasuke sibila para Kabuto, que se encolhe, e verifica sua munição enquanto olha em derredor, desorientado ainda pelo que acontecera.

Kankuro e Gaara se abaixam atrás de um pedaço de entulho e se encolhem quando um segundo tiro raspa o piso de mármore da fachada do hotel, por pouco não se cravando na perna do irmão mais novo.

Ao mesmo tempo, os errantes persistem em sua empreitada, rastejando em direção ao hotel, seu coro de gemidos mistura-se ao som do próprio vento invernal até o ponto em que os mortos-vivos e a força destrutiva da natureza tornam-se um só, um mesmo cataclismo alimentado por uma raiva bestial e por um instinto incompreendido.

— Eles foram atraídos até aqui... — Sasuke ouve o biomédico sussurrar às suas costas.

Vira-se para ele e o encontra com o olhar preso ao chão, as palmas enluvadas das mãos cobrindo-lhe os ouvidos na tentativa de bloquear o jorro caótico de sons externos.

— Trouxeram-nos até aqui... Para nos emboscar — ele murmura à meia voz e contorce a expressão do rosto.

Então, sem aviso, levanta-se de onde está e dispara na direção do fim da rua antes que Sasuke ou qualquer outro possam impedi-lo, desaparecendo em meio à nevasca mais cedo do que antecipara — sem deixar vestígios.

— Merda! — sibila Sasuke, tencionando segui-lo, mas antes que possa, e na primeira tentativa de deixar sua posição, outra bala de ponta oca crava-se no canteiro em que se esconde, passando a centímetros do seu rosto.

Recuando, ele volta para a proteção do seu abrigo improvisado, as costas curvadas em um ângulo desconfortável para escondê-lo do campo de visão do atirador no terraço. Ele olha na direção em que Kabuto desapareceu e cerra os dentes em frustração, sem o biomédico eles não poderiam sair de Kyoto.

Temari, abaixada atrás do canteiro do outro lado, parece notar sua frustração e seu dilema de modo que toma uma decisão arriscada. Ela arrisca olhar para cima, para o prédio onde o atirador se debruça.

Então ajusta a mira telescópica de sua metralhadora, ciente de ter apenas uma oportunidade. Espia-o através da lente e nota o atirador distraído com Sasuke. Seu dedo roça o gatilho da MP5 como a carícia de um amante conhecido, então assim que o rosto do homem surge em seu campo de visão, ela o aperta com força, liberando uma saraivada violenta de tiros que o obriga a se proteger, deitando de bruços sobre o terraço e desaparecendo de sua mira.

— AGORA, SASUKE! — ela berra em seguida, levantando-se de sua posição e lançando-se até ele, as costas curvadas, os joelhos flexionados e bambos. — GAARA! KANKURO! VOLTEM PARA O CAMINHÃO!

Ela mal tem tempo de registrar as expressões horrorizadas dos irmãos antes de seguir com Sasuke na direção do fim da rua onde Kabuto havia desaparecido. Eles abatem alguns errantes no percurso, mal parando para respirar e esgueirando-se por trás de pilhas de lixo e entulho para protegerem-se de um possível segundo atirador, escondido no alto dos edifícios que os circunvalam.

Os dois mal dobram uma esquina antes de deterem-se, ofegantes, paralisados por um ruído facilmente distinguível na nevasca que fustiga o centro de Kyoto. O som de um motor portentoso, um caminhão ou um jipe, possivelmente.

Entreolham-se e miram à frente, cuidando de suas retaguardas ao passo que o veículo misterioso se aproxima, os faróis apagados. Sasuke puxa Temari para trás de um automóvel abandonado — e surpreendentemente poupado pelo fogo —, um Toyota Aqua cinza cujas portas encontram-se todas escancaradas.

Eles aguardam a seguir e cada segundo é agonizante, até que um caminhão militar gigantesco coreano modelo KM500 cruza a rua deserta em alta velocidade. Sasuke o espia só por um instante e vê de relance o rosto do motorista que o dirige. E, na caçamba imensa e descoberta, mantido refém por ao menos dois homens fortemente armados com fuzis AR-15 e entrajados com fardas militares está Kabuto.

Assim que o caminhão desaparece na próxima esquina, Temari ousa soltar a fôlego que prendera.

— Você viu aquilo? Quem acha que eram?

Sasuke franze os lábios, mas não a olha. Ele espia o interior do Toyota e quase sorri quando nota a chave pendurada na ignição. Desliza para o banco do motorista, tentando ignorar a imensa mancha de sangue seco no estofado e verifica o painel: tinha combustível.

— Entra — ele ordena ríspido à Temari que o acata de má vontade, deslizando para o banco do passageiro.

— Aonde nós vamos?

Sasuke dá a partida no motor, aquecendo-o no tempo frio, e suspira aliviado quando o carro pega sem dificuldade. Ele fecha a porta e engata a marcha, manobrando o veículo para a rua atulhada de lixo.

— Nós vamos atrás do doutorzinho de merda. Não é para isso que viemos até aqui? —responde sem tirar os olhos da rua, atento à horda de errantes que fica para trás, desaparecendo no retrovisor.

— Eu disse ao Gaara e ao Kankuro para voltarem para o caminhão. Não é isso que deveríamos fazer também?

Sasuke crispa a boca e vira em outra rua, apagando os faróis para não chamarem atenção. Ele não conversa exatamente com a mulher ao seu lado quando profere as próximas palavras:

— Sejam quem for, aqueles caras... Eles nos emboscaram naquele hotel com a horda, e suas armas e veículos são de uso militar.

— Sim, mas militares não agiriam como eles agiram conosco, não é? — Agora ela está confusa, e custa a entender a linha de raciocínio de Sasuke.

Sasuke ainda mira a rua com olhos frios, vazios. Ele cuida para que o ponteiro do velocímetro mantenha-se constante e num ritmo que não delataria suas presenças e posições.

— Eles não são militares, disso eu tenho certeza.

— Então quem diabos eles são?! — Temari inquire com frustração e raiva, mas, mais uma vez, obtém apenas o silêncio de Sasuke.

Eles seguem caminho através da nevasca que se intensifica, através da escuridão crescente que toma o horizonte.

Em direção ao nada.

* * *

O vazio me preenche

Ao ponto da agonia.

Trevas crescentes tomam a alvorada

Eu era eu, mas ele se foi.

Metallica — Trecho de Fade To Black.

Notas finais
E isso foi só o começo HAHAHAHAHAHAHA Para os que estão com medo dos próximos capítulos... É, vocês têm razão em ter medo porque ninguém, REPITO: NINGUÉM vai escapar ileso dos próximos eventos. ... Ansiosos para o retorno de TWD?! Eu estou praticamente quicando com cada notícia e teaser lançado! lol ... Muitíssimo obrigada pelos lindos reviews do cap. passado e sejam bem-vindos, leitores novos. Eu torno a pedir que culpem George R. R. Martin e Robert Kirkman pelas mortes e massacres dos próximos capítulos ;D ... Conhecem o esquema: se comentarem, eu retorno mais rápido ;) Até o próximo!